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sábado, 27 de março de 2021

Queijo do Marajó, feito com leite fresco de búfala, ganha reconhecimento de Indicação de Procedência – IP

 

Por Rogerio Ruschel

Meu prezado leitor ou leitora, mais uma boa noticia: o Queijo do Marajó, um queijo fresco de leite de búfala, produzido de forma artesanal há mais de 200 anos no arquipélago do Marajó, no Pará, acaba de ser reconhecido como um patrimônio de valor coletivo. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) atribuiu a ele o registro de Indicação de Procedência, uma das formas de Indicação Geográfica do Brasil.  Na abertura, veja a alegria das vaquinhas de Marajó, que agora são VIPs!!!

Trata-se de um reconhecimento importante para proteção do valor de um produto de base local, um queijo único no mundo que é reconhecido como patrimônio produtivo dos municípios de Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure, cidades que fazem parte do território da Ilha do Marajó. Gabriela Gouveia, um das produtoras que faz parte da Associação de Produtores de Leite e Queijo do Marajó – organização que solicitou em 2018 a Indicação de Procedência - relembra os grandes marcos na trajetória, até a conquista do registro. “É um sonho se materializando. Primeiro com a introdução do búfalo na produção, o uso da desnatadeira até reconhecimento como primeiro produto com serviço de inspeção sanitária em 2013 e a conquista do Selo Arte em 2020 para venda em todo país e agora, finalmente a IG”, diz. 

Historicamente o queijo era produzido por produtores portugueses e franceses com leite de vaca durante dois séculos, mas passou-se a utilizar leite de búfala com a chegada destes animais ao Marajó entre o final do século XIX e o início do século XX. Atualmente a produção está inserida no contexto cultural local, em um processo de produção bem peculiar e artesanal, o que inclui o fato de que o ofício da produção do queijo é aprendido pelos produtores ainda na infância.

Fico feliz porque a realidade dos produtos locais está mudando no Brasil: os produtores estão mais cuidadosos e interessados e os órgãos estatais de registro estão mais flexíveis porque todos estão chegando à conclusão de que se produtos estrangeiros similares podem ser vendidos no Brasil com valor aumentado em até 270% por causa da certificação como IG, porque os nossos não poderiam? Sim, podem, se o mundo souber que eles existem. Os produtores esperam que com a IP o queijo aumente suas chances de conquistar novos mercados, promovendo o desenvolvimento econômico local. Sim isso pode ser feito, mas, repito, desde que o mundo fique sabendo que o queijo de Marajó existe, que é bom, que tem valor - e isso só vai acontecer se os produtores fizerem marketing, marketing bem feito.

O trabalho junto ao INPI foi realizado através do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com o apoio do Fórum Técnico de Indicação Geográfica e Marcas Coletivas do Estado do Pará via articulação, divulgação e visibilidade. O fórum é formado por 32 instituições-membro, entre elas a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), as secretarias de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) e de Turismo (Setur), a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater).

O analista técnico do Sebrae Pará Péricles Carvalho acompanhou a trajetória dos produtores para a conquista da IG e lembra que por muito tempo o queijo do Marajó foi marginalizado, mas que hoje é considerado uma iguaria por grandes chefs da gastronomia. Diz ele: “Nosso primeiro contato com os produtores foi em 2012 quando fizemos o diagnóstico do potencial do produto como IG. Com o resultado positivo, começamos a trabalhar em várias frentes com o apoio de uma rede de parceiros. Foi preciso começar da base, com orientações desde boas práticas e ações para que o produto pudesse ser comercializado dentro da lei para outras localidades dentro do estado”. 

Gostaria de destacar que os ganhos com a denominação de Identidade Geográfica começam sempre antes da formalização – até porque um processo de registro de uma IG pode levar muitos anos (nesse caso, quase três). Carvalho relata:  “Aos poucos houve uma mudança de mentalidade de um senso individual de cada produtor para um senso coletivo, que fez toda a diferença. Eles também acreditaram no Sebrae e na condução do processo. Acompanhamos a criação da associação que foi responsável pelo depósito da IG e também houve um trabalho para estimular os jovens a se interessarem pelo ofício de queijeiro, como oportunidade de negócio”, explicou. 

Agora o Pará tem três produtos com Indicações Geográficas que tenho acompanhado e divulgado, aqui nos blogues “In Vino Viajas”, nos meus livros e palestras e também no meu Web Canal Tesouros no Fundo doQiuintal: o cacau de Tomé-Açu (veja aqui: https://youtu.be/JDCtSOl5vds ), o Guaraná da Terra Indígena Andirá-Marau (veja aqui: https://invinoviajas.blogspot.com/2020/12/terra-indigena-andira-marau-e-primeira.html). Mas em breve deve certificar mais um produto local, a farinha de Bragança.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Prost!!! A cultura do vinho é reconhecida como o 35o. patrimônio cultural imaterial da Alemanha

 

Por Rogerio Ruschel

 

Meu prezado leitor ou leitora, fico feliz em informar que mais um bem da cultura que existe no entorno da produção de vinhos acaba de ser reconhecido como um patrimônio cultural. Estou falando da cultura do vinho na Alemanha, reconhecida em 9 de março de 2021 pelo registro alemão do patrimônio cultural imaterial, por recomendação do comitê de especialistas da Comissão Alemã para a UNESCO - Organização das Naçõs Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Este é o 35o. registro oficial no inventário nacional alemão do Patrimônio Cultural Imaterial e é um importante passo para ser reconhecida pela própria Unesco como um Patrimônio da Humanidade Cultural Imaterial. A informação é do German Wine Institute.

 

Patrimônios da Humanidade são regiões, monumentos, criações, áreas (denominadas “sítios”) ou modos de fazer, tecnologias sociais, produções culturais ou heranças comunitárias consideradas pela comunidade científica e intelectual de inigualável e fundamental importância para a humanidade. E por esta razão são protegidas, como “In Vino Viajas” tem mostrado frequentemente. Podem ser naturais, culturais, imateriais  - em março de 2021 a lista incluía 1.121 sítios e bens reconhecidos, distribuídos em 167 países. Todos os anos propostas, pesquisas e documentos sobre bens patrimoniais são preparados e apresentados na forma de candidatura à Unesco, que pode ou não reconhecê-los como Patrimônios da Humanidade.

 

Pois o reconhecimento da cultura do vinho na Alemanha no registro nacional do patrimônio cultural imaterial homenageia a cultura do vinho na Alemanha como um cultivo aberto, vivo e adaptável de uma tradição firmemente ancorada na sociedade. O raciocínio também destacou que a cultura do vinho na Alemanha inclui aspectos sociais, lingüística, artesanato e paisagem cultural, bem como inúmeros festivais e costumes. Molda o ritmo de vida de muitas pessoas e por isso muitas vezes contribui para a identidade local, especialmente nas regiões vitivinícolas. E foi baseada numa candidatura apresentada pela Academia Alemã do Vinho (DWA) em outubro de 2019 ao secretariado responsável pelo Património Mundial da Renânia-Pfalz no Ministério da Ciência, Educação Continuada e Cultura.

 

"Estamos muito felizes e, junto com todos os defensores da cultura do vinho na Alemanha, estamos muito felizes com esta decisão", disse a diretora-gerente da Academia Alemã do Vinho (German Wine Academy), Monika Reule. Desde o início, a candidatura da Academia Alemã do Vinho foi apoiada pelo Estado da Renânia-Pfalz através do Ministério da Economia, Transportes, Agricultura e Viticultura e foi aconselhada pelo Ministério da Ciência, Educação Superior e Cultura.

Em maio de 2018 fiz uma pesquisa e encontrei cerca de 30 bens materiais e imateriais ligados à cultura do vinho, com reconhecimento pela Unesco. Veja alguns deles a seguir.

 

Patrimônios Materiais

  • Paisagem Culturald e Wachau – Áustria (2000)
  • Vale do Loire entre Sully-sur-Loire e Chalonne – França (2000)
  • Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico – Portugal (2001)
  • Paisagem Histórica Cultural da Região Vinícola de Tokaj – Hungria (2002).
  • Vale do Reno – Alemanha (2002)
  • Porto da Lua e centro histórico de Bordeaux – França (2007)
  • Vinhedos, colinas e propriedades vinícolas de Champagne- França (2015)
  • Climats e terroirs da Borgonha – França (2015)
  • Áreas protegidas da região de Cape Floral, Cabo – África do Sul (2004)
  • Paisagem Vinícola do Piemonte – Itália (2014)

 

Patrimônios imateriais da cultura do vinho:

  • Prática agrícolatradicional “vite adAlberello” – Ilha Pantelleria, Itália
  • Método devinificação ancestral “Qvevri” – Georgia
  • Iter Vitis – Associação Europeia para a Promoção dos Territórios Vitivinícolas

 

Brindo a isso – Prost!!!

 

Para saber mais: Conheça mais de 20 bens da cultura do vinho que são reconhecidos pela Unesco como Patrimônios da Humanidade - https://wpconseld.com.br/invinoviajas/2018/05/patrimonios-da-humanidade/

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

As aventuras gastronômicas no maravilhoso mundo em miniatura de Pierre Javelle e Akiko Ida

 


Por Rogerio Ruschel (*)

 

Prezado leitor ou leitora, Você gostaria de brincar de escorregar em um prato de chantilly? Ou mergulhar em um lago de chocolate? Esculpir em um amendoim? Ou quem sabe jogar golfe em um biscoito? Pois isso você pode fazer se tiver a mesma imaginação de dois gastrônomos-artistas-fotógrafos muito criativos que você vai conhecer agora. Publiquei este artigo em 2015 e repito agora porque a beleza nnao sai de moda.

 

Desde 2002, os fanáticos pela gastronomia Pierre Javelle e Akiko Ida foram inventando e fotografando uma série de dioramas lúdicas, que eles chamaram de “Minimiam”, combinando estatuetas em miniatura de pessoas interagindo com vários tipos de alimentos.

 

Um diorama é um modo de apresentação artística de um ambiente, feito de maneira muito realista representando cenas da vida real para exposição com finalidades de instrução ou entretenimento. Lembra daquelas vitrines com animais em museus? Pois é aqueles são dioramas ”normais” com os animais em tamanho natural. E o nome Minimiam é uma combinação das palavras “miniatura” e "delicioso" (“miam” em francês).

 


 Akiko é uma japonesa que além de ser boa em culinária, também sempre gostou de fotografar. Akiko se especializou em criar pães e acabou se tornando uma fotógrafa de alimentos muito badalada na Europa. Pierre é francês da Borgonha e também trabalha com desenhos. Ele se confessa influenciado pelos personagens das Histórias em Quadrinhos (de onde vem as miniaturas?) e pelo trabalho do famoso fotógrafo Cartier-Bresson.

 

Pois os dois juntos criaram os Minimiams que são utilizados como ilustrações por revistas de gastronomia, design e revistas de bordo como Air France Magazine, TGV Magazine, ou jornais como Le Monde ou Paris-Times – alem de campanhas publicitárias de produtos alimentícios, é claro.

 

Os dramas em miniatura criam cenários muito criativos e atraentes que nos permitem ver cenas da vida de pessoas comuns, relaxando ou trabalhando, em ambientes criados com elementos de gastronomia como frutas, legumes, pratos prontos ou doces, como se fossem situações quotidianas.

 


Realmente uma bela criação que valoriza os alimentos, as pessoas e a beleza gráfica. Atualmente a dupla também realiza projetos não incluindo o mundo da gastronomia, que você pode conhecer no site deles, aqui: http://www.minimiam.com/en/goen.html

 

Faço um brinde a Pierre Javelle e Akiko Ida, os criadores dos Minimiams.

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

Rio Grande do Sul colheu 800.000 toneladas de uva em 122 municípios: uma safra muito boa para vinhos que prometem qualidade


Por Rogerio Ruschel, com texto da Conceito.com

Meu prezado leitor ou leitora, no periodo de metade de janeiro a comecinho de março aproximadamente os brasileiros colhem a safra anual de uvas – tanto para consumo na mesa quanto para produção de sucos ou vinhos. Pelos meus calculus, ea atividade da vitivinicultura envolve direta ou indiretamente cerca de 5 milhões de pessoas em pelo menos 170 localidades e municípios em 40 regiões de 10 Estados brasileiros. As avaliações iniciais falam em uvas de qualidade que podem levar a mais uma safra de ótimos vinhos, como tem sido nos últimos anos.

A União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) acaba de divulgar os resultados da safra 2021, a colheita das uvas no estado do Rio Grande do Sul, principal pólo produtor do fruto, de sucos e de vinhos do Brasil.  O texto a seguir (e a foto) é da assessoria de imprensa Conceito.com.

“Novas áreas cultivadas que entram em produção este ano e a ausência de perdas em razão de intempéries projetam uma safra da uva muito maior que a do ano passado. As previsões indicam um leve aumento, podendo ultrapassar as 800 mil toneladas somente no Rio Grande do Sul. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje o estado mantém 46.774 hectares destinados ao cultivo da uva. Em relação a qualidade, ainda é cedo para fazer uma avaliação geral. Entretanto, as uvas precoces, destinadas à elaboração de espumantes apresentaram excelente sanidade e equilíbrio entre acidez e açúcar, o que é ideal para a bebida.

As condições de estiagem, combinadas com grande amplitude térmica diária, de dias quentes e noites frias, ocorridas no final da primavera e início do verão, não anteciparam o ciclo e foram muito favoráveis para a quantidade e a qualidade enológica das uvas precoces. Entretanto, apesar de uma previsão de maior quantidade em relação à safra 2020, o prognóstico de maiores índices de chuvas pode restringir o potencial qualitativo de algumas cultivares intermediárias e tardias, o que exige maior atenção dos produtores.

Para o presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Deunir Argenta, ter uma grande safra e de qualidade é um alento para um setor que viu seus estoques praticamente desaparecerem diante do excelente de desempenho de vendas em 2020 em razão da pandemia. “As pessoas ficaram mais em casa, mudando hábitos de consumo. A alta do dólar também ajudou, fazendo com que o brasileiro degustasse e descobrisse o vinho brasileiro, aprovando a experiência, tanto pela qualidade, quanto pelo bom preço”, avalia. Argenta também destaca o problema da falta de garrafas que vem se agravando ano a ano. “Se já enfrentávamos este problema com uma safra menor, nosso grande desafio será resolver esta situação, uma vez que o consumo per capita subiu no ano passado”.

A safra gaúcha em números

Quando falamos de safra da uva, logo vem à mente cidades como Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Garibaldi, Farroupilha, Caxias do Sul. Mas, o mapa da vitivinicultura gaúcha é muito maior. Hoje, o Rio Grande do Sul tem 497 municípios. Destes, 122 vivem do cultivo da uva, entre outras culturas, conforme dados do Cadastro Vinícola do Estado do Rio Grande do Sul (SISDEVIN/DAS). Menos de um quinto deste grupo, ou seja, 22, produzem apenas variedades viníferas. Outras 34 cidades mesclam as áreas com uvas viníferas e americanas, e a grande maioria, 66 delas, se dedicam ao cultivo exclusivo das uvas americanas.

A aposta única nas viníferas está distribuída por diversas regiões em pequenas cidades, como André da Rocha, Bagé, Candiota, Canela, Dom Pedrito, Hulha Negra, Itaara, Itaqui, Lavras do Sul, Mariana Pimentel, Muitos Capões, Passo do Sobrado, Pedras Altas, Pinheiro Machado, Piratini, Quaraí, Rosário do Sul, Santana do Livramento, São Borja, São João do Polesine, São Sepé e Uruguaiana. Neste caso, a maior representatividade está em Santana do Livramento com 10% de toda produção de uvas viníferas do Estado, chegando a 6,9 mil toneladas no ano passado.

 Considerando os municípios que cultivam viníferas e americanas, o maior produtor de uvas é Flores da Cunha com um total de 84 mil toneladas em 2020, seguido por Bento Gonçalves com 73 mil toneladas e Farroupilha com 50 mil toneladas. Entretanto, o maior produtor de uvas viníferas é Bento Gonçalves com 12 mil toneladas.

Das 735 mil toneladas de uvas colhidas em 2020 (IBGE) no Rio Grande do Sul, sendo 502 mil toneladas industrializadas, por cerca de 15 mil famílias, 86% são de variedades americanas. Das 34 castas cultivadas (21 tintas, 12 brancas e uma rosé), o grande destaque fica com as tintas Isabel e Bordô, amplamente usadas para a elaboração de suco de uva. Agora, quando falamos de viníferas, o cenário amplia para 78 variedades, sendo 38 tintas, 38 brancas e duas rosés. A maior produção é de Moscato Branco e Chardonnay, além das tintas Merlot e Cabernet Sauvignon. Castas como Garganega, Moscato Rosado e Itália (Pirovano 65) não ultrapassam mil quilos. Toda essa produção é processada por 614 vinícolas no Rio Grande do Sul, segundos dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Em todo o Brasil, são 831 vinícolas.

 

Imagens: Divulgação Safra 2021

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Brasil vai ter mais três regiões vinícolas com certificação de origem; processos aceleram no INPI

 

Por Rogerio Ruschel

Estimado leitor ou leitora, boas notícias: o Brasil está acelerando propostas de certificação de origem para vinhos e espumantes e isso vai ajudar a conquistar respeito e mercado, dentro e fora do país. Estamos muito atrasados em relação a produtores com os quais queremos competir: em 2017 existiam 1.043 Identidades Geográficas - IGs apenas de vinhos, na Europa; só a França tinha 473 regiões certificadas, a Itália tinha 464 e a pequena Luxemburgo, que tem pouquíssima experiência com vinhos e um território do tamanho de uma fazenda de médio porte no Brasil, tem 36 regiões certificadas de vinhos. O quadro abaixo, retirado do meu livro “O valor global do produto local”, mostra um resumo.

Então a boa notícia é que corremos atrás do prejuizo. Hoje o Brasil já dispõe de sete IGs de vinhos, sendo seis delas de Indicações Geográficas (Campanha Gaúcha, a mais recente; Altos Montes, Farroupilha, Monte Belo, Pinto Bandeira, Vales da Uva Goethe) e uma de Denominação de Origem (Vale dos Vinhedos, a mais antiga). Mas outras três estão em processo de reconhecimento: Altos de Pinto Bandeira, Região do Planato Catarinense e Vale do São Francisco.

Não precisamos ter centenas de anos de cultivo e milhares de hectares de produção de uvas e vinhos para que valha a pena investir na identidade e origem. A Vinícola Miolo, por exemplo, com apenas 32 anos de existência, investe na valorização de 10 vinhos e espumantes que levam o selo de Denominação de Origem Vale dos Vinhedos – um pequeno número no universo de sua produção total que inckuioutras regiões.

Quando um produto adquire uma identidade territorial derivada da região onde é produzida (uma Identidade Geográfica – IG), a certificação das características exclusivas ou intrínsecas deste produto, agrega valor de mercado e ajuda a protegê-lo de cópias, através de um selo que garante sua identidade e lhe acrescenta valor como Propriedade Industrial – PI. Venho pesquisando, estudando e reportando sobre este tema não só aqui no In Vino Viajas, mas criei o WebCanal Tesouros no Fundo do Quintal, hoje com 27 videos com historias de sucesso sobre o tema e escrevi o primeiro livro brasileiro de marketing sobre o assunto, “O valor global do produto local – A identidade territorial como estratégia de marketing”, publicado em 2018 pela Editora Senac. Veja os links no fim desta matéria.

Voltando aos vinhos, veja o que um especialista informa: “As Indicações Geográficas brasileiras representam um reconhecimento dos territórios do  vinho  organizados,  geridos  de  forma  coletiva  pelos  produtores  para  valorizar  a origem, promover e garantir a qualidade dos produtos. São regiões que estão ampliando seurenome, o  que  reforça  a  imagem  junto  ao  mercado  consumidor. Apresentam um diferencial para assegurar posição no mercado competitivo. A agregação de valor aos produtos  faz  parte  de  uma  construção  da  imagem  e  do  renome,  que  normalmente evoluem com a consolidação das indicações geográficas”, segundo Jorge Tonietto, Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, na foto abaixo.



A meu pedido o Dr. Jorge Tonietto, fez um resumo das três solicitações de reconhecimento de origem que tramitam no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI): Altos de Pinto Bandeira, Região do Planato Catarinense e Vale do São Francisco. Ele é Engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com mestrado em Fruticultura de Clima Temperado pela Universidade Federal de Pelotas - UFPEL e doutorado em Biologie de L'évolution et Ecologie - École Nationale Supérieure Agronomique de Montpellier, França e um dos mais importantes especialistas brasileiros em Indicações Geográficas. Com a palavra, Jorge Toniolo.

Indicação de Procedência “Vinhos de Altitude de Santa Catarina”

Esta IG localiza-se em latitudes pouco tradicionais da viticultura mundial. Possui a área geográfica  delimitada vitivinícola  com  as  temperaturas  mais  frias  do  Brasil,  mesmo estando  em  latitudes  mais  baixas  do  que  as  encontradas  nas  regiões  produtoras  de vinhos do Rio Grande do Sul. Estastemperaturas amenas são resultado da altitude onde os vinhedos são cultivados -sobretudo a partir de 900m, podendo chegar a 1400m, em altitudes onde não existe viticultura na Europa. Nestas condiçõesdo Brasil, o ciclo da videira é mais longo, sobretudo no período de maturação das uvas, resultando em uvas de qualidade que dão origem aos chamadosVinhos de Altitude de Santa Catarina. A produção  de  vinhos  finos  tranquilos  e  espumantes  naturais  é  limitada  ao  volume  de produção de poucas centenas de hectares de vinhedos cultivados na região.Os Vinhos de Altitude de Santa Catarina compõem uma identidade até então inexistente na  vitivinicultura  brasileira doséculo  XX. 

Esta nova  região  produtora  enriquece  o patrimônio  vitivinícola  nacional  e  amplia  a  diversidade dos  vinhos  de  qualidade brasileiros. A estruturação desta IG foi resultado de uma parceria entre a Epagri, Embrapa Uva e Vinho, Sebrae  e  os  produtores da  associação “Vinho de  Altitude –Produtores  & Associados”, que  depositou o  pedido  de  registro da  IG  no  Instituto  Nacional  de Propriedade Industrial –INPI em 2020, o qual está seguindo os trâmites do processo, com perspectivas de obtenção do registro ainda em 2021.Parasaber mais sobre a IP Vinhos de Altitude de Santa Catarina: http://sistemas.epagri.sc.gov.br/semob/consulta.action?subFuncao=consultaPublicacoesDetalhe&cdDoc=47709

Indicação de Procedência de vinhos “Vale do São Francisco”

Sem dúvida esta é uma IG muito particular na viticultura brasileira e mundial. Trata-se da produção dos chamados vinhos tropicais, no clima tropical semiárido do Vale do São Francisco. Nesta condição, não há alternância entre verões e invernos como ocorre nas regiões de viticultura tradicional do mundo e a videira pode manter o ciclo vegetativo ao longo do ano, possibilitando colheitas e elaboração de vinhos de janeiro a dezembro. Além  disto,  os  vinhos  possuem  uma  identidade  própria  que  resulta  da  interação  das variedades com o clima e o soloda região. A IG Vale do São Francisco é um marco, pois é a primeira em nível mundial estruturada com requisitos equivalentes aos utilizados na União Europeia. E a primeira em vinhos tropicais.

Isto garante a origem e a identidade destes produtos, que inclui os espumantes naturais, espumantes moscatéis, vinhos tintos, rosados e brancos. Um  amplo  projeto  coordenado  pela  Embrapa  Uva  e  Vinho  em  parceria  da  Embrapa Semiárido  e  diversas  outras  instituições,  incluindo  os  produtores  através  do instituto Vinhovasf, apoiou a estruturação inédita desta IG de vinhos tropicais. Com pedido de registro depositado no INPI em dezembro de 2020, estima-se que a IG possa estar reconhecida no primeiro semestre de 2022.Para saber mais: https://www.embrapa.br/en/busca-de-noticias/-/noticia/58842515/brasil-e-pioneiro-em-indicacao-geografica-de-vinhos-tropicais

Denominação de Origem de espumante natural “Altos de Pinto Bandeira”

As denominações de  origem contemplam produtos que apresentam características próprias que resultam do efeito dos fatores naturais (clima, solo, relevo) e dos fatores humanos  (variedades,  sistemas  de cultivo, técnicas  de  elaboração  e  envelhecimento) da região  delimitada. Altos de Pinto Bandeira é o resultado de um trabalho evolutivo da região de Pinto Bandeira, hoje compartilhado por uma coletividade de produtores nesta região diferenciada, que se beneficia de um clima ameno de uma zona de maior altitude da  Serra  Gaúcha. Trata-se  da  primeira  DO  brasileira  exclusivamente  de  espumantes naturais. Possui um conjunto estrito de requisitos de produção para garantir verdadeiros produtos  de  terroir:  produção  das  uvas  na  área  delimitada,  apenas  três  variedades autorizadasde  alta  aptidão,  sistemas  de  cultivo  específicos  e  com  controle  de produtividade,  técnicas  de  vinificação  particulares,  incluindo  a  prensagem  de  uvas inteiras, segunda fermentação exclusivamente pelo método tradicional, tempo mínimo de um ano de contato com as leveduras no período de autólise, padrões de qualidade do vinho base e do produto finalizado, incluindo aspectos analíticos e sensoriais.

A Serra Gaúcha tem  como  produto  ícone  os  espumantes  naturais,  reconhecidos no mercado nacionalpela sua qualidade. A DO Altos de Pinto Bandeira garante a origem deste produto, com os melhores padrões de produção tradicional numa área demarcada de  excelência.  Com  isto,  os  consumidores  podem  ter  acesso  a  estes  produtos diferenciados.Um projeto liderado pela Embrapa Uva e Vinho, com a parceria da UCS, UFRGS e dos produtores  da  Asprovinho,  concluiu  a  geração  dos  elementos  que  possibilitarão  o imediato  depósito  do  pedido  de  registro  da  DO  junto  ao  INPI,  com  expectativa  de reconhecimento para  início de 2022. Saim mais: https://www.embrapa.br/en/uva-e-vinho/indicacoes-geograficas-de-vinhos-do-brasil

 

Para saber mais:

* WebCanal Tesouros no Fundo do Quintal – https://www.youtube.com/channel/UCc4c2FU6Z88_XU_2I2lFbmA

* Livro “O valor global do produto local” – https://www.essentialidea.com.br/portfolio-item/o-valor-global-do-produto-local/

* Artigos sobre Identidade Geográfica http://www.invinoviajas.com/?s=identidade+geo

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Do Pau-Brasil abandonado ao Guaraná protegido: de olho na certificação de origem dos produtos brasileiros mais tradicionais

 

Por Rogerio Ruschel

Com 521 anos de história, o Brasil reconhece sua primeira Indicação Geográfica indígena e cria o único “terroir com alma” do mundo: o Tekoha dos Sateré-Mawé.

Meu prezado leitor ou leitora, fico feliz em poder escrever isso: parece que finalmente o Brasil está levando a sério o reconhecimento do valor de seus produtos locais, nativos, que estamos acreditando que vale a pena agregar valor ao nosso próprio patrimônio, especialmente no que se refere a agroalimentos. Esta percepção de valor se torna mais importante quando um produto adquire uma identidade territorial própria, derivada da matéria-prima ou da região onde é produzida, chamada de Identidade Geográfica - IG.  Esse processo de certificação das características exclusivas ou intrínsecas de um produto, serviço ou bem cultural que diferencia este produto, agrega valor de mercado e ajuda a protegê-lo de cópias, através de um selo que garante sua identidade e lhe acrescenta valor como Propriedade Industrial - PI.

Na Europa, nas Américas e na Ásia milhares de produtos se beneficiam de IGs com “sobrenomes” como vinhos Bordeaux, Porto, Chianti e Champagne, queijos Gruyére, Camembert e Cheddar, presunto de Bologna, chá de Darjeeling, etc… No Brasil as IGs são concedidas pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) em duas categorias (Denominações de Origem – DO e Indicações de Procedência – IP) totalizam 84 IGs registradas e entre as mais conhecidas estão vinhos do Vale dos Vinhedos, cachaças de Paraty e Salinas, queijos Canastra e Serro, Café do Cerrado Mineiro e cacau do Sul da Bahia.

Fico feliz porque até pouco tempo pouquíssimas pessoas falavam sobre Identidade Geográfica de produtos e serviços como reconhecimento do valor de um patrimônio comunitário ou territorial – e menos ainda a tratavam como um valor de mercado. Este era é um assunto de especialistas, pesquisadores acadêmicos, profissionais de entidades como Embrapa, Epagri, Emater e Sebrae, algumas associações de produtores – e de pouquíssimos jornalistas, entre os quais, sem falsa modéstia, este que vos escreve. Eu venho pesquisando, estudando e reportando sobre este tema há pelo menos 6 anos, criei o WebCanal Tesouros no Fundo do Quintal, hoje com 27 videos com historias de sucesso sobre o tema e escrevi o primeiro livro brasileiro de marketing sobre o assunto, “O valor global do produto local - A identidade territorial como estratégia de marketing”, publicado em 2018 pela Editora Senac. Veja os links no fim desta matéria.

Aumentando o conhecimento

Alguns fatos reforçam minha percepção de que estamos evoluindo. O primeiro é que em dezembro de 2020, quando o INPI comemorou 50 anos, a Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia (SEPEC/ME) lançou a Estratégia Nacional de Propriedade Intelectual (ENPI) que “incentiva a criatividade e os investimentos em inovação, visando ao aumento da competitividade e ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil” segundo o órgão. Como qualquer iniciativa que modernize a máquina e agilize ações da iniciativa privada, isso é muito bemvindo.

O segundo fato: durante este silencioso e pandêmico ano de 2020, 10 novas IGs foram reconhecidas e 19 processos de pedidos de registro deram entrada no INPI; 29 IGs foram mobilizadas em um ano – contra apenas 4 novas IGs aprovadas em 2019.  Assim fechamos o ano de 2020 com 84 IGs registradas, sendo 23 Denominações de Origem (14 nacionais e nove estrangeiras) e 61 Indicações de Procedência nacionais. Mas poderiam (e poderão) ser centenas.

Um terceiro fato:  já no início de 2021 o INPI publicou a primeira edição do Manual de Indicações Geográficas com recomendações aos usuários e examinadores do INPI, detalhamento sobre os procedimentos e diretrizes de exame, bem como definições técnicas relevantes para a matéria. Certamente isso vai acelerar a burocracia de novos processos e o quadro abaixo deixa isso claro: o INPI tem como meta aprovar 22 IGs em 2021.

 

As IGs aprovadas no ano 2020 foram:

·       Campos de Cima da Serra - Santa Catarina/Rio Grande do Sul (DO): queijo artesanal serrano

·       Campanha Gaúcha - Rio Grande do Sul - (IP): vinho tinto, branco, rosado e espumantes – veja em  http://www.invinoviajas.com/?s=campanha

·       Mantiqueira de Minas - Minas Gerais - (DO): café verde em grão e café industrializado em grão ou moído

·       Novo Remanso - Amazonas - (IP): abacaxi

·       Caicó - Rio Grande do Norte - (IP): Bordado

·       Porto Ferreira - São Paulo - (IP): cerâmica artística

·       Terra Indígena Andirá-Marau - Amazonas/Pará - (DO): guaraná nativo e bastão de guaraná – (primeira indicação geográfica concedida a um território indígena) – veja em http://www.invinoviajas.com/2020/12/warana/

·       Campos das Vertentes - Minas Gerais (IP): café verde, café industrializado em grão ou moído

·       Matas de Minas - Minas Gerais (IP): café em grãos cru, beneficiado, torrado e moído.

·       Antonina - Paraná (IP): bala de banana

Ao fim de mais de 520 anos de existência, o Brasil começa a reconhecer que seus produtos nativos tem valor, e que este valor pode ser ampliado e protegido com uma identidade geográfica a um produto local, “colonial” ou “caipira”.

Demoramos a aprender esta lição que começou com um exemplo clássico de desperdício com a primeira identidade geográfica potencial para um produto brasileiro realmente competitivo e exclusivo: a madeira denominada com o nome de pau-brasil. O pau-brasil ((Paubrasilia echinata) foi surrupiado da natureza e exportado para a Europa via Portugal por muitas décadas no século XVI. E quais os resultados? Hoje o pau-brasil está em listas de espécies ameaçadas de extinção, continua desconhecido e desrespeitado pelos brasileiros e não tem “utilidade” commercial; talvez porque esta árvore tenha sido ignorada como patrimônio comunitário entre 1501 e 1978, quando finalmente foi declarada patrimônio e árvore nacional e formalmente protegida por lei.  

  

Por que e como isso aconteceu? Pela sua madeira e pela resina vermelha que era utilizada na produção de um corante para tecidos, o pau-brasil foi valioso enquanto não se pagava por ele, chegou a construir uma boa imagem de produto, mas não acrescentou um centavo aos brasileiros natos, os indígenas que eram os proprietários deste recurso. Na verdade os indígenas eram contratados para derrubar as árvores de pau-brasil (que chamavam de ibirapitanga) com pagamento irrisório por escambo de segunda classe.

Apenas como curiosidade: o primeiro português a ter o direito de explorar o pau-brasil, em 1501, foi Fernão de Loronha que havia “ganho” a ilha de São João (atual Fernando de Noronha) como sua capitania. Mas o tal Loronha não explorou as árvores porque além de dar trabalho (ainda não haviam escravos) ele ainda tinha que dar todos os lucros para a Coroa portuguesa. Então preferiu investir em açúcar no continente. Dos males, talvez o menor, porque se tivesse explorado o pau-brasil, talvez Fernando de Noronha tivesse se tornado um imenso deserto e não seria o paraíso preservado que é hoje.

O pau-brasil poderia ter sido registrado, protegido e valorizado com uma Denominação de Origem Pau-Brasil, e hoje teríamos um excepcional produto de exportação: uma resina natural, com produção sustentável, acompanhando a cor da moda, e talvez com o aval de indigenas como elemento promocional…  

 

Mas antes tarde do que nunca: estamos começando a descobrir o valor de nossos produtos com origem e identidade com 521 anos de aprendizado, às portas da viabilização de um acordo Mercosul com a União Europeia pelo qual todas as IGs serão protegidas nos dois blocos e poderemos correr o risco de ser engolidos por produtos europeus.

Se o Pau-Brasil foi ignorado como patrimônio nacional por mais de 450 anos, podemos recuperar parte da dignidade dos produtos tupiniquins e da cultura indígena com o recente reconhecimento pelo INPI da Terra Indígena Andirá-Marau como a primeira Indicação Geográfica (IG) de Origem concedida a um povo indígena brasileiro, em razão de dois produtos locais: o waraná (um guaraná nativo) e o pão de waraná (bastão de guaraná).


O reconhecimento foi concedido no dia 20 de outubro de 2020 à região denominada Terra Indígena Andirá-Marau, com 8.000 Km2, localizada na divisa dos estados do Amazonas e do Pará, como uma Indicação Geográfica (IG) do tipo Denominação de Origem – DO. Esta classificação considerou que ficou provado que o waraná, como é chamado pelos indios Sateré-Mawé, apresenta características únicas devido ao bioma local e o “saber-fazer” do povo indígena com seu modo próprio de cultivo e obtenção do produto. Segundo a crença ancestral dos Sateré-Mawé, sua sabedoria reside exatamente no waraná, a planta que contém sua essência; eles se consideram “filhos do guaraná”.

Ou seja: este guaraná só existe por causa do terroir Andirá-Marau. Mas como não somos franceses e o conceito envolve tradições e crenças que vão além de considerações edafoclimáticas, vou sugerir denominar este conceito de Tekoha, o terroir com alma. Tekoha é uma expressão que significa aldeia guarani, mas também o lugar do modo de ser guarani, sendo que modo de ser (tekó) é entendido como um conjunto de preceitos para a vida, em consonância com a herança cosmológica herdada pelos antigos guaranis. Tekohas são as áreas cerimoniais da tradição guarani, o centro das atividades xamânico-religiosas da comunidade. Então  o Tekoha dos Sateré-Mawé é o primeiro “terroir com alma” tropical. Enfim: em 521 anos de história evoluímos do pau-brasil quase extinto como patrimônio de valor para o waraná, o Guaraná protegido e valorizado como terroir de uma etnia, o Tekoha Andirá-Marau. E fique sabendo que o waraná é tão valorizado, meu caro leitor ou leitora, que é vendido na Europa pela empresa parisiense Guayapi, especializada em produtos étnicos, e pelo Salão do Gusto Tierra Madre, do Slow Food, por 68,50 Euros uma latinha. Isso, claro, antes de ter sido certificado como um produto local que adquiriu valor global.

Para saber mais:

* WebCanal Tesouros no Fundo do Quintal - https://www.youtube.com/channel/UCc4c2FU6Z88_XU_2I2lFbmA

* Livro “O valor global do produto local” - https://www.essentialidea.com.br/portfolio-item/o-valor-global-do-produto-local/

* Artigos sobre Identidade Geográfica http://www.invinoviajas.com/?s=identidade+geo

Rogerio R. Ruschel (rogerio@essentialidea.com.br) é jornalista, professor, palestrante e autor e editor de livros e escreve sobre produtos com identidade e origem