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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A gastronomia de luto: o melhor chef do mundo se suicida por ter investido mais de 1 milhão de Euros na compra de vinhos e ser enganado


Por Rogerio Ruschel (*)

Meu caro leitor ou leitora, esta noticia chocou o mundo esta semana: o francês naturalizado suíço Benoit Violier, considerado o melhor chef do mundo, cometeu suicídio na semana passada (31/01/2016) e ontem uma revista suiça revelou que a causa pode ter sido perda de uma grande soma de dinheiro na compra de vinhos que nunca foram entregues. 

De acordo com a revista suiça Bilan, o super premiado chef de cuisinne teria investido entre entre 724.000 e 1,8 milhões de Euros na compra de vinhos exclusivos Bordeaux e Borgonha grands crus raríssimos comprados em um leilão, por cerca de 25.000 a 50.000 Euros cada garrafa, e os supostos fraudadores não entregaram o vinho.  Apesar disso, Violier não está entre as vítimas de fraude que processaram Sebastien Bonvin, o principal acionista da empresa de leilões Private Finance Partners SA e seus três sócios, estão sob investigação por "infrações contra o patrimônio" por promotores suiços. Abaixo, seu prato  Composition Maritime (homard et rouget)

Entre outros prêmios, o guia francês de restaurantes “Gault Millau” tinha denominado Benoît Violier como o "melhor chef do mundo" há três anos e o ranking francês “La Liste” publicado em dezembro de 2015 chamou seu restaurante “L'Hôtel de Ville”,  localizado em Crissier, perto do Lago de Genebra, Suíça, como "o melhor do mundo". Violier morava em Lausanne e estava com 44 anos. O Guia Michelin também já havia dado três estrelas - que é o máximo que pode ser concedido - ao L'Hôtel de Ville, e o guia Gault Millau deu 19 dos 20 pontos possíveis. Abaixo seu prato Composiccion Vert.

Violier estava ligado ao mundo do vinho; nasceu em uma família produtora de vinhos francês em 1971 em Saintes e teve seis irmãos. Segundo ele mesmo contou certa vez, descobriu cedo sua paixão por cozinhar e deu os primeiros passos com sua mãe, enquanto seu pai o introduziu nos segredos do vinho. O chef era casado e tinha um filho. Ele assumiu o restaurante L'Hôtel de Ville em 2012 com sua esposa, Brigitte. Abaixo o doce "Structure en equilibre".


(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas em São Paulo, Brasil, adora o Lago Genebra e vinhos mas não vai se suicidar por causa de uma garrafa de vinho.






quarta-feira, 4 de junho de 2014

Caves Ouvertes 2014 de Genebra: passeio em vinhedos, visita a caves e degustação de 700 vinhos de 89 vinícolas com a qualidade suiça


Texto Renata Boni Ruschel, fotos Daniele Raffo (*)

Embora pouco se ouça falar de vinhos suiços, o pequeno país produz bons vinhos brancos (especialmente Chasselas) e tintos (especialmente Pinot Noir) em algumas regiões importantes como a parte francesa de Vaud (ao longo do lago Léman), Valais (região montanhosa ao longo do rio Rhône), Genebra (na fronteira com a França), e Neuchâtel e 3 Lagos mais ao norte, na região da Suíça Alemã (região de Zurich, Aargau, Thurgau) e finalmente Ticino, na região italiana dos Alpes – veja o mapa abaixo.
Perto de Genebra estão sub-regiões vinícolas, como Satigny, Lavaux, Lully, Peissy, Hermance e Jussy; algumas delas já visitei - veja no fim do texto um link para matérias já publicadas. Minha filha Renata participou em fins de maio do badalado evento “Caves Ouvertes 2014” em Genebra e relata suas principais considerações sobre os bons e desconhecidos vinhos da região francesa da Suiça. Com a palavra, Renata Ruschel, a moça sorridente da foto abaixo.

"Acordei em um lindo sábado de sol primaveril com a dura e “dura” missão de escrever um post para o “In Vino Viajas”; dura por que nunca tive uma experiência como escritora, além de ser uma responsabilidade pesada já que o blog tem leitores de quase 100 países que são fãs do meu pai (esse sim, jornalista de verdade) e “dura”, por que muita gente gostaria de estar no meu lugar e degustar, gratuitamente, direto dos produtores, vinhos maravilhosos e premiados em locais maravilhosos como gramados, vinhedos, caves e jardins como esse abaixo!

Criado em 1987 em Genebra, o dia das “caves ouvertes” (“adegas abertas” em português) é um dia para que os produtores suiços abram suas portas e convidem as pessoas à virem à suas adegas para conhecer, degustar e comprar seus vinhos. Este tipo de evento também é realizado em outros países europeus e latinoamercianos produtores de vinhos; na Suiça começou em Genebra.

Pierre Dupraz, então Presidente das vinícolas em 1987, disse que dezenas de pessoas participaram da 
primeira edição e a idéia se espalhou pelos outros Estados do país (na Suiça conhecidos como Cantões); hoje o evento de Genebra reúne uma vez ao ano milhares de visitantes que têm à sua disposição cerca de 700 vinhos a serem degustados e 89 produtores participantes.

O “caves ouvertes” de Geneva é o mais antigo, mas cada Cantão suiço faz o evento em um final de semana diferente, normalmente entre os meses de maio e junho e sempre tem o suporte das empresas de transporte público, que disponibilizam ônibus e vans gratuitos entre as caves - afinal na Suiça eles levam a sério o “não beba e dirija”! Para os mais esportistas uma opção também é fazer as caves de bicicleta, aproveitando o lindo visual desta época do ano, que é primavera virando verão.

No cantão de Genebra as caves são divididas em três grupos em relação ao Rio Rhône (veja mapa abaixo): “rive droite” (margem direita), “rive gauche” (margem esquerda) e “entre o Rio Rhône e o Rio Arve”, mais ou menos como em Bordeaux, França, em relação ao rio Gironde . Eu, feliz vizinha de algumas adegas na vila de Bernex, escolhi a terceira opção e resolvi, então, desgutar os vinhos que já eram meus “velhos conhecidos” - afinal eu faço caminhadas diárias entre essas mesmas vinhas, abaixo.


Comprei na primeira adega a minha “taça souvenir”, uma linda taça de vidro com os nomes de todas as uvas cultivadas na região pelo preço de 5 Francos Suiços - cerca de 12 Reais – que você deve usar durante todo o seu percurso e depois pode levar para casa (veja foto abaixo).

E comecei a degustação. Brancos, rosés, tintos, espumantes... no meio de tantos vinhos acabei descobrindo surpresas maravilhosas. Meu “vizinho” Christian Guyot (veja a cave subterrânea, na foto abaixo) foi o vencedor em 2013 com o melhor vinho feito das uvas Gamay e Gamaret e hoje está presente na caixa “Espirit de Genève” edição 2014.

O “Espirit de Genève” é uma caixa com os 15 vinhos de qualidade superior mais premiados do Cantão de Genebra a cada ano. Os produtores resolveram criar o “Espirit de Genève” para levar a qualidade do vinho produzido por eles para outras regiões da Suiça e também (por que não?) do mundo. Com certeza um presente para a alma de qualquer apreciador de vinhos, para os que não podem visitar pessoalmente as caves. 

Sou obrigada a descrever a incrível organização e o carinho por parte das famílias produtoras durante o evento: banheiros limpos, a oferta de petiscos deliciosos (como os da foto abaixo), arranjos de flores enfeitando as mesas nos jardins e pátios das adegas, além de atrações musicais e refeições simples para famílias inteiras que visitam as adegas (sim! famílias inteiras participam do evento... crianças, adultos de todas as idades e animais de estimação).

Mas o sentimento real de participar da “caves ouvertes” desse dia, só participando mesmo no meio do burburinho de centenas, talvez milhares de pessoas, para entender: os sorrisos, o sol brilhando e a alegria de reunir amigos e parentes em meio às vinhas ao ar livre, com certeza são momentos inesquecíveis. E tudo sem estresse!
Uma das adegas que visitei, o Domaine des Pendus (foto da abertura) contava com cerca de 20 pessoas da mesma familia para que a organização e o bem estar dos visitantes fossem mantidos em “padrão suiço”. Essa adega também levou o meu “troféu” de melhor vinho das caves ouvertes de 2014: um ma-ra-vi-lho-so vinho espumante produzido a partir de uva Gamay, com uma curiosidade: foi a primeira vez que um dos filhos do dono da vinícola produziu esse vinho, utilizando métodos ancestrais de produção. 
O vinho foi batizado de “l'inconnu” (o desconhecido) e será batizado numa espécie de concurso de sugestões feitas pelos visitantes da adega. Claro que comprei algumas garrafas para garantir o sabor único desse vinho na minha varanda em dias de sol no verão que se aproxima e, quem sabe, conseguir manter em minha memória o gosto de uma maravilhosa tarde de primavera. Tardes assim que já aproveitei em um restaurante aqui perto de casa (veja na foto abaixo minha varanda predileta), o Domaine de Chateauvieux, que também é um hotel de alta qualidade.
Como as adegas abrem das 10hs às 18hs consegui visitar 5 adegas e degustar cerca de 50 vinhos produzidos na minha vizinhança. Depois de tantos brindes, fica aqui o meu convite para que você participe da próxima edição do “caves ouvertes” de Genebra, um evento muito especial. E apresento abaixo minha lista de rótulos favoritos desse dia inesquecível: Santé!!
 
⁃                Christian Guyot Vigneron: Vinho “Tourmaline” (categoria blanc de noirs) – produzido a partir de uvas tipo Gamay de Soral
⁃                Christian Guyot Vigneron: Vinho “Don Juan” (categoria tempranillo) – produzido  a partir de uvas tipo tempranillo
⁃                Domaine des Pendus: Vinho "Pascadoux" (categoria vinho licoroso) – produzido a partir de uvas tipo Muscat
⁃                Domaine  des Pendus: Vinho “L'inconnu” (categoria espumante) – produzido a partir das uvas tipo  Gamay
⁃                Cave du Petit Gris: Vinho “Syrah” (categoria Syrah) – produzido a partir de uvas tipo Syrah
⁃                Domaine de Beauvent: Vinho “Gewürztraminer” (Categoria espumante) – produzido a partir de uvas tipo Gewürztraminer
⁃                Domaine de Beauvent: Vinho "L'Anaz" (categoria rosé) – produzido a partir  de uvas Gamay
⁃                Domaine de Beauvent: Vinho "Les Bacheroux" (categoria tinto) - produzido a partir de uvas Merlot
⁃                Domain des  Balisiers: Vinho “Chasselas” (categoria branco) – produzido a partir  de uvas Chasselas
⁃                Domain des Balisiers: Vinho “Mélopée” (categoria colheita tardia) “


(*) Renata Boni Ruschel se atreveu a fazer um post especial para o blog do pai Rogerio Ruschel para que ele (e seus leitores) também pudessem desfrutar desse evento. E Daniele Raffo, companheiro da Renata, degustou junto e fez as fotos.






quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Conheça o CERN, o acelerador de partículas de Genebra que acelerou sete Premios Nobel – o mais recente, semana passada


Por Rogerio Ruschel (*)
Sei que visitar o CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), em Genebra, Suíça, não é o tipo de turismo para se fazer todos os dias. Concordo que existem centenas de atrações turísticas mais interessantes, bonitas, badaladas e interessantes na Europa do que visitar um centro de pesquisa e laboratório de Física. Mas hoje é seu dia de sorte porque eu visitei o CERN e você vai conhecê-lo em apenas alguns minutos - e ainda vai ver algumas fotos futuristas do show-room, como esta aqui acima.

O trabalho do CERN está na mídia porque o trabalho de aceleração de partículas realizado lá nos últimos 55 anos permitiu a comprovação prática da teoria da existência dos “Bósons de Higgs”, e com isso proporcionou um prêmio Nobel de Física para dois cientistas, anunciado esta semana. Mas o CERN já estava ligado ao Premio Nobel de Fisica por outros laços: 3 físicos já receberam Prêmio Nobel por trabalhos realizados lá dentro (em 1959 e 1984), e outros tres pesquisadores que trabalharam no CERN também foram indicados para o Nobel em 1952, 1976 e 1988. 

O “Bóson de Higgs” é a partícula que torna possível a existência de tudo e de todos, porque funciona como uma espécie de cola para formar a matéria e porisso mesmo é também chamada de “partícula de Deus”. Os cientistas Peter Higgs (ingles) e François Englert (belga) em 1964 fizeram estudos separados sobre o assunto e tiveram que esperar 48 anos para ver a comprovação de sua teoria. Veja acima uma pintura artística de Higgs, o “pai” do bóson). 

O CERN é o segundo mais importante centro de pesquisas de Física do mundo – o primeiro é o laboratório central da NASA, nos Estados Unidos. Criado em 1954 tem 20 Estados membros (o Brasil não é associado), cerca de 2.400 funcionários e mais de 11.000 cientistas e pesquisadores de 580 universidades e centros de pesquisa de 80 nacionalidades (Acima, aspecto do show-room e abaixo, prédios coloridos da cidade científica localizada parcialmente na Suiça e parcialmente na França)

Em seis aceleradores como o da foto abaixo, os cientistas aumentam a energia do feixe das partículas; prótons são acelerados em uma velocidade gigantesca (em apenas um segundo, fazem 11.000 voltas em um circuito de 27 quilometros no acelerador principal, o LHC) e chocam-se entre si. Analisando os dados das colisões, os cientistas chegam a diversas conclusões.

Visitando o CERN descobri que este laboratório fez também importantes contribuições na área de Tecnologia da Informação: no CERN foram desenvolvidas ou melhoradas tecnologias como o “roller ball”, o mouse e a tela touch-screen. Mas o mais importante: foi lá que nasceu a World Wide Web. Seu criador, Tim Berners-Lee em 1980 era consultor de engenharia de software no CERN quando propôs a criação do primeiro programa para armazenamento de informação, chamado Enquire. A Web funcionou primeiro dentro do CERN e no verão de 1991 foi disponibilizada mundialmente. Veja abaixo o primeiro servidor do mundo, e na vitrine da segunda foto dá para ver parte do esquema da www proposto por Berners-Lee.



Os visitantes podem fazer passeios guiados (em inglês ou francês) e conhecer dois núcleos museológicos: o espaço mais antigo, de baixa tecnologia, com exposições temporárias denominadas “A aventura continua” e a exibição permanente “Universo de Partículas”, uma espécie de show-room de alta tecnologia dentro do Globo da Ciiencia e da Inovação, uma colossal redoma de madeira, metal e vidro, inaugurada em 2004 - veja abaixo.


Na mostra “A aventura continua” o visitante tem informações bem simples e objetivas sobre mistérios da natureza como a gravidade, o átomo, as particulas atômicas, a constituição da matéria e do Universo, com muitos cartazes, fotos, banners e alguns equipamentos antigos. Esta seção é feita mesmo para estudantes: simples, objetiva, lúdica quando possivel e com legendas em quatro idiomas.
Já no “Universo de Partículas” a história é outra. A iluminação varia de totalmente clara a clusters coloridos: lâmpadas azul, vermelho ou verde e uma música apoteótica criam uma atmosfera de mistério. 

Informações sobre o trabalho do CERN são apresentadas em equipamentos modernosos como cadeiras com microfones (as “Secret dimensions”, veja acima); globos futuristas gigantescos que giram como roller-balls de computador (como o globo de neutrinos, abaixo) e projeções nas paredes e no teto.

Como tudo fica escuro as fotos não ficam boas – na verdade eles proibem tirar fotos a partir de um determinado momento do programa. É fácil, econômico e agradável chegar no CERN de transporte público porque em Genebra tudo funciona como um relógio suiço. E se você quiser andar por lá (e tiver permissão), poderá alugar uma bicicleta como estas abaixo. 
Um brinde a isso – tim tim.

* Rogerio Ruschel é jornalista e visitou o CERN porque acredita que informação de qualidade também é cultura.