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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Criatividade e beleza na comunicação visual do turismo em Praga

 
Por Rogerio Ruschel (*)
Como todas as pessoas, tenho minhas manias. Algumas são convencionais, muitas são estranhas e algumas podem ser extravagantes. Não sei em qual categoria se encaixam duas manias que tenho enquanto jornalista de turismo: fotografar carrousséis (aqueles brinquedos com cavalinhas de madeira, os famosos “mary-go-round” – veja aqui um post em abril/2013) e documentar comunicação de rua, do tipo popular e as placas de bares e restaurantes.
 
Minha formação é comunicação e gosto de imaginar que vejo arte até mesmo em comunicação visual nas ruas. E se isso não for arte de primeira grandeza, deve ser respeitada porque é a manifestação cultural de um povo.
 
Isso decididamente se aplica à Republica Tcheca, cujo povo tem uma história fantástica de mais de 2.800 anos de opressão e lutas. Eles sofreram durante as guerras hussitas, no século XV, na Guerra dos 30 anos, sob o jugo dos Habsburgos, durante a Segunda Grande Guerra e durante a Primavera de Praga em 1968. 
 
Os tchecos só conseguiram se identificar como integrantes de uma Nação livre em 1993, quando o pais se separou da Eslováquia, sua co-irmã na até então Checoeslováquia.
 
Entre os talentosos tchecos estão os compositores Bedřich Smetana e Antonín Dvořák e o artista gráfico Alfons Mucha, que apesar de ser respeitado por seu trabalho criando cartazes para os shows de Sarah Bernhart e jóias para a Tiffany, se tornou mundialmente conhecido pelo design de toalhas, papéis de parede e embalagens de latas de biscoitos… Veja duas de suas ilustrações abaixo – lembrou do estilo?

  Outros tchecos talentosos são o quimico Jaroslav Heyrovský, Premio Nobel de Quimica em 1959; os escritores Bohumil Hrabal e Milan Kundera, autor do badalado A Insustentável Leveza do Ser; o cineasta Milos Forman; a politica Madeleine K. Albright que todo mundo pensa que é norte-americana; os tenistas Ivan Lendl e Martina Navrátilová e talvez o intelectual mais conhecido de todos, o escritor Franz Kafka.

Praga produz poucos vinhos, nenhum tem expressão mundial e são relativamente bons - experimentei alguns deles. Mas os tchecos foram os inventores da cerveja – o nome Lager, que caracteriza o tipo de cerveja mais conhecido, é uma cidade próxima de Praga, e a marca Budweiser, hoje uma das mais conhecidas no mundo, nasceu na República Tcheca.

Bebe-se pouco vinho e muita cerveja por lá, mas também a “bebida do demônio”, o Absinto, com graduação alcoólica de até 70%, que é uma curtição nacional. Um brinde a isso, caro leitor
 
(*) Rogério Ruschel rruschel@uol.com.br - é jornalista de turismo e consultor especializado em sustentabilidade e foi a Praga por conta dele mesmo.
 





domingo, 12 de maio de 2013

Clos de Montmartre: o pequeno vinhedo Goutte D'Or de Paris


Por Rogerio Ruschel (*)
A França é o mais importante produtor de vinhos do mundo e a capital, Paris, não tem importância econômica para a atividade - mas já teve no passado. Até 1833 Paris era o maior território vinícola da Europa, com 40.000 hectares de parreiras plantadas; em 1474 chegou a existir uma DOC exclusiva, a apelação “Goutte d’Or” e durante o século XVIII Paris era o mais importante produtor de vinhos da França, passando Bordeaux.
Hoje resta muito pouco disso, mas para quem souber pesquisar vai encontrar pequenas áreas de produção vinícola na cidade. Uma delas é um terreno perto do quartel da 7ª companhia de bombeiros, La Caserne Blanche, perto da rue Pigalle, onde todos os meses de setembro os bombeiros fazem a colheita das 27 videiras e produzem cerca de 150 garrafas de vinho meia-boca que é vendido para fins de caridade.
Escadarias que levam a Montmartre
Mas o vignoble Clos de Montmartre é certamente o mais importante, por questões turísticas. Montmartre é um bairro boêmio de Paris, onde moraram pintores como Picasso, Modigliani, Toulouse-Lautrec, Renoir, Van Gogh e Gauguin e escritores como Balzac, Emile Zola, Boudelaire, Max Jacob e Apollinaire, para citar os mais conhecidos. E beber vinho em restaurantes e "bares-de-vinho" como os abaixo, é um hábito compartilhado por moradores e turistas.

Montmartre está para Paris, digamos assim, como a Vila Madalena está para São Paulo – e você vai ver outros posts sobre este bairro boêmio aqui no In Vino Viajas. No bairro os pintores vão para as ruas, como antigamente e como sempre o fizeram em Paris - veja abaixo. 
 
O vinhedo Clos de Montmartre tem 1.556 m² e fica na esquina das ruas Saint Vincent e des Saules, perto da encantadora igreja Sacre Couer (abaixo). Por falar nisso, você vai encontrar em breve um post sobre esta igreja aqui no In Vino Viajas. Aliás, saiba que a palavra "Clos" denomina um vinhedo que é cercado por muros - sim, porque a maioria dos vinhedos não tem cercas ou divisórias, especialmente em Bordeaux.
A história deste pequeno vinhedo é curiosa: em 1933 a prefeitura de Paris decidiu acabar com a sujeira de um terreno baldio que tinha virado moradia de desocupados no 18o. arrondissement, plantando 2.000 pés de vinhas das variedades mais tradicionais da França, algo assim como uma espécie de vitrine da França; a placa abaixo complementa esta história.

 
Isso resolveu um problema urbano, mas a qualidade do vinho era ruim, até que em 1995 a prefeitura decidiu contratar um enólogo e investir na produção de um vinho de qualidade. Os equipamentos e o material de vinificação foram modernizados e atualmente os 1.762 pés de 27 castas diferentes de uvas (75% Gamay, 20% Pinot Noir e o resto Seibel, Merlot, Sauvignon blanc, Riesling, Gewurztraminer e outras) produzem cerca de 2.000 garrafas de 500ml cada. O terroir se mantém respeitado, como se pode ver nas foto de detalhe, abaixo.
 
Todo mes de setembro é feita a colheita, e realizada a festa da vindima - a Fête des Vendages - quando o vinho é vendido em leilão antecipado. O que sobra é engarrafado e as garrafas são vendidas entre 20 e 40 Euros dependendo da safra, como lembrança para turistas e ajudam a manter o vinhedo, que já não precisa do dinheiro da prefeitura.

O Clos de Montmartre tem até mesmo uma confraria exclusiva, a Comenda Clos de Montmartre, criada em 1983 e que conta com 200 associados e 60 simpatizantes. Provei o tal vinho (se equipara a um Cote-du-Rhone bonzinho) e tentei entrar no vinhedo mas não consegui. E não, não comprei uma garrafinhinha pega-turista do vinho boêmio de Paris - estava indo para Bordeaux e preferi apostar no melhor.
 
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br - é jornalista e consultor especializado em sustentabilidade e foi Paris por conta dele mesmo.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Feira livre de Dijon: produtos naturais para acompanhar os vinhos da Borgonha

Por Rogerio Ruschel (*)

Uma das coisas que gosto de fazer é visitar as feiras livres das cidades – o retrato da alma dos moradores, como o mercado público, nas fotos acima e abaixo.

 
Em Dijon procurei me informar, porque queria saber o que os franceses compram para manter a fama de uma das capitais com melhor gastronomia da França. Pois descobri: o mercado público de Dijon (acima) foi finalizado em 1875 mas continua moderno, amplo e limpo porque o povo é educado e também porque foi projetado por Gustave Eiffel, o autor do projeto da Torre Eiffel de Paris.

 
Embora pequena, Dijon, a capital da Borgonha, é uma cidade culturalmente importante na França e seus cerca de 260.000 habitantes recebem bem os turistas atraídos por construções históricas do período medieval, pela gastronomia, pela mostarda, pães, queijos, frios (como os embutidos da foto abaixo) – e evidentemente pelos vinhos borgonheses, quase todos Pinot Noir.
 
A cidade é compacta e dá para visitar a pé. Tem muitas áreas verdes como a Place Darcy (foto abaixo) e o Parque e Museu de Ciências bem defronte à Gare Dijon Ville.
 

Pelo menos na primavera e no verão você pode se refugiar em cafés e restaurantes com mesinhas nas calçadas (como as das foto abaixo) e nas lojas de produtos tradicionais, como os vinhos e a mostarda. 
 
Dijon é considerada a capital mundial da mostarda e tem lojas enormes só com este produto (como a Boutique Maille, na foto abaixo, que vende mostarda há 265 anos!) embora grande parte do produto seja importado, mas a região tem tradição na produção e na especialização: dizem que existe pelo menos 40 variações e contei pelo menos 20 diferentes tipos de mostardas, algumas com ingredientes doces ou com conhaque…  

Come-se muito bem em Dijon, que é considerada uma das capitais gastronômicas da Europa.  Veja nas fotos abaixo alguns tipos de queijos e de um tomate muito interessante, o tomate Coeurs de Boef.
 
Além da mostarda e das tradicionais especialidades francesas (pães, queijos e frios de infindáveis sabores), Dijon é conhecida também pelo creme de groselha preta e do pain d’épice. 


E bebe-se bem, também, evidentemente, porque afinal de contas Dijon é a porta de entrada de uma das mais importantes regiões produtores de vinhos da França e do mundo.
 
Fiz o roteiro enoturístico da Côte de Nuits, o que incluiu a visita a alguns vinhedos produtores de vinhos Grand Cru, e conferi como solo é argiloso, as suaves colinas permitem boa insolação e o clima continental é adequado para a formação de um bom terroir.

 Por enquanto é isto, prezado leitor. Até a próxima feira livre ou mercado.
Se quiser saber mais sobre Dijon e a Borgonha, acesse este outro post de In Vino Viajas: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/05/experimentando-os-sabores-da-borgonha-e.html
 
 
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é jornalista e consultor especializado em sustentabilidade e foi à Borgonha por conta dele mesmo.








segunda-feira, 6 de maio de 2013

Ingapirca, Equador: o Templo do Sol do Império Inca que afogou o dilúvio dos cañaris


Por Rogério Ruschel (*)
Alem dos três belos sítios declarados como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e mais conhecidos internacionalmente (as ilhas Galápagos, o Centro Histórico de Quito e a cidade de Cuenca), o Equador tem pelo menos mais quatro atrações de primeira classe: a viagem de trem no topo dos Andes (veja um post já publicado aqui no In Vino Viajas), o roteiro dos vulcões, os tesouros da Amazônia e as ruínas da cidade inca de Ingapirca.

Neste post vamos apresentar Ingapirca (em kichwa “ingapirca” quer dizer “parede inca”), um dos mais importantes vestígios pré-hispânicos das Américas, e certamente do Equador. 

Ingapirca é um registro arqueológico do século XV de uma comunidade inca com um templo em forma elíptica construido em torno de uma grande rocha - o Templo do Sol - que não existe em nenhum outro sitio arqueológico andino. 
O estado de conservação das ruinas é muito bom e seguem muito bem cuidadas pelos autoridades culturais da Provincia do Cañar, onde estão localizadas.
Segundo especialistas, os incas impuseram a Ingapirca as regras dos demais centros cerimoniais e administrativos do Império Inca, bem como as técnicas e sistemas construtivos encontrados em Cuzco e vistos em vários sitios construídos também no século XV, como Machu Picchu, no Peru.
   As paredes dos prédios e muros são feitas com pedras cortadas, raspadas e alisadas para encaixe perfeito. Os tetos foram construídos com estrutura de madeira com um grau de inclinação de 50 graus, completados por adobe e um palha de páramo foi usada como cobertura.  

O conjunto é formado por 7 unidades prediais adaptadas à topografia, com templos, praça cerimonial, prédios de interesse comunitário, armazéns, currais e residências.

Segundo os arqueólogos e historiadores, no Templo do Sol eram realizados muitas cerimônias e festivais religiosos, sempre acompanhados por uma poderosa bebida fermentada - aliás, como em qualquer outro lugar do mundo, também nos Andes os monges, sacerdotes ou religiosos é que tinham sabedoria para desenvolver cervejas, cachaças ou vinhos…

Os Incas construiram Ingapirca sobre as ruinas de outro povo ancestral, os cañaris, que tinham construido no local a capital Sul de sua nação, uma comunidade com o nome Hatum Cañar. 

Os canaris têm uma tradição oral na qual falam de um grande dilúvio (o mesmo que aparece na Biblia e em outras culturas) que afogou todos os mordadores, exceto dois irmãos que se refugiaram no topo do monte sagrado Huacayñan. Segundo o mito, os irmãos foram alimentados por duas araras com rosto de mulher com quem casaram (?) e tiveram extensa descendência, gerando a raça cañari – descendência que acabou com a dominação dos Incas. 

Seja ou não verdade, o que importa é que visitar Ingapirca faz muito bem para o espirito. Não estive em Machu Picchu, mas segundo consta o “estado de paz interior” é o mesmo nos dois sitios arqueológicos.

Um brinde a isso com uma taça de vinho equatoriano produzido com a uva Nacional Branca ou a Nacional Negra, com as cepas crioulas Isabella, Niágara e Concord, tomada em um restaurante na encantadora cidade de Cuenca, uma das maravilhas do Equador.
Veja neste blog outros posts sobre o Equador.

(*) Rogério Ruschel é jornalista e consultor especializado em sustentabilidade e esteve no Equador a convite do Ministério do Turismo daquele país.






terça-feira, 30 de abril de 2013

Cultura, arte e alegria num carrossel de Florença

 
Por Rogerio Ruschel (*)
Em abril de 2012 estava em Florença e encontrei numa praça (Piazza de la Republica, veja abaixo) um belíssimo carrossel. Meu lado criança imediatamente me obrigou a andar nele, mas tive paciência e voltei ao local no fim da tarde para fotografá-lo com as lâmpadas acesas e também porque como tinha almoçado tarde e bebido uma (ou duas?) garrafas de Chianti, poderia enjoar.
 
Segundo o que consegui descobrir com um funcionário, se tratava de um equipamento produzido na metade do século XX na Itália e se chamava “L’antica giostra della Famiglia Piccini”. Uma verdadeira obra de arte lúdica, com grandes ilustrações, arabescos, cadeiras e cavalinhos de madeira maravilhosos.
Carrosséis são antigas criações de lazer popular e existem em praticamente todos os continentes. São conhecidos por carrousel em frances, carosello ou giostra em italiano; carosella em espanhol e merry-go-round em ingles – veja, embaixo, um exemplar ingles ainda funcionando no Convent Garden de Londres.
 
Na Europa e nos Estados Unidos alguns equipamentos antigos receberam tratamento de obra de arte e são guardados com respeito e até mesmo tombados como patrimônio, como este abaixo de Kenywood, de construção norte-americana.

Embora o objetivo básico seja divertir as crianças (e adultos), pesquisadores e historiadores nos informam três coisas curiosas sobre carrosséis: 1) o primeiro registro da existência de um carrossel destes é um baixo-relevo bizantino com cerca de 500 anos Antes de Cristo;

2) carrosséis foram utilizados como parte do treinamento de soldados das cavalarias turca e árabe no século XII; e 3)  na Europa os carrosséis giram no sentido horário e nos Estados Unidos eles andam quase sempre no sentido anti-horário - isto como cultura inútil é simplesmente maravilhoso.

De qualquer maneira os mais bonitos são franceses e italianos. Os mais antigos na Europa datam do século XVI e eram utilizados para enfeitar palácios e áreas imperiais ou entreter convidados em eventos da corte como casamentos ou recepções a visitantes de outros paises. O primeiro carrossel frances instalado em Paris data de 1605 – e certamente deve ter inspirado o modelo abaixo, do século XX. 

Os Medicis – a rica familia de banqueiros e comerciantes que comandou a cidade de Florença e a Toscana quase que ininterruptamente entre 1434 e 1737 – construiram vários exemplares que foram registrados, mas que não sobreviveram ao tempo. 

Não sei muito mais sobre carrosséis, mas meu lado criança se divertiu muito com este em Florença e por isso compartilho com você. 
Este post é uma homenagem a meu sobrinho Felipe Boni, morador de Florença, que me ajudou a entender a cidade.
 


Conheça também o histórico carroussel da Praça da República de Lyon, França em
   (*) Rogerio Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade. E respeita seu lado criança.