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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Alimentos e bebidas com indicação geográfica valem € 75 bilhões para a agricultura familiar europeia, o valor de toda a agricultura brasileira.


Por Ana Soeiro, Managing Directora da QUALIFICA/ oriGIn PORTUGAL e Vice-Presidente do oriGIn para a Europa; Edição e comentários, Rogerio Ruschel 

Meu prezado leitor ou leitora, a Comissão Europeia divulgou dia 20 de abril de 2020, em Bruxelas, um relatório sobre o valor das Indicações Geográficas – IG para os países do bloco. Você sabe: IGs são registros de territórios que agregam valor aos produtos daquele território, porque criam diferenciais exclusivos e elevam os preços; por exemplo, Roquefort para queijos, Borgonha para vinhos. Os números são impressionantes: R$ 391 bilhões de Reais. Espero que este artigo ajude a incentivar ainda mais nossos podutores rurais e industriais a investirem em produtos com identificação de origem no Brasil que ainda são muito poucos, e nada se sabe sobre eles. Ana Soeiro, Vice-presidente da OriGin para a Europa, fez a tradução para o Português, veja a seguir.
“Os produtos agro-alimentares e as bebidas cujos nomes estão protegidos pela União Europeia como “Indicações Geográficas” (IG) representam um valor de vendas de 74,76 bilhões de euros, de acordo com um estudo publicado hoje (20/04/2020) pela Comissão Europeia. Mais de um quinto desse valor resulta de exportações para fora da União Europeia. O estudo constatou que o valor de venda de um produto com um nome protegido é, em média, o dobro do valor de produtos similares sem a qualificação. (Na imagem de abertura você vê os valores de categorias de produtos).
Janusz Wojciechowski, Comissário para a Agricultura da União Europeia: “As indicações geográficas protegem o valor local a nível global”.
O Comissário para a Agricultura, Janusz Wojciechowski, disse: “As indicações geográficas europeias reflectem a riqueza e a diversidade de produtos que o nosso sector agrícola tem para oferecer. Os benefícios para os produtores são claros. Eles podem vender produtos de maior valor para consumidores que procuram produtos regionais autênticos. As IGs são um aspecto essencial dos nossos acordos comerciais. Ao proteger produtos em todo o mundo, impedimos o uso fraudulento de nomes de produtos, preservamos a boa reputação dos produtos agro-alimentares e das bebidas europeus. As indicações geográficas protegem o valor local a nível global”.
Os alimentos europeus são famosos por serem seguros, nutritivos e de alta qualidade. Os métodos tradicionais de produção contribuem para o objectivo da UE de se tornar também o padrão global de sustentabilidade na produção de alimentos.
Os sistemas de qualidade da UE visam proteger os nomes de produtos específicos para promover as suas características únicas, vinculadas à sua origem geográfica e ao saber fazer incorporado na região. Esses nomes de produtos fazem parte do sistema da UE de direitos de propriedade intelectual, protegendo-os legalmente contra imitações e uso indevido. Os nomes dos produtos agro-alimentares e dos vinhos são protegidos como Denominação de Origem Protegida (DOP) ou como Indicação Geográfica Protegida (IGP) e os das bebidas espirituosas como Indicações Geográficas (IG). A União Europeia também protege as Especialidades Tradicionais Garantidas (ETG), destacando os aspectos tradicionais de um produto sem estar vinculado a uma área geográfica específica. O valor de venda das ETG dos e produtos agrícolas e dos géneros alimentícios atinge 2,3 biliões de Euros.
O estudo baseou-se em todos os 3.207 nomes de produtos protegidos nos 28 Estados-Membros da UE no final de 2017 (até ao final de Março de 2020, o número total de nomes protegidos aumentou para 3.322). Conclui-se que o valor de venda de um produto com um nome protegido é, em média, o dobro do valor de produtos similares sem qualquer qualificação.
Segundo o estudo, há um claro benefício económico para os produtores em termos de marketing e de aumento de vendas, graças à alta qualidade e reputação desses produtos e à disposição dos consumidores em pagar para obter o produto autêntico.
As principais conclusões do estudo são:
- Valor de vendas significativo : as indicações geográficas e as especialidades tradicionais garantidas, em conjunto, representaram um valor estimado de vendas de 77,15 bilhões de euros em 2017 correspondendo a 7% do valor total de vendas do sector europeu de alimentos e bebidas estimado em 1.101 bilhões de euros em 2017. Os vinhos representaram mais da metade desse valor (39,4 bilhões de euros), os produtos agrícolas e os géneros alimentícios 35% (27,34 bilhões de euros) e as bebidas espirituosas 13% (10,35 biliões de euros). Dos 3.207 nomes de produtos que estavam registados em 2017 (entre IGs e ETGs), 49% eram vinhos, 43% produtos agro-alimentares e 8% bebidas espirituosas.
- Valor de vendas mais alto para produtos com nomes protegidos: o valor de venda dos produtos cobertos pelo estudo foi, em média, o dobro do valor de venda de produtos similares sem qualificação. A taxa de valor acrescentado foi de 2,85 para vinhos, 2,52 para bebidas espirituosas e 1,5 para produtos agrícolas e géneros alimentícios.
- Uma verdadeira política europeia: cada país da UE produz produtos cujos nomes são protegidos a nível da UE e que servem como porta-estandartes para o património culinário tradicional das regiões e como motores económicos para o sector agro-alimentar nacional.
- Exportações de produtos com indicações geográficas: as indicações geográficas representam 15,5% do total das exportações agro-alimentares da UE. Os vinhos continuaram a ser o produto mais importante em termos de valor total de vendas (51%) e do comércio extra-UE (50%). Os EUA, a China e Singapura são os primeiros destinos para produtos com IG da UE, representando metade do valor de exportação de produtos com IG.
- Para garantir que a política de qualidade da UE continua cumprindo da melhor forma possível, foi lançada uma consulta pública on-line, entre 4 de Novembro de 2019 e 3 de Fevereiro de 2020 para obter feedback das partes interessadas sobre a política de Propriedade Intelectual. Entre as principais conclusões, a maioria dos entrevistados concordou que os sistemas de qualidade da UE beneficiam produtores e consumidores. O relatório "resumo factual" fornece uma visão detalhada dos comentários recebidos da consulta pública.
Cenário de fundo
As Denominações de Origem Protegidas (DOP), as Indicações Geográficas Protegidas (IGP) e as Indicações Geográficas (IG) para bebidas espirituosas garantem aos consumidores que os produtos em questão são genuinamente produzidos na sua região de origem específica, usando o saber-fazer e as técnicas incorporadas na região. A principal diferença entre a DOP e a IGP está relacionada com as quantidades de matéria-prima proveniente da área ou quais as fases do processo de produção que devem ocorrer na região específica. As indicações geográficas famosas incluem, por exemplo, Bayerisches Bier, Champanhe, Irish, Whiskey, Azeitonas Kalamata, Parmigiano Reggiano, Vodka Polaco, Queso Manchego, Roquefort.
A especialidade tradicional garantida (ETG), por outro lado, destaca os aspectos tradicionais, como o método de produção tradicional ou a composição tradicional, sem estar vinculado a uma área geográfica específica. Exemplos de ETG famosas são o Bacalhau de cura tradicional portuguesa, Amatriciana tradizionale, Hollandse maatjesharing e Kriek.
A UE concluiu mais de 30 acordos internacionais que permitem o reconhecimento de muitas indicações geográficas da UE fora da UE e o reconhecimento de indicações geográficas de fora da UE na UE. As indicações geográficas desempenham um papel cada vez mais importante nas negociações comerciais entre a UE e outros países. A Comissão também dedica cerca de 50 milhões de euros por ano para promover produtos de qualidade na UE e no mundo. 
Para saber mais fale comigo rruschel@uol.com.br.
Veja a entrevista que Ana Soeiro concedeu ao In Vino Viajas em novembro de 2019: http://www.invinoviajas.com/2019/11/o-brasil-tera-que/
Conheça Tesouros no Fundo do Quintal, o primeiro web-canal sobre IGs http://www.invinoviajas.com/2019/12/chegou-tesouros-no-fundo-do-quintal/

Conheça o idioma Talian, a herança mais definitiva da imigracão italiana no Brasil


Prezado amigo ou amiga.
Este vídeo vai surpreender você. 
Você vai conhecer o Talian, um idioma único no mundo, patrimônio brasileiro e universal, a língua secreta dos imigrantes italianos no Brasil!







segunda-feira, 13 de abril de 2020

A evolução do Chianti: da tradição do século XII ao prestígio internacional no século XXI

Por Decanter, editado e comentado por Rogerio Ruschel
Meu caro amigo ou amiga, durante a Idade Média, Florença foi a mais poderosa das cidades italianas e epicentro da produção comercial de vinhos – e também das artes e da cultura, como sabemos. No século 14, a República Florentina identificou as colinas entre Florença e Siena como Chianti. Chianti foi a primeira área vinícola delimitada, quando em 1716 o Grão-Duque Cosimo III de Médici criou o que se acredita ser a primeira legislação que rege a produção de vinho no mundo.
Na década de 1870, a Barone Ricasoli (da família que produz Chianti desde  1141, quando adquiriu o lendário Castello di Brolio, onde atualmente produz Chianti Clássico) reduziu a fórmula de Chianti ao blend de três variedades da Toscana: Sangiovese por seus aromas; Canaiolo por seus frutos para equilibrar a acidez do Sangiovese e Malvasía para dar frescura. No século 20, uma série de eventos infelizes ocorreu em Chianti. Primeiro, em 1932, a zona original (agora conhecida como zona clássica) se expandiu para incluir grandes partes do centro da Toscana; então, em 1967, a fórmula de Ricasoli se tornou uma doutrina anárquica que permitiu misturar até 30% das variedades brancas. Veja no mapa acima. 


Finalmente, o êxodo em massa iniciado na década de 1950 do interior da Toscana levou ao governo italiano e ao financiamento do replantio em larga escala das vinhas da Toscana, com foco na produção em massa em detrimento da qualidade do vinho da Toscana.
Por causa destas mudanças, o Chianti não é o vinho que costumava ser. Passou por mudanças mais profundas nos últimos 30 anos do que qualquer outro vinho da Itália, e agora o Chianti Clássico é uma zona de vinho tinto de classe mundial. Em 1984, Chianti e Chianti Clasico foram atualizadas como denominações de origem DOCG, ajustando a fórmula com um mínimo de apenas 2% das variedades brancas e permitindo variedades estrangeiras como Cabernet Sauvignon e Merlot.
Em 1996, ocorreu outra mudança importante: um decreto eliminou o uso de uvas brancas e reduziu o uso de variedades estrangeiras em até 15%. Os rendimentos foram restritos e novas tecnologias foram implementadas nas adegas, como temperatura controlada em aço inoxidável e envelhecimento em barris menores, em vez dos grandes recipientes denominados botti. A área de Chianti Clássico foi restrita aos 7000 hectares originais, com rendimentos mais baixos e um mínimo de 80% de Sangiovese na composição dos vinhos. (Nota do editor: A tradição de Chianti diz que os vinhos locais são envelhecidos em botti, grandes recipientes de madeira. Os Chianti Clássico Riserva devem passar por pelo menos 24 meses de envelhecimento, sendo apenas três em garrafa. Já a recente classificação Chianti Clássico Gran Selezione prevê período de envelhecimento de 30 meses, com também três meses em garrafa.)


Com a chegada do novo século, a região de Chianti foi confrontada com uma maior concorrência de vizinhos poderosos, entre os quais o Brunello di Montalcino se destacou, e mais uma vez se levantou e começou a tomar uma série de medidas importantes para modificar e exaltar ainda mais sua categoria máxima de Chianti Clássico. O objetivo por trás desse movimento era remodelar a pirâmide de qualidade da denominação e dar a seus vinhos de primeira classe uma maior identidade territorial. (Nota do editor: Nos últimos anos, como registramos acima, tem havido um esforço para recolocar a região de Chianti Clássico no lugar de onde nunca deveria ter saído e a criação da categoria Gran Selezione faz parte dessa intenção; atualmente os melhores exemplares da zona tem qualidade equivalente aos vizinhos e rivais Brunello.)
Como consequência, uma nova categoria dentro do Chianti Clássico além da Chainti Clássico Riserva foi decretada em 2014, naquele ano nasceu o Chianti Clássico Gran Selezione, que foi desenvolvido para fazer referência a vinhos de qualidade superior. A nova designação exige que os melhores vinhos da região sejam feitos com uvas inteiramente de seus próprios vinhedos e entrem no mercado com pelo menos 30 meses de maturação em barricas de carvalho.
Hoje, o Chianti não é mais o vinho simples e desestruturado do passado.
Conheça a história do galo símbolo do Chianti: http://www.invinoviajas.com/2014/08/o-galo-negro-do-chianti-Clássico-agora/





sábado, 4 de abril de 2020

Aurora 2015, uma raridade na mesa: um Cabernet Franc muito distinto, com alma francesa e passaporte libanês

Por Rogerio Ruschel

Meu prezado amigo ou amiga, semana passada ganhei um simpático presente do Marcelo Saraiva, um importador de vinhos que vem fazendo um trabalho valioso para os que gostam de exercer o livre arbítrio no mundo do vinho. Ele visita, prova e escolhe rótulos de adegas pequenas e dedicadas de países com tradição vinícola mas fora do convencional. 

Faz isso há 15 anos, mas abriu a importadora no ano passado. Deu a ela o nome Distintos Wines (não poderia ter outro nome, concordo!!!) e os vinhos são escolhidos na Áustria, Bulgária, Turquia, Grécia, Eslovênia e Romenia, entre outras fontes. Marcelo pediu minha opinião sobre dois tintos: um Cabernet Franc 2015 da Aurora, uma empresa familiar do Líbano, e um Plavac 2015 da Vina Caric, da Croácia. Pois provei o libanês no fim-de-semana – e estou com saudades até agora… 

O Cabernet Franc 2015 da Aurora é uma dupla raridade: pela origem (é um vinho da Vila Aoura, de altitude média nas montanhas Batroun, do Líbano) e por ser 100% Cabernet Franc, uma uva usada geralmente para fazer cortes em Bordeux (de onde teóricamente é originária) e em outros países, e muito importante na região do vale do Loire, onde foi introduzida no século XVII se transformando na principal uva tinta. 

O vinho que provei é produzido em escala reduzida (1.500 garrafas/ano), em terras de solo argiloso, com colheita difícil, feita à mão, na segunda semana de setembro nos 2,5 hectares rodeados por oliveiras e carvalhos, da familia Gearas (foto acima). Foi envelhecido por 12 meses de em barris de carvalho, dos quais 30% em barris novos, e tem recomendação para guarda de 5 anos. Custa R$ 298,39.


Nestes tempos de quarentena fui com muuuuuita calma. Decantei por 60 minutos beliscando queijinhos e depois degustei-o com carne vermelha feita na panela com alecrim, sal, alho, brócolis, alguma pimento bem light com complemento de cenoura e mandioquinha feitas no vapor. Trata-se de um vinho cor vermelho vivo, estruturado (e por isso suave e macio), encorpado na medida, com evidentes frutas vermelhas e uma memória de caramelo. Na ficha do importador consta final com menta, mas não senti tanta menta assim. Mas a permanência, o retrogosto, esse sim, foi um espetáculo: chamo isso de um vinho feliz que permanece quase um minuto alegrando a boca... Para terminar, a sobremesa foi pêra – uma pêra portuguesa doce, sumarenta, deliciosa.

Os vinhos do Líbano são pouco conhecidos até porque a produção é pequena (os muçulmanos, cerca de 60% da população, não bebem álcool) e nos últimos 50 anos o território esteve conflagrado políticamente. Mas esta região produz vinhos que são dispersados pelo mundo há séculos. A própria cidade de Batroun, que fica no litoral a cerca de 50 Kms da capital Libano, resistiu por séculos a invasões de gregos, romanos, muçulmanos, cruzados, otomanos e franceses – e vem recepcionando turistas com tantas atrações que foi incluído como um dos 10 lugares para se visitar em 2020 pela rede de TV CNN. 

Para quem não lembra, o Líbano é um pequeno país na Ásia Ocidental espremido entre o Mar Mediterrâneo, a Siria e Israel. Com um território de 10.452 km², foi o lar dos fenícios, povo semita conhecido por sua cultura maritima e imagem de excepcionais comerciantes, que entre os anos 2700 e 450 a.C levaram seus produtos para todos os cantos do mundo. Vinho certamente era um deles, para beber, vender, trocar. Pois agora você pode provar uma destas heranças libanesas selecionadas por um importador que preza o estilo de vida – e adora falar de vinhos e viagens - sem ter que atravessar metade do planeta e subir as montanhas salinizadas de Batroun. Bebo a isso.
 
Veja mais aqui: https://www.distintoswine.com.br/ - (11) 99550-5426

terça-feira, 24 de março de 2020

Conheça o Syrah Bambini 2018, uma surpresa do Cerrrado Mineiro que harmoniza uvas europeias com terroir de cafés de exportação.

Por Rogerio Ruschel
Prezado leitor ou leitora, o Brasil dos vinhos é mesmo surpreendente. Semana passada fui surpreendido ao provar um Syrah produzido pela Bambini em um terroir diferente, o do Cerrado Mineiro que fica a 1.672 Km de Bento Gonçalves – RS (a distância de Roma a Montepulciano) e 1.745 Km de Petrolina – PE (a distância de Lisboa a Paris), os dois grandes pólos vitivinícolas do Brasil. Vou contar esta história.
Mas antes, para os leitores de “In Vino Viajas” não brasileiros, informo que o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, ocupando cerca de 2 milhões de K2 em 10 estados e do Distrito Federal, especialmente no Centro-Oeste. Tem clima tropical com estações seca e chuvosa bem definidas e uma temperatura média anual entre 21ºC e 27ºC. Como é plano ou suavemente ondulado, o solo é adequado para o plantio de grãos, para agricultura mecanizada e irrigação. Por isso é que o Cerrado é o território do agrobusiness brasileiro de exportação, onde crescem cerca de 60% dos grãos de soja e milho e alguns dos melhores cafés do país.
Sempre houve pessoas que acreditaram que o Cerrado poderia ser um bom terroir também para uvas viníferas por causa das características do solo arenoso e com boa drenagem, pelo clima e também pela amplitude térmica entre dia e noite; no bioma já foram ou são produzidos vinhos com uvas americanas ou híbridas e uvas de mesa. Em Goiás, por exemplo foram produzidos vinhos na década dos anos 1990 e 2000 e também em Minas Gerais, em 2006, quando a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) produziu 10.000 garrafas de um tinto Syrah em João Pinheiro, no Vale do Paracatu.
Pois o Syrah que degustei veio da Fazenda Fortaleza, município de Cruzeiro da Fortaleza, no Triângulo Mineiro, pelas mãos do casal Flávio e Ana Paula Bambini –familia oriunda da Toscana, emigrada em 1860. Eles são conhecidos produtores de café e em 2015 começaram o "Projeto Fortaleza" para desenvolver um novo terroir de vinhos finos no Brasil. A primeria safra saiu em 2017; provei uma das cerca de 2.000 garrafas da safra 2018, com 14%, safra de inverno, vinificado pela Epamig.
De coloração bem intensa, com tons violetas opacos e denso na taça, na boca me lembrou frutas negras com aromas de fundo como tabaco, algo de couro e até mesmo um toque resinoso bem leve. Medianamente encorpado e com taninos médios, achei um pouco seco para meu gosto. Na verdade procurei uma harmonização também inesperada para um vinho inesperado: abri o Syrah Bambini 2018 sem aeração para acompanhar um bacalhau cozido com legumes e temperos fortes, imaginando que ficaria equilibrado porque é um vinho sem madeira. De qualquer maneira o café foi o Três Corações da série Rituais Cafés Especiais, com Denominaço de Origem – D.O. Café do Cerrado Mineiro.
O Syrah Bambini é resultado de fé e dedicação. Flávio Bambini conta:  “O Dr. Frederico Novelli, da Vitacea Brasil, nos assessorou na implantação de um vinhedo baseado nas premissas técnicas conhecidas para a região. Além das características do solo e cima vimos a possibiidade de usar a tecnologia de manejo da dupla poda, que permite que a maturação da uva ocorra no outono/inverno e não no verão. Isso deixa a uva mais madura para a vinificação.” Aproveito para lembrar que esta técnica, criada pelo engenheiro agrônomo Murilo Albuquerque Regina, do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho – Epamig Caldas, que “engana” a videira também viabilizou as safras contínuas no Vale do São Francisco, no sertão nordestino; na serra gaúcha a vindima é no verão.
O trabalho da Fazenda Fortaleza é parte de mais iniciativa para implantar a vitivinicultura definitivamente no Cerrado brasileiro: o projeto Vinhos do Cerrado, uma mobilização de produtores de café bem sucedidos do Cerrado Mineiro, com 20 participantes e cerca de 10 hectares. Anote: em alguns anos o grupo já poderá estar produzindo vinhos também com a uva Cabernet Sauvignon e fazendo testes com a Sauvignon Blanc. E como os produtores tem boa assistência técnica (Epamig, Embrapa, universidades), experiência em trabalhar coletivamente com a bem sucedida Denominação de Origem Café do Cerrado Mineiro e à disposição a estrutura de governança da Região do Cerrado Mineiro, o projeto Vinhos do Cerrado tem tudo para dar certo.
Os produtores estão se preparando também na área de turismo para quando isso acontecer: já planejam criar uma Rota do Café e do Vinho do Cerrado Mineiro aproveitando as sinergias com o famoso café da região. E eu espero que também incluam outros produtos de sabor regional que são legítimos Tesouros do Fundo do Quintal como o queijo do Cerrado, as cervejas com laranja, rapadura, café e goiabada cascão, o licor de pequi e produtos artesanais.
Brindo a isso.

domingo, 22 de março de 2020

Brasil já tem o primeiro frango com nome e endereço: Sadia Bio, um exemplo de marketing de identidade territorial

Por Rogerio Ruschel
Prezado amigo ou amiga, em seus mais de 70 anos a Sadia já produziu milhões de unidades de cortes de frango e grande parte disso é considerada pelo mercado como um produto sem diferenciais importantes, um commodity. Para agregar valor ao frango, a Sadia busca a qualidade, investe em pesquisa e utiliza a estratégia básica da indústria de alimentação: oferecer ao consumidor receitas de preparo que ajudam a percepção de sabor do produto pronto: um frango saboroso na mesa das famílias.
Provavelmente a Sadia vai continuar utilizando esta estratégia, mas recentemente resolveu fazer como os produtores de alimentos da Europa que agregam valor ao produto não pelo volume nem por receitas e temperos, mas sim pela origem e identidade. Assim, para fugir do commodity típico deste segmento, a Sadia lançou um produto com rastreabilidade, um diferencial baseado na informação de onde ele é produzido e por quem, fundamentado nos valores da identidade territorial: os cortes de carne Frango Bio, da Série Origens.

Frango Bio Sadia é mais um case que demonstra o uso da identidade territorial e da cultura da comunidade como estratégia de marketing, que é o tema do meu livro “O valor global do produto local”, publicado pela Editora Senac em abril do ano passado, o primeiro do Brasil sobre este assunto (foto acima). Minha tese, demonstrada com muitos exemplos é simples: se você valoriza um produto ou serviço local baseado na sua identidade e/ou origem, poderá obter um poderoso diferencial que vai além da marca. E se agregar inteligência e investimento nele (como as corporações como a Sadia costumam fazer), você terá as condições básicas para obter um produto com um diferencial exclusivo com boas chances de construir interesse global – ou pelo menos, poderá apresentá-lo ao mercado com maior valor agregado. 
É o caso do Frango Bio. Mas antes, deixe-me apresentar a Sadia para leitores não basileiros. A Sadia é uma das marcas do Grupo BRF, ao lado da Perdigão. Criada em 1944 no interior de Santa Catarina, um dos estados do Sul do Brasil, ao longo de sua história teve que resolver vários problemas para o crescimento, como o transporte de alimentos perecíveis para os grandes mercados como São Paulo e Rio de Janeiro – o que fez criando a Sadia Transportes Aéreos em 1955, que virou a Transbrasil em 1972 (incluindo transporte de passageiros) até seu fim em 2002. Poder transportar produtos refrigerados em frota própria permitiu a exportação em grande volume e em 2008 a Sadia inaugurou uma série de recordes anuais mantidos até hoje como a maior empresa brasileira exportadora de proteína animal. 
Atualmente é um conglomerado de 20 empresas, com mais de 300 produtos vendidos em 150.000 de pontos de venda em todo o Brasil e em 140 países - a primeira empresa no ranking comercial brasileiro de aves, carnes industrializadas, suínos e bovinos, e o segundo no mercado de soja.

A BRF é um grande universo corporativo com muitas marcas, fábricas e mercados e posicionamentos, entre as quais a linha Sadia Bio de carne de frango, que está inserida no conceito “Origens”, de produtos com maior identidade, maior qualidade e maior margem de lucro. O primeiro produto da série é a linha Sadia Bio de frangos produzidos sem hormônios e antibióticos, com ração 100% vegetal e certificados de bem-estar animal por famílias – hoje são quatro: Galeski, Trentin (abaixo), Nadin e Tenfen (acima), todas de Lucas do Rio Verde - MT – que oferece rastreabilidade (o que também é um diferencial competitivo para exportação) que permite que o consumidor identifique onde foi produzido o corte do frango que ela acabou de comprar.
Para acentuar a questão do “local” e da “identidade”, a Sadia aproxima o consumidor urbano das familias produtoras e seu ambiente rural, apresentando também benefícios de sustentabilidade da produção. Faz isso através de comerciais de televisão e de videos e conteúdos no portal da internet, como por exemplo aqui: https://www.sadia.com.br/sadiapordentro/frango-bio/videos/conheca-a-origem-dos-frangos-sadia-bio

Segundo declaração de dirigente da empresa na revista de negócios Exame, a série Origens foi desenvolvida para agregar lucratividade ao produto frango que é vendido como genérico. Ou seja: identidade territorial gera rastreabilidade e cria um grande diferencial de posicionamento, o que gera lucro.
A identificação de origem de um produto (como a do queijo Gruyére, presunto Pata Negra, vinho Borgonha, queijo Serra da Canastra, café do Cerrado Mineiro, etc) não só reforça a marca do fabricante, mas agrega valor que transcende esta marca. E é por isso - e também para obter sinergia da cadeia produtiva - que mutos fabricantes se unem para criar e valorizar uma identidade territorial formal, registrada no INPI – Instituto Nacional de Propriedade rivada – INPI, como Identidade Geográfica – IG ou Denominação de Origem – DO. O Brasil já tem mais de 60 delas e no futuro talvez exista mais  uma, Frango Bio de Lucas do Rio Verde… E anote: todas estas ações, individuais ou coletivas certamente aumentarão sua importância quanto mais maduro se tornar o Acordo comercial Mercosul X União Europeia.
Para saber mais sobre a importância e a força da identidade territorial, acesse:


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Registro internacional de Indicações Geográficas já é uma realidade, ao lado de registro de marcas; é o fim da pirataria no branding

 Por Rogerio Ruschel

Meu caro amigo ou amiga, os piratas de marcas e direitos de patentes, no Brasil ou no exterior, estão com os dias contatos: dia 26 de fevereiro de 2020 entrou em vigor o Ato de Genebra da Organização Mundial de Indicações de Procedência (WIPO) no contexto do Acordo de Lisboa. O Acordo de Lisboa assinado em 1979 é a grande convenção internacional que passou a garantir a autoridade de cada país em registrar suas Denominações de Origem (IGs e DOs), e em vê-las respeitadas pelos demais países assinantes. Em 2015 os países-membros reunidos em Genebra votaram pela melhoria do acordo de 1979 e pela validade do registro ser internacional – e este Ato é o que entra em vigor agora.

Entre outros aspectos, a proteção de nomes (como queijo Camembert ou Mármore de Carrara) agora se estende ao uso em bens que não são do mesmo tipo daqueles aos quais a Denominação de Origem ou Indicação Geográfica se aplica (por exemplo, derivados). E se aplica também a proteger serviços que possam estar sendo prejudicados por terceiros de maneira injusta ou tire vantagem injusta da reputação de uma denominação de origem ou indicação geográfica. Além disso o registro internacional agora estabelecido facilita a proteção de indicações geográficas e denominações de origem em jurisdições estrangeiras, aumentando a segurança jurídica no comércio internacional de produtores, transformadores, distribuidores e consumidores.

A entrada em vigor como Lei do Ato de Genebra sobre Denominações de Origem e Indicações Geográficas inclui:

1)    Introduziu Indicações Geográficas no âmbito de aplicação do tratado (art. 2), anteriormente limitado às Apelações de Origem;
2)    Forneceu um nível sólido de proteção (reforçado em comparação com o Acordo de Lisboa) para as Indicações Geográficas e Denominações de Origem (art. 11).
3)    Manteve o princípio de um único pedido de Denominação de Origem ou Indicação Geográfica - feito através da OMPI - após o qual as partes contratantes têm um ano para analisá-la e conceder ou recusar proteção a uma Denominação de Origem ou Indicação Geográfica em sua jurisdição (art.13)
4)    Esclareceu as relações com direitos prévios de marca registrada, em consonância com normas e jurisprudências internacionais (art. 13);
5)    Deu a possibilidade de organizações intergovernamentais se tornarem partes contratantes (art. 28.1.iii);
6)    Introduziu mais flexibilidade em termos de pedidos de registro (grupos e beneficiários agora podem registrar um pedido internacional sob certas circunstâncias, art. 5.3) e taxas, que tornam o Ato de Genebra um tratado atraente para uma variedade de sistemas e tradições jurídicas

O registro internacional estabelecido pela Lei de Genebra facilita a proteção de indicações geográficas e denominações de origem em jurisdições estrangeiras, aumentando a segurança jurídica no comércio internacional de produtores, transformadores, distribuidores e consumidores. A tramitação da legislação teve o apoio da oriGIn, uma ONG sem fins lucrativos, com sede em Genebra, é hoje uma aliança global de indicações geográficas (IG) de uma grande variedade de setores, representando cerca de 500 associações de produtores e outras instituições relacionadas a IG de 40 países.
Este é mais reforço contra os piratas de marcas e patentes. Com a entrada em vigor em 02/10/2019 do Protocolo de Madri (outro tratado internacional ao qual o Brasil é signatário) que simplifica e facilita os trâmites burocráticos para o registro e patente de marcas de empresas nos atuais 105 países-membros, estão protegidas marcas empresariais e registros de identidade territorial com igual valor, no mundo comercial que importa.
Aliás, segundo o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), o Protocolo de Madri simplifica o processo de registro de marcas, já que os solicitantes passam a trabalhar com apenas um pedido internacional – e esta simplificação vai reduzir custos e permitirá aos interessados conhecer o conjunto de marcas registradas em todos os países signatários em uma única plataforma.

Saiba mais:
 
Sobre o Acordo Mercosul e UniãoEuropeia: http://www.invinoviajas.com/2019/11/o-brasil-tera-que/ 
 Sobre um curso em IGs e D Os: http://www.invinoviajas.com/2019/09/um-curso-internacional/