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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vilarejos da Sicilia, Itália: segredos urbanos de Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia.


Por Rogerio Ruschel (*)
Banhada por três oceanos - os mares Tirreno, Jônico e Mediterrâneo, de onde se originou seu slogan de Trimare - a Sicília é uma das regiões menos abastadas da Itália, mas uma das mais ricas em acervo cultural.
Lá existem mais monumentos da Grécia Antiga do que na própria Grécia. Lá está também a casa romana mais bem conservada do mundo, em Piazza Armerina, e o Vale dos Templos, em Agrigento, dois dos 49 bens materiais e 4 bens imateriais tombados na ilha como Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.

Ao longo dos séculos esta ilha que aproxima a Europa da África foi cobiçada por todos os grandes conquistadores da história e no comportamento de seu povo e em seu território convivem nítidos vestígios das culturas Fenícia, Grega, Romana, Árabe, Normanda, Espanhola, Alemã, Francesa e outras.
E tudo isso aparece na forma de tesouros - arqueológico, arquitetônico e cultural sem igual. Trata-se de uma das mais completas e fascinantes regiões do mundo, visitada anualmente por milhões de pessoas de bom gosto de todos os rincões. 
Embora aparentemente árida ao primeiro contato – pela presença do vulcão Etna, pelo clima seco e pela pobreza de água (em toda a ilha somente o rio Alcantara, em Messina, permanece com água o ano inteiro) - a Sicilia tem cores, sabores e perfumes apaixonantes e inesquecíveis; quem visita quer voltar!

Estive na região do Vale do Alcântara, passeei no Parque do vulcão Etna; visitei Catania, Caltagirone; Taormina e Forza D’Agró; as fantásticas ruínas gregas e romanas de Agrigento; o Vale e o Templo de Segesta; a casa romana de Piazza Armerina; a capital Palermo, a região vinícola de Marsala, Trapani e a surpreendente Érice. (Veja aqui no In Vino Viajas nove posts com estes relatos, começando em agosto de 2012).
Lembro com muito carinho os pequenos vilarejos com 500, 1.500 e 3.000 moradores, que são a maioria da Sicilia. Colecionei algumas destas imagens de Lenguaglossa, Moio Alcântara, Taormina, Monreale, Malvagnia e Castiglione que publico aqui agora para o leitor de In Vino Viajas passear comigo por este destino encantador. Um brinde à Sicilia e a seus segredos urbanos.


Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:



 
(*) Rogerio Ruschel, jornalista de turismo, enófilo e consultor em sustentabilidade e cidadania esteve na Sicilia por 30 dias trabalhando em um projeto de turismo cultural. E quer voltar.

sábado, 21 de setembro de 2013

Lençóis Maranhenses, Brasil: um deserto tropical com lagoas que secam, peixes que “surgem” e turistas que se encantam



Por Rogerio Ruschel (*)

O suor escorria da testa e misturado com o protetor solar 30 irritava meus olhos teóricamente protegidos por óculos escuros. Depois de 12 quilometros sacolejando e escorregando em uma estrada de areia grossa, agarrado onde podia em uma Toyota de 14 lugares, e de mais de 1 quilometro subindo e descendo dunas de até 6 metros, eu estava  quase desistindo.
 
E cá prá nós: só não desisti porque ao meu lado um casal de velhinhos japoneses continuava incentivando Jully, a neta de 8 anos, a não desistir. Estávamos, Marisa, minha mulher e eu, quase chegando à Lagoa do Peixe, no Parque Nacional Lençóis Maranhenses, uma área federal protegida e clássico destino de turismo ativo, na região nordeste do Brasil.

O roteiro que fazíamos era considerado leve, mas como era fim de temporada de verão, no mes de dezembro, as lagoas Azul e Bonita, as mais próximas do ponto onde costumam estacionar as Toyotas, estavam vazias – as lagoas ficam cheias entre maio e agosto. Mas valeu a pena, porque o visual é muito bonito e o banho - com água até o peito e cercado de peixinhos - é recompensador. 

Com seus 155 mil hectares, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é uma atração encantadora: um deserto tropical com oásis e centenas de lagoas formadas pelas chuvas e alimentadas pelo lençol freático, das quais 90% são temporárias e 70% têm peixes - e é verdade, porque eu vi.  Cientistas explicam que quando as lagoas secam ovos e larvas de peixes ficam no solo úmido, e quando a água volta, os peixinhos nascem. Como nunca viu peixes “chovendo” esta deve ser a única explicação viável…

O roteiro em Lençóis tem como entrada a cidade de Barreirinhas (abaixo), a 250 quilometros de São Luis do Maranhão e pode incluir trilhas avulsas, um passeio pelo rio Preguiças, o sobrevôo da região e uma "flutuação" em rio em Cardosa - além de boa gastronomia e da visita a lojinhas de artesanato em palha (especialmente buriti), madeira e tecidos.

O passeio pelo rio Preguiças (abaixo), feito num catamarã de 65 lugares na temporada, é demorado mas bonito, margeado por manguezais e bordado por palmeiras, brilhantemente azul no sol forte e vermelhão no fim da tarde. Embora sejam apenas 38 quilometros de Barreirinhas até a foz no oceano, a viagem pode demorar até 3 horas, o que é demais. 

No caminho visita-se Vassouras, ponto de acesso aos "Pequenos Lençóis" - região desértica que fica ao lado direito do rio e fora do Parque Nacional - onde foi construido um bar-restaurante como ponto de apoio para pescadores (e turistas), no qual a atração principal é conviver com um bando de macacos-prego, entre os quais o Pepe, que encanta os turistas com olhos suplicantes por bananas. E que encantou este repórter, como você pode ver nesta foto abaixo.

Outro ponto de parada é o vilarejo de Mandacaru (abaixo), onde o atrativo é subir os 160 degraus de um farol para ter uma maravilhosa vista panorâmica da região (abaixo) - com o sacrifício de enfrentar uma temperatura de até 40 graus Celsius na areia. 

Mais cinco minutos e se chega ao ponto final do passeio, o vilarejo de Caburé, uma ponta de areia de cerca de 400 metros que separa o rio Preguiças do mar, e onde foram construídas várias pousadas com boas opções de lazer como passeios com barco "voadeira" até a foz, uns 5 quilometros, piscina refrescante e gastronomia regional, simples mas deliciosa. 

A volta proporciona boas fotos ao por-do-sol para os que resistirem ao cansaço e preguiça sem pegar no sono. 

Embora arriscado porque o aeroporto de Barreirinha não é homologado, fiz um sobrevôo da região com um Cessna 210H, com asas superiores, para cinco lugares, mas acho que dei azar. Adentramos os Lençóis até o rio Negro, quase no centro do Parque Nacional, sobrevoamos o rio Preguiças e embora tenha tirado algumas fotos, me arrependi porque o avião era apertado e quente e fiquei desejando que pousasse logo…

(*) Rogerio Ruschel é jornalista e esteve em Lençois Maranhenses em 2005 a convite da CVC Turismo











domingo, 15 de setembro de 2013

Pesquisa italiana aponta seis razões para acreditar no turismo enogastronômico, apesar da crise


Por Rogerio Ruschel (*)
A Associazione Nazionale Città del Vino da Itália reúne cerca de 482 comunidades (a grande maioria vilarejos com até 6.000 moradores), que tem o turismo como uma das mais importantes atividades econômicas.

A rede oferece 140 “estradas do vinho”, 4.000 albergues (com 142.000 leitos), 1.500 fazendas agroturísticas (com 18.000 leitos), 188 campings, centenas de produtores de vinho e milhares de restaurantes. São responsáveis por 200.000 hectares de vinhedos de qualidade, 80% dos vinhedos com classificação DOC e DOCG da Italia. E isso sozinho já é poderoso!
A Associação faz uma pesquisa anual junto a seus associados, denominada “Osservatorio sul Turismo del Vino”. In Vino Viajas publica agora o segundo post sobre esta pesquisa relativo a 2012. Veja o primeiro, sobre a importância da internet para o entorusimo, em http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/08/a-importancia-da-internet-para-o.html

A Itália (como os demais países europeus) ainda se ressente da crise e do corte de despesas no turismo interno que vem deixando muitos pequenos restaurantes vazios, como na foto abaixo. Segundo o instituto de pesquisa Nielsen, em 2012 cerca de 53% das famílias italianas reduziram as férias e até mesmo as estadas breves; além disso cresceu em 5% o número de famílias que eliminaram completamente as férias anuais. Entre 2009 e 2011 foi reduzido em 27% o número de viagens e 21% o número de noites passadas fora de casa por italianos dentro da Itália.

Mesmo com este ambiente de crise, os dados levantados pela pesquisa são positivos e o cenário é de otimismo. Veja a seguir um trecho da pesquisa que avalia (e mostra com quadros) o que está acontecendo na Itália, e faz comentários sobre o potencial do turismo de enogastronomia em relação ao turismo de massa.

“Assim como acontece na literatura fantástica, também no universo real do turismo parecem conviver dois mundos paralelos e que não se comunicam entre si:
·        De um lado, visível na superfície, está o mundo do turismo majoritário e de tendências - o turismo de massa e outros como sol & mar, montanhas, neve e viagens exóticas, para exemplificar. Este tipo de turismo foi muito mais atingido nos últimos anos pela contração do poder aquisitivo, pela queda do consumo, e em todo o caso, pela síndrome da prudência e do adiamento ("vamos evitar viagens e economizar, não se sabe o amanhã";

·          De outro lado, mergulhado no submerso, aparecendo menos, está o mundo do turismo minoritário e temático de “short-break” e de proximidade. Este tipo de turismo é menos considerado como consumo supérfluo e portanto mais vivido. Em termos de raciocínio pessoal é um turismo que “farei logo que possível”, é um comportamento “de pequena evasão”, compensador dos traumas e ânsias da conjuntura ruim em termos de renda "OK não vou viajar de férias, mas pelo menos uns dias em .....".

A esta última categoria parece pertencer o turismo enogastronômico, ao qual mesmo é necessário cuidar - e nunca uma metáfora foi tão pertinente – como a um copo meio cheio.
Seis razões
Os indícios que emergem de uma leitura desta sondagem definem pelo menos seis contornos importantes do turismo enogastronômico, seis razões para que confiemos no desenvolvimento:
1)    A concorrência entre os destinos é muito baixa, considerando que o seu número parece ainda pequeno e, portanto, é ampliável; ainda cabem mais participantes (“players”). Veja no quadro abaixo que os prefeitos (em vermelho) acreditam na ampliação mais do que os operadores de hotelaria (em azul); (veja: a soma dos vermelhos deve ser 100%, idem para os azuis)

2)    A tipologia dos turistas é ainda dominada pelos especialistas e apaixonados por vinho e comida (os "iniciados", vamos dizer assim). Isso significa que existem vastos espaços a conquistar entre os curiosos e os “modistas”. Veja o quadro abaixo que mostra claramente a diferença de percepção entre os prefeitos (em vermelho) e os agentes de viagens (em azul);

3)    O mercado do turismo gastronômico ainda é de nicho, o que pela percepção de ambos os grupos significa que pode crescer bastante até ter volume de turismo de massa - veja o quadro abaixo;

4)    O mix de ofertas entre produtos e serviços tangíveis (vinhos, alimentos, leitos, etc.) resulta equilibrado face às propostas mais imateriais (como eventos, experiências sensitivas, vivências, etc.), e isto é percebido do mesmo jeito pelos dois grupos, como mostra o quadro abaixo;

5)    Além disso, as perspectivas de desenvolvimento do enoturismo estão longe de atingir a curva da maturidade, e portanto ainda há muito espaço para as tendências positivas de crescimento – veja no quadro abaixo;

6)    E portanto, manifestam-se oportunidades sempre atrativas, não somente as destinações clássicas de enogastronomia, mas também os distritos ampliados e inovadores, que aparecem com propostas diferenciadas (veja quadro abaixo).”

Em outros posts In Vino Viajas vai continuar mostrando os resultados desta pesquisa para que possamos conhecer um pouco da alma daqueles que fazem a enograstronomia italiana, a melhor do mundo - e aprender a fazer cada vez melhor no Brasil.
Este post é dedicado a Benito Boni, engenheiro, italiano, brasileiro, enófilo e meu sogro – que gentilmente fez a tradução e adaptação da pesquisa.
(*) Rogerio Ruschel é jornalista e enófilo e respeita comunidades que acreditam no futuro e que se preparam para receber visitantes com elegância, inteligencia e qualidade.