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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um agradável passeio pelo terroir de Saint-Émillion

 
Por Rogerio Ruschel (*)

Além de mais importante, Bordeaux é a região vinícola mais complexa do mundo. Na verdade os produtores tiveram vários séculos para estudar o terroir (isto é, o conjunto de condições de produção como as características de cada uva, o solo, o clima, a insolação, o regime hídrico, a humidade do ar, etc.), aperfeiçoar os métodos de produção e sofisticar as condições de classificação. 
 
Mas basicamente existem cinco grandes áreas vinícolas cortadas por dois rios, o Gironde e o Dordogne, que se fundem na altura do Baixo Médoc e Pauillac, para chegarem juntos ao Oceano Atlantico. Veja no mapa abaixo. As regiões são chamadas genéricamente de “margem direita” e “margem esquerda” dos rios Gironde e do Dordogne. Saint-Émilion, Pomerol e Fronsac (entre outras denominações) ficam na margem direita do Dordogne, ou como os franceses preferem chamá-la, na Libournais, em referencia à antiga capital Libourne, que vem a ser o segundo centro comercial mais importante de comercialização do vinho Bordeaux.
 
Saint-Émillion é um vilarejo medieval de origem romana com menos de 2.000 habitantes, cerca de 40 Km de Bordeaux, muito bonito, altamente turístico.

O assentamento original de Saint-Émillion foi feito no século II em um planalto de calcáreo e argila, sobre rocha sólida de argila. Veja na foto abaixo a cor do solo, que é também a cor dominante da cidade e da região.
 
Menires de pedra indicam a presença de comunidades humanas até 5 séculos antes de Cristo, mas a primeira igreja católica data do século VII. Boa parte da cidade foi tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1999, especialmente por causa da maior igreja subterrânea da Europa, toda cavada em rocha no século 11, mas também pela região vinícola histórica que ainda continua produzindo.
 
A cidadezinha é cercada por parreirais de uvas Merlot e Cabernet Franc (especialmente) descem por encostas ingremes (as chamadas côtes), em direção a planicie onde fica Pomerol. 
 
Os franceses descrevem o terroir geral da região como “côtes et plateaux calcaires, hautes terrasses et basses plaines, rochers, sables, molasses et astéries.” Em outro post vamos apresentar a Saint-Émilion turística, agora vamos falar de vinhos.
 
O solo de rocha calcárea da região está todo perfurado: nos campos, para a construção de adegas dos châteux (veja aqui no post em http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/05/saint-emilion-visita-aos-subterraneos.html) e na cidade, onde uma das atrações turísticas é passear por catacumbas ou na igreja principal que foi esculpida um uma rocha sólida, em baixo da terra.
 
O curioso é que o principal restaurante da cidade, ligado a um hotel, fica no nível do solo, mas na verdade ele está em cima do telhado da igreja construida no sub-solo e você pode almoçar ao lado de pedaços da igeja que estão fora do solo – veja abaixo o terraço onde o restaurante está e na outra foto detalhes da "metade superior" da igreja, ao nivel das mesas do restaurante.
 
Existem cerca de 800 produtores na região, os chamados Chateaux (que não são necessáriamente castelos), e nos últimos 20 anos a maioria deles foi modernizada – tanto no campo quanto no tratamento industrial. 

No início da década de 90 surgiu o Chateau Valdandraud, o primeiro “microcuvée” de Bordeaux. Também chamados “vinhos de garagem”, os microvuvées são vinhos de autor, produzidos em tão pequenas quantidades que poderiam ser feitos até mesmo na garagem. Em 2012 o Chateau Valadraud, um vinho de garagem, se transformou num premier cru.
 
De maneira geral o vinho Saint-Émillion utiliza uvas Merlot (principalmente) as Cabernet Franc e Sauvignon, além de um pouquinho de Petit Verdot e Malbec/Pressac. 
 
É menos seco e mais “redondo” do que os Médoc, e exige menos tempo para amadurecer – uns 4 a 8 anos para a maioria dos rótulos. São prazeirosos de beber porque são mais leves e relativamente mais acessíveis do que outras denominações Bodeaux. Eu pessoalmente prefiro vinhos Saint-Émillion a Médoc.
 
A classificação de vinhos Bordeaux foi criada em 1855, mas os vinhos Sanit-Émillion ficaram de fora e só ganharam uma classificação própria em 1955. É uma das mais complicadas, polêmicas e confusas e prometia ser revisada de dez em dez anos acompanhando a evolução dos principais châteaux pelo Syndicat Viticole de Saint-Émilion, que segue severos critérios de qualidade e consistência, prestígio e preço dos vinhos.


A mais recente revisão foi feita em 2006, muitos produtores não concordaram, o assunto acabou na justiça. Dois anos depois foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés. Mas o termo Grand Cru Classé em Saint-Emilion na prática não significa o mesmo que se imaginaria de um Médoc.
 
Para horror dos produtores de Saint Emillion, muitos especialistas dizem que entre esses esses sessenta e quatro châteaux classificados em 2012 talvez só uma dúzia faça jus ao título, entre eles os produtos dos châteaux Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.

Dois dos mais caros vinhos da região de Bordeaux, os Châteu Petrus e Le Pin, são da região da denominação Pomerol (veja no mapa, acima), mas continuam sem classificação oficial. Isto mostra que na verdade a classificação official ajuda, mas não é imperativa para o sucesso de um vinho. Veja o preço das várias safras dos Petrus e Margaux na tabela abaixo – um Petrus 1945 atinge o preço de 10 mil Euros em Bordeaux, imagine aqui!

 
Não posso beber um vinho com esse preço (ainda…), mas posso beber um “parente” dele e dizer que vi onde ele nasceu: numa maravilhosa região chamada Saint-Émillion. E falei com os “padrinhos” dele na Maison du Vin – veja foto abaixo.
 
Um brinde a isso caro leitor.

(*) Rogerio Ruschel rruschel@uol.com.br - é jornalista de turismo e consultor especializado em sustentabilidade; foi a Saint-Émillion por conta própria, e por isso não faz propaganda disfarçada de rótulos e escreve com independência.


















sexta-feira, 5 de julho de 2013

O paraíso num chocolate quente na Angelina, em Paris

 
Era uma sexta-feira no final de abril no outono de Paris e como o dia estava bonito mas não tão quente, minha filha Renata e eu fomos diretos para a Ille de la Citê para fotografar a Notre Dame ainda de manhã. De lá fomos pela beira do rio Sena até a entrada do Jardim das Tulherias (detalhe abaixo) pelo Jardim do Carroussel. 
 
Caminhamos pelo parque calculando chegar aí pelas 17:00 horas na sua metade, na altura do número 226 da rua Rivoli, porque queríamos fazer um chá da tarde para provar o famoso chocolate quente da Angelina, badalado há quase 100 anos.
 
Fundada no começo do século XX, em 1903, Angelina é uma das mais famosas casas de chá de Paris e, segundo muitos depoimentos (e o da minha filha), tem o melhor chocolate quente do mundo – o que eu sinceramente tendo a concordar…
 
Como outras casas de chá francesas, é um ambiente sofisticado, de alta qualidade, esnobe e caro (como dá para ver acima) – embora tudo isso não diminua a longa fila que se forma na porta nos horários de pico, sob as arcadas da rue de Rivoli (na foto, à esquerda)
  Além de doces, massas folhadas, pães e outras especialidades francesas doces, serve também lanches, brunches dominicais e alguns pratos salgados. Mas o forte são as patisseries.

  Entre os mais pedidos estão o africano, tido como o melhor chocolate quente da cidade (e por alguns exagerados, do mundo!), feito com chocolate fundido lentamente, encorpado, ideal para um dia frio. Confesso que o dia não estava necessáriamente muito frio, mas pedi o tal do Africano e não me arrependi: acabei tomando dois deles, porque é sensacional!

 
Outra especialidade da casa é o Mont Blanc, uma pâtisserie à base de suspiros recheados com creme de leite e cobertos por um creme de castanha portuguesa – mas tem variações similares na vitrine na frente da loja.
 
Se você quer evitar doces por questão de regime, lamento muito, mas tem duas alternativas: a primeira é pedir um chá bem gostoso harmonizado com massas folhadas e a segunda é encarar o chocolate africano e depois atravessar a pé o Parque das Tulherias até a Praça da Concórdia, para queimar pelo menos umas 1.500 calorias…
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é jornalista e consultor especializado em sustentabilidade e foi a Paris por conta dele mesmo.




segunda-feira, 1 de julho de 2013

Delícias de inverno no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves

 
Por Rogerio Ruschel (*)

Quer uma dica de férias para estes meses de julho e agosto? O Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha. Para a maioria das pessoas o inverno é a melhor estação para fazer turismo no sul do Brasil, e a grande dica é a serra gaúcha. Além de Gramado, Canela e Caxias do Sul – cidades mais conhecidas e locais que sempre vale a pena visitar – as cidades de Bento Gonçalves, Garibaldi, Monte Belo do Sul e seus arredores têm uma atração extra a oferecer: o enoturismo, o turismo ligado à cultura do vinho que oferece paisagens como estas abaixo.
 
Com 130 anos de imigração italiana, e mais antiga região de produção de uvas e vinhos do país, o Vale dos Vinhedos foi a primeira região do Brasil a obter o selo de Denominação de Origem de Vinhos – e única, por enquanto. Com epicentro na cidade de Bento Gonçalves o Vale dos Vinhedos a cada ano tem atraído mais turistas, e durante o ano inteiro. E a razão é clara: o turista gosta e faz propaganda para os amigos. 
 
Isso porque além de ser um turismo de qualidade, com bons produtos e serviços que proporcionam crescimento interior ao turista, não faltam atrativos que encantam todos os visitantes, inclusive crianças e adolescentes – tem até passeios de Maria Fumaças como a da foto abaixo. E com uma vantagem adicional: a rede hoteleira do Vale dos Vinhedos oferece pacotes para esta estação com descontos que chegam a até 30%.
 
Situado a 120 km de Porto Alegre, o Vale dos Vinhedos é um roteiro prático de ser percorrido devido à proximidade das atrações  e empreendimentos. Você pode ir de onibus de Porto Alegre para Bento Gonçalves e lá alugar um carro - ou contratar roteiros com guias especializados. Também pode  alugar um carro já no aeroporto de Porto Alegre porque a viagem de subida da serra já é muito interessante e também é turística. Ao chegar em Bento Gonçalves você já “entra” em um barril de vinho, veja abaixo…
Pode também usar um aeroporto alternativo, como o de Caxias do Sul, próximo de Bento Gonçalves, mas no inverno são muitas as interrupções de serviços por causa da neblina. O site da cidade de Bento Gonçalves tem tudo que você precisa saber sobre transporte e hospedagem - http://www.turismobento.com.br/pt/

 
Além das mais de 30 vinícolas, muitas das quais  oferecem hospedagem, a rede hoteleira da região é grande e oferece opções para todos os gostos e bolsos – da região rural até o centro das cidades. Além de belos passeios em manhãs mais frias, com roupas que deixam as mulheres muito mais elegantes (aliás, malhas de lã muito bonitas e com bom preço podem ser compradas na serra gaúcha), as atrações continuam em visitas a cantinas, parques ou estradinhas rurais simpáticas e sempre terminam em gastronomia. 
 
Os restaurantes oferecem desde a culinária típica italiana  - como o galeto acima e massas, como o tralharim abaixo - até a alta gastronomia. Aliás, come-se muito e muito bem no café da manhã, almoço, no lanche da tarde e no jantar: alimentar-se se transforma em um prazer especial na serra gaúcha!
 
Os restaurantes apostam em pratos quentes e caprichados, ideais para serem acompanhados por vinhos tintos que você pode escolher à vontade, afinal este é o melhor local do Brasil para escolher um dos ótimos vinhos brasileiros! Durante o inverno algumas vinícolas, além de descontos em determinadas garrafas ou safras, oferecem cursos rápidos de degustação para que o próprio visitante identifique qual a variedade do vinho que prefere.
 
A tradição de 130 anos de cultura do vinho está presente no artesanato, utensílios domésticos e de trabalho ou em objetos que revelam o cotidiano da época da imigração encontrados em ateliês, casas de artesanato ou no varejo das vinícolas da região. Queijarias, doces e vestuário em couro e malha também atraem os turistas e você vai gostar.

A cada ano o Vale dos Vinhedos atrai mais visitantes, num ritmo de crescimentio em torno de 10% ao ano. “Esse aumento reflete no preparo dos estabelecimentos em receber o turista, na satisfação dele que conhece o nosso roteiro e retorna encantado”, afirma Juarez Valduga, presidente da Aprovale – a associação dos produtores de vinhos da região. E é claro: quando você gosta, você fala bem para seus amigos e parentes.

Então querido leitore, aproveite. A programação completa oferecida no inverno do Vale dos Vinhedos em http://valedosvinhedos.wordpress.com/2013/06/28/a-melhor-estacao-no-vale-dos-vinhedos/
Um brinde ao Vale dos Vinhedos.

Algumas imagens são de divulgação da Prefeitura de Bento Gonçalves.

(*) Rogério Ruschel é jornalista de turismo e consultor especializado em sustentabilidade - além de ter a felicidade de ser gaucho, e ter morado em Bento Gonçalves.