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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O vinho brasileiro transbordou das taças e virou história em uma série de três livros sobre o vinho gaúcho

Por Rogerio Ruschel (*)

O ano de 2014 vai se encerrar com boas novas para o vinho brasileiro. E uma delas é que Rinaldo Dal Pizzol e Sérgio Inglez de Sousa finalmente estão entregando aos leitores ”Memórias do Vinho Gaúcho”, uma série de tres livros com com um total de 752 páginas sobre a produção de vinhos no Rio Grande do Sul entre os anos de 1620 e 2010.
Eles passaram praticamente a vida toda estudando vinicultura e viticultura. O gaúcho Rinaldo é empresário do setor desde os anos 1960, uma liderança institucional reconhecida, um intelectual dedicado a suas raizes, criador e mentor do Ecomuseu da Cultura do Vinho, a mais completa coleção de videiras do Brasil, com 400 uvas diferentes (veja mais abaixo uma foto do Vinhedo do Mundo). O paulista Sérgio convive com o estudo dos vinhos desde criança por causa do trabalho de seu pai – um conhecido pesquisador do assunto - e além de já ter conhecido praticamente quase todos os paises produtores de vinho, é autor de centenas de artigos e de vários livros sobre vinhos.
Mas nos últimos 30 anos Rinaldo Dal Pizzol (acima) e Sérgio Inglez de Sousa (abaixo) trabalharam de maneira sistemática e incansável para recolher e organizar documentos, depoimentos, histórias e textos legais relacionados a produção de vinhos no Rio Grande do Sul entre os anos de 1620 e 2010, para colocá-los nesta série de tres livros com ”Memórias do Vinho Gaúcho”.
Trata-se de uma obra fundamental; segundo os autores, ”o objetivo do livro é chamar a atenção das lideranças que conduzem a economia e a cultura estadual e nacional sobre o setor, além de incentivar a comunidade produtora a vasculhar as evidências de seu passado para contribuir com essa história e estimular para que a obra possa ser ampliada, aprofundada e modificada”. Rinaldo me disse que eles decidiram incluir dezenas de páginas sobre legislação e normas legais para permitir que pesquisadores e historiadores possam estudar o assunto no futuro partindo de uma base mais organizada.
Embora não seja uma definição histórica formal, pode-se dividir a história da vinicultura gaúcha (e brasileira, porque o estado produz mais de 80% do vinho nacional) em tres grandes etapas, cobertas pelos autores:
1)    entre 1620 - com a iniciativa dos portugueses e jesuítas que plantaram videiras para produção de vinho próprio ou de missa - e o ano de 1875, com a chegada dos primeiros imigrantes italianos na serra gaúcha;
2)    entre 1875 e meados dos anos 1980, quase um século de viticultura para consumo doméstico e próprio, com videiras de uvas americanas - mais adequadas para sucos ou consumo como fruta - plantadas no sistema de Latada (tipo "carramanchão");
3)    a partir do final dos anos 1980 quando muitas empresas novas entraram no mercado, as videiras foram sendo trocadas por uvas vitis viniferas, de maior qualidade para a produção de vinhos, e tecnologias de plantio (sistema espaldeira, tipo "cerca") e de produção vem sendo renovadas.
A obra tem apresentação do escritor Luis Fernando Veríssimo, prefácio do ex-ministro da Agricultura Francisco Turra e prólogo do empresário Raul Randon. Foi financiada por empresas utilizando os mecanismos da Lei Rouanet do Ministério da Cultura e foi editada pela AGE Editora. Estão previstos vários eventos de lançamento: no dia 15 de dezembro, no Ecomuseu da Cultura do Vinho, em Bento Gonçalves, e no dia 17 de dezembro, na Farsul, em Porto Alegre. Em 2015 será lançada em São Paulo e nos dias 25 e 26 de fevereiro será apresentada especialmente para o setor vitivinícola em Bento Gonçalves e Flores da Cunha.

Autores

Rinaldo Dal Pizzol
é natural de Bento Gonçalves (RS) e formado em Ciências Econômicas. Desde 1960 foi diretor de empresas do setor vinícola. Presidiu a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) e foi vice-presidente da Festa Nacional do Vinho, em Bento Gonçalves, e da Festa Nacional do Champanhe, em Garibadi. Atualmente preside o Instituto R. Dal Pizzol, atua como consultor de empresas vinícolas no Brasil e do exterior, é diretor da Dal Pizzol Vinhos Finos.
Sérgio Inglez de Sousa
é natural de Piracicaba (SP) e engenheiro mecânico por formação. Dedicou-se ao estudo do vinho viajando por praticamente todos os países produtores das Américas, Europa, África do Sul e Oceania. Ministrou cursos no Senac, foi Presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho e, dentre seus livros destaca-se a trilogia Vinho Tinto, Vinho Branco, Espumante – o prazer é todo seu. Sérgio é filho do professor, pesquisador e escritor Julio Seabra Inglez de Sousa, autor do famoso e apreciado livro Uvas para o Brasil, de 1969.
Minhas memórias da serra gaúcha. Escrevendo este post sobre memórias, me lembrei que nos anos 1961 a 1963, com 9 a 11 anos, morei em Bento Gonçalves. Estudei no Ginásio Nossa Senhora Aparecida (dos Irmãos Maristas) no tempo do diretor Irmão Avelino Madalozzo e lembro que no inverno ia para a escola bafejando vapor no frio horroroso e escorregando no gelo que se formava nas calçadas. Lembro que ao lado da casa onde morávamos, na esquina, existia um prédio enorme que era a sede da transportadora Tegon Valenti e na frente da nossa casa morava a familia de um amigo e colega de escola, o Dante Reali Mussoi, com quem brincava e jogava junto com meus irmãos Regis e Ricardo e seu primo, o Bruno. Lembro que eles tinham uma TV preto e branca e colocavam um papel transparente colorido na frente para ver “colorido“ e que tinhamos que ir dormir quando passava o comercial dos cobertores Parahyba, na TV Tupi. Lembro do aroma dos depósitos de vinho com dezenas de anos e dos vinhedos onde pedalávamos, num tempo em que andar de bicicleta não era ecológico nem bacana, era simplesmente divertido. Bons tempos, bons tempos.
(*) Rogerio Ruschel, editor deste blogue, tem muito orgulho em ser gaúcho e tem saudades dos tempos em que morou em Bento Gonçalves


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Vindima 2014 na Serra Gaúcha, Brasil: safra simbólica no Vinhedo do Mundo homenageia a cultura do vinho e a paz entre as nações

Por Rogerio Ruschel (*)

O Vinhedo do Mundo é parte do Ecomuseu da Cultura do Vinho, uma iniciativa do Instituto R. Dal Pizzol com o apoio da Embrapa na Rota Cantinas Históricas, em Faria Lemos, Bento Gonçalves, sul do Brasil. Trata-se do plantio em uma área especial de diferentes espécies de uvas (e o mundo tem mais de 3.000 espécies catalogadas produzindo) que a cada ano aumenta. 


Atualmente a coleção tem 401 variedades de uvas, das quais 164 espécies já estão em plena produção e serão colhidas simbólicamente para a produção de um vinho especial, fora do comércio.

A colheita simbólica de uvas no Vinhedo do Mundo feita por convidados no dia 8 de fevereiro, é parte da programação do 5º Bento em Vindima, da Secretaria de Turismo da cidade de Bento Gonçalves, na serra gaúcha. As colheitas simbólicas são feitas desde 2012 como um ritual cultural do Instituto R. Dal Pizzol, entidade sem fins lucrativos mantenedora do Ecomuseu. Como informa Rinaldo Dal Pizzol, presidente (foto abaixo) “O Vinhedo do Mundo é um símbolo e uma mensagem de solidariedade humana que só a cultura do vinho e suas implicações filosóficas são capazes de expressar. A cultura do vinho não se limita apenas ao que está dentro da taça”. Primeiro das Américas, o Vinhedo do Mundo é um dos atrativos do Ecomuseu do Vinho, acessível a visitantes de segunda à sexta-feira, das 9h às 11h40min e das 13h30min às 17h, e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 16h30min.
O evento também será marcado pela apresentação de um vinho denominado Vinum Mundi 2013, resultado da vinificação de uma centena de variedades de uvas de 16 países, colhidas na safra 2012 do Vinhedo do Mundo. O vinho simboliza a solidariedade dos povos e não é vendido. Este é o terceiro ano que o vinho é elaborado com as uvas colhidas e produzidas no vinhedo, no ano anterior.
Na colheita de 2013, três artistas de Bento Gonçalves - Eliane Averbuck, Aido Dal Mas e Sônia Bervian Possamai, acima - acompanharam o evento, inspirando-se ao vivo no que o vinho desperta na arte de cada pintor. A novidade deste ano é que uma das obras escolhidas será utilizada como rótulo do Vinum Mundi 2013. A cada ano uma nova obra dos outros dois artistas será aproveitada. É a união de duas artes que andam juntas em torno da cultura do vinho.
 
(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e bebe em homenagem à paz entre as nações