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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vale do Alcântara: vilarejos mágicos, maccaruni di casa e lemoncellos inigualáveis


Por Rogério Ruschel (*)

Vale do Alcântara, Sicília: onde você é dono do seu destino

Na Província de Messina, entre os montes Peloritanos e o vulcão Etna, na Sicília, fica um vale muito fértil cortado geológicamente pelo rio Alcântara - um dos poucos cursos d’água da Sicilia que tem água o ano inteiro: o Vale do Alcântara
 Em casas como essas, de Malvagna, famílias literalmente moram há séculos!
O rio nasce no Parque Nebrodi, perto do vilarejo de Floresta (considerado o povoado mais alto da Sicilia, com 1.300 metros) e tem sua foz no mar Jônico, perto de Giardini e Taormina. No caminho fertiliza o solo já enriquecido pelos depósitos do Etna onde crescem algumas das mais atraentes frutas da Itália.
 Feiras livres: o produto da fertilidade do vulcão Etna e do rio Alcântara
Um passeio pelo Vale do Alcântara pode ser feito a pé, por trilhas que mergulham em propriedades rurais, de bicicleta ou de carro (por rodovias boas e simpáticas como a 120 ou 185) parando em vilarejos atraentes para fotografar, conversar, comer e beber. 
 Estrada Mojo Alcântara-Malvagna
O roteiro que recomendo é sair de Taormina em direção oeste até Randazzo e voltar no dia seguinte degustando vários vilarejos como Motta Canastra, Linguaglossa, Francavilla di Sicilia, Malvagna, Castiglione di Sicilia, Passo Pisciaro, Mojo Alcântara e Rocella Valdemola. Uma viagem de menos de 120 Km ao todo, repleta de oportunidades de bem viver e bem comer – e sem ter que trocar cotoveladas com outros turistas.
Castiglione di Sicilia
Com histórias de mais de 1.000 anos os vilarejos têm atrações arquitetônicas interessantes de origem fenícia, grega, romana, normanda ou árabe – como abadias, ruínas de castelos, monumentos, igrejas, palácios e outros. E vielas surpreendentes, é claro.
Surpresas em vielas como esta em Linguaglossa
Mas como em boa parte da Toscana, aqui também a principal motivação turística está na simplicidade dos vilarejos e moradores, nas belezas cênicas e na comida e bebida.
 Você pode enfrentar problemas de trânsito como esse em Linguaglossa
 
A economia da região está baseada na agricultura e as pessoas têm forte ligação com a terra. No vale são produzidas hortaliças, frutas e temperos como nozes, azeite de oliva, orégano, figos, cerejas, pêssegos, morangos, cítricos – e o maravilhoso lemoncello, um licor de limão siciliano, uma das mais interessantes contribuições da ilha ao bom gosto.
Plantio de nozes disputa espaço com olivais e vinhedos
E também licores de frutas, “prodotti sott’olio”, cerâmicas, mel, chocolate, bois, ovelhas, porcos, massas típicas e uvas que enchem os cinco sentidos, meu caro leitor.
Temperos, azeites, licores, doces e outros quitutes satisfazem os cinco sentidos

A região também oferece fazendas agrituristicas, nas quais você pode se hospedar e conviver com atividades rurais – além de comer de maneira maravilhosamente simples, fazendo parte da família dos proprietários. 
Agriturismo: hospedagem com vista para o vulcão Etna, ao fundo
A gastronomia regional inclui “maccaruni di casa”, massa com molho de ovelha; “sfinci”, um doce à base de ovos e farinha com limão e açúcar; “i frittui”, carnes de todos os tipos com especiarias; saladas com carnes e repolho roxo; “agnelo al forno ripieto di pasta mastrazzoli, ovelha assada com uma massa que contém mel e “cassatelle”, uma massa cozida com requeijão. (Também fiquei com água na boca, caro leitor!)

 Produtos típicos em locais típicos: um brinde ao sabor

Cada pequeno restaurante tem sua própria receita – e todas combinam com sucos de frutas, lemoncello ou um vinho siciliano como Alcano, Faro, Marsala, Moscato di Noto, Sambuca di Sicilia ou um Nero D’Ávila, conhecido dos brasileiros, que embora ainda não seja um DOC siciliano, é muito popular e tem sido comparado aos melhores syrahs do mundo.
  Frantoio: fábrica familiar de azeite de oliva


Em toda a região (como de maneira geral em toda a Itália), no Vale do Alcântara são preservadas muitas festas e tradições baseadas no calendário agrícola, na memória histórica milenar e na religião, eminentemente católica cristã. Durante todo o ano pipocam festas de santos – Biaggio, Giuseppe, della Madonna, Michele Archangelo, Santa Narbara, Adollorata, festa das frutas, Sant’Anna e assim por diante.
 Você vira uma esquina e dá de cara com uma procissão e e pode comemorar com fé, comida e bebida!
Enfim, reserve pelo menos dois dias para um passeio pelo Vale do Alcântara e faça um brinde a isso, caro leitor.



Um joguinho de truco no fim da tarde: a "balada" dos sicilianos aposentados 


Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:




(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - editor deste blog é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade - http://www.ruscheleassociados.com.br/. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias, em 2005, pesquisando roteiros turísticos turísticos.




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Vinhos vulcânicos, as montanhas Peloritani e as maravilhas de Tindari

Por Rogério Ruschel (*)
O promontório de Tindari

A Província de Messina é delimitada pelos oceanos Tirreno e Jônico e pelos montes Peloritani, uma cadeia de montanhas não muito altas (a Montagna Grande, maior pico, atinge 1.374 metros). De formação ígnea e metamórfica, a cadeia faz parte dos Montes Nebrodi a oeste e da estrutura do vulcão Etna, ao sul, e esconde pequenos vilarejos como Novara di Sicilia, Castroreale e Antillo.

Os montes Peloritani vistos de Novara

Saindo de Messina pelo litoral norte coloquei meu pequeno Fiat Panda alugado na rodovia 113, mais turística e menos movimentada do que a moderna auto-estrada A19 que vai até Palermo, com seus belos túneis e elevados. O destino era conhecer Milazzo e Tindari, mas na altura de Barcellona fui convidado a conhecer Novara di Sicilia, um típico vilarejo dos montes Peloritani. 


O vale dos montes Peloritani 
E bota típico nisso: o vilarejo – com 650 metros de altitude - tem menos de 2.000 habitantes e vocação para a agricultura, especialmente frutas, alguns vinhedos e oliveiras para a produção de azeite. Outro aspecto típico é a decadência generalizada (teve quase 7.000 habitantes na década de 1920), o que acontece de maneira generalizada na Sicilia. 

Explico. Com a entrada da Itália no grupo do Euro, aconteceram duas coisas: por um lado os jovens sicilianos agora podiam ir procurar emprego e estudar não mais só em Milão ou Roma, mas em qualquer pais europeu – e o estão fazendo. Na outra ponta, os mais velhos, que fizeram previdência social em Liras italianas, se aposentaram (com grandes ganhos) em Euros. Aliás, esta é uma das causas dos problemas econômicos da Itália neste momento. 
Com isso está ocorrendo um visível esvaziamento populacional e um empobrecimento da Sicilia. O fato de empresas tradicionais do negócio do vinho da Itália continental como os grupos Marzotto Santa Margherita, Grupo Italiano Vini e Zonin estarem investindo na ilha, e o turismo estar crescendo, pode ajudar a reverter essa tendência, mas a Sicilia tem andado “devagar” nos últimos 15 anos.
O vilarejo tem ruas simpáticas, ruínas de palácios romanos e cinco igrejas, sendo a mais importante a Catedral (Duomo), do século XVI. Encontrei um com restaurante familiar onde comi uma pasta com tempero local acompanhada por uma garrafa de vinho Etna – um dos 19 DOCs da Sicilia - produzido na vizinhança do vulcão, cujo solo vulcânico favorece os parreirais.

Mas o destino final era Tindari. Fundada ainda na Era do Bronze (1.500 A.C.), Tindari foi refundada pelos gregos em 396 A.C. e em 254 A.C. se tornou uma cidade romana. Me disseram que Tindari é uma das últimas cidades sicilianas que poderiam reivindicar uma origem puramente grega. O Santuário da Madonna Negra é a principal atração do que restou do ataque dos sarracenos à cidade no ano 836 D.C.; permaneceram ruinas de um anfi-teatro romano construído no século 4 A.C. e partes de antigos templos grego-romanos com este da foto abaixo.
 
Tindari está localizada na beira do mar e fui conhecer restos de antigas paredes na beira do precipício, onde talvez tenha havido um desmoronamento – pelo menos isso foi registrado pelo historiador Plínio, o Velho: segundo ele, metade da cidade teria sido engolida pelo mar. Dois portões da cidade ainda podem ser distinguidos.
 
Mas Tindari encosta no Mar Tirreno também em um litoral sem escarpas, formando uma espécie de praia – e o destaque é o Promontório de Tindari, local de grande beleza – veja a foto abaixo. Apesar de mais de 3.000 anos de história, Tindari foi meio “esquecida” durante boa parte do século XX e só voltou a ser valorizada mais recentemente.
 
No jantar, antes de dormir em um hotelzinho da vizinha Mazzarrà, tomei duas taças de um Sambuca di Sicilia, para comemorar a redescoberta de Tindari. No dia seguinte iria para Taormina, uma das “delicias” da Sicilia, que em breve vai estar aqui em outro post. Por enquanto, um brinde à Madonna Negra de Tindari, caro leitor.
 
 
Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:



(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade - http://www.ruscheleassociados.com.br/. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias, em 2005, pesquisando roteiros turísticos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Messina: a terra das Cruzadas, monstros gregos e vinhos brancos


Messina é uma tres maiores cidades da Sicília (250 mil habitantes) e o ponto da ilha mais próximo do continente italiano: uma ponte imaginária cruzando o Estreito de Messina teria menos de 3,5 quilometros até Villa San Giovani, na Calábria. Como tudo na Sicília, o Estreito – local de tráfego pesado de grandes navios de cruzeiro – é superlativo: fica no Mar Mediterrâneo e liga o Mar Jônico ao mar Tirreno. Muitos mares, muitas travessias, caro leitor...

  Do Porto de Messina se vê, do outro lado, a Itália continental

E muitas histórias e lendas, também. Fundada cerca de 756 A.C. por messenios que fugiram da Grécia liderados pelo rei Zancle, Messina tem uma história que é uma epopéia. Invadida sucessivamente por romanos, fenícios, bizantinos, árabes, normandos, vândalos, cartagineses e outros, e destruída por pestes e terremotos (é vizinha do vulcão Etna), Messina durante algum tempo foi a capital do Reino da Sicília. De Messina partiram muitos navios cheios de cavaleiros para participar das Cruzadas e a cidade recebeu visitas ilustres como Ricardo Coração de Leão em 1.190.  


A Sicília é grande produtora de vinhos brancos e doces, para sobremesa. Como já se produzia muito vinho branco na ilha desde que os gregos lá chegaram, é possível que eu tenha provado alguns Marsala, Malvasia delle Lipari, Monreales ou Mamertinos de Millazzo do mesmo jeito que Ricardo Coração de Leão e muitos reis e imperadores gregos, romanos, bizantinos e árabes. Não é um show?
O Duomo de Messina
Uma das lendas que se confunde com a história de Messina relata que na mitologia grega um monstro chamado Charybdis, filho de Poseidon e Gaia, habitava o litoral de Messina, exatamente no Estreito. As ondas em Messina teriam perturbado o grupo da Odisséiia (relatada por Ulisses) e Jasão e seus Argonautas – isso sem falar que Hércules andou por lá atrás de um touro perdido na região do vulcão Etna. Não vi Charybdis mas o Estreito é profundo o suficiente para esconder muitos monstros…
Fiquei impressionado quando cheguei a Messina de carro, vindo de Catania: ao descer uma ladeira entrando na cidade dei de cara com um imenso navio de cruzeiro que parecia ancorado no fim da rua! Depois fui saber que centenas deles aportam todos os meses, despejando turistas para passear na cidade ou fazer um bate-volta a Taormina, uma das cidades-delírio desta belíssima ilha      (que você vai conhecer em outro post, em breve).
Influência árabe e um gótico estranho por toda a cidade

Messina é uma cidade muito interessante, porque sua arquitetura registra todas estas influências ao longo dos séculos. Visitei algumas das atrações mais conhecidas, como a Catedral (Duomo), igrejas Góticas, a Igreja Santa Maria dos Alemães (de 1.200), a Abadia Santa Maria de La Valle, prédios árabes. E muitos restaurantes. 
Entre as delícias imperdíveis da Sicília estão temperos regionais, alguns dos melhores azeites da Europa, os vinhos da região de Marsala, as frutas fertilizadas pelas cinzas do vulcão Etna e os doces - os maravilhosos doces da Sicília que podem ser acompanhados por vinhos brancos sicilianos com uvas grillo ou catarrato.
Messina é a capital da Província do mesmo nome, por onde perambulei por alguns dias, conhecendo os Montes Peloritani, os vilarejos Milo e Novara e Tindari, uma praia com forte sotaque arqueológico. Mas isto é assunto para outro post, meu caro leitor. Enquanto isso um brinde à la Marsala!

Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:




(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade - http://www.ruscheleassociados.com.br/. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias, em 2005, pesquisando roteiros turísticos turísticos.