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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Festas do vinho – enoturismo interativo e delicioso



Rogerio Ruschel (*)
Sou jornalista de turismo há mais de 20 anos e sempre dou um jeito de somar o interesse turístico com a possibilidade de experimentar e aprender mais sobre vinhos. Pratico enoturismo.
 
Mas enoturismo é mais do que uma viagem para beber vinho. O enoturismo de qualidade deve oferecer encantamento ao turista pelas paisagens e imersão na cultura da comunidade visitada através de folhetos, livros, catálogos, posteres, pequenos museus, música ambiente, artigos relacionados ao vinho para o turista comprar como lembrança e muitos outros.
 
Serviços ligados às necessidades do turista como alimentação e hospedagem devem também ser tratadas como oportunidades para criar uma atmosfera de experiências positivas para o turista. Assim, comer significa experimentar os alimentos, doces, azeites, temperos, condimentos, hábitos alimentares da gastronomia típica – e dormir deve significar ter recursos hotelaria com mobiliário, colchões, cobertas, mimos no quarto e outros equipamentos que traduzam o ambiente rural onde o vinho está sendo produzido.
 
Indo mais além, o enoturismo deve envolver o visitante na cultura e até no idioma da comunidade produtora e transformar-se em uma experiência para os cinco sentidos. Em muitos locais – na Itália, Portugal, Espanha, Alemanha e França e na serra gaúcha – o turista pode participar das atividades de trabalho do ciclo produtivo do vinho, como por exemplo na colheita, ajudando no corte, transporte, armazenamento e até mesmo na brincadeira de amassar as uvas com os pés.
 
Enoturismo de qualidade não é muito comum no Brasil e a importância do enoturismo só agora está sendo percebida pelas vinícolas brasileiras, como fator gerador de receita imediata e futura. Mas vai mais além da venda produtos, como Adriano Miolo, de tradicional família produtora de vinhos na serra gaúcha reconhece: “O turismo do vinho é uma das mais eficazes ferramentas de transformação da imagem do vinho brasileiro. O visitante vem, conhece, degusta, pergunta. Interage com o produto, vê paisagem, o cuidado, entende como é elaborado. Se sente orgulhoso, orgulho de ser brasileiro e se surpreende. É tocado para sempre.” Um exemplo: onde mais uma pessoa poderia ver esta carroça carregada de garrafas de vinho chianti Ruffino, abaixo? Só em uma festa na Toscana.
 
Nas regiões vinícolas mais desenvolvidas o enoturismo é promovido nas festas da colheita (em setembro na Europa e fevereiro no Brasil) ou religiosas, que variam de comunidade para comunidade. Conheça algumas delas a seguir.
Fête des Vendanges (Clos Montmartre, Paris, França) - veja um post especial sobre isso aqui no In Vino Viajas



Ban des Vendanges (Saint-Émilion, Bordeaux, França)
Os membros do Jurade de St Emilion – a grande confraria do pequeno vilarejo da região de Bordeaux - fazem uma procissão com suas vestes no final do verão europeu, como parte de um festival que prepara a vila para a próxima safra. Conheça Saint Emillion em outro post aqui no In Vino Viajas.
 
Mostra del Chianti (Montespertoli, Toscana, Itália)
Uma celebração em honra dos Chianti é realizada na cidade de Montespertoli, na Toscana, no final do mes de maio, com desfiles temáticos, música, comida e muito vinho Chianti.
 
Haro Fiesta del Vino (Rioja, Espanha)
A Fiesta del Vino da cidade de Haro, em La Rioja, Espanha, em 29 de junho, é conhecida porque as pessoas se lambuzam com guerra de vinho. Moradores e turistas, vestidos com camisas brancas, enchem baldes com vinho La Rioja e comemoram a festa de São Pedro.  
 
Bordeaux Fête Le Vin (Bordeaux, França)
No final de junho, a cidade de Bordeaux comemora um enorme festival de vinho nas margens do rio Garonne, que divide a cidade e exporta parte da produção de vinho para todo o mundo. São quatro dias de festa dedicados ao vinho, à gastronomia e à cultura. Em breve você encontrar vários posts sobre Bordeuax aqui no In Vino Viajas.
 
(*) Rogerio Ruschel rruschel@uol.com.br - é jornalista de turismo, enófilo e consultor especializado em sustentabilidade e gosta muito de festas do vinho.







quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bordeaux: capital do vinho e maior patrimônio urbano protegido pela Unesco


Por Rogerio Ruschel (*)
Segundo uma pesquisa divulgada no segundo dia em que eu estava em Bordeaux, 26 de abril de 2013, a cidade (com 36% dos votos) é a segunda cidade grande mais querida do país na opinião dos próprios franceses; só perde para Paris (com 52% de preferência), mas ganha das cidades de Toulouse (33%), Montpellier (31%) e Lyon (30%) todas muito encantadoras. 
 
Para comemorar fui obrigado a compartilhar com a família do proprietário e outros hóspedes do hotel, algumas garrafas de um Bordeaux Superior. Aliás, este é um dos traços mais marcante de Bordeaux: é uma cidade que parece estar sempre comemorando alguma coisa.
Segundo me disseram no Departamento de Turismo (aliás, com ótimo atendimento) outras pesquisas informam que Bordeaux é a cidade de grande porte que oferece a melhor qualidade de vida no país – o que seria outra razão permanente para este espírito comemorativo. E olha que eles não tem problemas para escolher o vinho nas comemorações, não?
  Interior do Grande Teatro
Mas nem sempre foi assim. Bordeaux faz sucesso hoje, mas teve que se reinventar. Recentemente, nos anos iniciais da década de 2000 a cidade passou por uma das mais importantes revitalizações urbanas que se tem noticia. 
 
Os prédios do centro histórico que estavam degradados foram limpos e recuperados; automóveis foram explulsos das áreas centrais (mas a cidade oferece transporte civilizado); bulevares foram criados, estátuas foram revitalizadas e praças foram remodeladas. Tudo em grande quantidade: avenidas largas, prédios enormes, praças espaçosas. 
 
Atrações interessantes foram criadas, como o Miroir D’Eau (abaixo), um enorme espelho d’água que refresca as pessoas com névoas refrescantes ou jatos de água de até dois metros de altura em frente a Place de La Bourse, Saint Pierre, que atrai crianças e adultos.

O resultado do investimento foi imediato: quase metade da cidade - 1.808 hectares ou 18 quilometros quadrados! - foi tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 2007. Trata-se do maior conjunto urbano protegido do mundo cercado pela mais importante região produtora de vinho do mundo. O tombamento inclui cerca de 350 construções do século XVIII, entre os quais as igrejas Saint-André, Saint-Michel e Saint-Seurin.

Caminhar pela cidade é uma delícia. Entre as atrações estão ruas antsigas (como a Sainte-Catherine) e bairros como Saint-Michel, com ruas estreitas e mágicas e Chartrons, com os antiquários e seus "brocanteurs"; os prédios do Grande Teatro, sede da Ópera e do Balé Nacional de Bordeaux na Place de La Comédie, onde está também o Grand Hotel de Bordeaux e Spa.
Interior do Grande Teatro
 
Também foram tombados o Palácio Rohan e o Palácio da Bolsa; a esplanada das Quinconces, a mais larga praça da Europa, impressionamemente bem no centro da cidade e os Quais, as esplanadas na beira do rio Garonne.
 
Em todo o lugar existem monumentos bonitos, praças iluminadas, avenidas largas como promenades, jardins e locais para passeios, passarelas, ciclovias e bares simpáticos. 
O rio Garonne – não poluido, evidentemente - participa da vida dos habitantes de Bordeaux e é usado como recurso econômico (com o cais do porto), mas também como um lugar privilegiado para o lazer com as margens remodeladas e cercadas por praças, onde os moradores se divertem e os turistas relaxam.

Em termos economicos Bordeaux já era importante desde os tempos romanos por causa de seu porto que exporta muitas mercadorias e especialmente vinhos, mas importa mercadorias e turistas para a França: a cidade é a segunda parada dos cruzeiros na costa atlântica francesa que ancoram quase no centro da cidade, em frente à Place de la Bourse.

Bordeaux não tem nem um décimo do patrimônio cultural de Florença; não tem os jardins charmosos e surpresas arquitetônicas de Paris; não tem tantos museus quanto Berlim; não tem a importância histórica de Roma e não é encantadora como Praga ou Siena ou surpreendente como Genebra. Acho que grande parte do turismo, do movimento em hotéis e nas ruas ainda é ligado às atividades do vinho, e não à cidade em si.
Mas isso não é um problema – é uma oportunidade, um espaço que a cidade tem para crescer. Não sei se Bordeaux é mesmo a cidade mais simpática da França, como os bordoléus e as pesquisas afirmam, mas é bonita, tem os melhores vinhos do mundo, preços razoáveis e um sensacional sistema de transporte público para turistas, com tramways e onibus que qualquer um entende e pode utilizar. 

Em outros posts vamos falar sobre a gastronomia, os vinhedos e evidentemente, os vinhos de Bordeaux.

Um brinde a isso, caro leitor.
 
(*) Rogerio Ruschel rruschel@uol.com.br - é jornalista de turismo e consultor especializado em sustentabilidade; foi a Bordeaux por conta própria, e porisso escreve com independência.










segunda-feira, 3 de junho de 2013

A art noveau nas ruas de Praga: a arquitetura kafkafiana

 
Por Rogerio Ruschel (*)

Praga tem uma arquitetura que considero kafkafiana: confusa, criativa, inventiva, assim como o escritor nascido em Praga – o que você vai ver nas fotos de fachadas e prédios deste post, como abaixo.
 
Praga é realmente uma cidade muito interessante. É diferente de outras cidades européias pela história, cultura, idioma, arquitetura - pela cor. 
 
Paris é esverdeada por causa dos parques e bronzes urbanos; Roma é escurecida pelo tempo; muitas cidades francesas como Bordeaux e Saint Emillion e cidades espanholas tem cor de argila (que é ótimo para o terroir dos vinhedos) veja abaixo, visual de Sanit-Emillion; as cidades suiças são brancas ou azuis e muitas cidades italianas tem a cor dos mármores que utilizam – tipo assim cor de Duomo... 
 
Mas Praga é avermelhada (veja a foto abaixo), talvez por causa dos telhados das casas, mas também porque me parece que os tchecos gostam de cores vibrantes.
 
Praga é criativa, colorida, simpática, fácil de se locomover, não é hostil ao turista – desde que você consiga se comunicar falando ingles ou tcheco. Mas acho que o traço mais marcante de Praga é sua “cara art-noveau”: a cidade inteira é surpreendente, como nas fotos abaixo.



  O Art Nouveau é um estilo de arte, arquitetura, mobiliário e arte aplicada que se tornou muito popular entre o fim do século XIX e o começo do século XX. Veja esta porta gigantesca, abaixo, comigo e minha mulher como referências.
 
Talvez o grande influenciador do estilo tenha sido o artista tcheco Alphonse Mucha, quando em janeiro de 1895 produziu um pôster de propaganda para a peça Gismonda com Sarah Bernhardt, que apareceu nas ruas de Paris - veja abaixo.
 
O poster popularizou um novo estilo artístico, inicialmente denominado Style Mucha e logo conhecido como Art Nouveau, que em francês significa “arte nova”. 

Trata-se de um estilo inspirado por formas e estruturas naturais, flores e plantas, linhas curvas e ambiente natural. Isto é o que a História da Arte ensina, mas pessoalmente acho que a Art Nouveau se trata de uma manifestação antecipada do que veríamos muitas décadas depois, nos anos 1960: uma arte psicodélica sem saber disso, hippie sem artistas “bicho-grilo”, “chapada”, mas não de LSD, talvez de absinto - que, aliás, você encontra com grande facilidade em Praga.
 
A Art Nouveau foi mais popular na Europa, mas sua influencia foi global.  O estilo ficou conhecido como Jugendstil, na Alemanha (“estilo da juventude”), Arte Moderna na Rússia, arte Secessão na Áustria-Hungria e como Stile Liberty na Itália. Foi amplamente adotado na propaganda, como se vê nos cartazes abaixo, de Theóphile Steilein, Manuel Orazie e Mucha.

Art Nouveau também era o estilo de artistas e intelectuais como Gustav Klimt, Charles Rennie Mackintosh, René Lalique, Antoni Gaudi (como na Casa Batló, em Barcelona, abaixo) e Louis Comfort Tiffany, cada um dos quais interpretou o estilo de sua própria maneira. 

Mas a grande estrela certamente foi Alphonse Mucha (retratado abaixo), e a cidade mais art-noveau do mundo é Praga. Um brinde a isso, caro leitor.
 

Em outro post você pode ver como a art noveau se apresenta nas obras de arte urbanas de Praga. Acesse


(*) Rogerio Ruschel rruschel@uol.com.br - é jornalista de turismo e consultor especializado em sustentabilidade e foi a Praga por conta dele mesmo.