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terça-feira, 24 de março de 2020

Conheça o Syrah Bambini 2018, uma surpresa do Cerrrado Mineiro que harmoniza uvas europeias com terroir de cafés de exportação.

Por Rogerio Ruschel
Prezado leitor ou leitora, o Brasil dos vinhos é mesmo surpreendente. Semana passada fui surpreendido ao provar um Syrah produzido pela Bambini em um terroir diferente, o do Cerrado Mineiro que fica a 1.672 Km de Bento Gonçalves – RS (a distância de Roma a Montepulciano) e 1.745 Km de Petrolina – PE (a distância de Lisboa a Paris), os dois grandes pólos vitivinícolas do Brasil. Vou contar esta história.
Mas antes, para os leitores de “In Vino Viajas” não brasileiros, informo que o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, ocupando cerca de 2 milhões de K2 em 10 estados e do Distrito Federal, especialmente no Centro-Oeste. Tem clima tropical com estações seca e chuvosa bem definidas e uma temperatura média anual entre 21ºC e 27ºC. Como é plano ou suavemente ondulado, o solo é adequado para o plantio de grãos, para agricultura mecanizada e irrigação. Por isso é que o Cerrado é o território do agrobusiness brasileiro de exportação, onde crescem cerca de 60% dos grãos de soja e milho e alguns dos melhores cafés do país.
Sempre houve pessoas que acreditaram que o Cerrado poderia ser um bom terroir também para uvas viníferas por causa das características do solo arenoso e com boa drenagem, pelo clima e também pela amplitude térmica entre dia e noite; no bioma já foram ou são produzidos vinhos com uvas americanas ou híbridas e uvas de mesa. Em Goiás, por exemplo foram produzidos vinhos na década dos anos 1990 e 2000 e também em Minas Gerais, em 2006, quando a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) produziu 10.000 garrafas de um tinto Syrah em João Pinheiro, no Vale do Paracatu.
Pois o Syrah que degustei veio da Fazenda Fortaleza, município de Cruzeiro da Fortaleza, no Triângulo Mineiro, pelas mãos do casal Flávio e Ana Paula Bambini –familia oriunda da Toscana, emigrada em 1860. Eles são conhecidos produtores de café e em 2015 começaram o "Projeto Fortaleza" para desenvolver um novo terroir de vinhos finos no Brasil. A primeria safra saiu em 2017; provei uma das cerca de 2.000 garrafas da safra 2018, com 14%, safra de inverno, vinificado pela Epamig.
De coloração bem intensa, com tons violetas opacos e denso na taça, na boca me lembrou frutas negras com aromas de fundo como tabaco, algo de couro e até mesmo um toque resinoso bem leve. Medianamente encorpado e com taninos médios, achei um pouco seco para meu gosto. Na verdade procurei uma harmonização também inesperada para um vinho inesperado: abri o Syrah Bambini 2018 sem aeração para acompanhar um bacalhau cozido com legumes e temperos fortes, imaginando que ficaria equilibrado porque é um vinho sem madeira. De qualquer maneira o café foi o Três Corações da série Rituais Cafés Especiais, com Denominaço de Origem – D.O. Café do Cerrado Mineiro.
O Syrah Bambini é resultado de fé e dedicação. Flávio Bambini conta:  “O Dr. Frederico Novelli, da Vitacea Brasil, nos assessorou na implantação de um vinhedo baseado nas premissas técnicas conhecidas para a região. Além das características do solo e cima vimos a possibiidade de usar a tecnologia de manejo da dupla poda, que permite que a maturação da uva ocorra no outono/inverno e não no verão. Isso deixa a uva mais madura para a vinificação.” Aproveito para lembrar que esta técnica, criada pelo engenheiro agrônomo Murilo Albuquerque Regina, do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho – Epamig Caldas, que “engana” a videira também viabilizou as safras contínuas no Vale do São Francisco, no sertão nordestino; na serra gaúcha a vindima é no verão.
O trabalho da Fazenda Fortaleza é parte de mais iniciativa para implantar a vitivinicultura definitivamente no Cerrado brasileiro: o projeto Vinhos do Cerrado, uma mobilização de produtores de café bem sucedidos do Cerrado Mineiro, com 20 participantes e cerca de 10 hectares. Anote: em alguns anos o grupo já poderá estar produzindo vinhos também com a uva Cabernet Sauvignon e fazendo testes com a Sauvignon Blanc. E como os produtores tem boa assistência técnica (Epamig, Embrapa, universidades), experiência em trabalhar coletivamente com a bem sucedida Denominação de Origem Café do Cerrado Mineiro e à disposição a estrutura de governança da Região do Cerrado Mineiro, o projeto Vinhos do Cerrado tem tudo para dar certo.
Os produtores estão se preparando também na área de turismo para quando isso acontecer: já planejam criar uma Rota do Café e do Vinho do Cerrado Mineiro aproveitando as sinergias com o famoso café da região. E eu espero que também incluam outros produtos de sabor regional que são legítimos Tesouros do Fundo do Quintal como o queijo do Cerrado, as cervejas com laranja, rapadura, café e goiabada cascão, o licor de pequi e produtos artesanais.
Brindo a isso.

domingo, 22 de março de 2020

Brasil já tem o primeiro frango com nome e endereço: Sadia Bio, um exemplo de marketing de identidade territorial

Por Rogerio Ruschel
Prezado amigo ou amiga, em seus mais de 70 anos a Sadia já produziu milhões de unidades de cortes de frango e grande parte disso é considerada pelo mercado como um produto sem diferenciais importantes, um commodity. Para agregar valor ao frango, a Sadia busca a qualidade, investe em pesquisa e utiliza a estratégia básica da indústria de alimentação: oferecer ao consumidor receitas de preparo que ajudam a percepção de sabor do produto pronto: um frango saboroso na mesa das famílias.
Provavelmente a Sadia vai continuar utilizando esta estratégia, mas recentemente resolveu fazer como os produtores de alimentos da Europa que agregam valor ao produto não pelo volume nem por receitas e temperos, mas sim pela origem e identidade. Assim, para fugir do commodity típico deste segmento, a Sadia lançou um produto com rastreabilidade, um diferencial baseado na informação de onde ele é produzido e por quem, fundamentado nos valores da identidade territorial: os cortes de carne Frango Bio, da Série Origens.

Frango Bio Sadia é mais um case que demonstra o uso da identidade territorial e da cultura da comunidade como estratégia de marketing, que é o tema do meu livro “O valor global do produto local”, publicado pela Editora Senac em abril do ano passado, o primeiro do Brasil sobre este assunto (foto acima). Minha tese, demonstrada com muitos exemplos é simples: se você valoriza um produto ou serviço local baseado na sua identidade e/ou origem, poderá obter um poderoso diferencial que vai além da marca. E se agregar inteligência e investimento nele (como as corporações como a Sadia costumam fazer), você terá as condições básicas para obter um produto com um diferencial exclusivo com boas chances de construir interesse global – ou pelo menos, poderá apresentá-lo ao mercado com maior valor agregado. 
É o caso do Frango Bio. Mas antes, deixe-me apresentar a Sadia para leitores não basileiros. A Sadia é uma das marcas do Grupo BRF, ao lado da Perdigão. Criada em 1944 no interior de Santa Catarina, um dos estados do Sul do Brasil, ao longo de sua história teve que resolver vários problemas para o crescimento, como o transporte de alimentos perecíveis para os grandes mercados como São Paulo e Rio de Janeiro – o que fez criando a Sadia Transportes Aéreos em 1955, que virou a Transbrasil em 1972 (incluindo transporte de passageiros) até seu fim em 2002. Poder transportar produtos refrigerados em frota própria permitiu a exportação em grande volume e em 2008 a Sadia inaugurou uma série de recordes anuais mantidos até hoje como a maior empresa brasileira exportadora de proteína animal. 
Atualmente é um conglomerado de 20 empresas, com mais de 300 produtos vendidos em 150.000 de pontos de venda em todo o Brasil e em 140 países - a primeira empresa no ranking comercial brasileiro de aves, carnes industrializadas, suínos e bovinos, e o segundo no mercado de soja.

A BRF é um grande universo corporativo com muitas marcas, fábricas e mercados e posicionamentos, entre as quais a linha Sadia Bio de carne de frango, que está inserida no conceito “Origens”, de produtos com maior identidade, maior qualidade e maior margem de lucro. O primeiro produto da série é a linha Sadia Bio de frangos produzidos sem hormônios e antibióticos, com ração 100% vegetal e certificados de bem-estar animal por famílias – hoje são quatro: Galeski, Trentin (abaixo), Nadin e Tenfen (acima), todas de Lucas do Rio Verde - MT – que oferece rastreabilidade (o que também é um diferencial competitivo para exportação) que permite que o consumidor identifique onde foi produzido o corte do frango que ela acabou de comprar.
Para acentuar a questão do “local” e da “identidade”, a Sadia aproxima o consumidor urbano das familias produtoras e seu ambiente rural, apresentando também benefícios de sustentabilidade da produção. Faz isso através de comerciais de televisão e de videos e conteúdos no portal da internet, como por exemplo aqui: https://www.sadia.com.br/sadiapordentro/frango-bio/videos/conheca-a-origem-dos-frangos-sadia-bio

Segundo declaração de dirigente da empresa na revista de negócios Exame, a série Origens foi desenvolvida para agregar lucratividade ao produto frango que é vendido como genérico. Ou seja: identidade territorial gera rastreabilidade e cria um grande diferencial de posicionamento, o que gera lucro.
A identificação de origem de um produto (como a do queijo Gruyére, presunto Pata Negra, vinho Borgonha, queijo Serra da Canastra, café do Cerrado Mineiro, etc) não só reforça a marca do fabricante, mas agrega valor que transcende esta marca. E é por isso - e também para obter sinergia da cadeia produtiva - que mutos fabricantes se unem para criar e valorizar uma identidade territorial formal, registrada no INPI – Instituto Nacional de Propriedade rivada – INPI, como Identidade Geográfica – IG ou Denominação de Origem – DO. O Brasil já tem mais de 60 delas e no futuro talvez exista mais  uma, Frango Bio de Lucas do Rio Verde… E anote: todas estas ações, individuais ou coletivas certamente aumentarão sua importância quanto mais maduro se tornar o Acordo comercial Mercosul X União Europeia.
Para saber mais sobre a importância e a força da identidade territorial, acesse:


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Registro internacional de Indicações Geográficas já é uma realidade, ao lado de registro de marcas; é o fim da pirataria no branding

 Por Rogerio Ruschel

Meu caro amigo ou amiga, os piratas de marcas e direitos de patentes, no Brasil ou no exterior, estão com os dias contatos: dia 26 de fevereiro de 2020 entrou em vigor o Ato de Genebra da Organização Mundial de Indicações de Procedência (WIPO) no contexto do Acordo de Lisboa. O Acordo de Lisboa assinado em 1979 é a grande convenção internacional que passou a garantir a autoridade de cada país em registrar suas Denominações de Origem (IGs e DOs), e em vê-las respeitadas pelos demais países assinantes. Em 2015 os países-membros reunidos em Genebra votaram pela melhoria do acordo de 1979 e pela validade do registro ser internacional – e este Ato é o que entra em vigor agora.

Entre outros aspectos, a proteção de nomes (como queijo Camembert ou Mármore de Carrara) agora se estende ao uso em bens que não são do mesmo tipo daqueles aos quais a Denominação de Origem ou Indicação Geográfica se aplica (por exemplo, derivados). E se aplica também a proteger serviços que possam estar sendo prejudicados por terceiros de maneira injusta ou tire vantagem injusta da reputação de uma denominação de origem ou indicação geográfica. Além disso o registro internacional agora estabelecido facilita a proteção de indicações geográficas e denominações de origem em jurisdições estrangeiras, aumentando a segurança jurídica no comércio internacional de produtores, transformadores, distribuidores e consumidores.

A entrada em vigor como Lei do Ato de Genebra sobre Denominações de Origem e Indicações Geográficas inclui:

1)    Introduziu Indicações Geográficas no âmbito de aplicação do tratado (art. 2), anteriormente limitado às Apelações de Origem;
2)    Forneceu um nível sólido de proteção (reforçado em comparação com o Acordo de Lisboa) para as Indicações Geográficas e Denominações de Origem (art. 11).
3)    Manteve o princípio de um único pedido de Denominação de Origem ou Indicação Geográfica - feito através da OMPI - após o qual as partes contratantes têm um ano para analisá-la e conceder ou recusar proteção a uma Denominação de Origem ou Indicação Geográfica em sua jurisdição (art.13)
4)    Esclareceu as relações com direitos prévios de marca registrada, em consonância com normas e jurisprudências internacionais (art. 13);
5)    Deu a possibilidade de organizações intergovernamentais se tornarem partes contratantes (art. 28.1.iii);
6)    Introduziu mais flexibilidade em termos de pedidos de registro (grupos e beneficiários agora podem registrar um pedido internacional sob certas circunstâncias, art. 5.3) e taxas, que tornam o Ato de Genebra um tratado atraente para uma variedade de sistemas e tradições jurídicas

O registro internacional estabelecido pela Lei de Genebra facilita a proteção de indicações geográficas e denominações de origem em jurisdições estrangeiras, aumentando a segurança jurídica no comércio internacional de produtores, transformadores, distribuidores e consumidores. A tramitação da legislação teve o apoio da oriGIn, uma ONG sem fins lucrativos, com sede em Genebra, é hoje uma aliança global de indicações geográficas (IG) de uma grande variedade de setores, representando cerca de 500 associações de produtores e outras instituições relacionadas a IG de 40 países.
Este é mais reforço contra os piratas de marcas e patentes. Com a entrada em vigor em 02/10/2019 do Protocolo de Madri (outro tratado internacional ao qual o Brasil é signatário) que simplifica e facilita os trâmites burocráticos para o registro e patente de marcas de empresas nos atuais 105 países-membros, estão protegidas marcas empresariais e registros de identidade territorial com igual valor, no mundo comercial que importa.
Aliás, segundo o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), o Protocolo de Madri simplifica o processo de registro de marcas, já que os solicitantes passam a trabalhar com apenas um pedido internacional – e esta simplificação vai reduzir custos e permitirá aos interessados conhecer o conjunto de marcas registradas em todos os países signatários em uma única plataforma.

Saiba mais:
 
Sobre o Acordo Mercosul e UniãoEuropeia: http://www.invinoviajas.com/2019/11/o-brasil-tera-que/ 
 Sobre um curso em IGs e D Os: http://www.invinoviajas.com/2019/09/um-curso-internacional/ 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Os vinhateiros brasileiros contra-atacam. Mas de novo, apenas com o jeitinho brasileiro.

Por Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, o que você vai ler a seguir se chama opinião – o compromisso do autor do texto em contribuir para o entendimento da realidade e para o aperfeiçoamento do cenário, mesmo se expondo a dizer coisas que nem todos gostariam de ouvir. Opinião é coisa rara na indústria dos vinhos, porque pouquíssimas pessoas pensam além dos elogios a “rótulos”, e menos ainda dizem aquilo que pensam, e sim, aquilo que pode agradar aos donos do mercado.
Pois não me pauto por isso, então anote: vamos errar de novo, cometendo os mesmos erros ainda não aprendidos, que é o jeitinho brasileiro de não fazer o certo. A indústria vitivinícola brasileira, que no segmento de vinhos finos de mesa atende apenas cerca de 20% do consumo dos brasileiros, tomou duas medidas de contra-ataque à concorrência estrangeira, mas mais uma vez negligenciando o caminho mais difícil (mas definitivo) do marketing e preferindo o caminho fácil (e superficial) do lobby.
Primeira medida: dificultar o acesso dos concorrentes. No final de 2019 o Brasil formalizou uma série de novos procedimentos para a importação (e exportação) de vinhos para o país, com a publicação no Diario Oficial, em 31 de dezembro de 2019, da Instrução Normativa 75. O objetivo é “proteger o consumidor”, mas não sei se o fará porque burocracia aumenta preços, embora de fato vá perturbar muitos chilenos, alguns argentinos e os grandes importadores de vinhos europeus. Concordo que utilizar a legislação é uma ferramenta útil na guerra por mercados e podemos utilizá-la porque perdemos a batalha dos impostos com os produtores do  Mercosul. Mas lembro que isso só aconteceu porque não estávamos mercadológicamente preparados para a concorrência, como continuamos até agora.
Segunda medida: utilizar recursos públicos para ajudar empresas privadas. No início de janeiro de 2020 “In Vino Viajas” divulgou (aliás, em primeira mão na imprensa especializada brasileira), que “o governo Bolsonaro planeja separar cerca de 130 milhões de Reais provindos do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados para criar um fundo, chamado Modervitis, que será usado para apoiar vinícolas brasileiras por 5 a 10 anos”. Ou seja, vamos continuar doando dinheiro público (e vultoso!) para iniciativas privadas, ainda desconhecidas,e que provavelmente serão utilizadas para reduzir custos, e nnaopara melhorar mercados. Certo, esta também é uma ferramenta de guerra, a concorrência é altamente subsidiada, então podemos utilizar.
Estas duas iniciativas não são ilegais, mas o problema é que seu uso disfarça o problema real que é o fato de nnao temos uma visão estratégica nacional e um planejamento sério em marketing.
O pano de fundo de tudo isso é a tempestade que se aproxima, o Acordo Mercosul X União Europeia, que leva mais uns dois anos (ou três) para ser aprovado pelosCongresso Nacional.
Desde que começamos a pisar uvas para fazer suco e vinho aqui em Pindorama, no século XIX, nenhuma iniciativa memorável do setor incluiu o óbvio: planejamento de marketing, o uso de conhecidas ferramentas de guerra mercadológica do mundo ocidental, o be-a-bá do Philip Kotler e cia. Isso é io mínimo que se poderia esperar de um país que forma anualmente centenas de gestores de padrão internacional para diversos setores empresariais, que se diz uma economia aberta e que está entre os 10 maiores PIBs do mundo.
Meu paciente leitor ou leitora, vou repetir: falta visão da realidade e estratégias de marketing de médio e longo prazos (estratégia de verdade); promoção coordenada e inteligente (inteligente mesmo); associação de esforços com outros agentes de mercado com o mesmo objetivo (parceria de verdade). E comunicação – comunicação de verdade: o vinho brasileiro se comunica de maneira amadora, muito mal – e tudo isso ficou escancarado com o desmantelamento do Ibravin, um grupo de ação entre amigos que se perpetuou por mais de uma década, sem resultados.
Enquanto se buscam soluções artificiais de lobby, legislação e política que aliviam o cash-flow mas não atacam os problemas reais de posicionamento de mercado, os pequenos produtores continuam lutando por espaço nos mercados secundários, tentam se encaixar no lobby da compra obrigatória, ou se viram como podem, vendendo online. Já os grandes produtores aprenderam a praticar as regras com as quais vão competir e vencer no mercado de verdade, aquele que agrega valor, e não têm interesse em mobilizações cooperadas, receando, por incrível que pareça, a ajudar os menores a crescerem. Alguém tem que dizer aos produtores brasileiros que somente a união de todos é que vai fazer a indústria  nacional crescer e consequentemente reduzir as importações.
Precisamos urgentemente de uma visão que contemple inteligência de mercado para competir, e não de esperteza política. Temos conquistado alguma reputação positiva com nossos espumantes – parece que descobrimos um filão no qual somos competentes e competitivos. Parece também que não precisamos de lobby para vender nossos espumantes dentro e fora do Brasil. Vamos aproveitar e aprender com isso?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Conheça a Villagio Conti: o milagre do tanino italiano que brota nas altitudes catarinenses

Por Rogerio Ruschel
Meu prezado leitor ou leitora, como todo mundo e provavelmente você, gosto muito de receber presentes. Esta semana recebi pelo correio uma belíssima caixa de madeira com gravação a fogo e dentro dela tres garrafas de vinhos diferenciados e premiados da Villagio Conti, produzidos com uvas italianas no Vale do Pericó a 1300 metros de altitude, em São Joaquim, nas altitudes catarinenses, uma raridade enológica.
Nesta propriedade a familia Conti escolheu produzir vinhos com castas italianas como as tintas Sangiovese, Montepulciano, Nero d`Avola, Teroldego, Pignolo, Refosco dal Pedunculo Rosso, Rebo e Aglianico e as brancas Vermentino, Grechetto, Gewürztraminer, Malvasia e a Ribolla Gialla, bastante adequada para a produção de vinhos Laranjas.

Humberto, o pai, que é engenheiro de alimentos, e seus filhos Enrico, agrônomo (acima), Bruno, sommelier e Luca, administrador (abaixo), produzem os vinhos com imensa dedicação. Como a família tem sangue italiano, a dedicação é profunda e a região é lindissima, os vinhos expressam tudo isso. Na cor, aroma e sabor.
No pacote milagroso que recebi do Humberto Conti, estavam uma garrafa do Don Guino, com uvas Montepulciano, safra 2018; um Rosso D’Altezza, também 2018, com a toscana Sangiovese cortada com 20% de Montepulciano e Teroldego, uma uva que é novidade para mim; e um vinho branco, o Ribolla Giaia, safra 2018, uma delícia muito elegante.
O Dom Guino, muito escuro e denso, me cativou. Apresentou aromas de frutas vermelhas, um pouco de cacau e talvez tabaco, creio que porque fica 12 meses em barricas de carvalho americano. Trata-se de um vinho com personalidade que permanece com longo e saudável final na boca.Sabe aqueles vinhos que te deixam com saudade?
Ainda não abri o Rosso D’Altezza, mas já tinha provado outra garrafa no ano passado e pelo que anotei se trata de um vinho com personalidade marcante: é potente mas equilibrado e tem um toque tânico derivado dos 14 meses de barrica. Embora o Rosso D’Altezza seja um pouquinho mais caro do que o Dom Guino, me parece que este é o campeão da caixa milagrosa que recebi pelo correio. Afinal, não se discute gosto pessoal.
A Ribolla Gialla (acima) é uma uva pouco aproveitada no Brasil, acho mesmo que a Villagio Conti é pioneira no plantio e uso aqui nestas terras tropicais. Consta que é nativa da ilha grega Cephalonia, mas é destaque na região de Friuli, no nordeste da Itália – e nestes locais é uma Denominação de Origem. Também é encontrada no litoral da Eslovênia, onde é conhecida como Rebula. Tem acidez elevada e alta intensidade aromática, com toques de pêssego, maçã, abacaxi, floral e algo cítrico.
A Villagio Conti também produz vinhos rosé, espumantes e dois laranjas, o Arancione com o corte de uvas Ribolla Gialla, Grechetto, Vermentino e Malvasia e o Bacio, com base na uva Gewürztraminer – germânica-francesa de grande expressão na Alsácia, tipo assim uma estranha no ninho de altitude da serra catarinense. O que mostra que os Conti buscam expressão e não seguir modismos ou receitas.
Brindo a dedicação da familia Conti e aos resultados que vem alcançando.
Para saber mais visite o site http://www.villaggioconti.com.br/ Mas acelera, amigo ou amiga, porque como a produção é baixa e a procura é alta, alguns do rótulos eqstão acabando – ou já acabaram.

Veja o video da minhaalegria juvenil aqui: 
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Trump quer detonar os vinhos europeus com super-sobretaxas; o que os brasileiros podem ganhar com isso?

Por Rogerio Ruschel
Se a supertarifação de 25% mais 100% sobre todos os vinhos europeus no mercado norte-americano a partir do fim deste mes de janeiro de 2020 como determinado pelo governo dos Estados Unidos de fato acontecer, as consequências podem mudar o mapa do vinho do mundo. E de certa forma beneficiar os consumidores brasileiros. Veja porque.
A agência Reuters informa que a primeira consequência seria a perda de vendas por parte dos maiores produtores europeus de vinho - e pelo efeito cascata, de todo o negócio da vitivinicultura europeia. Três dos cinco maiores produtores de vinho do mundo estão na Europa - Itália, França e Alemanha, além dos EUA e a China. A União Europeia representa mais de 60% da produção mundial de vinho de alta qualidade, mas segundo consta, apenas 8% da produção vai para os Estados Unidos – o maior consumidor, com 2,6 milhões de hectolitros em 2018. Pelo menos diretamente, isso é, não contabilizando eventuais re-exportações que passam por determinados países para chegar aos portos norte-americanos.
A segunda consequência seria a demissão de 78.000 pessoas nos EUA e uma perda de 10 Bilhões de Dólares para o país. Isso porque afetaria 47.000 varejistas de vinho do país e mais de 6.500 importadores e distribuidores.
Se a supertaxação acontecer e permanecer, os europeus vão ter que exportar seus produtos para outros mercados. Estes mercados teoricamente seriam a Grã-Bretanha (que já tem seu próprio problema, com o Brexit), a China, o Japão, a Europa “mais pobre” e a America Latina, onde o Brasil é o país com o maior consumo em volume, e o que paga mais caro por mais produtos estrangeiros. Sim, isso mesmo, os brasileiros são  alguns dos consumidores que poagam mais caro por rótulos ilusórios e fake-wines fabricados por sommeliers contratados à la carte para elogiar. Para cada 10 garrafas de vinho vendidas hoje no Brasil, apenas uma é nacional, segundo Deunir Argenta, presidente da Uvibra. Em volume, o país importou 110 milhões de litros de vinho em 2018, em comparação com 14 milhões de litros de vinhos finos nacionais vendidos no mesmo período.
Essas sobretaxas sobre o vinho europeu se originaram quando o Escritório de Comércio dos Estados Unidos propôs no mês passado impostos punitivos sobre as importações de vinhos e outros bens no valor de US $ 2,4 bilhões, depois que se soube que um novo imposto francês sobre os serviços digitais prejudicariam empresas americanas. E antes disso, uma primeira taxação inesperada de 25% sobre os vinhos europeus já havia sido imposta porque os norte-americanos estariam querendo “se vingar” da guerra comercial entre a Boeing europeia e a Airbus norte-americana.


Sendo assim, pode ser que reduzindo vendas para Estados Unidos e Inglaterra os europeus procurem aumento de vendas no Brasil, o que, em tese, baixaria os preços aos consumidor final, embora saibamos que a volúpia por lucro dos importadores, revendedores e supermercados (que se justificam falando em impostos) é uma triste realidade. Neste caso quem pode sofrer inesperadas consequências é o Chile, porque quase metade das importações brasileiras veio do Chile no ano passado. Se fosse aqui no Brasil diriam que o president está fazendo isso para beneficiar a Vinicola Trump gerida pelo filho Eric Triump, enorme, mas que recentemente pediu permissão para contratar estrangeiros para cargos rejeitados por trabalhadores norte-americanos…
Na sequência Portugal seria afetado em seus planos em relação ao Brasil, embora tenha anunciado seu objetivo de ultrapassar o Chile como maior exportador para opaís trppical em poucos anos. Isso porque além de - potencialmente - ter que competir com produtos franceses e italianos com preços em queda, os portugueses ainda teriam que se preocupar com os 130 milhões de Reais provindos do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados para criar  o Fundo Modervitis, que será usado para apoiar vinícolas brasileiras na concorrência com os importados no context do Acordo Mercosul e Uinão Europeia. Leia sobre este Fundo aqui: http://www.invinoviajas.com/2020/01/brasil-vai-investir/
Será que vamos nos beneficiar com a Guerra commercial entre os Estados Unidos e a União Europeia? Ou, por milagre, será que finalmente os produtores brasileiros entenderiam que precisam conquistar o mercado brasileiro com produtos de qualidade com relação custo-benefício razoável, antes de querer lucrar em dólar?
Quem viver verá.