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terça-feira, 7 de julho de 2020

Muita alegria e 2 mil anos de tradição esperam os visitantes nas festas da Abertura das Talhas e da Vitifrades, na Vidigueira, Alentejo, Portugal

Por Rogerio Ruschel
EXCLUSIVO – Entrevista com Luis Amado, ex-Presidente da Junta, vinicultor e  empresário de turismo de Vila de Frades.
Meu estimado leitor ou leitora, vou ajudá-lo a descobrir um precioso segredo que a aldeia de Vila de Frades, no Concelho (município) de Vidigueira, Alentejo, em Portugal, mantém preservado por 2.000 anos: o Vinho da Talha. É um segredo porque o vinho de talha que ainda é produzido como os romanos o faziam quando habitavam esta região da Peninsula Ibérica, só existe aqui. E é precioso porque se trata de um vinho fresco, saudável, com potente identidade territorial e por isso mesmo com muita agregação de valor, razão pela qual está na moda na Europa. Na foto de abertura, a alegria da abertura das talhas em uma das adegas familiares da região.
Vem comigo. E vou ajudá-lo a viver as duas melhores experiências turísticas que cercam o vinho de talha, em locais com o Selo Clean & Safe do Covid-19: o ritual festivo da Abertura das Talhas e a Vitifrades, a grande Festa do Vinho de Talha. Estes são eventos que integram o patrimônio cultural do vinho de talha que está sendo inscrito no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural e Imaterial de Portugal e futuramente será candidato na Lista do Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade da Unesco.
Os leitores de In Vino Viajas sabem que gosto deste vinho e admiro o contexto cultural e patrimonial em que ele está inserido, razão pela qual tenho publicado vários artigos sobre o tema, cujos links você encontra no final desta entrevista. Para que você possa conhecer esta experiência como um turista privilegiado, entrevistei Luís José Roque Amado, produtor de vinho de talha em Vila de Frades e também diretor da Janelas do Turismo, agência de turismo. Presidente da Junta de Freguesia de Vila de Frades por três mandatos, Luis Amado foi também Membro da Assembléia Municipal de Vidigueira por quatro mandatos. Com a palavra, Luis Amado, o cidadão da foto abaixo.

In Vino Viajas - Existe alguma estimativa sobre o volume de produção de vinho de talha no Alentejo?
Luis Amado - A produção de vinho de talha divide-se em três gavetas diferenciadas, a primeira, dos produtores que nas suas adegas o produzem para consumo próprio e com amigos, numa vertente mais social; a segunda, dos produtores que com as suas adegas abertas vendem o vinho a garrafão, como aliás sempre foi costume; e a terceira, os produtores que já têm marca e vinho certificado e com rótulo próprio. Estes últimos, a estimativa de produção é calculada, já nos anteriores não é possível, porque depende muito das colheitas, e da vontade própria de cada um, por isso é muito variável.
In Vino Viajas - O que é a Abertura das Talhas e a celebração Vitifrades, as Festas Báquicas? É sempre na segunda quinzena de dezembro?
Luis Amado - A Abertura das Talhas é um ritual, ou costume popular que visa assinalar o vinho novo, o vinho de talha desse ano, que cada produtor ostenta com orgulho e assinala abrindo as talhas normalmente por altura do São Martinho, dia 11 de novembro, convidando amigos e brindando. Já a Vitifrades é a Grande Festa do Vinho de Talha e realiza-se em Vila de Frades há vinte e dois anos, realizando-se normalmente no segundo fim de semana de dezembro. O vinho de talha é servidom copos, como mostra a foto abaixo.
In Vino Viajas - Estas festas estão consideradas na calendário promocional do Turismo de Vidigueira, do Alentejo e do Turismo de Portugal?
Luis Amado - A Abertura das Talhas é um evento lançado e promovido pelas Janelas do Turismo há três anos, que tem tido como foco algumas adegas de Vila de Frades, com um programa cultural, provas de vinhos, petiscos e cante alentejano, mas só este ano irá integrar os canais de promoção do Turismo do Alentejo e do Turismo de Portugal, já que localmente tem sido muito difícil e é trabalhar mais por conta própria e sem os apoios necessários, mas com o tempo iremos fazer crescer o evento e coloca-lo em todos os calendários.
Já as Festas Báquicas, a Vitifrades, pela sua longevidade e enraizamento local é só por si uma fonte de referência e calendarizada na promoção dos eventos locais, embora eu ache que ainda um pouco ofuscada, atendendo à dimensão e importância do certame.


In Vino Viajas - Quais são as experiências e vivências dos quais os turistas podem participar?
Luis Amado - Além dos eventos que anteriormente foram mencionados, como a Abertura das Talhas e a Vitifrades, que já atraem muita gente a este território, o vinho de talha, a história e a tradição que está ligada ao seu processo de vinificação é só por si um veículo de chamamento e atrativo ao turista.
O facto de se proporcionarem momentos em pequenas adegas típicas, bebendo o vinho aparado da talha, ouvindo o próprio produtor a contar como produziu o seu vinho, a provar as melhores iguarias alentejanas, como uma linguiça caseira assada, umas azeitonas pisadas temperadas com orégãos e com pão da Vidigueira ainda cozido em forno de lenha, é um prazer que estas gentes não abdicam e que gostam de abrir a sua adega e por a melhor mesa para que os visita.
In Vino Viajas - Os turistas podem participar como jurados em concurso de vinhos de talha?
Luis Amado - Não. O concurso dos melhores vinhos de talha promovido pela Vitifrades já leva vinte e dois anos, abrangendo a região vitivinícola de Vidigueira, Cuba e Alvito e é o único concurso de vinhos de talha em todo o país. No mesmo participam todos os produtores que levam a concurso os seus vinhos em três categorias, o branco, o tinto e o palhete (rosé), ou petroleiro, como era vulgarmente conhecido esse vinho em Vila de Frades.
O concurso divide-se entre os três primeiros prémios e as menções honrosas e tem como jurados a organização do evento, alguns especialistas ligados aos vinhos, e todos os anos é escolhido um produtor local que daí constituem o júri numa prova cega que dá origem à atribuição dos prémios, que é um dos momentos altos da Feira e motiva aqueles que produzem vinho de talha.
In Vino Viajas - Existem pacotes turísticos organizados para esses eventos? A Janelas do Turismo organiza visitas de grupos a Vitifrades, saindo de Lisboa nesta época festiva?
Luis Amado - Sim, existem, muitos e variados programas durante o período do vinho de talha, entre novembro e janeiro, mas a Vitifrades, a Grande Festa do Vinho de Talha é promovida pela Associação de Desenvolvimento Local Vitifrades, que através da sua direção e promove o certame em dezembro.
 Já a Abertura das Talhas, é a agência Janelas do Turismo que promove, como atrás referi. Mas para os dois eventos, e restante época do vinho de talha, temos pacotes turísticos que vão brevemente ser apresentados através da nossa página de Facebook e que visam levar os grupos a conhecer a essência das adegas, os produtores e a diversidade dos vinhos de talha, sendo que a Abertura das Talhas, não é um evento de Feira, mas sim, um evento que permite uma rota vinhateira e turística pelas terras que ainda mantém viva a tradição deste vinhos.
In Vino Viajas - Qual a capacidade de recepção de alojamentos de Vila de Frades e na região?
Luis Amado - A capacidade de alojamento não é muito grande, mas no meu entender é suficiente, estendendo-se por Vila de Frades, Vidigueira, Cuba e Beja, sendo a mesma dividida entre os Hotéis e alojamentos locais, que permitem receber e alojar os turistas em ambientes distintos, tanto urbanos, assim como rurais, nalguns casos, com outras atividades lúdicas associadas ao período de estadia em Portugal.
In Vino Viajas - Quais as atrações complementares na região para um turista que venha de bem longe, como do Brasil? A Janelas do Turismo tem um pacote para este tipo de turista?
Luis Amado - Sem dúvida, nós temos esquematizados programas tanto para o visitante ocasional, como para o turista que vem por exemplo do Brasil. A região Alentejo é muito fértil em ofertas, que vai desde o vinho, como dos produtos locais de excelência, como o pão, os queijos de cabra e ovelha, os enchidos, o mel, o azeite e muitos outros. A gastronomia alentejana, a Villa Romana mais bem conservada do Mundo, São Cucufate, as figuras históricas de Vasco da Gama ou Cristóvão Colombo, que estão aqui separadas apenas por dez quilómetros de Vidigueira a Cuba, as paisagens vinhateiras, as aldeias históricas, o branco do casario, o cante alentejano, o dialeto alentejano e os passeios de barco no Grande Lago de Alqueva, o Maior Lago Artificial da Europa, fazem deste território, um destino predileto.
Saiba mais sobre o vinho de talha:
Rota turística do Vinho de Talhga: http://www.invinoviajas.com/2019/05/vinho-de-talha/

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Com a volta das viagens, turismo rural, ecoturismo e enoturismo vão deixar o coronaviurus perdido na paisagem



Por Rogerio Ruschel

Prezado amigo ou amiga, um dos segmentos econômicos que mais sofreu impactos negativos com a pandemia foi o turismo, que representa 8% do PIB mobiliza mais de 50 segmentos da economia e responde por mais de 7 milhões de empregos diretos e indiretos no Brasil. Como existem diferentes desejos de viajantes, existem vários tipos de turismo. Entre os mais concorridos estão o turismo de “sol e praia” e o turismo urbano convencional, aquele que arrasta multidões para visitar atrações em centros urbanos. Mas por causa do Covid-19 os tipos de turismo com potencial para retomada mais rápida são aqueles que se realizam em ambientes rurais, sem algomeração e em contato com a natureza como o turismo rural, o agriturismo, o ecoturismo, o enoturismo, o turismo de aventura e de esportes na nautreza.

Isso porque a retomada das atividades turísticas pós-Covid19 tende a ser realizada em espiral: o turismo será retomado inicialmente por passeios em transporte privado (automóveis), em cidades mais próximas do turista (porque a economia também sofreu), em destinos com menos pessoas, e irá se ampliando, aumentando aos poucos, até chegar às viagens internacionais lotadas feitas com transporte aéreo, como acontecia antes da pandemia Covid-19.

Mas enquanto não existir uma vacina segura contra o Convid-19 terão mais sucesso os destinos que buscarem atender a quatro “S”s: Segurança, Sustentabilidade, Solidariedade e Saudabilidade. Mas antes veja onde encontrar informações sobre o cenário Covid-19, que muda constantemente:

·      Levantamento da Secretaria de Turismo de Sâo Paulo, APRECESP e AMITESP, analisa a publicação  de decretos municipais  com medidas de prevenção  do Covid-19.  Veja aqui: https://bit.ly/setursp_analise_decretos_covid19
·      Relatórios da OMT – Organização Mundial do Turismo sobre países e restrições ao turismo podem ser encontrados aqui: www.unwto.org/news/covid-19-restrictions-on-tourism-travel
E agora veja como os segmentos estão se organizando para a volta das atividades. Lideranças do turismo Rural, incluindo Agroturismo, Turismo Rural da Agricultura Familiar e Turismo Rural de Base Comunitária realizaram debates pela internet e propuseram a criação de um Projeto Nacional de Desenvolvimento do Turismo Rural Brasil. A iniciativa, liderada pela especialista Andreia Roque, propõe políticas públicas setoriais e normas nacionais de procedimentos e protocolos de retomada do turismo e ampla divulgação das oportunidades de se fazer turismo em lugares abertos, sadios, sem algomeração e em contato com a natureza. Participei dos debates; participe também - #turismoruralconsciente

Quem também quer propor protocolos e iniciativas é a Catraca Livre, um site de notícias com foco em eventos culturais e temas como cidadania, educação, carreira, bem-estar, etc. Em parceria com a Interamerican Network, uma agência de comunicação e representação especializada em turismo, está realizando uma  pesquisa em países da America Latina para apontar caminhos  seguros e confiáveis  para a volta das viagens. Até 15/junho a pesquisa está em bit.ly/pesquisa_ Catraca_livre_turismo  
Outro setor que pode se beneficiar do “turismo em espiral” é o Enoturismo. Sandra Carvão, diretora de Inteligência de Mercado e Competitividade da Organização Mundial do Turismo me disse em entrevista exclusiva que o enoturismo tem uma grande capacidade de levar pessoas urbanas e com bom poder aquisitivo a visitar, se hospedar e comprar produtos em ambientes rurais. Isto é o que precisamos e que pode ser facilitado pelo Convid-19.
No Brasil o Enoturismo pode ser importante para mais de 5 milhões de brasileiros em pelo menos 150 municípios de 40 regiões de 10 Estados do Brasil. Em 2018 mobiloizou cerca de 1.200,000 turistas – e não só na serra gaúcha, como muitos pensam. Infelizmente não temos nenhuma entidade nacional de organização do enoturismo. Eu tenho escrito sobre isso há muitos anos e em 2017 publiquei uma proposta de Agenda do Enoturismo no Brasil – veja aqui:  http://www.invinoviajas.com/2017/12/em-2018-o-brasil/
Pouca coisa foi feita sobre esta agenda, e recentemente fiz um video relembrando a importância disso, veja aqui:  https://youtu.be/tGxBjuZEJOY
Mas estamos buscando conhecimento sobre isso fora do Brasil. A consultora de turismo Ivane Favero, ex-presidente da Associação Internacional de Enoturismo - Aenotur participa de um grupo de especialistas em enoturismo denominado International Wine Tourism Think Tank que planejam fazer propostas concretas aplicáveis a qualquer vinícola e destino de enoturismo do mundo, sob a nova realidade pós-Convid-19. No grupo estão representantes da Itália, França, Portugal, Espanha, Brasil, Argentina, Chile, México, Estados Unidos e África do Sul e a primeira iniciativa é a realização de uma pesquisa para conhecer a realidade do mercado, que espero em breve poder compartilhar. Se você trabalha com enoturismo, ajude a iniciativa: acesse https://es.surveymonkey.com/r/CV3TLX2?lang=pt
Na Itália, país que sofreu muito com o Covid-19, o enoturismo gerou mais de 2,65 bilhões de euros com 15 milhões de turistas em 2019. Os italianos trabalham em várias frentes para retomar o enoturismo no país, como com financiamentos para reconstruir a acessibilidade aos territórios e a rolagem de dívidas dos gastos turísticos e do enoturismo em 2020 para 2021. O programa é liderado pela Associação Nacional de Cidades do Vinho (a Città del Vino), fundada em Siena em 1987, que reúne 460 municípios. Floriano Zambon, presidente, explica que a retomada "...implica a necessidade de reconstruir e criar novos caminhos, ciclovias, rotas de enoturismo, letreiros, itinerários e experiências culturais, mas também infraestruturas de serviços e conexões digitais adequadas para os territórios mais rurais e desfavorecidos pelo fosso digital”. Um relatório sobre a situação está aqui: http://www.today.it/partner/adnkronos/economia/lavoro/citta-del-vino-enoturismo-volano-per-la-rinascita-dei-territori.html
Foto de abertura: O publicitário e fotógrafo Rodrigo Ruschel surpreendeu a neblina matinal sobre o rio Silveira, em São José dos Ausentes, na serra gaúcha. Nesta época não tinha Covid-19. Mas se tivesse, o tal coronavirus estaria perdido na paisagem, confuso no meio da neblina; bem feito!!!!!
 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Governo espanhol vai investir 540 milhões de Reais para apoiar o vinho espanhol afetado pela crise da Covid-19; conheça as medidas aqui

Por Rogerio Ruschel

O governo espanhol está preparando um plano de choque para apoiar o setor vitivinícola, um dos mais afetados pela crise do Covid 19, conforme o ministro da Agricultura, Pesca e Alimentação, Luis Planas, em entrevista à agência EFE. Um decreto real está em fase final de aprovação. Como isso afeta o resto do mundo e a produçãoo dos brasileiros?

O eixo do plano é um decreto real, que está sendo elaborado, no qual serão propostas até cinco medidas diferentes muito importantes para o setor vitivinícola, principalmente para vinhos de mais alta qualidade, os mais afetados pelo efeitos da pandemia (porque 60% de suas vendas estão ligadas ao setor de hospitalidade), pelo Brexit (que cancelou muitos negócios com a Grã-Bretanha) e pelas sanções do governo dos Estados Unidos - o maior consumidor dos vinhos do mundo, com 2,6 milhões de hectolitros em 2018, e que impôs super-taxas de até 125% aos vinhos premium da Europa, em janeiro de 2020.

As diferentes medidas contempladas totalizam 85,9 milhões de euros (algo como 540 milhões de Reais hoje) e a maior quantidade corresponde a retirar do mercado até um total de dois milhões de hectolitros (1,5 milhão de vinho de mesa e 0,5 com denominação de origem), o que será financiado pelo Programa de Apoio ao Setor Vinícola. Outros 9,9 milhões de euros serão utilizados para facilitar medidas de armazenamento solicitadas pelas vinícolas e denominações de origem, buscando administrar o timing da redução de consumo do mercado do setor de restaurantes. 

A terceira proposta será financiar a colheita da uva verde, no valor de quatro milhões de euros no exercício financeiro de 2020 e mais seis do orçamento de 2021.  "Queremos implementar essas três medidas imediatamente e é por isso que queremos aprovar o decreto o mais rápido possível, proceder à distribuição dos fundos entre as comunidades autônomas por meio de uma conferência setorial e iniciar os pagamentos em 16 de outubro", antes do próxima safra, destacou o Ministro da Agricultura, Pesca e Alimentação Luis Planas.

Para 2021, além de financiar a colheita verde, o Ministério da Agricultura planejou a implementação de medidas de limitação de desempenho: 18.000 kg por hectare na produção de tinta e 20.000 em uvas brancas, como uma ação regulatória adicional mercado.

O consumo de alimentos de mesa e produtos envelhecidos aumentou a preços mais acessíveis no período de quarentena. Nestes vinhos, até 8 euros, houve um aumento notável no consumo, mas isso não aconteceu nos rótulos de maior valor, que são os mais afetados pelo canal de restauração.  “O aumento do consumo doméstico do vinho em torno de 20%, não pode compensar, nem em volume nem em valor, o que significa o setor de hospitalidade, que representa 14% do que os espanhóis consomem em alimentos e bebidas, o que em valor significa um terço dos gastos com alimentos” disse o Ministro.

Embora os produtores europeus trabalhem em conjunto no que se refere ao mercado mundial de alimentos (e lá vinho é considerado alimento), em tempos de crise é cada um por si. Os franceses que foram os mais afetados pelos Estados Unidos, devem estar planejando saídas semelhantes; In VIno Viajas vai pesquisar este assunto para seus leitores.

Veja o que o governo brasileiro prometeu fazer para ajudar os produtores de vinhos no Brasil aqui: http://www.invinoviajas.com/2020/01/os-vinhateiros-brasileiros-contra
Conhaça a supertaxacão dos vinhos europeus pelos Estados Unidos aqui: http://www.invinoviajas.com/2020/01/trump-quer-detonar-os-vinhos/

sábado, 9 de maio de 2020

Campanha Gaúcha se torna a sétima Indicação Geográfica para vinhos e espumantes do Brasil; veja quem contribuiu para isso



Por Rogerio Ruschel, com informações da Embrapa e do INPI
Meu prezado leitor ou leitora, uma boa notícia para estes tempos de quarentena: o INPI publicou dia 5 de maio de 2020 na Revista da Propriedade Industrial (RPI) nº 2574, a concessão da indicação geográfica (IG) “Campanha Gaúcha”, na espécie Indicação de Procedência, para vinhos finos brancos, rosados, tintos e espumantes. Esta é a sétima IG do estado do Rio Grande do Sul para o segmento de vinhos. Mais de 30 profissionais e técnicos trabalharam para isso ser possível – e como “In Vino Viajas” faz jornalismo, estou publicando o nome deles neste registro histórico. A foto de abertura é da Cooperativa Nova Aliança.
A partir de agora, todos os produtores de vinhos que estiverem dentro da região demarcada (44.365 km²) e seguirem as normas contidas no regulamento de uso – denominado Caderno de Especificações Técnicas – poderão utilizar a indicação geográfica em seus produtos. A IG foi concedida em nome da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha e compreende os territórios dos municípios ou distritos de Aceguá, Barra do Quaraí, Candiota, Hulha Negra, Itaqui, Quaraí, Rosário do Sul, Santana do Livramento, Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Piraí, José Otávio, Dom Pedrito, Ibaré, Maçambará, Bororé, Encruzilhada, Torquato Severo e Joca Tavares.
Atualmente, existem 77 registros no INPI, sendo 56 indicações de procedência nacionais e 21 denominações de origem  (12 nacionais e nove estrangeiras).

Memória do processo de concessão
Para perpetuar esta informação e ajudar leitores estrangeiros a entenderem o processo, “In Vino Viajas” registra um pouco da memória do processo do pedido, a começar pela nota da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresa governamental de pesquisa em Agricultura 4.0, publicada em 2017. Naquele ano a Embrapa informou que havia sido dado entrada dos documentos técnicos para registro da IG no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), organismo ficial brasileiro de registros de patentes e propriedade industrial.
O pedido foi registrado no INPI dia 14 de dezembro de 2017, depois de um trabalho de mais de cinco anos envolvendo diversas entidades – veja abaixo. A solicitação do reconhecimento da Indicação de Procedência no INPI ocorreu com a entrega de um completo dossiê técnico que foi elaborado ao longo de  cinco anos por uma equipe interdisciplinar de diferentes instituições, com a coordenação da Embrapa Uva e Vinho. A documentação incluiu, dentre outros, a delimitação da área geográfica de IP, o Regulamento de Uso para os vinhos da IP, o plano de controle dos produtos, a caracterização geográfica - incluindo a geologia, o solo, o relevo e o clima, a viticultura e as vinícolas produtoras, as características dos vinhos, os processos de produção vitícolas e enológicos, além do descritivo histórico e do renome da região.

Na foto abaixo, alguns destes profissionais dando entrada da solicitação do reconhecimento da Indicação de Procedência no INPI - Foto: Maria Francisca Canovas Moura, publicada no site da Embrapa.


Instituições envolvidas
O Projeto da IG Campanha Gaúcha foi coordenado pela Embrapa Uva e Vinho e contou com a participação da Embrapa Clima Temperado, Embrapa Pecuária Sul, Universidade de Caxias do Sul (UCS), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), EPAGRI, Unipampa, Universidade Federal de Santa Maria, Associação de Produtores Vinhos da Campanha, Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Fapeg e Sibratec/Finep/MCTI - Recivitis – Rede de Centros de Inovação em Vitivinicultura.

Vinícolas que participam da Associação dos Produtores Vinhos da Campanha:
Batalha Vinhas & Vinhos
Bodega Sossego
Bueno Bellavista Estate
Cooperativa Agroindustrial Nova Aliança
Dunamis
Estância Paraizo
Guatambu Estância do Vinho
Rigo Vinhedos e Olivais/Vinhos Dom Pedrito
Routhier & Darricarrère
Seival Estate
Vinhos Salton
Vinícola Almadén
Vinícola Campos de Cima
Cordilheira de Santana
Vinícola Peruzzo
Vinícola Vinhetica

Equipe do Projeto no campo temático da IG:
Embrapa Uva e Vinho: Celito Crivellaro Guerra, Henrique Pessoa dos Santos, Joelsio José Lazzarotto, Jorge Tonietto (coordenador das atividades do Grupo Temático da IP Campanha Gaúcha no projeto), José Fernando da Silva Protas (coordenador da Recivitis), Loiva Maria Ribeiro de Mello, Mauro Celso Zanus, Rosemary Hoff e Samar Velho da Silveira (coordenador geral do projeto).
Universidade de Caxias do Sul - UCS, Ivanira Falcade (coordenadora institucional).
Embrapa Clima Temperado - Carlos Alberto Flores (coordenador institucional).
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - Cláudia Alcaraz Zini, Eliana Casco Sarmento, Eliseu José Weber e Heinrich Hasenack (coordenador institucional).
Membros do Grupo de Trabalho (GT) do Regulamento de Uso da IP Campanha Gaúcha: Adriano Miolo, Anthony Darricarriére, Edvard Theil Kohn, Gilberto Simonaggio, Fabricio Domingues, Giovâni Silveira Peres (coordenador pela Vinhos da Campanha), Leonel Caliari, Pablo Martins, Pedro Candelária, Tauê Bozzetto E. Ham e Vanessa Medin, da Vinhos da Campanha; Celito Crivellaro Guerra, Jorge Tonietto (coordenador geral do GT) e Mauro Celso Zanus, da Embrapa Uva e Vinho; Ivanira Falcade, da UCS; Kelly Lisandra Bruch, do Ibravin; Renata Zocche, Rodrigo Lisboa e Suziane Jacobs, da Unipampa; Jaime Milan (assessoria).


O que é a indicação geográfica?
A IG é um sinal constituído por nome geográfico (ou seu gentílico) que indica a origem geográfica de um produto ou serviço. Não certifica qualidade, certifica origem. Apenas os produtores e prestadores de serviços estabelecidos no território certificado (organizados em entidades representativas) podem usar a IG. A espécie de IG chamada indicação de procedência (IP) (que é o caso da Campanha Gaúcha) se refere ao nome de um país, cidade ou região conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço. Já a espécie Denominação de Origem (DO) reconhece o nome de um país, cidade ou região cujo produto ou serviço tem certas características específicas graças a seu meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos.
Prezado leitor ou leitora, brindo a isso: tim-tim. Aos poucos vamos percebendo a importância de investir em nossos tesouros no fundo do quintal. Conheça nosso projeto sobre os Tesouros no Fundo do Quintal aqui: https://www.youtube.com/channel/UCc4c2FU6Z88_XU_2I2lFbmA

terça-feira, 5 de maio de 2020

Por que o maior varejista da América Latina anuncia um pequeno vidrinho de pimenta produzida por índias Baniwa da Amazônia?

Por Rogerio Ruschel
Mais um conteúdo de qualidade exclusivo de In Vino Viajas.
Prezado amigo ou amiga, a rede de supermercados Pão de Açúcar tem milhares de produtos à venda. Mais de 99,99999% são produtos que estão à venda também em concorrrentes, porque são produtos globais, marcas internacionais feitos para ampla oferta. Mas então por que o Supermercado Pão de Açucar também oferece – e faz propaganda na TV – de produtos pequenos, locais, com volume de produção limitadíssimo, como este da foto de abertura, de Carol Quintanilha/ISA, onde Selma da Silva Lopes, da tribo Baniwa, mostra um vidrinho de pimenta Jiquitaia produzida pelas muheres de sua tribo? Porque estes produtos que valorizam sua origem e a cultura de quem os produziu têm um respeitável perfil de sustentabilidade socioambiental, de comércio justo e tem uma característica importantíssima chamado Identidade Territorial.
Este e outros produtos à venda no Pão de Açúcar são frutas, sementes, chás e castanhas da floresta tropical; molhos “estranhos” como o de tucupi preto; farinhas, queijos regionais, geléias, pães e outros – todos produzidos por famílias ou grupos comunitários e estão à venda em apenas 7 das 185 lojas do Pão de Açúcar na cidade de São Paulo; até o final de julho/2020, serão 12.

Tata-se do programa “Caras do Brasil”, realizado há mais de 20 anos pelo Pão de Açúcar, que tem como objetivo “potencializar sabores e saberes brasileiros por meio de produtos típicos de cada região, produzidos por pequenos produtores sustentáveis”. Identidade, rastreabilidade, origem. Mas amiga ou amigo, me diga: qual a importância do maior varejista da America Latina investir na comercialização de produtos pequenos e desconhecidos, que representam menos de 0,00000001% da oferta? Me parece que são três razões: 1) eles expressam a política de sustentabilidade empresarial da empresa; 2) estes produtos tem crescido em vendas a uma média mensal de 20% ao mês e 3) ajudam a construir uma imagem positiva para a empresa, razão pela qual, Segundo a assessorial de imprensa encaminhou informação, “a marca tem realizado comunicações sensibilizadoras sobre o tema e os produtos para incentivar o consumo dos mesmos por nossos clientes”.
Produtos com identidade territorial estão crescendo 20% por mes no Pão de Açúcar
Desde a sua criação, já passaram pelo programa produtos de mais de 100 pequenos negócios. O Mel do Xingu, presente no portfólio desde o início, é um dos mais antigos. Não conheço, mas deve ser mel de abelhas sem ferrão. A pimenta Jiquitaia, produzida por cerca de 80 mulheres da tribo Baniwa, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, é um dos mais novos. Confesso que ainda não provei, mas espero conhecer. Esta pimenta, uma mistura de vários tipos de pimentas desidratadas com muitas cores e aromas, sabor levemente defumado e alta picância, tem valor cultural muito relevante para a nação indígena e foi tema de um comercial de televisão do Pão de Açúcar para homenagear o Dia Internacional das Mulheres de 2020.
Atualmente são 28 produtos de 12 produtores no portfólio, mas vão ser lançados tomate seco e molho de tomate da região sul, crispy de tapioca da região nordeste e pasta de amendoim com baru da região centro-oeste até o fim de julho. Você conhece baru? Pois vai conhecer: o baru é uma castanha do cerrado brasileiro muito rica em vitaminas E e ótima para quem tem colesterol. O baru não existe na Europa. A tapioca (ou beiju) também não tem na Europa, porque é de origem indígena tupi-guarani. Ou seja: são produtos de agricultura familiar, ainda considerados “caipiras” pela elite das grandes cidades, com grande contribuição nutgricional, para a saúde e para a economia de certos “cantões do mundo rural”. Eu suspeito que eles ainda só não estão na Europa (ainda) porque ninguém havia investido neles. Agora eles poderão ter a oportunidade de se apresentar para consumidores acostumados a comprar produtos importados. E não custa lembrar que o GPA é uma empresa francesa, e os franceses prestigiam seus agroprodutos de produção familiar que são parte genuína da cultura de sua cultura.

“Caras do Brasil” investe em produtos com identidade territorial

Estes produtos de terroir (como dizem os franceses) têm uma forte identidade cultural e territorial que será reforçada e protegida quando tiverem uma Identidade Geográfica - IG registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI. E vão ter que ter, cedo ou tarde, porque o Acordo Mercosul & União Europeia vai pressionar para que isso aconteça. IG é uma marca coletiva registrada que identifica, protege e valoriza produtos de um determinado território como Champanhe, Gruyére, Canastra, Bordeaux, Café do Cerrado Mineiro e outros que você conhece – e que só podem ser produzidos nestas regiões. Em sua esmagadora maioria são produzidos por famílias ou grupos comunitários no contexto da Agricultura Familiar. 

Como para muitos brasileiros a Agricultura Familiar é invisível ou desconhecida, lembro que no Brasil temos mais de 4 milhões de propriedades de agricultura familiar, com 22 milhões de pessoas dependendo dela. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, estas famílias produzem cerca de R$ 300 bilhões, 33% do PIB agropecuário, todos os anos. O destaque são os alimentos como 70% do feijão, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café, 21% do trigo, 60% da produção de leite, 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos. E atenção, meu caro leitor ou leitora, não estou falando do “grande” agribusiness, a atividade de exportar matérias-primas primárias como commodities, sem nenhum valor agregado, como soja, cacau, café, laranja, algodão, etc.
Então volto à pergunta: por que o Grupo Pão de Açucar, uma empresa francesa de grande porte está investindo em produtos locais e valores culturais comunitários brasileiros como se fosse uma pequena empresa da sua cidade?  Porque estariam “perdendo tempo” com produtores de pequeno porte? Porque vale a pena: o “Caras do Brasil” significa a oferta de produtos com um diferencial competitivo que nunca será alcançado pela concorrência, que é sua identidade única e exclusiva. Isso significa liderança. 

O Pão de Açúcar reconhece a importância destes valores. Segundo a empresa, “A cultura regional brasileira é riquíssima e está presente – além da gastronomia, das nossas músicas, artesanatos e atividades do dia a dia – também nos alimentos e sabores brasileiros. Cada região brasileira – com sua geografia distinta e características ambientais diversas – compõe um panorama diverso e com potencial incrível de descobertas de sabores, histórias e saberes. Em cada região brasileira, buscamos produtos que representem essa riqueza.” 

O Pão de Açucar compra os produtos para vender e ter lucro, é óbvio, mas na negociação pode incluir algum “incentivo socioeconômico para pequenos(as) produtores(as) sustentáveis de produtos que promovem a cultura local e geram valor para a comunidade.” Estes produtos que “promovem a cultura local e geram valor para a comunidade” são especialmente artigos de artesanato local e agroalimentos como frutas, geléias, queijos, doces, bebidas, farinhas e outros. Produtos que costumo chamar de Tesouros do Fundo do Quintal, porque estão próximos das pessoas mas muitos não os enxergam por miopia de marketing, falta de atenção ou preguiça mesmo - mas que lideranças empresariais como o Pão de Açucar estão vendo. Já produzi mais de 15 pequenos vídeos sobre isso, interessantes e divertidos, veja aqui: https://www.youtube.com/channel/UCc4c2FU6Z88_XU_2I2lFbmA   
Outras empresas que estão à frente valorizando a origem e a identidade de produtos são os cortes de frango Sadia Bio, da Série Origens, que oferecem rastreabilidade ao consumidor e os cafés de terroir Rituais Cafés Especiais, uma série premium da Três Corações, maior exportador brasileiro. Ambas são especialistas em agroalimentos commodities de exportação, mas estão criando estes produtos para agregar valor com a identidade territorial.
Espero em breve entrevistar algum profissional de marketing do PÃODE AÇUCAR sobre esta iniciativa do “Caras do Brasil” para poder informar quais os benefícios proporcionados para as mulheres Baniwa, e quais as dificuldades de fazer isso – que não deve ser poucas. A assessoria informou também que atualmente o Pão de Açucar tem uma página no blog da marca dedicado ao Programa, mas uma reformulação do site está em pauta para breve, com o detalhamento de ainda mais informações sobre os produtos, produtores e outros assuntos e temas relacionadas. Espero que sim. As fotos são do  Pão de Açúcar ou do Instituto Socioambiental – ISA.

Caso queira saber mais sobre o tema sugiro que leia meu livro “O valor global do produto local – A identidade territorial como estratégia de marketing”, publicado pela Editora Senac em abril/2019, o primeiro do Brasil sobre o tema. Veja em

Para saber mais sobre a importância de produtos com identidade territorial, acesse: