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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Pesquisador da Amazônia questiona: o Açaí vai ser um produto de terroir ou uma commodity genérica da floresta?


Por Rogerio Ruschel
Estimado leitor ou leitora, em alguns momentos da história vive-se um momento no qual se vive uma oportunidade de manter ou perder o valor estratégico de um produto, uma comunidade, um país. Este é o momento do Açaí, e explico por quê.
O Açaí é hoje um dos produtos brasileiros com maior prestígio no mercado internacional de sucos saudáveis; em 2017 contribuiu com cerca de 600 milhões de Reais para a economia regional amazônica. Por seu potencial como alimento de elevado interesse já adotado pelas gerações X, Y e Z que buscam saúde e sabor, foi razão de uma disputa jurídica internacional ruidosa, alguns anos trás – foi registrado em 2003 como marca própria da empresa K.K. Eyela Corporation no Japão, e só retomada pelo governo brasileiro em 2007.
Pois agora o produto vive um momento de decisão sobre seu futuro: se vai ser “um vinho francês da Amazônia” e agregar valor de classe global, ou se vai virar uma “soja da floresta”. Esta decisão depende do grau de mobilização e providências de governos e comunidades diretamente interessadas; se não houver interesse agora, daqui a dois anos será tarde demais e caro demais reverter a percepção de valor. 
Quem faz o alerta é o Dr. Francisco de Assis Costa, economista, professor e pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará (UFPA) – na foto abaixo, sorridentemente capturado pelas lentes de Irene Almeida, da revista Pesquisa Fapesp. 

Segundo ele, “O método tradicional é bater o açaí sem atingir a capa de tanino em volta do caroço, que deixa um gosto desagradável. Esse cuidado foi fundamental no desenvolvimento da tecnologia local porque, se o batimento atinge o caroço mais fortemente, estraga o sabor do açaí para a cultura local. No entanto, uma tecnologia genérica, para polpa de frutas, não tem esse cuidado e bate o açaí mais fortemente, o que deixa o gosto diferente. As máquinas são mais rápidas, portanto mais rentáveis, e têm sido adotadas por empresas produtoras.”
O Prof. Assis Costa, Doutor pela Universidade Livre de Berlim e autor de 26 livros, entre os quais “A brief economic history of the Amazon: 1720-1970, de 2019”, em entrevista de março/2019 a Carlos Fioravanti, da Revista Pesquisa Fapesp 277, revela a situação que vive atualmente este fruto de palmeira: “O consumo de Açaí que surgiu recentemente em muitos lugares se orientou por sua condição de superalimento: as moléculas de antocianina é que importam; o sabor, derivado do teor de lipídios, não conta. A partir desse confronto se estabelecem os princípios de uma concorrência que poderá decidir aspectos importantes dessa economia. O Açaí será uma commodity genérica ou resguardará valor ligado ao seu terroir? Esta última possibilidade exige que ensinemos para o mundo o que é um bom Açaí, como os franceses e os italianos fizeram com seus vinhos.”
Então fica a pergunta, meu caro leitor ou leitora: o Brasil vai proteger o valor agregado da verdadeira identidade territorial do Açaí ou optar pela solução industrial passageira e comprometida apenas com lucro do volume máximo pela menor qualidade? Vamos exportar sabor ou volume? 
A foto acima, do Instituto Peabiru, registra uma das etapas de extração do Açaí que tem 100% de valor agregado da identidade cultural dos povos da floresta amazônica. Em nome do lucro rápido de atravessadores vamos triturar também essa cena?

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Conheça o calendário VIP da Agfa Graphics e suas 52 receitas maravilhosas com chocolate belga e champanhe francesa

Por Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, que tal se você tivesse um calendário de parede que todas as semanas oferecesse sugestões de receitas que combinam com chocolate belga ou champanhe francesa - ou com ambos? Qual semana e receita você preferiria? Eu gostaria de provar todas elas, variando todas as semanas do ano. Talvez este massa de chocolate e massa de tijolinhos com xarope de bordo e especiarias, sugerida na semana 22 (Maio)?

Pois os clientes VIP da Agfa Graphics tem esta mordomia. Com sede na Bélgica, unidades industriais em vários países (inclusive uma fábrica em Suzano - SP) e com produtos em mais de 150 paises, a Agfa é a empresa líder internacional na oferta de produtos para impressão. E para prestigiar seus clientes, resolveu fazer um brinde realmente diferenciado: um belo calendário de parede com 52 páginas, com uma receita maravilhosa com o famoso chocolate belga ou a champanhe do vizinho famoso, em cada página. Como este sorvete de manjericão com chocolate Ruby, ruibarbo e laranja, abaixo, sugerido na semana 29 (Junho)?
Cada página do calendário corresponde a uma receita. Infelizmente você não vai conseguir um exemplar do calendário porque já está esgotado, mas pode encontrar todas as 52 receitas no site https://battleofthesenses.com/12-decembre/week-51/  de onde tirei estas fotos.
A ideia da Agfa ao desenvolver o calendário é mostrar como é desenvolvida a qualidade dos produtos da Agfa Graphics, e a maneira como a empresa os desenvolve. “Como um confeiteiro, um vinicultor seleciona e combina cuidadosamente os melhores ingredientes para criar um produto de destaque, é assim que desenvolvemos soluções para nossos clientes” diz o diretor mundial de comunicação e marketing pré-impressão da empresa, Guy Desmet. Que tal este leitão “esmaltado” com um cogumelo selvagem e ensopado de champanhe da semana 35 (Agosto) abaixo?

O calendário 2019 da Agfa Graphics é uma excelente amostra do poder da impressão, e ao mesmo tempo uma homenagem a ela, porque não apenas os produtos e temperos, e a champanhe e o chocolate representam valor, mas também a tecnologia usada para produzir o calendário. 
Eduardo Souza, diretor de marketing e comunicação para a America Latina informa que “Para a criação, utilizamos soluções de pré-impressão de última geração, incluindo software avançado de triagem e gerenciamento de cores, bem como soluções ecológicas, convenientes e econômicas de impressão offset. E imprimimos em um papel de qualidade premium para ter um calendário exclusivo, que evoca sensações por si só. É como nós fazemos, imprimir como uma receita cuidadosa, como arte.” Abaixo, a receita da semana 45, uma compota de champanhe e toranja com sorvete de iogurte e uma cobertura de toranja.
Meu caro leitor ou leitora, há uma boa probabilidade de que o tempo passe de maneira mais interessante se todas as semanas nossos olhos descobrirem uma deliciosa receita de comida salgada que combina com chocolates ou champanhe. Sendo assim, já que não tem como conseguir o calendário, sugiro que acesse o site do projeto para ver as receitas feitas como obras de arte:  

domingo, 5 de maio de 2019

Vinho de Talha vai ter uma Rota Turística no Alentejo

Por Rogerio Ruschel
Meu prezado leitor ou leitora, é sempre muito bom escrever sobre ideias inteligentes, e esta aqui é uma delas: o Vinho de Talha vai ganhar um Rota Turística no Alentejo.
O vinho de talha é um legado cultural deixado pelos romanos na região do Alentejo há cerca de 2.000 anos, um processo de produção de vinhos único no mundo. É uma oportunidade rara, que as liderancas da indústria do vinho, da cultura e do turismo de Portugal não perderam. A Rota de turismo do Vinho de Talha será uma experiência turística permanente baseada nas dimensões da cultura, do vinho, da gastronomia e da paisagem, passando por todos os territórios com vinho de talha, envolvendo produtores locais com adegas particulares; uma Rota temática supramunicipal, comunitária, coletiva.
O projeto foi preparado pelo Concelho (Município) de Vidigueira e aprovado pelo Programa Valorizar – que é uma Linha de Apoio à Valorização Turística do Interior gerenciado pela Turismo de Portugal, a criativa agência de desenvolvimento turístico de Portugal prfemiada tres vezes como a melhor do mundo.  A proposta para a criação da Rota do Vinho de Talha vai receber um financiamento a fundo perdido de € 236.255,62 de um investimento total de € 337.508,04 e um investimento elegível de igual montante. Na foto abaixo eu verifico uma das talhas na Cooperativa de Vidigueira, em 2017.


Mas isso é apenas uma parte do aproveitamento da herança cultural trazida pelos romanos e mantida pelos portugueses. Uma das ideias foi desenvolver um produto com a tecnologia produtiva do vinho de talha, veja aqui: http://www.invinoviajas.com/2018/02/lanca-um-vinho-de-talha/
E os leitores bem informados de “In Vino Viajas” também sabem que o Municipio de Vidigueira não está sozinho neste projeto. Desde junho de 2018 cerca  de 20 municípios e 7 entidades alentejanas se se uniram no projeto de transformar o vinho de talha em um Patrimônio Cultural de Portugal, e na sequência buscar o reconhecimento como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.
O municipio de Vidigueira pretende com este projeto dar continuidade à estratégia definida em termos regionais no Alentejo para valorização deste produto exclusivo, sendo complementar à construção do Centro Interpretativo do Vinho de Talha, e à candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade. Fiz uma entrevista exclusiva com a equipe da Prefeitura sobre este projeto, leia aqui: http://www.invinoviajas.com/…/exclusivo-concelho-de-vidigu…/

Parabenizo a equipe técnica da Prefeitura de Vidigueira, alguns dos quais estão na foto acima: da esquerda para a direita Manuel Carvalho (fotógrafo, autor da foto do caneco e escudela para a transgega do vinho de talha abaixo); Ana Patrícia Marreiros (licenciada em Investigação Social Aplicada e Coordenadora da equipe); Rosa Trole (licenciada em História) e Jorge Salvador (licenciado em Investigação Social Aplicada). Além deles ajudou a responder a entrevista Rui Raposo, presidente da autarquia (prefeito) de Vidigueira. Aproveito e cumprimento também a Cooperativa de Vidigueira, na pessoa de seu presidente José Miguel de Almeida que me recebeu em uma  visita jornalística em 2017 (na foto abaixo).
Repito, meu caro leitor ou leitora: é  sempre muito bom escrever sobre ideias inteligentes, e esta aqui é uma delas: o Vinho de Talha vai ganhar um Rota Turística no Alentejo. Brindo a isso.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Os "caipiras" contra-atacam: chegou o primeiro livro brasileiro sobre marketing para produtos com Identidade Territorial



Por Rogerio Ruschel
Já está no mercado um livro de minha autoria que a Editora Senac São Paulo publicou sobre marketing para produtos a partir da identidade territorial. Se chama “O valor global do produto local”. É um livro que valoriza os produtos locais, típicos, brasileiros, os chamados “caipiras”; que são produzidos por cadeias produtivas de base local, sustentáveis.

É o primeiro livro brasileiro sobre o uso dos valores da identidade territorial de um produto (como um queijo ou doce, ou artesanato, ou fruta) ou um serviço (como o turismo) como base de uma estratégia de marketing de valor local e global, o que não é ensinado nas Faculdades – pelo menos por enquanto.
 
A ideia é ajudar empreendedores que estão fora das grandes cidades, produtores rurais, agricultores, comericantes e industriais, grupos de slow-food que estão nos quatro cantos do Brasil dando duro, nadando contra a corrente, achando que não podem competir com produtos globais.
Acho que produtos brasileiros, pequenos, locais e “caipiras” precisam aprender com as multinacionais de sucesso a pensar grande para serem globais.

O livro tem muitos cases reais e mais de 20 depoimentos exclusivos de especialistas do Brasil, Portugal, Espanha e Itália que venho recolhendo nos últimos cinco anos para publicar no meu blogue “In Vino Viajas” onde recebo em média 260.000 page-views por mes. Meu livro pode ajudar brasileiros empreendedores da nova geração e de seus produtos "caipiras". Vou fazer palestras, seminários e cursos sobre o assunto; estou agendando pelo fone +55-11-999 743 187. O livro está disponivel no site da Editora Senac São Paulo : http://www.editorasenacsp.com.br/portal/produto.do?appAction=vwProdutoDetalhe&idProduto=24087

 
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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Conheça as 32 ideias apresentadas na Segunda Conferência do Porto Protocol para a sustentabilidade da indústria do vinho


Por Rogerio Ruschel
Meu prezado leitor ou leitora, o mínimo que pessoas informadas como você e eu podemos fazer em relação aos problemas do aquecimento global é ampliar a informação sobre a existência de soluções. É o que vou fazer aqui, divulgando as ações e apresentações da Segunda Conferência do Porto Protocol, realizada entre os dias 5 e 7 de março de 2019 com o tema “The Climate Change Leadership Porto – Solutions for the Wine Industry”.
O evento reuniu 850 participantes, mais de 100 jornalistas e 50 palestrantes, entre os quais Al Gore (ex-vice do presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos, autor de vários livros e do documentário extremamente elucidativo denominado “Uma Verdade Inconveniente”, pelo qual acabou recebendo o Prêmio Nobel da Paz em 2007 – na foto abaixo), o principal speaker. Veja mais adiante neste artigo como acessar estas apresentações técnicas.

A indústria vinícola é uma atividade agrícola, e como tal, é vulnerável às alterações climáticas. Já sabemos que as flutuações no clima previstas a longo prazo podem causar mudanças geográficas em variedades de videiras e áreas de produção e mudanças na qualidade e estilo dos vinhos, o que significa que o status atual de “referência em qualidade” de determinados terroirs, uvas e produtores pode simplesmente virar pó, acabando com a dedicação das comunidades, o talento dos winemakers e a herança cultural de centenas de anos.
Mas meu prezado leitor ou leitora, devemos lutar pelo vinho porque é uma das poucas atividades agrícolas de marca (e com isso, de alto valor agregado) que existe no mundo. A indústria apoia e sustenta fortemente as comunidades, ambientes e paisagens rurais. A atividade também promove o crescimento de uma forte tendência na indústria do turismo, a do Enoturismo, de forte cariz na experiência cultural, porque o Enoturismo não se realiza apenas com degustação de vinos, e sim, com a degustação de culturas, tradições e história.
Segundo a Organização Mundial do Turismo o Enoturismo – que só existe ligado à indústria do vinho e carrega consigo a Gastronomia e inúmeras cadeias produtivas de base Local - é uma das atividades mais importantes na preservação da atividade agrícola e assim tem papel estratégico na redistribuição da renda e emprego entre o campo e as concentrações urbanas.
Então é importante que ajudemos a divulgar soluções, e não apenas os problemas. Uma das reposta setoriais foi a criação do The Porto Protocol, do qual In Vino Viajas é a primeira organização brasileira a participar – e com destaque, veja abaixo. O The Porto Protocol (Protocolo do Porto) nasceu na cidade do Porto, Portugal, pela força criativa de Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, empresa proprietária de marcas de vinho do Porto como Taylor’s, Fonseca, Krohn e Croft Port, além de hoteis como o fantástico Yeatman e o World of Wine, o gigantesco centro de visitantes, com museus, lojas e restaurantes que está nascendo no centro histórico de Vila Nova de Gaia.
Pois o mundo do vinho se reuniu na cidade do Porto, em março de 2019 para discutir e oferecer soluções para mitigar as alterações climáticas. Durante o evento especialistas e autoridades em seus campos de atuação, além de delegados atualizados sobre as descobertas científicas mais recentes na área da sustentabilidade, apresentaram soluções aplicadas no sector. E vários líderes mundiais da vitivinicultura subiram ao palco para compartilhar as melhores práticas no cilco produtivo do vinho com os consumidores.
No  link abaixo você encontrará as apresentações de todos os palestrantes presentes na conferência. Aproveite para associar-se ao The Porto Protocol: é grátis e você pode receber e compartilhar melhores práticas que podem ajudá-lo no futuro.
Para baixar as 32 apresentações técnicas do evento acesse https://www.portoprotocol.com/conference-presentations/
Para saber mais sobre o The Porto Protocol, acesse aqui: http://www.invinoviajas.com/2019/02/the-porto-protocol/
Para conhecer algumas das reportagens de In Vino Viajas sobre sustentabilidade acesse http://www.invinoviajas.com/?s=sustentabilidade  

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Jorge Tonietto, da Embrapa Uva e Vinho, conta tudo que você precisa saber sobre as Indicações Geográficas do Brasil


Por Rogerio Ruschel, editor

Exclusivo – Entrevista com o Jorge Tonietto, Pesquisador de Zoneamento/Indicações Geográficas da Embrapa Uva e Vinho

Meu caro leitor ou leitora, precisamos valorizar nossos recursos ampelológicos e humanos. Por isso publico hoje uma entrevista com Jorge Tonietto, que trabalha com Pesquisa e Desenvolvimento na Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves-RS – uma das organizações da Embrapa, empresa de excelência em pesquisa agronômicas. O Dr. Tonietto (na foto acima, de Viviane Zanella) é Engenheiro agrônono com especialização em Viticultura e Enologia em Climas Cálidos pela Universidad de Cádiz, Espanha; Mestrado em Fruticultura de Clima Temperado, no Brasil e Doutorado em Biologie de L'évolution et Ecologie pela École Nationale Supérieure Agronomique de Montpellier, França. Aprendeu a trabalhar com uvas de climas temperados, tropicais, quentes e frios. E a partir de agora compartilha um pouco deste conhecimento com os leitores de In Vino Viajas.

“As Indicações Geográficas (IG) trazem uma nova filosofia para organizar e valorizar a produção vinícola.”

Rogerio Ruschel - Numa visão histórica, desde 1937 com a criação do Laboratório Central de Enologia no RJ, quais as cinco principais contribuições da Embrapa Uva e Vinho para nossa vitivinicultura?

Jorge Tonietto - Em 1975, quanto a Unidade da Embrapa de Bento Gonçalves foi criada, ela tinha abrangência estadual. Posteriormente se transformou no Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho. Além da sede, a Unidade possui duas Estações Experimentais: a Estação de Viticultura Tropical (EVT), em Jales (SP), e a Estação Experimental de Fruticultura de Clima Temperado (EFCT), em Vacaria (RS). Desenvolve ações de pesquisa com uva, vinho, maçã e outras fruteiras de clima temperado. Dentre as dezenas de tecnologias geradas, destaco a criação de diversas novas variedades de uvas de mesa (BRS Clara, BRS Isis, BRS Linda, BRS Melodia (abaixo, na foto de João Henrique Figueiredo), BRS Morena, BRS Núbia, BRS Vitória, Zilá, Tardia de Caxias) e para processamento (BRS Bibiana, BRS Carmem, BRS Cora, BRS Lorena, BRS Magna, BRS Margot, BRS Rúbea, BRS Violeta, Concord Clone 30, Isabel Precoce, Moscato Embrapa). 
É um resultado de sucesso da pesquisa, mesmo comparando- se com o que é gerado nos países desenvolvidos. Outro ponto alto foi a liderança na implantação da primeira Produção Integrada de Frutas, para maçã, que agora já permeia diversas culturas, incluindo as uvas para processamento, reforçando a sustentabilidade ambiental. Na área vitivinícola destaco a estruturação das indicações geográficas de vinhos, também conseguido numa ação pioneira da Embrapa Uva e Vinho no Brasil, num trabalho iniciado na década de 1990.

Rogerio Ruschel - Onde estão os melhores terroirs do Brasil, entre os já conhecidos e utilizados? E em que regiões ou estados poderemos ter terroirs com bom potencial para vinhos entre os que ainda não são conhecidos ou não foram utilizados? São Paulo? Mantiqueira? Cerrado?
Jorge Tonietto - Como diz o termo “terroir”, o que dá certo tende a multiplicar-se no setor produtivo, constituindo uma coletividade de produtores, formando as regiões vitivinícolas - os territórios do vinho. Isto está presente na tradicional Serra Gaúcha e outras, bem como em diversas novas regiões que surgiram no Brasil a partir dos anos 1980 – Campanha Gaúcha, Serra do Sudeste e Vale do São Francisco, ou ainda, nas mais recentes, como a dos vinhos de altitude em Santa Catarina - incluindo São Joaquim, e nos Campos de Cima da Serra no Rio Grande do Sul. 
Mas temos outras regiões que estão despontando, como aquelas dos vinhos tropicais de altitude em diversos estados, incluindo São Paulo, Minas Gerais ou na Chapada Diamantina na Bahia. Mas, pelo visto nas últimas 4 décadas, o Brasil não deve parar por aí. Excluindo-se os climas tropicais úmidos, existem diversas regiões que poderão ser exploradas na produção de vinhos. A atividade se estabelece quando há um encontro entre o potencial vitícola – clima, solo, adaptação de variedades, associado à tecnologia enológica – tudo ajustado para cada território.
Rogerio Ruschel - Quais as tres castas de uvas que poderiam se candidatar a ser “a uva que melhor expressa os terroirs do Brasil”?

Jorge Tonietto - Para mim o terroir não é uma casta. É mais do que isto – é uma criação de caráter complexo, do saber humano “em parceria” com o meio natural, que o produtor vitivinícola revela no vinho. Um ótimo exemplo disto é o do espumante fino da Serra Gaúcha. Este produto, que é um produto de terroir, tem como uvas altamente identitárias a Chardonnay, a Pinot Noir e a Riesling Itálico, perfeitamente adaptadas e parte deste terroir, que se consolidou na vertente de uma conjunção de fatores do meio geográfico, incluindo clima, solo, variedades e expertise nas práticas enológicas, tudo consolidado num saber-fazer regional. 
Rogerio Ruschel - Vinho é um produto globalizado porque concorrentes de várias partes do mundo estão à venda no supermercado da esquina. Por isso produtores de vinhos do Brasil tem que ser competitivos globalmente. Somos competitivos em qualidade? E em preço? Quais nossas melhores “armas” para aumentar nossa competitividade? 

Jorge Tonietto - Vou falar apenas de uma arma para aumentar nossa competitividade, justamente no tema em que trabalho. Trata-se das Indicações Geográficas (IG), que incluem as Denominações de Origem (DO). Elas trazem uma nova filosofia para organizar e valorizar a produção. Tudo está embasado na estruturação da produção nos territórios do vinho para oferecer produtos de qualidade e originais ao mercado consumidor. Pela seriedade deste trabalho com que os produtores estão empenhados, articulados em associações (Aprovale, Asprovinho, Apromontes, Afavin, Aprobelo, Progoethe, Vinhos da Campanha Gaúcha, Vinho de Altitude de Santa Catarina, Vinhovasf), os consumidores vão ver crescer a oferta de vinhos de qualidade dos terroirs do Brasil.
“Embora ainda não seja tão perceptível, a verdade é que o Brasil fez um trabalho de estruturação de IGs e DOs com uma velocidade que jamais seria imaginada.”
Rogerio Ruschel - A valorização da origem é parte fundamental da estratégia de marketing de um vinho no mundo todo. Porque o Brasil tem tão poucas certificações de origem (DOs ou IGs)? E porque não as valorizamos como os europeus? O que a Embrapa Uva e Vinho pode fazer para ajudar a modificar isso?

Jorge Tonietto - Embora ainda não seja tão perceptível, a verdade é que o Brasil fez um trabalho de estruturação de IGs e DOs com uma velocidade que jamais seria imaginada. Enquanto que na Europa o tema se desenvolveu sobretudo a partir do início do século XX (a França comemora neste ano o centenário da primeira lei das apelações de origem que é de 1919), no Brasil, a primeira IG (Vale dos Vinhedos) foi reconhecida há apenas 16 anos, em 2002. Hoje já temos no Brasil reconhecidas as IGs Pinto Bandeira, Altos Montes, Monte Belo, Farroupilha, Vales da Uva Goethe, além da DO Vale dos Vinhedos. Estão em vias de estruturação para reconhecimento: Campanha Gaúcha, Vale do São Francisco, Altos de Pinto Bandeira e Vinhos de Altitude de Santa Catarina.  Veja o mapa mais abaixo. 
A Embrapa Uva e Vinho, em parceria com outras instituições de PD&I e os produtores organizados em associações, foi pioneira neste tema no Brasil - incentivou o pais a entrar nesta temática e coordenou a maioria dos projetos que possibilitaram chegar à situação atual. As condições estão sendo criadas e o Brasil será reconhecido de forma crescente pelas IGs e DOs dos diferentes territórios do vinho, seja no Brasil quanto no exterior.
Rogerio Ruschel - Se as DOs e IGs brasileiras de vinhos seguem modelos europeus de organização, e o enoturismo já está representando mais de 1/3 do faturamento das vinícolas, porque nossas Rotas de Vinhos em DOs e IGs não tem identidade juridica própria, plano de ação, diretoria, vida econômica própria, como na Europa?

Jorge Tonietto - É certo que há um potencial enoturístico muito grande a explorar no Brasil no tema das DOs e IGs. É só imaginar a diversidade de experiências que cada IG e DO pode proporcionar aos turistas, possibilitando uma imersão num mundo tão rico, que envolve o patrimônio cultural, os valores imateriais, a paisagem construída, as particularidades do terroir e a qualidade diferencial dos vinhos. Tudo isto no contato com o produtor de uvas e vinhos. Entendo que as IGs e DOs são um prato cheio para o enoturismo. Já foram feitos avanços significativos, a exemplo do que ocorre no Vale dos Vinhedos sob a liderança da Aprovale. Mas temos que considerar também que tudo tem seu tempo para se desenvolver plenamente. A verdade é que o enoturismo está ganhando importância no Brasil, inclusive como elemento de viabilização do negócio do vinho, aproximando o consumidor do produtor e do produto brasileiro.
“Entendo que as IGs e DOs são um prato cheio para o enoturismo.”
Rogerio Ruschel - Quanto tempo, em média, leva um projeto de pesquisa da Embrapa Uva e Vinho? Por exemplo: quanto tempo e quantas pessoas se dedicaram ao desenvolvimento das uvas BRS Melodia (sem sementes, para mesa) e BRS Vitoria ou BRS Isis, para vinificação?

Jorge Tonietto - Posso falar dos projetos de estruturação de IG e DO de vinhos. Não são ações curtas no tempo, pois a Embrapa sempre busca desenvolver projetos estruturantes, que dêem forte suporte de conhecimento e tecnologia ao produtor, para que ele explore o território no seu melhor potencial, incluindo os microclimas, os solos, a adaptação das variedades e seus clones, além de apoiar a geração dos estudos e comprovações exigidas para o reconhecimento de IG ou DO. E os projetos são dinâmicos para atender demandas cada vez mais especializadas – hoje temos projetos de apoio às Indicações Geográficas, selecionando leveduras nativas para fortalecer o elo entre o produto e sua origem. Também estamos selecionando os melhores clones para cada IG e DO. Normalmente trabalhamos com projetos de 3 a 4 anos de duração. 

Rogerio Ruschel - No Brasil temos uvas (italianas e francesas) gerando bons vinhos em altitudes de até 1.400 m, como em Santa Catarina. Na Europa existe produção em regiões tão elevadas quanto estas? Exportamos este know-how?

Jorge Tonietto - O tema da viticultura de altitude é menos uma questão de know-how e mais um tema de climatologia. No Brasil temos vinhedos de altitude que chegam aos 1400 metros acima do nível do mar na região de São Joaquim em Santa Catarina, por exemplo. Na Bolívia há vinhedos muito mais altos. Isto está bastante associado à latitude e localização geográfica da região. Já na Europa, as áreas mais altas situam-se ao redor dos 1000m de altitude, como nos vinhedos mais altos do Vale de Aosta por exemplo. Nas regiões mais altas da Europa o cultivo da videira não é mais possível por serem regiões muito frias, onde as plantas não resistem ao frio ou então não conseguem maturar corretamente as uvas para elaboração de vinhos.
“A técnica da poda inveertida teve um desenvolvimento importante orientado pela Epamig, empresa de pesquisa agropecuária do estado de Minas Gerais.”
Rogerio Ruschel - Poda invertida: como funciona? Quem implantou no Brasil? Que beneficios oferece para a produção vitivinicola brasileira em relação ao mercado internacional? Exportamos este know-how?

Jorge Tonietto - A poda invertida é importante na produção de vinhos tropicais de altitude (chamados vinhos de inverno), encontrada em alguns estados brasileiros, como em São Paulo, Minas Gerais e outros. A técnica teve um desenvolvimento importante orientado pela Epamig – empresa de pesquisa agropecuária do estado de Minas Gerais. Nas regiões vitícolas de clima temperado, temos apenas um ciclo vegetativo da videira e uma colheita por ano, seguido do inverno, onde a planta entra em repouso. 
A técnica da poda invertida pode ser aplicada às regiões que apresentam clima com o potencial para dois ciclos vegetativos por ano: no período chuvoso do ano o ciclo da videira não objetiva colher uvas para vinificação; é no ciclo de inverno que se produz a uva, pois apresenta temperaturas amenas e ocorre no período seco do ano, possibilitando uma adequada maturação das uvas para a elaboração de vinhos finos de qualidade. A viticultura tropical no mundo apresenta situações assemelhadas, porém distintas, sobretudo nos climas de monções da Ásia (Índia, Tailândia e outros), onde os vinhedos destinados à elaboração de vinhos são conduzidos em dois ciclos por ano – um no período úmido do ano, onde não se produzem uvas, e outro no período mais seco do ano no qual as uvas dão origem aos vinhos tropicais.
“Os vinhos tropicais são um convite à descoberta desta nova visão geográfica que passa a integrar a vitivinicultura mundial.”
Rogerio Ruschel - A Embrapa desenvolveu o conceito de viticultura tropical (mais de uma safra por ano). Como é possivel ter no Nordeste brasileiro vinhedos com mais de uma safra por ano? Existe alguma perda de qualidade por parte da uva (açúcar, minerais, produz menos casca, “cansa” a videira) quando isso acontece? Exportamos este know-how?

Jorge Tonietto - De fato, o Brasil é um país de vanguarda mundial no desenvolvimento científico e tecnológico da viticultura tropical - aquela que apresenta potencial para mais de um ciclo da videira por ano, com uma ou mais safras por ano. Quando a produção de uvas é destinada à vinificação, resulta os chamados vinhos tropicais. Esta condição é possível pela ocorrência de temperaturas nos diferentes meses do ano que possibilitam à videira vegetar ao longo do ano. Esta condição, aliada a técnicas de manejo dos vinhedos, com variedades adaptadas para cada região, e pelo uso da irrigação, possibilitam a produção de uvas e a elaboração de vinhos em todos os meses do ano no caso do Vale do São Francisco, por exemplo. 
Esta região apresenta uma condição original e exclusiva da viticultura tropical, não encontrada na Europa obviamente. Os vinhos de qualidade destas regiões apresentam qualidades e características próprias, influenciadas pela climatologia destas regiões e a tudo o que está associado à produção nestas condições. Eu diria que se trata de um novo capítulo da história da vitivinicultura mundial, agora formada pela produção nas regiões tradicionais - sobretudo na Europa, pela produção dos países do novo mundo vitivinícola e, mais recentemente, pelos produtores dos vinhos tropicais, com suas regiões situadas na zona intertropical do planeta. Os vinhos tropicais são um convite à descoberta desta nova geográfica que passa a integrar a vitivinicultura mundial."
 Brindo a isso, Jorge Tonietto.