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sábado, 9 de maio de 2020

Campanha Gaúcha se torna a sétima Indicação Geográfica para vinhos e espumantes do Brasil; veja quem contribuiu para isso



Por Rogerio Ruschel, com informações da Embrapa e do INPI
Meu prezado leitor ou leitora, uma boa notícia para estes tempos de quarentena: o INPI publicou dia 5 de maio de 2020 na Revista da Propriedade Industrial (RPI) nº 2574, a concessão da indicação geográfica (IG) “Campanha Gaúcha”, na espécie Indicação de Procedência, para vinhos finos brancos, rosados, tintos e espumantes. Esta é a sétima IG do estado do Rio Grande do Sul para o segmento de vinhos. Mais de 30 profissionais e técnicos trabalharam para isso ser possível – e como “In Vino Viajas” faz jornalismo, estou publicando o nome deles neste registro histórico. A foto de abertura é da Cooperativa Nova Aliança.
A partir de agora, todos os produtores de vinhos que estiverem dentro da região demarcada (44.365 km²) e seguirem as normas contidas no regulamento de uso – denominado Caderno de Especificações Técnicas – poderão utilizar a indicação geográfica em seus produtos. A IG foi concedida em nome da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha e compreende os territórios dos municípios ou distritos de Aceguá, Barra do Quaraí, Candiota, Hulha Negra, Itaqui, Quaraí, Rosário do Sul, Santana do Livramento, Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Piraí, José Otávio, Dom Pedrito, Ibaré, Maçambará, Bororé, Encruzilhada, Torquato Severo e Joca Tavares.
Atualmente, existem 77 registros no INPI, sendo 56 indicações de procedência nacionais e 21 denominações de origem  (12 nacionais e nove estrangeiras).

Memória do processo de concessão
Para perpetuar esta informação e ajudar leitores estrangeiros a entenderem o processo, “In Vino Viajas” registra um pouco da memória do processo do pedido, a começar pela nota da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), empresa governamental de pesquisa em Agricultura 4.0, publicada em 2017. Naquele ano a Embrapa informou que havia sido dado entrada dos documentos técnicos para registro da IG no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), organismo ficial brasileiro de registros de patentes e propriedade industrial.
O pedido foi registrado no INPI dia 14 de dezembro de 2017, depois de um trabalho de mais de cinco anos envolvendo diversas entidades – veja abaixo. A solicitação do reconhecimento da Indicação de Procedência no INPI ocorreu com a entrega de um completo dossiê técnico que foi elaborado ao longo de  cinco anos por uma equipe interdisciplinar de diferentes instituições, com a coordenação da Embrapa Uva e Vinho. A documentação incluiu, dentre outros, a delimitação da área geográfica de IP, o Regulamento de Uso para os vinhos da IP, o plano de controle dos produtos, a caracterização geográfica - incluindo a geologia, o solo, o relevo e o clima, a viticultura e as vinícolas produtoras, as características dos vinhos, os processos de produção vitícolas e enológicos, além do descritivo histórico e do renome da região.

Na foto abaixo, alguns destes profissionais dando entrada da solicitação do reconhecimento da Indicação de Procedência no INPI - Foto: Maria Francisca Canovas Moura, publicada no site da Embrapa.


Instituições envolvidas
O Projeto da IG Campanha Gaúcha foi coordenado pela Embrapa Uva e Vinho e contou com a participação da Embrapa Clima Temperado, Embrapa Pecuária Sul, Universidade de Caxias do Sul (UCS), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), EPAGRI, Unipampa, Universidade Federal de Santa Maria, Associação de Produtores Vinhos da Campanha, Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Fapeg e Sibratec/Finep/MCTI - Recivitis – Rede de Centros de Inovação em Vitivinicultura.

Vinícolas que participam da Associação dos Produtores Vinhos da Campanha:
Batalha Vinhas & Vinhos
Bodega Sossego
Bueno Bellavista Estate
Cooperativa Agroindustrial Nova Aliança
Dunamis
Estância Paraizo
Guatambu Estância do Vinho
Rigo Vinhedos e Olivais/Vinhos Dom Pedrito
Routhier & Darricarrère
Seival Estate
Vinhos Salton
Vinícola Almadén
Vinícola Campos de Cima
Cordilheira de Santana
Vinícola Peruzzo
Vinícola Vinhetica

Equipe do Projeto no campo temático da IG:
Embrapa Uva e Vinho: Celito Crivellaro Guerra, Henrique Pessoa dos Santos, Joelsio José Lazzarotto, Jorge Tonietto (coordenador das atividades do Grupo Temático da IP Campanha Gaúcha no projeto), José Fernando da Silva Protas (coordenador da Recivitis), Loiva Maria Ribeiro de Mello, Mauro Celso Zanus, Rosemary Hoff e Samar Velho da Silveira (coordenador geral do projeto).
Universidade de Caxias do Sul - UCS, Ivanira Falcade (coordenadora institucional).
Embrapa Clima Temperado - Carlos Alberto Flores (coordenador institucional).
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - Cláudia Alcaraz Zini, Eliana Casco Sarmento, Eliseu José Weber e Heinrich Hasenack (coordenador institucional).
Membros do Grupo de Trabalho (GT) do Regulamento de Uso da IP Campanha Gaúcha: Adriano Miolo, Anthony Darricarriére, Edvard Theil Kohn, Gilberto Simonaggio, Fabricio Domingues, Giovâni Silveira Peres (coordenador pela Vinhos da Campanha), Leonel Caliari, Pablo Martins, Pedro Candelária, Tauê Bozzetto E. Ham e Vanessa Medin, da Vinhos da Campanha; Celito Crivellaro Guerra, Jorge Tonietto (coordenador geral do GT) e Mauro Celso Zanus, da Embrapa Uva e Vinho; Ivanira Falcade, da UCS; Kelly Lisandra Bruch, do Ibravin; Renata Zocche, Rodrigo Lisboa e Suziane Jacobs, da Unipampa; Jaime Milan (assessoria).


O que é a indicação geográfica?
A IG é um sinal constituído por nome geográfico (ou seu gentílico) que indica a origem geográfica de um produto ou serviço. Não certifica qualidade, certifica origem. Apenas os produtores e prestadores de serviços estabelecidos no território certificado (organizados em entidades representativas) podem usar a IG. A espécie de IG chamada indicação de procedência (IP) (que é o caso da Campanha Gaúcha) se refere ao nome de um país, cidade ou região conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço. Já a espécie Denominação de Origem (DO) reconhece o nome de um país, cidade ou região cujo produto ou serviço tem certas características específicas graças a seu meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos.
Prezado leitor ou leitora, brindo a isso: tim-tim. Aos poucos vamos percebendo a importância de investir em nossos tesouros no fundo do quintal. Conheça nosso projeto sobre os Tesouros no Fundo do Quintal aqui: https://www.youtube.com/channel/UCc4c2FU6Z88_XU_2I2lFbmA

terça-feira, 5 de maio de 2020

Por que o maior varejista da América Latina anuncia um pequeno vidrinho de pimenta produzida por índias Baniwa da Amazônia?

Por Rogerio Ruschel
Mais um conteúdo de qualidade exclusivo de In Vino Viajas.
Prezado amigo ou amiga, a rede de supermercados Pão de Açúcar tem milhares de produtos à venda. Mais de 99,99999% são produtos que estão à venda também em concorrrentes, porque são produtos globais, marcas internacionais feitos para ampla oferta. Mas então por que o Supermercado Pão de Açucar também oferece – e faz propaganda na TV – de produtos pequenos, locais, com volume de produção limitadíssimo, como este da foto de abertura, de Carol Quintanilha/ISA, onde Selma da Silva Lopes, da tribo Baniwa, mostra um vidrinho de pimenta Jiquitaia produzida pelas muheres de sua tribo? Porque estes produtos que valorizam sua origem e a cultura de quem os produziu têm um respeitável perfil de sustentabilidade socioambiental, de comércio justo e tem uma característica importantíssima chamado Identidade Territorial.
Este e outros produtos à venda no Pão de Açúcar são frutas, sementes, chás e castanhas da floresta tropical; molhos “estranhos” como o de tucupi preto; farinhas, queijos regionais, geléias, pães e outros – todos produzidos por famílias ou grupos comunitários e estão à venda em apenas 7 das 185 lojas do Pão de Açúcar na cidade de São Paulo; até o final de julho/2020, serão 12.

Tata-se do programa “Caras do Brasil”, realizado há mais de 20 anos pelo Pão de Açúcar, que tem como objetivo “potencializar sabores e saberes brasileiros por meio de produtos típicos de cada região, produzidos por pequenos produtores sustentáveis”. Identidade, rastreabilidade, origem. Mas amiga ou amigo, me diga: qual a importância do maior varejista da America Latina investir na comercialização de produtos pequenos e desconhecidos, que representam menos de 0,00000001% da oferta? Me parece que são três razões: 1) eles expressam a política de sustentabilidade empresarial da empresa; 2) estes produtos tem crescido em vendas a uma média mensal de 20% ao mês e 3) ajudam a construir uma imagem positiva para a empresa, razão pela qual, Segundo a assessorial de imprensa encaminhou informação, “a marca tem realizado comunicações sensibilizadoras sobre o tema e os produtos para incentivar o consumo dos mesmos por nossos clientes”.
Produtos com identidade territorial estão crescendo 20% por mes no Pão de Açúcar
Desde a sua criação, já passaram pelo programa produtos de mais de 100 pequenos negócios. O Mel do Xingu, presente no portfólio desde o início, é um dos mais antigos. Não conheço, mas deve ser mel de abelhas sem ferrão. A pimenta Jiquitaia, produzida por cerca de 80 mulheres da tribo Baniwa, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, é um dos mais novos. Confesso que ainda não provei, mas espero conhecer. Esta pimenta, uma mistura de vários tipos de pimentas desidratadas com muitas cores e aromas, sabor levemente defumado e alta picância, tem valor cultural muito relevante para a nação indígena e foi tema de um comercial de televisão do Pão de Açúcar para homenagear o Dia Internacional das Mulheres de 2020.
Atualmente são 28 produtos de 12 produtores no portfólio, mas vão ser lançados tomate seco e molho de tomate da região sul, crispy de tapioca da região nordeste e pasta de amendoim com baru da região centro-oeste até o fim de julho. Você conhece baru? Pois vai conhecer: o baru é uma castanha do cerrado brasileiro muito rica em vitaminas E e ótima para quem tem colesterol. O baru não existe na Europa. A tapioca (ou beiju) também não tem na Europa, porque é de origem indígena tupi-guarani. Ou seja: são produtos de agricultura familiar, ainda considerados “caipiras” pela elite das grandes cidades, com grande contribuição nutgricional, para a saúde e para a economia de certos “cantões do mundo rural”. Eu suspeito que eles ainda só não estão na Europa (ainda) porque ninguém havia investido neles. Agora eles poderão ter a oportunidade de se apresentar para consumidores acostumados a comprar produtos importados. E não custa lembrar que o GPA é uma empresa francesa, e os franceses prestigiam seus agroprodutos de produção familiar que são parte genuína da cultura de sua cultura.

“Caras do Brasil” investe em produtos com identidade territorial

Estes produtos de terroir (como dizem os franceses) têm uma forte identidade cultural e territorial que será reforçada e protegida quando tiverem uma Identidade Geográfica - IG registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI. E vão ter que ter, cedo ou tarde, porque o Acordo Mercosul & União Europeia vai pressionar para que isso aconteça. IG é uma marca coletiva registrada que identifica, protege e valoriza produtos de um determinado território como Champanhe, Gruyére, Canastra, Bordeaux, Café do Cerrado Mineiro e outros que você conhece – e que só podem ser produzidos nestas regiões. Em sua esmagadora maioria são produzidos por famílias ou grupos comunitários no contexto da Agricultura Familiar. 

Como para muitos brasileiros a Agricultura Familiar é invisível ou desconhecida, lembro que no Brasil temos mais de 4 milhões de propriedades de agricultura familiar, com 22 milhões de pessoas dependendo dela. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, estas famílias produzem cerca de R$ 300 bilhões, 33% do PIB agropecuário, todos os anos. O destaque são os alimentos como 70% do feijão, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café, 21% do trigo, 60% da produção de leite, 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos. E atenção, meu caro leitor ou leitora, não estou falando do “grande” agribusiness, a atividade de exportar matérias-primas primárias como commodities, sem nenhum valor agregado, como soja, cacau, café, laranja, algodão, etc.
Então volto à pergunta: por que o Grupo Pão de Açucar, uma empresa francesa de grande porte está investindo em produtos locais e valores culturais comunitários brasileiros como se fosse uma pequena empresa da sua cidade?  Porque estariam “perdendo tempo” com produtores de pequeno porte? Porque vale a pena: o “Caras do Brasil” significa a oferta de produtos com um diferencial competitivo que nunca será alcançado pela concorrência, que é sua identidade única e exclusiva. Isso significa liderança. 

O Pão de Açúcar reconhece a importância destes valores. Segundo a empresa, “A cultura regional brasileira é riquíssima e está presente – além da gastronomia, das nossas músicas, artesanatos e atividades do dia a dia – também nos alimentos e sabores brasileiros. Cada região brasileira – com sua geografia distinta e características ambientais diversas – compõe um panorama diverso e com potencial incrível de descobertas de sabores, histórias e saberes. Em cada região brasileira, buscamos produtos que representem essa riqueza.” 

O Pão de Açucar compra os produtos para vender e ter lucro, é óbvio, mas na negociação pode incluir algum “incentivo socioeconômico para pequenos(as) produtores(as) sustentáveis de produtos que promovem a cultura local e geram valor para a comunidade.” Estes produtos que “promovem a cultura local e geram valor para a comunidade” são especialmente artigos de artesanato local e agroalimentos como frutas, geléias, queijos, doces, bebidas, farinhas e outros. Produtos que costumo chamar de Tesouros do Fundo do Quintal, porque estão próximos das pessoas mas muitos não os enxergam por miopia de marketing, falta de atenção ou preguiça mesmo - mas que lideranças empresariais como o Pão de Açucar estão vendo. Já produzi mais de 15 pequenos vídeos sobre isso, interessantes e divertidos, veja aqui: https://www.youtube.com/channel/UCc4c2FU6Z88_XU_2I2lFbmA   
Outras empresas que estão à frente valorizando a origem e a identidade de produtos são os cortes de frango Sadia Bio, da Série Origens, que oferecem rastreabilidade ao consumidor e os cafés de terroir Rituais Cafés Especiais, uma série premium da Três Corações, maior exportador brasileiro. Ambas são especialistas em agroalimentos commodities de exportação, mas estão criando estes produtos para agregar valor com a identidade territorial.
Espero em breve entrevistar algum profissional de marketing do PÃODE AÇUCAR sobre esta iniciativa do “Caras do Brasil” para poder informar quais os benefícios proporcionados para as mulheres Baniwa, e quais as dificuldades de fazer isso – que não deve ser poucas. A assessoria informou também que atualmente o Pão de Açucar tem uma página no blog da marca dedicado ao Programa, mas uma reformulação do site está em pauta para breve, com o detalhamento de ainda mais informações sobre os produtos, produtores e outros assuntos e temas relacionadas. Espero que sim. As fotos são do  Pão de Açúcar ou do Instituto Socioambiental – ISA.

Caso queira saber mais sobre o tema sugiro que leia meu livro “O valor global do produto local – A identidade territorial como estratégia de marketing”, publicado pela Editora Senac em abril/2019, o primeiro do Brasil sobre o tema. Veja em

Para saber mais sobre a importância de produtos com identidade territorial, acesse:


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Alimentos e bebidas com indicação geográfica valem € 75 bilhões para a agricultura familiar europeia, o valor de toda a agricultura brasileira.


Por Ana Soeiro, Managing Directora da QUALIFICA/ oriGIn PORTUGAL e Vice-Presidente do oriGIn para a Europa; Edição e comentários, Rogerio Ruschel 

Meu prezado leitor ou leitora, a Comissão Europeia divulgou dia 20 de abril de 2020, em Bruxelas, um relatório sobre o valor das Indicações Geográficas – IG para os países do bloco. Você sabe: IGs são registros de territórios que agregam valor aos produtos daquele território, porque criam diferenciais exclusivos e elevam os preços; por exemplo, Roquefort para queijos, Borgonha para vinhos. Os números são impressionantes: R$ 391 bilhões de Reais. Espero que este artigo ajude a incentivar ainda mais nossos podutores rurais e industriais a investirem em produtos com identificação de origem no Brasil que ainda são muito poucos, e nada se sabe sobre eles. Ana Soeiro, Vice-presidente da OriGin para a Europa, fez a tradução para o Português, veja a seguir.
“Os produtos agro-alimentares e as bebidas cujos nomes estão protegidos pela União Europeia como “Indicações Geográficas” (IG) representam um valor de vendas de 74,76 bilhões de euros, de acordo com um estudo publicado hoje (20/04/2020) pela Comissão Europeia. Mais de um quinto desse valor resulta de exportações para fora da União Europeia. O estudo constatou que o valor de venda de um produto com um nome protegido é, em média, o dobro do valor de produtos similares sem a qualificação. (Na imagem de abertura você vê os valores de categorias de produtos).
Janusz Wojciechowski, Comissário para a Agricultura da União Europeia: “As indicações geográficas protegem o valor local a nível global”.
O Comissário para a Agricultura, Janusz Wojciechowski, disse: “As indicações geográficas europeias reflectem a riqueza e a diversidade de produtos que o nosso sector agrícola tem para oferecer. Os benefícios para os produtores são claros. Eles podem vender produtos de maior valor para consumidores que procuram produtos regionais autênticos. As IGs são um aspecto essencial dos nossos acordos comerciais. Ao proteger produtos em todo o mundo, impedimos o uso fraudulento de nomes de produtos, preservamos a boa reputação dos produtos agro-alimentares e das bebidas europeus. As indicações geográficas protegem o valor local a nível global”.
Os alimentos europeus são famosos por serem seguros, nutritivos e de alta qualidade. Os métodos tradicionais de produção contribuem para o objectivo da UE de se tornar também o padrão global de sustentabilidade na produção de alimentos.
Os sistemas de qualidade da UE visam proteger os nomes de produtos específicos para promover as suas características únicas, vinculadas à sua origem geográfica e ao saber fazer incorporado na região. Esses nomes de produtos fazem parte do sistema da UE de direitos de propriedade intelectual, protegendo-os legalmente contra imitações e uso indevido. Os nomes dos produtos agro-alimentares e dos vinhos são protegidos como Denominação de Origem Protegida (DOP) ou como Indicação Geográfica Protegida (IGP) e os das bebidas espirituosas como Indicações Geográficas (IG). A União Europeia também protege as Especialidades Tradicionais Garantidas (ETG), destacando os aspectos tradicionais de um produto sem estar vinculado a uma área geográfica específica. O valor de venda das ETG dos e produtos agrícolas e dos géneros alimentícios atinge 2,3 biliões de Euros.
O estudo baseou-se em todos os 3.207 nomes de produtos protegidos nos 28 Estados-Membros da UE no final de 2017 (até ao final de Março de 2020, o número total de nomes protegidos aumentou para 3.322). Conclui-se que o valor de venda de um produto com um nome protegido é, em média, o dobro do valor de produtos similares sem qualquer qualificação.
Segundo o estudo, há um claro benefício económico para os produtores em termos de marketing e de aumento de vendas, graças à alta qualidade e reputação desses produtos e à disposição dos consumidores em pagar para obter o produto autêntico.
As principais conclusões do estudo são:
- Valor de vendas significativo : as indicações geográficas e as especialidades tradicionais garantidas, em conjunto, representaram um valor estimado de vendas de 77,15 bilhões de euros em 2017 correspondendo a 7% do valor total de vendas do sector europeu de alimentos e bebidas estimado em 1.101 bilhões de euros em 2017. Os vinhos representaram mais da metade desse valor (39,4 bilhões de euros), os produtos agrícolas e os géneros alimentícios 35% (27,34 bilhões de euros) e as bebidas espirituosas 13% (10,35 biliões de euros). Dos 3.207 nomes de produtos que estavam registados em 2017 (entre IGs e ETGs), 49% eram vinhos, 43% produtos agro-alimentares e 8% bebidas espirituosas.
- Valor de vendas mais alto para produtos com nomes protegidos: o valor de venda dos produtos cobertos pelo estudo foi, em média, o dobro do valor de venda de produtos similares sem qualificação. A taxa de valor acrescentado foi de 2,85 para vinhos, 2,52 para bebidas espirituosas e 1,5 para produtos agrícolas e géneros alimentícios.
- Uma verdadeira política europeia: cada país da UE produz produtos cujos nomes são protegidos a nível da UE e que servem como porta-estandartes para o património culinário tradicional das regiões e como motores económicos para o sector agro-alimentar nacional.
- Exportações de produtos com indicações geográficas: as indicações geográficas representam 15,5% do total das exportações agro-alimentares da UE. Os vinhos continuaram a ser o produto mais importante em termos de valor total de vendas (51%) e do comércio extra-UE (50%). Os EUA, a China e Singapura são os primeiros destinos para produtos com IG da UE, representando metade do valor de exportação de produtos com IG.
- Para garantir que a política de qualidade da UE continua cumprindo da melhor forma possível, foi lançada uma consulta pública on-line, entre 4 de Novembro de 2019 e 3 de Fevereiro de 2020 para obter feedback das partes interessadas sobre a política de Propriedade Intelectual. Entre as principais conclusões, a maioria dos entrevistados concordou que os sistemas de qualidade da UE beneficiam produtores e consumidores. O relatório "resumo factual" fornece uma visão detalhada dos comentários recebidos da consulta pública.
Cenário de fundo
As Denominações de Origem Protegidas (DOP), as Indicações Geográficas Protegidas (IGP) e as Indicações Geográficas (IG) para bebidas espirituosas garantem aos consumidores que os produtos em questão são genuinamente produzidos na sua região de origem específica, usando o saber-fazer e as técnicas incorporadas na região. A principal diferença entre a DOP e a IGP está relacionada com as quantidades de matéria-prima proveniente da área ou quais as fases do processo de produção que devem ocorrer na região específica. As indicações geográficas famosas incluem, por exemplo, Bayerisches Bier, Champanhe, Irish, Whiskey, Azeitonas Kalamata, Parmigiano Reggiano, Vodka Polaco, Queso Manchego, Roquefort.
A especialidade tradicional garantida (ETG), por outro lado, destaca os aspectos tradicionais, como o método de produção tradicional ou a composição tradicional, sem estar vinculado a uma área geográfica específica. Exemplos de ETG famosas são o Bacalhau de cura tradicional portuguesa, Amatriciana tradizionale, Hollandse maatjesharing e Kriek.
A UE concluiu mais de 30 acordos internacionais que permitem o reconhecimento de muitas indicações geográficas da UE fora da UE e o reconhecimento de indicações geográficas de fora da UE na UE. As indicações geográficas desempenham um papel cada vez mais importante nas negociações comerciais entre a UE e outros países. A Comissão também dedica cerca de 50 milhões de euros por ano para promover produtos de qualidade na UE e no mundo. 
Para saber mais fale comigo rruschel@uol.com.br.
Veja a entrevista que Ana Soeiro concedeu ao In Vino Viajas em novembro de 2019: http://www.invinoviajas.com/2019/11/o-brasil-tera-que/
Conheça Tesouros no Fundo do Quintal, o primeiro web-canal sobre IGs http://www.invinoviajas.com/2019/12/chegou-tesouros-no-fundo-do-quintal/

Conheça o idioma Talian, a herança mais definitiva da imigracão italiana no Brasil


Prezado amigo ou amiga.
Este vídeo vai surpreender você. 
Você vai conhecer o Talian, um idioma único no mundo, patrimônio brasileiro e universal, a língua secreta dos imigrantes italianos no Brasil!







segunda-feira, 13 de abril de 2020

A evolução do Chianti: da tradição do século XII ao prestígio internacional no século XXI

Por Decanter, editado e comentado por Rogerio Ruschel
Meu caro amigo ou amiga, durante a Idade Média, Florença foi a mais poderosa das cidades italianas e epicentro da produção comercial de vinhos – e também das artes e da cultura, como sabemos. No século 14, a República Florentina identificou as colinas entre Florença e Siena como Chianti. Chianti foi a primeira área vinícola delimitada, quando em 1716 o Grão-Duque Cosimo III de Médici criou o que se acredita ser a primeira legislação que rege a produção de vinho no mundo.
Na década de 1870, a Barone Ricasoli (da família que produz Chianti desde  1141, quando adquiriu o lendário Castello di Brolio, onde atualmente produz Chianti Clássico) reduziu a fórmula de Chianti ao blend de três variedades da Toscana: Sangiovese por seus aromas; Canaiolo por seus frutos para equilibrar a acidez do Sangiovese e Malvasía para dar frescura. No século 20, uma série de eventos infelizes ocorreu em Chianti. Primeiro, em 1932, a zona original (agora conhecida como zona clássica) se expandiu para incluir grandes partes do centro da Toscana; então, em 1967, a fórmula de Ricasoli se tornou uma doutrina anárquica que permitiu misturar até 30% das variedades brancas. Veja no mapa acima. 


Finalmente, o êxodo em massa iniciado na década de 1950 do interior da Toscana levou ao governo italiano e ao financiamento do replantio em larga escala das vinhas da Toscana, com foco na produção em massa em detrimento da qualidade do vinho da Toscana.
Por causa destas mudanças, o Chianti não é o vinho que costumava ser. Passou por mudanças mais profundas nos últimos 30 anos do que qualquer outro vinho da Itália, e agora o Chianti Clássico é uma zona de vinho tinto de classe mundial. Em 1984, Chianti e Chianti Clasico foram atualizadas como denominações de origem DOCG, ajustando a fórmula com um mínimo de apenas 2% das variedades brancas e permitindo variedades estrangeiras como Cabernet Sauvignon e Merlot.
Em 1996, ocorreu outra mudança importante: um decreto eliminou o uso de uvas brancas e reduziu o uso de variedades estrangeiras em até 15%. Os rendimentos foram restritos e novas tecnologias foram implementadas nas adegas, como temperatura controlada em aço inoxidável e envelhecimento em barris menores, em vez dos grandes recipientes denominados botti. A área de Chianti Clássico foi restrita aos 7000 hectares originais, com rendimentos mais baixos e um mínimo de 80% de Sangiovese na composição dos vinhos. (Nota do editor: A tradição de Chianti diz que os vinhos locais são envelhecidos em botti, grandes recipientes de madeira. Os Chianti Clássico Riserva devem passar por pelo menos 24 meses de envelhecimento, sendo apenas três em garrafa. Já a recente classificação Chianti Clássico Gran Selezione prevê período de envelhecimento de 30 meses, com também três meses em garrafa.)


Com a chegada do novo século, a região de Chianti foi confrontada com uma maior concorrência de vizinhos poderosos, entre os quais o Brunello di Montalcino se destacou, e mais uma vez se levantou e começou a tomar uma série de medidas importantes para modificar e exaltar ainda mais sua categoria máxima de Chianti Clássico. O objetivo por trás desse movimento era remodelar a pirâmide de qualidade da denominação e dar a seus vinhos de primeira classe uma maior identidade territorial. (Nota do editor: Nos últimos anos, como registramos acima, tem havido um esforço para recolocar a região de Chianti Clássico no lugar de onde nunca deveria ter saído e a criação da categoria Gran Selezione faz parte dessa intenção; atualmente os melhores exemplares da zona tem qualidade equivalente aos vizinhos e rivais Brunello.)
Como consequência, uma nova categoria dentro do Chianti Clássico além da Chainti Clássico Riserva foi decretada em 2014, naquele ano nasceu o Chianti Clássico Gran Selezione, que foi desenvolvido para fazer referência a vinhos de qualidade superior. A nova designação exige que os melhores vinhos da região sejam feitos com uvas inteiramente de seus próprios vinhedos e entrem no mercado com pelo menos 30 meses de maturação em barricas de carvalho.
Hoje, o Chianti não é mais o vinho simples e desestruturado do passado.
Conheça a história do galo símbolo do Chianti: http://www.invinoviajas.com/2014/08/o-galo-negro-do-chianti-Clássico-agora/





sábado, 4 de abril de 2020

Aurora 2015, uma raridade na mesa: um Cabernet Franc muito distinto, com alma francesa e passaporte libanês

Por Rogerio Ruschel

Meu prezado amigo ou amiga, semana passada ganhei um simpático presente do Marcelo Saraiva, um importador de vinhos que vem fazendo um trabalho valioso para os que gostam de exercer o livre arbítrio no mundo do vinho. Ele visita, prova e escolhe rótulos de adegas pequenas e dedicadas de países com tradição vinícola mas fora do convencional. 

Faz isso há 15 anos, mas abriu a importadora no ano passado. Deu a ela o nome Distintos Wines (não poderia ter outro nome, concordo!!!) e os vinhos são escolhidos na Áustria, Bulgária, Turquia, Grécia, Eslovênia e Romenia, entre outras fontes. Marcelo pediu minha opinião sobre dois tintos: um Cabernet Franc 2015 da Aurora, uma empresa familiar do Líbano, e um Plavac 2015 da Vina Caric, da Croácia. Pois provei o libanês no fim-de-semana – e estou com saudades até agora… 

O Cabernet Franc 2015 da Aurora é uma dupla raridade: pela origem (é um vinho da Vila Aoura, de altitude média nas montanhas Batroun, do Líbano) e por ser 100% Cabernet Franc, uma uva usada geralmente para fazer cortes em Bordeux (de onde teóricamente é originária) e em outros países, e muito importante na região do vale do Loire, onde foi introduzida no século XVII se transformando na principal uva tinta. 

O vinho que provei é produzido em escala reduzida (1.500 garrafas/ano), em terras de solo argiloso, com colheita difícil, feita à mão, na segunda semana de setembro nos 2,5 hectares rodeados por oliveiras e carvalhos, da familia Gearas (foto acima). Foi envelhecido por 12 meses de em barris de carvalho, dos quais 30% em barris novos, e tem recomendação para guarda de 5 anos. Custa R$ 298,39.


Nestes tempos de quarentena fui com muuuuuita calma. Decantei por 60 minutos beliscando queijinhos e depois degustei-o com carne vermelha feita na panela com alecrim, sal, alho, brócolis, alguma pimento bem light com complemento de cenoura e mandioquinha feitas no vapor. Trata-se de um vinho cor vermelho vivo, estruturado (e por isso suave e macio), encorpado na medida, com evidentes frutas vermelhas e uma memória de caramelo. Na ficha do importador consta final com menta, mas não senti tanta menta assim. Mas a permanência, o retrogosto, esse sim, foi um espetáculo: chamo isso de um vinho feliz que permanece quase um minuto alegrando a boca... Para terminar, a sobremesa foi pêra – uma pêra portuguesa doce, sumarenta, deliciosa.

Os vinhos do Líbano são pouco conhecidos até porque a produção é pequena (os muçulmanos, cerca de 60% da população, não bebem álcool) e nos últimos 50 anos o território esteve conflagrado políticamente. Mas esta região produz vinhos que são dispersados pelo mundo há séculos. A própria cidade de Batroun, que fica no litoral a cerca de 50 Kms da capital Libano, resistiu por séculos a invasões de gregos, romanos, muçulmanos, cruzados, otomanos e franceses – e vem recepcionando turistas com tantas atrações que foi incluído como um dos 10 lugares para se visitar em 2020 pela rede de TV CNN. 

Para quem não lembra, o Líbano é um pequeno país na Ásia Ocidental espremido entre o Mar Mediterrâneo, a Siria e Israel. Com um território de 10.452 km², foi o lar dos fenícios, povo semita conhecido por sua cultura maritima e imagem de excepcionais comerciantes, que entre os anos 2700 e 450 a.C levaram seus produtos para todos os cantos do mundo. Vinho certamente era um deles, para beber, vender, trocar. Pois agora você pode provar uma destas heranças libanesas selecionadas por um importador que preza o estilo de vida – e adora falar de vinhos e viagens - sem ter que atravessar metade do planeta e subir as montanhas salinizadas de Batroun. Bebo a isso.
 
Veja mais aqui: https://www.distintoswine.com.br/ - (11) 99550-5426