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terça-feira, 26 de maio de 2015

Conheça Madame do Vinho, a sommeliére que pesquisa vinhos nas estradas de terra do Brasil e os leva aos grandes salões de degustação


Por Rogerio Ruschel (*)

Prezado leitor ou leitora. Sonia Denicol é uma sommelière que desenvolve um trabalho de pesquisa, divulgação e venda de vinhos brasileiros de identidade, através da marca Madame do Vinho. Baseada em São Paulo, Sonia viaja por regiões escondidas em todo o pais para pesquisar novos produtos, e divulga as melhores descobertas em seu blog e quando atua como jurada em degustações. Se você que está lendo isso não mora no Brasil, saiba que esse é um trabalho muito difícil porque o país é muito grande e o preconceito contra o vinho brasileiro é muito forte. Mas é um trabalho importantíssimo que respeito muito e por isso pedi que Denicol, entre uma e outra viagem respondesse algumas perguntas para que eu pudesse te apresentar a Madame do Vinho. Na foto acima, de Nadia Jung, a Madame e o vinho, e na foto abaixo, alguns destes vinhos brasileiros pouco conhecidos – por enquanto.


R. Ruschel: Qual é a tua formação, o teu trabalho, desde quando e como você faz?
S. Denicol: Sou filha de gaúchos, aprendi a gostar de vinhos desde menina com a minha família. E aí, quando eu passei por uma fase de mudança de carreira, resolvi transformar a paixão que eu tinha pelo vinho em trabalho. A ideia surgiu em 2013 e o projeto começou efetivamente em 2014, justamente com os vinhos brasileiros, com os quais eu já tinha familiaridade e um contato mais facilitado com os produtores. Criei então a marca Madame do Vinho e através dela iniciei um trabalho de vendas diretas ao consumidor final, aproveitando o network que eu já tinha estabelecido no meu trabalho anterior.
Optei pelos vinhos de pequenos produtores, primeiro porque eram produtos que me davam uma vantagem de exclusividade em relação a lojas e supermercados. Segundo porque já naquela época eu comecei a perceber que, por serem produções pequenas e mais artesanais, mostravam uma qualidade incrível e uma identidade bem brasileira. Aí eu me encantei por eles e não parei mais! Ao mesmo tempo em que eu desenvolvia o projeto, fui buscar uma formação, como os cursos de Sommelier do Senac e a certificação do Wine & Spirits Education Trust (WSET). Mas com certeza os maiores aprendizados vieram das viagens para visitar produtores. Não há melhor aprendizado do que conhecer a produção de vinho “in loco”! Hoje o trabalho é bem simples: eu envio a seleção de vinhos por e-mail para os clientes. Eles fazem os pedidos por e-mail mesmo ou por telefone. Em São Paulo eu faço as entregas pessoalmente. Para outras localidades o envio é por transportadora. E para ampliar a carteira de clientes, todo lugar ou momento pode ser uma boa oportunidade de fazer novos contatos: uma feira, um evento de degustação, uma festa, indicações de amigos e por aí vai.

R. Ruschel: Voce trabalha só com vinhos brasileiros? Porque? Dá para comparar com produtos estrangeiros?
S. Denicol:
Sim, só trabalho com vinhos brasileiros por acreditar que eles são tão bons quanto qualquer outro vinho do mundo. Ao contrário de outros países, o consumidor brasileiro desconhece o que é produzido em seu próprio país, seja por falta de informação ou por puro preconceito. Então eu também abracei a missão de divulgar e quebrar paradigmas.
No passado tínhamos uma produção de qualidade inferior e essa imagem ainda hoje gera preconceito e rejeição ao produto nacional. Porém, a partir da década de 90, houve uma evolução incrível. Os produtores fizeram a lição de casa, foram buscar o aprimoramento da produção, do vinhedo a vinícola, equiparando os padrões de qualidade aos da produção mundial. Neste ponto podemos sim comparar os vinhos brasileiros aos estrangeiros, são tão bons quanto. Porém eu considero importante destacar que estas comparações nunca podem perder de vista o estilo dos vinhos de cada região e de cada país. (Na foto abaixo, alguns dos vinhos da vinícola Atelier Tormentas, em foto do blog de Flavio Henrique).

Apesar do Brasil estar geográfica e históricamente inserido no chamado Novo Mundo do vinho, seu estilo tem muito mais a ver com o do Velho Mundo. As condições de solo e clima das regiões produtoras brasileiras geram vinhos menos potentes porém mais elegantes, com teor de álcool mais moderado, maior acidez e frescor. Já os vinhos do Novo Mundo são mais encorpados e potentes, tem teor de álcool mais elevado e menos frescor. Alguns críticos e especialistas, com nítida preferência pelo estilo Novo Mundo, acabaram por determinar este padrão como referência de vinhos de qualidade. Então muitos consumidores que seguem a linha destes críticos e gostam do estilo, julgam os vinhos brasileiros, assim como outros neste estilo, como ruins e de baixa qualidade, o que não é verdade. É apenas uma questão de preferência de paladar, mas não de falta de qualidade. Inclusive é bom ficar atento, porque este padrão vem mudando na Europa, há uma tendência para vinhos menos alcoólicos e com mais frescor. Será que aí os vinhos brasileiros vão entrar na moda? (Garagem criativa: na foto abaixo alguns dos badalados vinhos de Eduardo Zencker apresentados no blog de Lis Cereja – ambos naturebas de carteirinha).
 
R. Ruschel: Qual o perfil dos produtores que voce revende, representa? Comente um pouco como eles vivem, trabalham, as familias, o ambiente  onde produzem.
S. Denicol: Os pequenos produtores com os quais eu trabalho tem uma proposta de produção mais artesanal, com cultivo sustentável e mínima intervenção nas elaborações. Mas o traço comum mais importante entre todos eles é a busca por produzir vinhos com identidade bem brasileira, que realmente expressem a relação entre variedade da uva, lugar de origem, cultura local e a filosofia de seu produtor, muito mais do que atender a padrões de mercado. A vida de todo produtor de vinhos é de muito trabalho e também de muita tensão, sobretudo quando o clima de chuvas intensas, geadas e granizo ameaçam destruir a produção de um ano inteiro. Diferentemente das grandes vinícolas, onde há toda uma equipe de agrônomos e enólogos encarregados da produção da uva ao vinho, o pequeno produtor tem uma relação muito mais próxima com a terra, com as uvas e com todas as etapas do trabalho, do campo até a vinícola. E quase sempre toda a famíllia se envolve também. (É o caso do vinho de Lizete Vicari, produzido no litoral de Santa Catarina, na foto abaixo).

Muitas vezes a vinícola, ou a cantina, como eles costumam chamar o ambiente de produção lá no sul, é na própria casa, no porão, na garagem ou em construções anexas a casa, muitas delas mantendo as antigas estruturas de pedra e madeira construídas pelos primeiros imigrantes. E há sempre um projeto futuro, de construir o lugar ideal, de produzir um vinho especial que idealizam e até mesmo de chegarem a produções orgânicas. É uma relação muito apaixonada com o vinho. É um negócio do qual eles dependem para viver, mas tem algo mais, tem um amor e também uma generosidade imensa em receber que vem do prazer e do orgulho de partilhar o vinho que fazem. E aí muitas vezes você se vê sentado a mesa partilhando de uma refeição com toda a família. Essa é sem dúvida a experiência mais profunda, prazerosa e emocionante do vinho. E quantas vezes eu já chorei!
R. Ruschel: Como você trabalha com os produtores? Onde os descobre? Como avalia o produto deles?
S. Denicol: Eu estou o tempo todo pesquisando, estudando as regiões e a história, e fazendo contatos para descobrir onde se produz bom vinho pelo Brasil! Normalmente pela internet eu descubro a maioria dos produtores. As vezes é por indicação, durante uma viagem, quando alguém me recomenda um pequeno produtor, daqueles que ficam escondidos porque não tem nenhuma placa de sinalização para chegar até ele. Então basta um pequeno desvio na rota para encontrar algo surpreendente. Aí quando eu me deparo com uma destas preciosidades eu vou logo conversar com o produtor, quero saber tudo, qual é a sua história, como é o lugar onde produz, o seu jeito de ver e fazer o vinho. E quando se encaixa no perfil que eu procuro, então formamos uma parceria, que é bem simples, um acordo comercial para vender os vinhos diretamente ao consumidor final. É uma ponte entre o produtor e os consumidores, para fazer chegar até eles vinhos incríveis e desconhecidos, que dificilmente se encontram no mercado em geral. (Veja abaixo um mapeamento da Embrapa que já inclui regiões emergentes na produção vinícola). 

Para avaliar os vinhos eu considero o conjunto do trabalho do produtor e o resultado na taça, se o vinho é bem feito e se tem um equilíbrio bom e agradável de cor, aromas e paladar, se ele me encanta, se dá prazer de beber e sobretudo se ele me diz: “eu sou do Brasil”! O meu interesse aumenta ainda mais quando vejo apostas em variedades sabidamente bem adaptadas no Brasil, apesar de não serem comercialmente tão valorizadas, como Riesling Itálico, Peverella (veja abaixo) e Moscatos entre as brancas, e Cabernet Franc, Teroldego, Marselan, Ancellotta, Barbera e Sangiovese entre as tintas. Algumas destas variedades fizeram bons vinhos, muito consumidos até a década de 80, mas que acabaram sendo substituídas por Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay, com maior demanda de mercado. Há vinhos incríveis elaborados hoje com estas variedades por pequenos produtores e que eu aposto no grande potencial que elas tem para revelar vinhos bem brasileiros, com a qualidade que a gente espera dos bons vinhos. (Abaixo, o Era dos Ventos Peverella em foto de Pedro Mello e Souza)

R. Ruschel: Você pode destacar algumas marcas ou produtores?
S. Denicol: Nossa, são tantos e tão bons! Mas eu gostaria de destacar dois em especial: o meu primeiro parceiro de trabalho, um dos pioneiros no Brasil de produções mais artesanais, mais autênticos e naturais, que é o Atelier Tormentas, do Marco Danielle. Há 10 anos atrás produzir este tipo de vinho no Brasil era uma ousadia e representava a contramão do que se produzia e vendia no mercado. Foi um tempo muito difícil, de muitas críticas, quase nenhum apoio e muitas portas fechadas. Mas vale a pena persistir quando a gente acredita em alguma coisa, pois hoje o Marco é referência neste tipo de vinho e produz um Pinot Noir que é considerado por muitos apreciadores como o melhor produzido no Brasil com esta variedade. (Na foto abaixo, Marco Danielle fotografa um de seus badalados vinhos naturais e de produção reduzida.)
Na outra ponta está um dos mais novos projetos, também ousado, a Vinha Unna, da jovem e competentíssima Marina Santos (na foto abaixo). Ela investe exclusivamente no cultivo orgânico e biodinâmico, não só na sua própria produção de vinhos, mas dando consultoria para vários outros produtores da Serra Gaúcha para reconversão dos seus vinhedos. Ao contrário de todos os que insistem em dizer que nesta região não é possível produzir em sistema orgânico, incluindo a própria indústria química, para quem não interessa a expansão de uma agricultura mais sustentável, a Marina prova, com seus belos vinhos e com uma produção doméstica de ervas, legumes, frutas e verduras biodinâmicas, que é possível sim, que dá certo e que tem muita qualidade. 

Ela também tem trabalhado com estas variedades mais “brasileiras”, como a Cabernet Franc e a Barbera, e o resultado tem sido incrível, tudo o que ela produziu na primeira safra se esgotou em poucos meses. Vejo no trabalho do Marco, da Marina, e de tantos outros que estão fazendo trabalhos semelhantes, um novo caminho se desenhando na produção do Brasil, de vinhos focados em sustentabilidade, qualidade e identidade. Um caminho sem volta e que já tem a adesão de muitos consumidores. Invariavelmente, quando um cliente compra um vinho destes e gosta, ele sempre pergunta: que outros vinhos brasileiros como este você tem? É um bom sinal, não é mesmo?

O trabalho da Madame do Vinho de divulgação e venda de vinhos brasileiros com identidade pode ser conhecido no blog http://madamedovinho.blogspot.com.br. Para receber a seleção de vinhos com todas as informações envie um e-mail para madamedovinho@terra.com.br 
 
(*) Rogerio Ruschel, editor deste blog, sabe que muitas estradas de terra terminam em grandes salões sofisticados - e podem ir além...



terça-feira, 5 de maio de 2015

Vinicola Malgarim, São Borja, sul do Brasil: a riqueza inesperada do terroir missioneiro e o resgate de uma historia iniciada em 1626

Por Rogerio Ruschel e Sonia Denicol (*)

Meu prezado leitor ou leitora, vinhos sempre tem história – veja essa. Nos séculos XVI e XVII padres jesuitas espanhóis andaram por toda a America do Sul implantando aldeias na Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil para catequizar indígenas – e, segundo alguns historiadores, servindo de instrumento político para reis espanhóis em sua disputa com os portugueses. No Brasil os jesuitas implantaram sete aldeiamentos, hoje chamados de Sete Povos das Missões, na região gaúcha Oeste, entre os anos de 1682 e 1706 - veja o mapa abaixo. Estas Missões Jesuíticas começaram a desaparecer a partir do Tratado de Madri que em 1750 definiu que o território do atual Rio Grande do Sul passasse a ser dos portugueses. Tem 150 anos de história e estórias por trás disso, mas agora vamos lembrar apenas duas coisas: foram os jesuitas que trouxeram vinhedos e bois para esta região do mundo.

Sonia Denicol, a Madame do Vinho, revela para os leitores de In Vino Viajas uma parte desta herança que aparece no trabalho da Vinícola Malgarim de São Borja, na região das Missões, Rio Grande do Sul, quase 600 Km da Serra Gaúcha e próximo da fronteira com a Argentina. Plantando uvas francesas em menos de 4 hectares, os Malgarim, descendentes de italianos, transformaram em realidade o potencial do então desconhecido terroir missioneiro para a vinicultura de qualidade e estão resgatando uma história iniciada em 1626. Na foto abaixo veja as ruínas de São Miguel, um dos Sete Povos das Missões, declaradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1983; em primeiro plano veja a cruz missioneira, um dos símbolos da Vinícola Malgarim. Com a palavra, Sonia Denicol.

"Já ouviu falar na região dos Sete Povos das Missões? E de vinhos produzidos por lá, pela vinícola Malgarim? Parece inusitado, mas foi nesta região, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, que foram plantadas as primeiras videiras no estado, trazidas a partir de 1626 pelos padres jesuítas, encarregados de catequizar os índios guaranis que habitavam a região. Em 1976 o historiador suíço Clóvis Lugon, estudioso das missões jesuíticas na América Latina, relatou em seus estudos que naqueles tempos se produzia bons vinhos por lá. Porém conflitos de interesse entre as coroas da Espanha e Portugal culminaram em guerras que dizimaram estes povoados, interrompendo a produção da uva e do vinho.

Felizmente a família Malgarim resgatou a produção de vinhos nesta histórica região. Em 1870 o imigrante italiano Dom Augusto Malgarim iniciou o cultivo das vinhas na Quarta Colônia do Rio Grande do Sul, hoje Santa Maria. Anos depois foi seu neto, Redêncio Malgarim, levou as vinhas para São Borja, o primeiro dos Sete Povos fundados na região missioneira e onde se instalou a vinícola da família – veja a fachada da vinicola na foto acima e da cave na foto abaixo.
A certeza para investir neste projeto veio com os estudos de Sérgio Malgarim, filho do Sr. Redêncio - na foto abaixo com o filho Daniel, quarta e quinta gerações. Estes estudos revelaram através de um coeficiente hélio-pluviométrico o extraordinário potencial das condições de solo e clima da região, com elevados índices de radiação solar, estações bem definidas, adequada amplitude térmica e menor incidência de chuvas , dando segurança a família para levar adiante os investimentos neste lugar especial.

A produção é de apenas 10 mil litros por ano, toda baseada em sustentabilidade. Nas palavras do jovem enólogo Daniel Malgarim “estamos sempre pensando além da qualidade, numa produção sustentável e limpa, sem exageros nem desperdícios”. Daniel também prefere vinhos com maior expressão das características naturais das uvas e do terroir missionário. Eu também!!!

Esta filosofia é facilmente percebida em cada um dos vinhos, com incrível pureza de aromas, nenhum exagero ao paladar, sabores agradáveis e grande frescor.
Eu me encantei com estes vinhos, frutos de um trabalho primoroso, comprometido com qualidade, identidade e sustentabilidade, e que entrega aos consumidores vinhos que são um verdadeiro prazer de beber!

MALGARIM TEMPRANILLO 2013
Este vinho surpreendeu os produtores e é considerado um legítimo representante do terroir missioneiro. Junto com a Merlot, que também dá belos vinhos por lá, é a grande aposta da vinícola para vinhos mais estruturados. A Tempranillo tem ciclo de maturação mais precoce, se beneficiando de pleno amadurecimento e gerando taninos mais robustos e álcool de 13%, sem perder o frescor da acidez. Este conjunto proporciona maior capacidade de envelhecimento em garrafa. Os aromas são complexos trazendo frutas negras, couro, chocolate e tostados da madeira. Está pronto para beber, mas com certeza vai se beneficiar de mais alguns anos de guarda.

MALGARIM CABERNET FRANC 2013
Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de Cabernet Franc. Esta variedade está presente no Rio Grande do Sul há muitas décadas e se dá muito bem por lá. Então quando eu descobri este vinho numa região histórica tão importante, tive certeza de que se tratava mesmo de um projeto especial, que busca o melhor do seu terroir.
O vinho não passa por madeira, então se pode sentir toda sua pureza de aromas, que remete a terra, a frutas silvestres típicas do Brasil, como a jabuticaba e a pitanga, com toques de pimenta e sálvia. Depois de um tempo aberto começa a mostrar o defumado de um embutido, como a copa. O corpo é médio, com taninos bem redondos, acidez gostosa, que pede comida.  Chama atenção o teor de álcool de apenas 12%, não muito comum para tintos, mas que reflete o respeito desta vinícola ao terroir, a expressão da safra e ao lema da família de produzir vinhos honestos. Assim o que chega as nossas taças é puro vinho, muito prazeroso de beber.

MALGARIM RIESLING ITÁLICO 2012
Que deliciosa surpresa! A Riesling Itálico, que se dá muito bem na Serra Gaúcha, tanto em brancos como em espumantes, também mostra suas qualidades nas Missões, e bem ao estilo dos vinhos verdes portugueses. Ao servir o vinho na taça já se formam as minúsculas bolhas, típicas daqueles vinhos, e que “picam” a língua logo no primeiro gole. Aromas muito agradáveis de frutas cítricas, abacaxi e maçã, que se confirmam no paladar. Apenas 9,7% de álcool, é puro frescor!"

(*) Rogerio Ruschel é jornalista, gaúcho e editor de In Vino Viajas. Sonia Denicol é sommelière e desenvolve um trabalho de divulgação e venda de vinhos brasileiros com identidade, através de sua marca, a Madame do Vinho – http://madamedovinho.blogspot.com.br

Conheça outra história de vinhos gaúchos diferenciados em “Salamanca do Jarau - a lenda gaúcha de um amor proibido que inspirou um vinho de concepção francesa e alma brasileira” - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/08/salamanca-do-jarau-lenda-gaucha-de-um.html

Acompanhe uma caminhada de peregrinação nas Missões, feita por Alexandre e Maria Zenaide Cousandier, em http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/08/caminho-das-missoes-paisagens-lindas.html

 

 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Salamanca do Jarau - a lenda gaúcha de um amor proibido que inspirou um vinho de concepção francesa e alma brasieira


Por Rogerio Ruschel e Sonia Denicol (*)

Prezado leitor(a). Sonia Denicol, grande conhecedora de vinhos brasileiros, coleciona histórias  em seu blog Madame do Vinho. Como também sou um contador de histórias aqui no In Vino Viajas, decidimos contar juntos uma história muito interessante que vem do sul do Brasil - o meu querido Rio Grande do Sul - a história do Salamaca do Jarau, uma lenda que inspirou escritores e artistas e agora um vinho do qual você ainda vai ouvir falar. Este post está sendo publicado ao mesmo tempo nos dois blogues. Com a palavra, a Madame do Vinho.

“Adoro vinhos que contam boas histórias. E gosto também de contá-las, como as da Routhier & Darricarrère, lá da Campanha Gaúcha, uma vinícola que valoriza as histórias como forma de perpetuar a cultura através do vinho. Ano passado eles nos apresentaram o vinho Red, com sua simpática Kombi vermelha no rótulo, que contou a trajetória da vinda da família ao Brasil, trazendo para o mundo do vinho o espírito da aventura, da juventude e da descontração.

Agora chega um respeitável Cabernet Sauvignon para contar mais que uma história, mas uma das tantas lendas gaúchas, a do Salamanca do Jarau, documentada pelo escritor pelotense João Simões Lopes Neto – este bigodudo da foto abaixo.

A lenda harmonizou perfeitamente com este vinho, concebido dentro de uma filosofia que o produtor de origem francesa, Anthony Darricarrère, chama de terroir extremo. Isso quer dizer que o vinho foi elaborado com mínima intervenção para revelar, da forma mais autêntica possível, os aromas, sabores e encantos deste terroir tão especial que é o da Campanha Gaúcha. Para mim é vinho que traz a pura expressão e a raça deste chão, com marcados traços terrosos e sanguíneos mesclados a frutas vermelhas bem maduras e aos toques típicos de couro do vinho gaucho. Pode até parecer algo bem rústico, mas posso garantir que é de uma elegância e personalidade incríveis.

As uvas, provenientes de um único vinhedo (na foto acima, de Maria Amelia Duarte Flores), o mesmo do já tradicional Província de São Pedro, tiveram fermentação espontânea por ação das leveduras indígenas, aquelas presentes na casca da uva, que dão tons do terroir ao vinho. A passagem por barricas velhas deu acabamento refinado, que a gente sente num paladar de taninos macios combinados a álcool moderado de apenas 12,5% e acidez que deixa a boca fresca e pede outra taça. Termina deixando o mesmo amarguinho gostoso quando a gente bebe um bom chimarrão (abaixo). 

A lenda do Salamanca do Jarau foi também inspiração para a criação dos rótulos (abaixo), assinados pelo artista gaúcho Gelson Radaelli. Além de consagrado artista, Gelson tem também um pé na cozinha e paixão pelos vinhos. É proprietário do tradicional restaurante Atelier de Massas, em Porto Alegre, onde divide espaço com uma galeria de arte.

Empolgado com o projeto, pintou 30 quadros retratando a lenda, dos quais quatro foram escolhidos para ilustrar os rótulos. As pinturas (veja abaixo em um ponto de venda) tem jeito de arte rupestre, perfeitas para representar um vinho tão natural, integrado a cultura e as características naturais deste lugar que é extremo terroir do Brasil.

E afinal, o que diz a lenda que inspirou este vinho? Quem vai nos contar é o jornalista gaúcho Rogério Ruschel (foto abaixo), editor do In Vinho Viajas, blog que tem leitores em 98 países. O Rogério morou na Serra Gaúcha e também na Campanha, e como conhece um pouco sobre o folclore e a história do Rio Grande do Sul, e também tem como eu o gosto pelo vinho e pelas boas histórias, decidimos contar juntos este misto de história e lenda. Com a palavra, Rogerio Ruschel.

“Amigo ou amiga, boleia a perna, puxa um banco e vá sentando; pega o mate e escuta: vou te contar uma bela história. O Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros que melhor preserva suas tradições históricas e culturais - as tais raízes. Os gaúchos tem um linguajar próprio - com dicionários especializados -, comemoram a sua “independência” do Brasil entre 1835 e 1845 conseguida na Revolução Farroupilha, e mantém uma rede de clubes que funciona como embaixadas destas tradições, os CTGs – Centros de Tradição Gaúcha.



Nos CTGs - que são centenas em todo o país e até mesmo no exterior - são relembradas não só a música e a culinária tradicionais, mas também as muitas lendas que os gaúchos tem – e lendas, meu prezado, são histórias do território contadas pelo seu povo para fazer a autobiografia. João Simões Lopes Neto, escritor e empresário gaúcho falecido em 1916, organizou as lendas gaúchas em livros que receberam o prestígio de literatura “maior” da Editora Globo, através do apoio intelectual de escritores brasileiros do primeiro time como Érico Veríssimo e Augusto Meyer. Aliás, a lenda da Salamanca do Jarau registrada por Lopes Neto em 1913 inspirou Érico Veríssimo a escrever o trilogia do célebre romance “O Tempo e o Vento” que já virou filme, série de televisão, peça de teatro, peça de balé e até mesmo história em quadrinhos. Quer dizer: agora a Salamanca do Jarau (o local geográfico que voce conhece na foto abaixo, ao fundo e atrás dos gaúchos) inspira também um vinho...
Mas vamos à história. A Salamanca do Jarau conta a estória de uma princesa moura que séculos atrás teria vindo dentro de uma urna da cidade espanhola de Salamanca, quando caiu o último reduto árabe na Espanha, disfarçada como uma bruxa velha para não ser reconhecida. Chegando ao sul do Brasil com outros cristãos novos, foi transformada em uma lagartixa com cabeça de rubi por Anhangá-Pitã, o Diabo Vermeho dos índios, e foi morar em uma caverna no Cerro do Jarau, município de Quaraí, no Rio Grande do Sul, fronteira com a cidade de Artigas, Uruguai,  não muito longe da Argentina, perto de uma lagoa.  Veja abaixo a princesa-lagartixa.

Um dia o sacristão da igreja de uma aldeia próxima, que ficava no Povoado de São Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai, foi até a lagoa se refrescar quando Teiniaguá surgiu e foi aprisionada por ele em uma guampa. Durante a noite, ao abrir a guampa, acontece uma magia: ela voltou a ser uma linda princesa, pediu um cálice de vinho – que ele roubou do padre – e eles beberam e fizeram amor a noite inteira. Para encurtar a história, meu caro amigo, o casal fez isso durante várias noites (veja imagem abaixo) até que um dia o padre desconfiado do sumiço do vinho os surpreendeu no quartinho da sacristia. Ela voltou a ser uma lagartixa e foi morar numa barranca na beira do rio Uruguai (que é o rio que faz a fronteira do Brasil com a Argentina e também com o Uruguai), e ele foi preso. 

O sacristão foi condenado à morte, mas no dia da execução Teiniaguá voltou fazendo enormes valos na terra, o salvou utilizando magia, e o casal fugiu indo morar em uma caverna profunda, chamada de Salamanca do Jarau (Salamanca quer dizer “gruta mágica”), de onde só sairiam quando surgisse alguém capaz de cumprir sete provas, assim, tipo Hércules. Não vamos entrar em detalhes agora, mas fique sabendo, caro leitor, que o feitiço foi quebrado muitos anos depois por um gaúcho chamado Blau (que já faz parte de outra lenda) e os dois condenados, transformados em um belo casal de jovens, se casaram e geraram a população indigeno-ibérica do Rio Grande do Sul.  Lenda é assim mesmo, caro amigo: mágica como o vinho da Routhier & Darricarrère, lá da Campanha Gaúcha, que agora podemos beber sem medo de virar lagartixa.”


Para conhecer a vida e obra de João Simões Lopes Neto acesse http://www.joaosimoeslopesneto.com.br/


(*) Rogerio Ruschel é jornalista, gaúcho e editor de In Vino Viajas - http://invinoviajas.blogspot.com.br/  

Sonia Denicol é Sommelière e desenvolve um trabalho de divulgação e venda de vinhos brasileiros através de sua marca, a Madame do Vinho – http://madamedovinho.blogspot.com.br