Pesquisar neste blog

Mostrando postagens com marcador São Roque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Roque. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Conheça a alcachofra, a elegante e deliciosa especiaria europeia já incluída na culinária brasileira, e sua maior festa no Brasil, em São Roque, na Grande São Paulo


Por Sandro Marcelo Cobello (texto) e Rogerio Ruschel (editor)*
Meu prezado leitor ou leitora, espero que você não esteja com fome porque vou falar de comida. Na verdade, de uma especiaria européia, uma exuberância gastronômica que a cada dia tem mais adoradores, uma flor comestível chamada alcachofra que na cidade de São Roque já faz parte da merenda escolar. E como sei que você tem bom gosto, anote para não esquecer: de 2 de outubro a 2 de novembro a alcachofra tem sua maior festa no Brasil, em São Roque, a 60 quilometros de São Paulo: no ano passado a cidade recebeu 80 mil pessoas em quatro fins de semana, que conheceram também licores, patês e molhos de alcachofra - um mundo de iguarias. Saiba mais no fim desta reportagem.

Como sei que você é exigente, para lhe apresentar a história da alcachofra, In Vino Viajas convidou um dos maiores especialistas sobre o assunto no Brasil, Sandro Marcelo Cobello, ex-secretário de turismo da cidade de São Roque e um conhecido consultor de Turismo Rural. Sandro é o tipo do cara que participa de eventos sobre turismo rural, enoturismo e faz palestras sobre alcachofra – além de prepará-las e comê-las muito bem porque se criou dentro de um restaurante especializado em alcachofras. Com a  palavra, Sandro Cobello.

“De origem mediterrânea, a alcachofra é uma flor comestível consumida no seu período de inflorescência (quando dá botão, veja acima), tem como principais produtores e consumidores países europeus como Espanha, Itália e França, mas também é  cultivada na África, e nas Américas, principalmente Estados Unidos, Peru e Argentina.

No Brasil foi introduzida pelos imigrantes europeus como produto para consumo próprio, e na região metropolitana de São Paulo, encontrou terreno ideal para cultivo. Hoje três cidades – Piedade, Ibiúna e São Roque – produzem 90% do cultivo nacional. Cada vez mais vem sendo procurada por pessoas de bom gosto e boas alcachofras – naturais ou em conserva – podem ser encontradas em feiras livres, supermercados e em bons restaurantes (abaixo, um quitute: alcachofra gratinada com queijo gorgonzola).

A alcachofra tem diversas variedades e a mais cultivada aqui no Brasil é a denominada “alcachofra-roxa-de-são-roque” que tem um tom característico roxo porque durante o período anterior a colheita ficam cobertas com jornal ou papel para adquirir esta charmosa coloração (veja na foto abaixo). Apesar de São Roque já não contar mais com as maiores áreas de cultivo, é a cidade que mantém a mais forte tradição do cultivo da flor, realizando uma festa enorme no mês de outubro. Na mesma região do conhecido Roteiro do Vinho, Gastronomia & Lazer da cidade também é possível visitar belas áreas de cultivo da flor bem como saborear uma infinidade de pratos, conservas e quitutes. Outra curiosidade: há mais de uma dezena de anos a cidade conta com área de cultivo do departamento de educação onde as merendeiras da cidade são preparadas para elaborar pratos com alcachofra para os alunos da rede pública.

Por se tratar de uma flor, o período de colheita é basicamente na Primavera (de setembro a novembro), mas com as novas técnicas de plantio já é possível ter a oportunidade de ver as lavouras de alcachofras cultivadas com carinho por produtores que após períodos de estagnação no cultivo de uvas, resolveram substituir seus vinhedos, tendo obtido interessantes resultados pelo forte valor comercial da flor. Alguns destes produtores desenvolveram formas de agregar valor com a instalação de empresas para elaboração de conservas (abaixo), congelados e derivados da flor que podem ser encontrados na Festa de São Roque.

Dois locais na Estrada do Vinho em São Roque se destacam com a alcachofra – Alcachofras Bom Sucesso e a Cantina Tia Lina. A Alcachofras Bom Sucesso conta com estrutura para visitação à área de plantio realizado pelos proprietários Ana Lídia e Juca, que atenciosamente recebem os visitantes e realizam também palestras, workshops e visita guiada a área de cultivo com possibilidade de conhecer um pouco da história dessa flor comestível bem como depois saber o modo de preparo e degustação de uma infinidade de produtos elaborados como patê de alcachofra, alcachofra em conservas no azeite, com condimentos, quiches, esfihas, sopas.

A Cantina Tia Lina é o primeiro restaurante do Roteiro do Vinho, implantado no ano de 1999. A “tia” Lina Sgueglia de Góes introduziu as alcachofras cultivadas na região em suas massas artesanais e risotos elaborados com todo esmero pela família e tendo o rondeli 4 queijos com fundo de alcachofra seu carro chefe e durante o período da safra da alcachofra de agosto à setembro conta com pratos elaborados com a flor da alcachofra como ao alho e óleo e recheadas – na foto abaixo, alcachofra a romana.

Durante os meses de julho a novembro, a agência de turismo receptivo de São Roque realiza um trabalho pioneiro de visita guiada as áreas de plantio de alcachofra onde será possível conhecer o processo de cultivo, elaboração de pratos e degustação de produtos feitos à base de alcachofra, bem como possibilidade de grupos organizados também para realização de almoços com pratos à base dessa flor ainda desconhecida pelos brasileiros, mas cada vez mais surpreende os mais diferentes paladares.”

Pois vou acrescentar ao texto do Sandro o que um médico amigo meu me disse: por conter uma substância denominada cinarina (componente químico ativo que confere sabor amargo), a alcachofra estimula o aumento do fluxo biliar, melhorando as funções do fígado e ajuda a prevenir várias doenças hepáticas. A alcachofra também tem sido muito eficaz no combate as gorduras, e por isto ela é inclusa em muitas dietas para perda de peso.
Saiba mais sobre a Festa de Snao Roque que inclui a Festa da Alcachofra em: http://www.exposaoroque.com.br/index.html
 (*) Rogerio Ruschel é ditor de In Vino Viajas em São Paulo, Brasil, e gosta muuuuuito de alcachofras. Sandro Marcelo Cobello, Consultor de Mercado em Turismo Rural: smcbrazil@hotmail.com e vinhodesaoroque@ig.com.br e fone 11-9-9697-1514 (Vivo)


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Rótulos de vinhos dos anos 60 lembram a herança portuguesa da vinicultura em São Roque, no estado de São Paulo


Por Rogerio Ruschel, editor e Sandro Marcelo Cobello, texto e rótulos

Meu prezado leitor ou leitora, dias destes fui a São Roque, cidade cerca de 60 Km da capital paulista, e fiquei muito impressionado com a grande quantidade de turistas percorrendo o Roteiro do Vinho da região; passeio que vou apresentar aqui para você, em breve. São Roque tem uma diferença de outros polos produtores de vinho do Brasl: a herança é portuguesa e não italiana. Como In Vino Viajas é cultura, convidei um especialista em vinho e turismo para contar um pouco da história de sua cidade natal e ele fez isso recuperando antigos rótulos de vinhos produzidos na cidade durante as décadas de 60 e 70 que estão ilustrando este texto. Entre outras atividades, Sandro Marcelo Cobello foi secretário de turismo de São Roque, é um especialista em alcachofras (outra badalada tradição da região), pesquisa a memória da cidade e está estudando enologia. Perfeito, portanto, para falar com os leitores de In Vino Viajas. Com a palavra, Sandro Cobello.


Na Europa grande parte das cidades tem cultivo de uvas e produção de vinho, mas no Brasil devido a fatores culturais e climáticos, poucos foram os locais onde o cultivo da uva e a produção do vinho se estabeleceram; atualmente não mais do que três dezenas de cidades e regiões do país tem produção vitivinícola comercial permanente. Na foto abaixo um dos patrimônios históricos de São Roque, o Sítio de Santo Antônio, construído em 1681 e que foi doado por seu ultimo proprietário, o escritor modernista Mario de Andrade, ao Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para preservação.


No estado de São Paulo – a região mais rica do Brasil - os primeiros vinhedos foram cultivados no século XVI na região onde hoje é Santos, na então Capitania de São Vicente; posteriormente na cidade de São Paulo, no bairro do Tatuapé no início da colonização também houve um ciclo de vinhedos, mas entre 1789 e 1808, para evitar uma eventual concorrência, Portugal proibiu a fabricação de vinhos no Brasil-colônia. Porisso somente na segunda metade do século XIX é que o cultivo de uvas e produção de vinho tomou novamente força no estado.
Com a chegada dos imigrantes europeus para a construção da Estrada de Ferro Sorocaba (1875) e da Fábrica Têxtil Brasital (1890), a Estância Turística de São Roque, a 60 km da capital no sentido de Sorocaba, começou a produzir vinhos e nas décadas seguintes se tornou o mais importante produtor de vinho no Estado. Na verdade, segundo historiadores, este seria um resgate da história porque há indícios de que seu fundador, o bandeirante Pedro Vaz de Barros, no ano de 1657 já cultivava videiras e produzia vinho na fazenda que originou a cidade. 

No início do século XX a cidade foi se transformando e todas suas encostas foram sendo tomada por vinhedos; nas décadas de 1950 e 1960 a cidade viveu um período áureo com mais de 150 vinícolas empregando legiões de trabalhadores e uma importante Festa do Vinho que deu destaque nacional à cidade e o título de “Terra do Vinho Paulista” - abaixo o poster da XXII edição da festa.


Mas a partir dos anos 80 a especulação imobiliária foi pressionando a região e transformando antigas áreas de vinhedos em sítios e chácaras de paulistanos e paulistas, de forma que a região entrou no século XXI com pouco mais de uma dezena de vinícolas. Abaixo a entrada de duas delas.




Outro fato pouco divulgado sobre São Roque que começa a ser resgatado, é que seu passado na vitivinicultura tem origem portuguesa e não italiana, como nas demais cidades e regiões do país. Este resgate histórico português teve um impulso em 2007 com a inauguração da Quinta do Olivardo, uma vinícola com proprietários de origem portuguesa, que vem atraindo cada vez mais visitantes e turistas que apreciam a farta culinária com pratos portugueses servidos em seu restaurante. Na foto abaixo, a área de recepção da Quinta do Olivardo.

As origens portuguesas da cidade também estão sendo resgatadas por meio de um mini-museu, pelas festas, danças e eventos. E nos últimos anos com a realização de levantamento de antigos rótulos de vinhos da cidade que confirma essa origem com nomes e sobrenomes portugueses nas vinícolas da cidade – rótulos que In Vino Viajas está apresentando agora, com exclusividade. 

E mesmo que tenhamos saudades dos antigos rótulos dos vinhos de São Roque, o tempo não para. Com a instalação em 2013 do Curso Superior em Tecnologia em Viticultura e Enologia do Instituto Federal na cidade (o terceiro do país e único no Sudeste), este resgate histórico vai ser acompanhado também de tecnologia produtiva na área vitícola. 

Explico: durante as décadas áureas de 50 e 60 muitas vinícolas (mesmo com uvas americanas e não européias) produziam vinhos com características trazidas por vinhos portugueses como o Porto e Vinho Verde, e com a chegada dos italianos na região na época da IIa. Grande Guerra, estas características foram sendo substituídas e as origens vitivícolas forem se perdendo. Quem sabe agora os enólogos que aqui estão se formando consigam re-encontrar os traços de identidade da origem portuguesa dos vinhos de São Roque, sem ter que abrir mão dos vinhos com herança italiana que são sempre muito bem-vindos?

-->
Veja outra herança da vinicultura de Portugal no Brasil em - Fazenda dos Cayres, em São Bernardo do Campo: o elo perdido da vinicultura portuguesa no Brasil? - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/08/fazenda-dos-cayres-em-sao-bernardo-do.html
 
(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas e Sandro Marcelo Cobello é consultor em Turismo Rural; contato-s e-mail smcbrazil@hotmail.com