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segunda-feira, 9 de março de 2015

Conheça a arquitetura de J. Marino Pascual, o espanhol que inventou a vinícola-com-cara-de-museu e o enoturismo do século XXI


Por Rogerio Ruschel (*) 
EXCLUSIVO – Na Europa de hoje uma vinícola tem que ser um local atraente, luminoso e que oferece cultura e produtos a seus visitantes - um local de primeira classe, quase um museu que vende imagem, vinhos e serviços turísticos como gastronomia, degustações, cursos, palestras, debates, as vezes hospedagem e até desfiles de moda. Este é o unico jeito de competir pelos milhões de turistas anuais, e assim são as vinícolas espanholas criadas pelo arquiteto espanhol Jesus Marino Pascual, que estão ajudando o país a bater recordes de turismo e venda de vinhos, e que In Vino Viajas apresenta  nesta entrevista exclusiva. Por exemplo, veja acima uma foto do projeto para o Centro de la Cultura de La Rioja; abaixo, foto da área de uso operacional da Vinicola Darien, concebida também para ser visitada pelo turista. Não são duas obras com o mesmo DNA artístico?
Isso ainda é uma novidade no mundo vinícola do Brasil. Mas a diferença entre vinícolas brasileiras e espanholas é muito maior do que um projeto arquitetônico: tem a ver com a percepção da importância do turismo nos negócios da empresa, que por aqui é uma raridade de poucos empresários. “No Brasil há uma grande carência de equipamentos culturais ligado a processos produtivos.” lembra o arquiteto espanhol Jesus Marino Pascual, criador em 2004 do Museu Vivanco da Cultura do Vinho de La Rioja, em Logroño, considerado pela Unesco o melhor do mundo em enoturismo. Pascual, nascido em Navarra, trabalha com edificios e unidades residenciais, patrimônios, prédios comerciais e urbanismo, mas ficou conhecido como o renovador da indústria vinícola da Espanha associada ao enoturismo. Alguns dizem que ele inventou um padrão arquitetônico para o enoturismo do século XXI. Em seu portfólio estão obras como as sedes das vinícolas Darien, Irius e Antión – frequentemente listados entre as mais bonitas da Europa - e projetos culturais como o Centro de la Cultura de La Rioja e a Estação Enológica de Haro além do Museu Vivanco.

J. Marino Pascual tem procurado ampliar seu trabalho no Brasil, onde já começa a tirar projetos do papel, através de uma parceria com a arquiteta brasileira Vanessa Falcochio Rivera. Veja a seguir entrevista exclusiva que Marino Pascual concedeu para In Vino Viajas, com tradução para o português de Vanessa Rivera. Abaixo, foto do Centro de la Cultura de La Rioja, inaugurado em 2011. 


R. Ruschel: Comente a concepção e as soluções desenvolvidas para cada um destes seus grandes projetos: Museu Vivanco, Bodegas Darien, Irius e Antion.
J. Marino Pascual:  "São quatro projetos muito diferentes. O primeiro é um complexo museológico ao lado da Vinícola Vivanco,  unidos pelo subsolo, com a criação de uma sala de barricas muito visitada. É um museu que descreve, desde a antiguidade até os nossos dias, um percurso completo de todas as manifestações culturais no entorno do cultivo da videira e da elaboração do vinho e arquitetonicamente está concebido para gerar uma contínua referência à tradição vitivinícola. O projeto tem como objetivo ajudar a tornar a visita prazerosa, variada e dinâmica, visualizando espaços sem deixar a sala anterior e surpreendendo o visitante com dinâmicas e cores." Veja abaixo algumas fotos do projeto do Museu Vivanco.

"Os outros três projetos já tratam de vinícolas para elaboração de vinhos e enoturismo, mas são muito diferentes entre si, dada sua localização geográfica e seu diferente entorno paisagistico.
A Irius (inaugurado em 2008, em Barbastro - veja fotos abaixo) é projetada como o centro de um grande vinhedo (90 Hectares) e para produzir cerca de 3 milhões de litros, no topo de uma suave colina de uma paisagem protegida (e aquí protegida significa patrimônio) e portanto, fazendo das limitações uma virtude."
"A Darien (Logroño, 2007) está localizada em uma encosta (desnível entre duas plataformas muito próprias da paisagem de La Rioja) e foi projetada para produzir 600 mil litros, acompanhada de um entorno paisagísticorepleto de vinhedos (as Bodegas Marqués de Murrieta, Marqués de Vargasw e outras)." Veja fotos mais abaixo.
A Antión (2008) por sua vez se encontra em um entorno edificado de um povoado chamado Elciego, de grande tradição vitivinícola, com marcas como Marqués de Riscal e Domeq. Se trata de um terreno de forma muito irregular e cuja formalização tem a ver com essa configuração. No entanto, conseguimos uma grande e avançada funcionalidade e resultou, por sua vez, muito atraente."
Veja abaixo fotos do projeto para a Vinícola Darién.

R. Ruschel: Existe algum elemento ou característica que relacione estes projetos entre si? Algum elemento que identifique o perfil do criador?
J. Marino Pascual: "Efetivamente dentro de grandes diferenças arquitetonicas que os quatro projetos oferecem, todos os quatro têm em comum um legado que vem do grande impulso que o Museu Vivanco gerou ao Enoturismo. Um conceito que agora é comum, mas não foi assim no início do século XXI na Europa. Os projetos das três vinícolas não atendem somente de maneira excepcional e com avançada funcionalidade a operação da vinícola e a qualidade de sua construção, mas também criaram uma nova concepção da vinícola como expressão cultural e a consequente reorganização dos seus espaços para atender ao visitante sem interferir nos processos de trabalho. Definitivamente, foram preparadas para o enoturismo, hoje um conceito popular que mudou de certo modo as  regiões vitivinícolas e que gerou uma nova economia." Veja abaixo fotos do projeto para a Vinícola Antión.


R. Ruschel: Qual o papel da arquitetura no desenvolvimento dos negócios de empresas vinícolas e no desenvolvimento do enoturismo?
J. Marino Pascual: "Quando uma vinícola opta por abrir ao visitante, decide se expor publicamente e deve mostrar como elabora seus vinhos e o amor e cuidado com que trabalha. E deve fazê-lo pensando também no visitante, para que a visita seja agradável e confortável e que permita interpretar bem aquilo que se descreve. Portanto, a estrutura espacial deve estar muito bem tratada. Este é o lugar onde aparece o valor da Arquitetura, na necessidade de mesclar boa construção, funcionalidade e beleza de seu marco, de seus espaços, para preparar o visitante para uma adequada e emocional apreciação dos vinhos que ali e elaboram. Não sei se existem pesquisas sobre o impacto da qualidade arquitectonica na avaliação da experiência pelos turistas, mas lembro que em 1999 no Vale do Napa (Califórnia), 30% da produção já era vendida diretamente aos visitantes. Não temos nenhuma dúvida de que a boa arquitetura é um valor inquestioável que reforça o atrativo e o valor de um bom produto. Mas, obviamente, o vinho deve ser de qualidade." (Abaixo, detalhe de corredor do
Centro de la Cultura de La Rioja).
R. Ruschel: Aparentemente arquitetos da Espanha parecem estar pensando de maneira mais criativa na arquitetura relacionada ao vinho e ao turismo. Existem alguma razão para isso?
J. Marino Pascual: "Na Espanha ocorreu o fenômeno Museu Vivanco em La Rioja (que recentemente comemorou o milionésimo visitante) e imediatamente foi seguido por outras vinícolas. Mas é conhecida a qualidade dos arquitetos espanhóis e o quanto é exigente a sua formação. Acredito que diante da nova concepção de vinícolas, como um laço que combina produção com expressão cultural, vinho e arquitetura, os espanhois estão mesmo destinados a se apaixonar..."


R. Ruschel: Seu escritório trabalha no Brasil desde quando? Como funciona a parceria com a arquiteta Vanessa Falcochio Rivera?
J. Pascual: Marino. "Em 2012 vim ao Brasil ministrar algumas palestras e tive a oportunidade de conhecer várias cidades. Apreciei o universo de diversidade que constitui este grande país, gostei de seu povo e das pessoas que conheci. Depois, com sucessivas viagens, pude conhecer mais a fundo e  decidir investir esforços e contribuir com conhecimento, experiência e também aprender, já que não pode ser de outra forma, para compreender e entender novas culturas. Os dois escritórios, Espanha e Brasil, se coordenam muito bem e com fluidez. Estamos muito felizes com Vanessa Rivera e no desenvolvimento deste novo caminho. O espectro de trabalho no Brasil se assemelha ao da Espanha, onde somos reconhecidos por nossa amplitude de campos e o amplo espectro de seus trabalhos." Abaixo a fachada da Vinícola Antión.

R. Ruschel: Quais os projetos em realização e realizados? Como está o projeto do Memorial da Cultura do Vinho para o Instituto R. Dal Pizzol?
J. Pascual Marino: "Neste momento, concluímos um projeto residencial para 120 apartamentos e estamos trabalhando em um segundo projeto de 60 apartamentos, ambos no litoral norte de São Paulo. Estamos envolvidos com um hotel em Bento Gonçalves e na gestão de outros projetos ambiciosos relacionados com a cultura, mas em estágios preliminares, que no momento, não podemos anunciar".
"Quanto a Dal Pizzol está pendente o processo de captação de recursos. A abordagem básica para o Centro de Interpretação do Instituto foi realizado e apresentado. Uma das nossas áreas reconhecidas é precisamente o nosso compromisso com o patrimônio histórico e artístico e a recuperação, reconversão e adaptação para novos usos, de edifícios de valor patrimonial protegido. Como o caso dos projetos para o Palácio dos Yanguas (Século XVI), o Palácio Argaiz (século XVIII), o palácio Manso de Zuniga (século XIX), a Estação Enológica de Haro (1901), os vestígios arqueológicos da Noguera (III e do século XIV - Roma e Cister) e seu centro de interpretação, em todos os casos a administração pública está envolvida." Abaixo, J. Marino Pascual.

"Porém, iniciativas privadas como é o caso de Dal Pizzol, não ocorrem na Espanha. É evidente que é necessário potencializar este suporte cultural no Brasil, pois a população está ansiosa para desfrutar de um centro de interpretação como o de Dal Pizzol onde muito conhecimento pode ser transmitido. O Brasil é um país muito jovem e tem muito a oferecer. Pude notar que há uma grande carência deste tipo de equipamento cultural ligado a processos produtivos. Na Espanha, o turismo interno cresceu significativamente nos últimos anos certamente derivado de instalações como as relacionadas ao enoturismo."

Prezado leitor: faço um brinde ao turismo de qualidade e as empresas que abrem suas portas para conviver com seus clientes.  E desejo que muito em breve tenhamos no Brasil exemplos de equipamentos arquitetonicos e culturais que valorizem aqueles que vivem de produzir vinhos cada vez melhores. Tim-tim!

(*) Rogerio Ruschel é jornalista e edita In Vino Viajas em São Paulo, Brasil, com a proposta de difundir um pouco de cultura para milhares de leitores de 115 países que prestigiam nossa dedicação, para que o vinho seja mais do que uma receita de bebida alcoólica. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Os 10 mais impressionantes projetos arquitetônicos de vinícolas do mundo


Por Rogerio Ruschel (*)
O turismo relacionado à produção do vinho se tornou uma extraordinária alavanca econômica para mais de 40 atividades relacionadas à cadeia produtiva do turismo, entre as quais a venda de produtos como vinhos, azeites e agro-alimentos como mel, doces, licores, frutas, compotas e outras. A Associación Española de Ciudades del Vino (ACEVIN), por exemplo, informa que 1.689.209 turistas foram atendidos pelas 22 rotas de vinhos certificadas da Espanha no ano de 2013 (veja quadro abaixo), muitos deles nas Bodegas Ysios, acima.

Esta percepão da importância econômica do turismo relacionado à cultura do vinho vem sendo acompanhada por investimentos na Europa, nas novos regiões produtoras como Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Argentina e Chile – no Brasil infelizmente ainda não e recente pesquisa do Ibravin comprovou isto. A briga para atrair turistas se transformou em atividade promocional financiada por associações empresariais coletivas como as Rotas do Vinho ou Consórcios, ou por empresas que investem em projetos arquitetônicos diferenciados como alguns dos quais você vai ver a seguir. 
Bodegas Ysios
Esta adega projetada por Santiago Calatrava na região de La Rioja da Espanha foi concebido como um lugar de culto para o vinho. É uma das mais atrevidas concepções arquitetônicas do setor vinícola da atualidade - fotos abaixo, da grande fachada e interna.
Chatêau Margaux
Uma das vinícolas mais famosas do mundo, a mansão desta adega é muito conhecida porque aparece no rótulo das garrafas do vinho do mesmo nome há décadas. Existente desde o século XII, o chatêau só começou a ser associado à produção de vinhos pela família Lestonnac no século XVI e foi completamente reformado em 1812. Fotos abaixo.

Mission Hill Winery 
O ponto focal desta vinícola no Vale de Okanagan, British Columbia, Canadá, é o sino da torre de 12 andares, cuja finalidade serve para acolher convidados para a vinha e despertar os seus sentidos quando os sinos tocam - pelo menos é o que os eles dizem... A bodega foi construída em 1966 por dois sócios, o canadense Anthony von Mandl de Vancouver, e Josef Milz, produtor de vinhos da região do Mosel, na Alemaha. Abaixo parte da fachada externa e detalhe do restaurante na varanda.

 Darioush Winery
O edifício e os jardins desta vinícola de Napa Valley, Califórnia, foram feitos para se assemelhar a um palácio persa, uma homenagem ao patrimônio do proprietário, o iraniano
Darioush Khaledi. A empresa foi criada em 1997, mas o prédio levou cinco anos para ser construído e foi completado em 2004. Abaixo, parte da fachada externa e a luxuosa sala de degustação. 

Chatêau Pichon-Lalande
Um dos castelos de vinho mais fotografados em todo o mundo, esta adega de Pauillac, Médoc, Bordeaux cujo nome competo é
Pichon Longueville Comtesse de Lalande, foi fundada como produtora de vihos em 1646 e atuamente é de propriedade da família Rouzaud, que também é dono da casa Champagne Louis Roederer. 

Marqués de Riscal
Quando a tradicional vinícola espanhola Marqués de Riscal de Elciego, La Rioja, se propôs a fazer com que cada visitante experimentasse o espírito inovador e o mundo de sensações que a vinícola representava (na opinião dos donos, é claro), a empresa contratou o famoso arquiteto Frank Gehry. Hoje o prédio é um dos mais fotografados da Espanha (abaixo). Junto com o prédio funciona uma adega enorme e um excelente restaurante. Abaixo imagens do prédio e do lobby do hotel.


Dornier Winery
Projetada pelo fundador desta vinícola-butique, Christoph Dornier, esta adega de Stellenbosch, África do Sul, foi concebida para conviver com a herança holandesa da região e para se misturar com o ecossistema e ambiente onde se encontra - aliás, lindos porque já estive lá.
Castello Di Amorosa
Dario Sattui estava determinado a construir o edifício mais bonito e interessante na América do Norte na astiidade de produção de grandes vinhos, então projetou este castelo que poderia estar na Toscana, mas está no Napa Valley, Califórnia - acredite!


Opus One
Um projeto da Baronesa Philippe de Rothschild e Robert Mondavi iniciado em 1980 em Oakville, California, o Opus One foi criado para ser o primeiro vinho ultra-premium dos Estados Unidos; o prédio novo, nas fotos abaixo, foi inaugurado em 1989.

Bodegas Irius
Uma das mais modernas vinícolas da Espanha, o projeto é um amontoado de blocos de concreto implantado no meio de um imenso vinhedo. Visto do alto ele se parece com uma borboleta.

(*) Rogerio Ruschel e enófilo, jornalista e mora em São Paulo, Brasil.