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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Os vinhateiros brasileiros contra-atacam. Mas de novo, apenas com o jeitinho brasileiro.

Por Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, o que você vai ler a seguir se chama opinião – o compromisso do autor do texto em contribuir para o entendimento da realidade e para o aperfeiçoamento do cenário, mesmo se expondo a dizer coisas que nem todos gostariam de ouvir. Opinião é coisa rara na indústria dos vinhos, porque pouquíssimas pessoas pensam além dos elogios a “rótulos”, e menos ainda dizem aquilo que pensam, e sim, aquilo que pode agradar aos donos do mercado.
Pois não me pauto por isso, então anote: vamos errar de novo, cometendo os mesmos erros ainda não aprendidos, que é o jeitinho brasileiro de não fazer o certo. A indústria vitivinícola brasileira, que no segmento de vinhos finos de mesa atende apenas cerca de 20% do consumo dos brasileiros, tomou duas medidas de contra-ataque à concorrência estrangeira, mas mais uma vez negligenciando o caminho mais difícil (mas definitivo) do marketing e preferindo o caminho fácil (e superficial) do lobby.
Primeira medida: dificultar o acesso dos concorrentes. No final de 2019 o Brasil formalizou uma série de novos procedimentos para a importação (e exportação) de vinhos para o país, com a publicação no Diario Oficial, em 31 de dezembro de 2019, da Instrução Normativa 75. O objetivo é “proteger o consumidor”, mas não sei se o fará porque burocracia aumenta preços, embora de fato vá perturbar muitos chilenos, alguns argentinos e os grandes importadores de vinhos europeus. Concordo que utilizar a legislação é uma ferramenta útil na guerra por mercados e podemos utilizá-la porque perdemos a batalha dos impostos com os produtores do  Mercosul. Mas lembro que isso só aconteceu porque não estávamos mercadológicamente preparados para a concorrência, como continuamos até agora.
Segunda medida: utilizar recursos públicos para ajudar empresas privadas. No início de janeiro de 2020 “In Vino Viajas” divulgou (aliás, em primeira mão na imprensa especializada brasileira), que “o governo Bolsonaro planeja separar cerca de 130 milhões de Reais provindos do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados para criar um fundo, chamado Modervitis, que será usado para apoiar vinícolas brasileiras por 5 a 10 anos”. Ou seja, vamos continuar doando dinheiro público (e vultoso!) para iniciativas privadas, ainda desconhecidas,e que provavelmente serão utilizadas para reduzir custos, e nnaopara melhorar mercados. Certo, esta também é uma ferramenta de guerra, a concorrência é altamente subsidiada, então podemos utilizar.
Estas duas iniciativas não são ilegais, mas o problema é que seu uso disfarça o problema real que é o fato de nnao temos uma visão estratégica nacional e um planejamento sério em marketing.
O pano de fundo de tudo isso é a tempestade que se aproxima, o Acordo Mercosul X União Europeia, que leva mais uns dois anos (ou três) para ser aprovado pelosCongresso Nacional.
Desde que começamos a pisar uvas para fazer suco e vinho aqui em Pindorama, no século XIX, nenhuma iniciativa memorável do setor incluiu o óbvio: planejamento de marketing, o uso de conhecidas ferramentas de guerra mercadológica do mundo ocidental, o be-a-bá do Philip Kotler e cia. Isso é io mínimo que se poderia esperar de um país que forma anualmente centenas de gestores de padrão internacional para diversos setores empresariais, que se diz uma economia aberta e que está entre os 10 maiores PIBs do mundo.
Meu paciente leitor ou leitora, vou repetir: falta visão da realidade e estratégias de marketing de médio e longo prazos (estratégia de verdade); promoção coordenada e inteligente (inteligente mesmo); associação de esforços com outros agentes de mercado com o mesmo objetivo (parceria de verdade). E comunicação – comunicação de verdade: o vinho brasileiro se comunica de maneira amadora, muito mal – e tudo isso ficou escancarado com o desmantelamento do Ibravin, um grupo de ação entre amigos que se perpetuou por mais de uma década, sem resultados.
Enquanto se buscam soluções artificiais de lobby, legislação e política que aliviam o cash-flow mas não atacam os problemas reais de posicionamento de mercado, os pequenos produtores continuam lutando por espaço nos mercados secundários, tentam se encaixar no lobby da compra obrigatória, ou se viram como podem, vendendo online. Já os grandes produtores aprenderam a praticar as regras com as quais vão competir e vencer no mercado de verdade, aquele que agrega valor, e não têm interesse em mobilizações cooperadas, receando, por incrível que pareça, a ajudar os menores a crescerem. Alguém tem que dizer aos produtores brasileiros que somente a união de todos é que vai fazer a indústria  nacional crescer e consequentemente reduzir as importações.
Precisamos urgentemente de uma visão que contemple inteligência de mercado para competir, e não de esperteza política. Temos conquistado alguma reputação positiva com nossos espumantes – parece que descobrimos um filão no qual somos competentes e competitivos. Parece também que não precisamos de lobby para vender nossos espumantes dentro e fora do Brasil. Vamos aproveitar e aprender com isso?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Conheça a Villagio Conti: o milagre do tanino italiano que brota nas altitudes catarinenses

Por Rogerio Ruschel
Meu prezado leitor ou leitora, como todo mundo e provavelmente você, gosto muito de receber presentes. Esta semana recebi pelo correio uma belíssima caixa de madeira com gravação a fogo e dentro dela tres garrafas de vinhos diferenciados e premiados da Villagio Conti, produzidos com uvas italianas no Vale do Pericó a 1300 metros de altitude, em São Joaquim, nas altitudes catarinenses, uma raridade enológica.
Nesta propriedade a familia Conti escolheu produzir vinhos com castas italianas como as tintas Sangiovese, Montepulciano, Nero d`Avola, Teroldego, Pignolo, Refosco dal Pedunculo Rosso, Rebo e Aglianico e as brancas Vermentino, Grechetto, Gewürztraminer, Malvasia e a Ribolla Gialla, bastante adequada para a produção de vinhos Laranjas.

Humberto, o pai, que é engenheiro de alimentos, e seus filhos Enrico, agrônomo (acima), Bruno, sommelier e Luca, administrador (abaixo), produzem os vinhos com imensa dedicação. Como a família tem sangue italiano, a dedicação é profunda e a região é lindissima, os vinhos expressam tudo isso. Na cor, aroma e sabor.
No pacote milagroso que recebi do Humberto Conti, estavam uma garrafa do Don Guino, com uvas Montepulciano, safra 2018; um Rosso D’Altezza, também 2018, com a toscana Sangiovese cortada com 20% de Montepulciano e Teroldego, uma uva que é novidade para mim; e um vinho branco, o Ribolla Giaia, safra 2018, uma delícia muito elegante.
O Dom Guino, muito escuro e denso, me cativou. Apresentou aromas de frutas vermelhas, um pouco de cacau e talvez tabaco, creio que porque fica 12 meses em barricas de carvalho americano. Trata-se de um vinho com personalidade que permanece com longo e saudável final na boca.Sabe aqueles vinhos que te deixam com saudade?
Ainda não abri o Rosso D’Altezza, mas já tinha provado outra garrafa no ano passado e pelo que anotei se trata de um vinho com personalidade marcante: é potente mas equilibrado e tem um toque tânico derivado dos 14 meses de barrica. Embora o Rosso D’Altezza seja um pouquinho mais caro do que o Dom Guino, me parece que este é o campeão da caixa milagrosa que recebi pelo correio. Afinal, não se discute gosto pessoal.
A Ribolla Gialla (acima) é uma uva pouco aproveitada no Brasil, acho mesmo que a Villagio Conti é pioneira no plantio e uso aqui nestas terras tropicais. Consta que é nativa da ilha grega Cephalonia, mas é destaque na região de Friuli, no nordeste da Itália – e nestes locais é uma Denominação de Origem. Também é encontrada no litoral da Eslovênia, onde é conhecida como Rebula. Tem acidez elevada e alta intensidade aromática, com toques de pêssego, maçã, abacaxi, floral e algo cítrico.
A Villagio Conti também produz vinhos rosé, espumantes e dois laranjas, o Arancione com o corte de uvas Ribolla Gialla, Grechetto, Vermentino e Malvasia e o Bacio, com base na uva Gewürztraminer – germânica-francesa de grande expressão na Alsácia, tipo assim uma estranha no ninho de altitude da serra catarinense. O que mostra que os Conti buscam expressão e não seguir modismos ou receitas.
Brindo a dedicação da familia Conti e aos resultados que vem alcançando.
Para saber mais visite o site http://www.villaggioconti.com.br/ Mas acelera, amigo ou amiga, porque como a produção é baixa e a procura é alta, alguns do rótulos eqstão acabando – ou já acabaram.

Veja o video da minhaalegria juvenil aqui: 
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Trump quer detonar os vinhos europeus com super-sobretaxas; o que os brasileiros podem ganhar com isso?

Por Rogerio Ruschel
Se a supertarifação de 25% mais 100% sobre todos os vinhos europeus no mercado norte-americano a partir do fim deste mes de janeiro de 2020 como determinado pelo governo dos Estados Unidos de fato acontecer, as consequências podem mudar o mapa do vinho do mundo. E de certa forma beneficiar os consumidores brasileiros. Veja porque.
A agência Reuters informa que a primeira consequência seria a perda de vendas por parte dos maiores produtores europeus de vinho - e pelo efeito cascata, de todo o negócio da vitivinicultura europeia. Três dos cinco maiores produtores de vinho do mundo estão na Europa - Itália, França e Alemanha, além dos EUA e a China. A União Europeia representa mais de 60% da produção mundial de vinho de alta qualidade, mas segundo consta, apenas 8% da produção vai para os Estados Unidos – o maior consumidor, com 2,6 milhões de hectolitros em 2018. Pelo menos diretamente, isso é, não contabilizando eventuais re-exportações que passam por determinados países para chegar aos portos norte-americanos.
A segunda consequência seria a demissão de 78.000 pessoas nos EUA e uma perda de 10 Bilhões de Dólares para o país. Isso porque afetaria 47.000 varejistas de vinho do país e mais de 6.500 importadores e distribuidores.
Se a supertaxação acontecer e permanecer, os europeus vão ter que exportar seus produtos para outros mercados. Estes mercados teoricamente seriam a Grã-Bretanha (que já tem seu próprio problema, com o Brexit), a China, o Japão, a Europa “mais pobre” e a America Latina, onde o Brasil é o país com o maior consumo em volume, e o que paga mais caro por mais produtos estrangeiros. Sim, isso mesmo, os brasileiros são  alguns dos consumidores que poagam mais caro por rótulos ilusórios e fake-wines fabricados por sommeliers contratados à la carte para elogiar. Para cada 10 garrafas de vinho vendidas hoje no Brasil, apenas uma é nacional, segundo Deunir Argenta, presidente da Uvibra. Em volume, o país importou 110 milhões de litros de vinho em 2018, em comparação com 14 milhões de litros de vinhos finos nacionais vendidos no mesmo período.
Essas sobretaxas sobre o vinho europeu se originaram quando o Escritório de Comércio dos Estados Unidos propôs no mês passado impostos punitivos sobre as importações de vinhos e outros bens no valor de US $ 2,4 bilhões, depois que se soube que um novo imposto francês sobre os serviços digitais prejudicariam empresas americanas. E antes disso, uma primeira taxação inesperada de 25% sobre os vinhos europeus já havia sido imposta porque os norte-americanos estariam querendo “se vingar” da guerra comercial entre a Boeing europeia e a Airbus norte-americana.


Sendo assim, pode ser que reduzindo vendas para Estados Unidos e Inglaterra os europeus procurem aumento de vendas no Brasil, o que, em tese, baixaria os preços aos consumidor final, embora saibamos que a volúpia por lucro dos importadores, revendedores e supermercados (que se justificam falando em impostos) é uma triste realidade. Neste caso quem pode sofrer inesperadas consequências é o Chile, porque quase metade das importações brasileiras veio do Chile no ano passado. Se fosse aqui no Brasil diriam que o president está fazendo isso para beneficiar a Vinicola Trump gerida pelo filho Eric Triump, enorme, mas que recentemente pediu permissão para contratar estrangeiros para cargos rejeitados por trabalhadores norte-americanos…
Na sequência Portugal seria afetado em seus planos em relação ao Brasil, embora tenha anunciado seu objetivo de ultrapassar o Chile como maior exportador para opaís trppical em poucos anos. Isso porque além de - potencialmente - ter que competir com produtos franceses e italianos com preços em queda, os portugueses ainda teriam que se preocupar com os 130 milhões de Reais provindos do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados para criar  o Fundo Modervitis, que será usado para apoiar vinícolas brasileiras na concorrência com os importados no context do Acordo Mercosul e Uinão Europeia. Leia sobre este Fundo aqui: http://www.invinoviajas.com/2020/01/brasil-vai-investir/
Será que vamos nos beneficiar com a Guerra commercial entre os Estados Unidos e a União Europeia? Ou, por milagre, será que finalmente os produtores brasileiros entenderiam que precisam conquistar o mercado brasileiro com produtos de qualidade com relação custo-benefício razoável, antes de querer lucrar em dólar?
Quem viver verá.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Brasil vai investir 130 milhões de Reais para vinícolas brasileiras poderem competir com o Acordo União Européia e Mercosul

Por Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, parece que a videira plantada simbolicamente pelo Presidente Jair Bolsonaro (foto acima) em Bento Gonçalves em junho deste ano (foto abaixo), vai mesmo dar frutos. Os produtores de vinho brasileiros receberão mais um forte empurrão do governo para enfrentar a crescente concorrência internacional, porque, como já publicamos mais de uma vez aqui no “In Vino Viajas”, o acordo comercial entre a União Européia e o Mercosul favorecerá em preço os produtores mais tradicionais - e eficientes - da Europa. Pelo acordo o vinho europeu entrará no Brasil livre de impostos de importação em oito anos, após gradativa queda. Os produtores brasileiros alegam incapacidade de competir por causa dos impostos, o que em parte é verdade.
Segundo informações da agência Bloomberg, o governo Bolsonaro planeja separar cerca de 130 milhões de Reais provindos do IPI - Imposto sobre Produtos Industrializados para criar  um fundo, chamado Modervitis, que será usado para apoiar vinícolas brasileiras por 10 a 15 anos. Essa estratégia pretende ser temporária e não faz parte das negociações com a UE, segundo fontes da própria agência. É provável que o fundo seja lançado em 2020, mesmo antes do Congresso ratificar o acordo comercial com a UE.
Os produtores brasileiros querem antecipar o problema que enfrentaram a partir de 1991 quando Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai criaram a união aduaneira do Mercosul e assinaram um acordo com o Chile, que permitiu que os vinhos desses países inundassem o mercado local a preços baixos. Para cada 10 garrafas de vinho vendidas hoje no Brasil, apenas uma é nacional, segundo Deunir Argenta, presidente da Uvibra. Em volumes, o país importou 110 milhões de litros de vinho em 2018, em comparação com 14 milhões de litros de vinhos finos nacionais vendidos no mesmo período. E quase metade das importações veio do Chile.
O Modervitis deve substituir (e ampliar generosamente) os investimentos que o governo estadual do Rio Grande do Sul fazia mantendo o Ibravin – Instituto Brasileiro do Vinho, que foi desmantelado em 2019 depois de serem descobertas uma série de práticas “não convencionais” de gestão. A União Brasileira de Vitivinicultura – Uvibra, que liderou as conversas com o Governo Bolsonaro, está assumindo os compromissos do fracassado Ibravin.
Parte destas conversações tiveram lugar em junho de 2019 durante a realização da 55ª Cúpula do Mercosul, no Spa do Vinho Hotel & Condomínio Vitivinícola, em Bento Gonçalves, na serra gaúcha. No evento foi altamente presitigiada a vitivinicultura do Vale dos Vinhedos para os convidados dos quatro paíes, por sugestão de Deborah Villas-Bôas Dadalt, diretora do Spa do Vinho – a moça da foto acima, A diretora do hotel, em parceria com entidades locais do setor, está liderando um processo de criação de uma Zona Franca do Vinho na Serra Gaúcha.