Pesquisar neste blog

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Conheça as 32 ideias apresentadas na Segunda Conferência do Porto Protocol para a sustentabilidade da indústria do vinho


Por Rogerio Ruschel
Meu prezado leitor ou leitora, o mínimo que pessoas informadas como você e eu podemos fazer em relação aos problemas do aquecimento global é ampliar a informação sobre a existência de soluções. É o que vou fazer aqui, divulgando as ações e apresentações da Segunda Conferência do Porto Protocol, realizada entre os dias 5 e 7 de março de 2019 com o tema “The Climate Change Leadership Porto – Solutions for the Wine Industry”.
O evento reuniu 850 participantes, mais de 100 jornalistas e 50 palestrantes, entre os quais Al Gore (ex-vice do presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos, autor de vários livros e do documentário extremamente elucidativo denominado “Uma Verdade Inconveniente”, pelo qual acabou recebendo o Prêmio Nobel da Paz em 2007 – na foto abaixo), o principal speaker. Veja mais adiante neste artigo como acessar estas apresentações técnicas.

A indústria vinícola é uma atividade agrícola, e como tal, é vulnerável às alterações climáticas. Já sabemos que as flutuações no clima previstas a longo prazo podem causar mudanças geográficas em variedades de videiras e áreas de produção e mudanças na qualidade e estilo dos vinhos, o que significa que o status atual de “referência em qualidade” de determinados terroirs, uvas e produtores pode simplesmente virar pó, acabando com a dedicação das comunidades, o talento dos winemakers e a herança cultural de centenas de anos.
Mas meu prezado leitor ou leitora, devemos lutar pelo vinho porque é uma das poucas atividades agrícolas de marca (e com isso, de alto valor agregado) que existe no mundo. A indústria apoia e sustenta fortemente as comunidades, ambientes e paisagens rurais. A atividade também promove o crescimento de uma forte tendência na indústria do turismo, a do Enoturismo, de forte cariz na experiência cultural, porque o Enoturismo não se realiza apenas com degustação de vinos, e sim, com a degustação de culturas, tradições e história.
Segundo a Organização Mundial do Turismo o Enoturismo – que só existe ligado à indústria do vinho e carrega consigo a Gastronomia e inúmeras cadeias produtivas de base Local - é uma das atividades mais importantes na preservação da atividade agrícola e assim tem papel estratégico na redistribuição da renda e emprego entre o campo e as concentrações urbanas.
Então é importante que ajudemos a divulgar soluções, e não apenas os problemas. Uma das reposta setoriais foi a criação do The Porto Protocol, do qual In Vino Viajas é a primeira organização brasileira a participar – e com destaque, veja abaixo. O The Porto Protocol (Protocolo do Porto) nasceu na cidade do Porto, Portugal, pela força criativa de Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, empresa proprietária de marcas de vinho do Porto como Taylor’s, Fonseca, Krohn e Croft Port, além de hoteis como o fantástico Yeatman e o World of Wine, o gigantesco centro de visitantes, com museus, lojas e restaurantes que está nascendo no centro histórico de Vila Nova de Gaia.
Pois o mundo do vinho se reuniu na cidade do Porto, em março de 2019 para discutir e oferecer soluções para mitigar as alterações climáticas. Durante o evento especialistas e autoridades em seus campos de atuação, além de delegados atualizados sobre as descobertas científicas mais recentes na área da sustentabilidade, apresentaram soluções aplicadas no sector. E vários líderes mundiais da vitivinicultura subiram ao palco para compartilhar as melhores práticas no cilco produtivo do vinho com os consumidores.
No  link abaixo você encontrará as apresentações de todos os palestrantes presentes na conferência. Aproveite para associar-se ao The Porto Protocol: é grátis e você pode receber e compartilhar melhores práticas que podem ajudá-lo no futuro.
Para baixar as 32 apresentações técnicas do evento acesse https://www.portoprotocol.com/conference-presentations/
Para saber mais sobre o The Porto Protocol, acesse aqui: http://www.invinoviajas.com/2019/02/the-porto-protocol/
Para conhecer algumas das reportagens de In Vino Viajas sobre sustentabilidade acesse http://www.invinoviajas.com/?s=sustentabilidade  

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Jorge Tonietto, da Embrapa Uva e Vinho, conta tudo que você precisa saber sobre as Indicações Geográficas do Brasil


Por Rogerio Ruschel, editor

Exclusivo – Entrevista com o Jorge Tonietto, Pesquisador de Zoneamento/Indicações Geográficas da Embrapa Uva e Vinho

Meu caro leitor ou leitora, precisamos valorizar nossos recursos ampelológicos e humanos. Por isso publico hoje uma entrevista com Jorge Tonietto, que trabalha com Pesquisa e Desenvolvimento na Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves-RS – uma das organizações da Embrapa, empresa de excelência em pesquisa agronômicas. O Dr. Tonietto (na foto acima, de Viviane Zanella) é Engenheiro agrônono com especialização em Viticultura e Enologia em Climas Cálidos pela Universidad de Cádiz, Espanha; Mestrado em Fruticultura de Clima Temperado, no Brasil e Doutorado em Biologie de L'évolution et Ecologie pela École Nationale Supérieure Agronomique de Montpellier, França. Aprendeu a trabalhar com uvas de climas temperados, tropicais, quentes e frios. E a partir de agora compartilha um pouco deste conhecimento com os leitores de In Vino Viajas.

“As Indicações Geográficas (IG) trazem uma nova filosofia para organizar e valorizar a produção vinícola.”

Rogerio Ruschel - Numa visão histórica, desde 1937 com a criação do Laboratório Central de Enologia no RJ, quais as cinco principais contribuições da Embrapa Uva e Vinho para nossa vitivinicultura?

Jorge Tonietto - Em 1975, quanto a Unidade da Embrapa de Bento Gonçalves foi criada, ela tinha abrangência estadual. Posteriormente se transformou no Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho. Além da sede, a Unidade possui duas Estações Experimentais: a Estação de Viticultura Tropical (EVT), em Jales (SP), e a Estação Experimental de Fruticultura de Clima Temperado (EFCT), em Vacaria (RS). Desenvolve ações de pesquisa com uva, vinho, maçã e outras fruteiras de clima temperado. Dentre as dezenas de tecnologias geradas, destaco a criação de diversas novas variedades de uvas de mesa (BRS Clara, BRS Isis, BRS Linda, BRS Melodia (abaixo, na foto de João Henrique Figueiredo), BRS Morena, BRS Núbia, BRS Vitória, Zilá, Tardia de Caxias) e para processamento (BRS Bibiana, BRS Carmem, BRS Cora, BRS Lorena, BRS Magna, BRS Margot, BRS Rúbea, BRS Violeta, Concord Clone 30, Isabel Precoce, Moscato Embrapa). 
É um resultado de sucesso da pesquisa, mesmo comparando- se com o que é gerado nos países desenvolvidos. Outro ponto alto foi a liderança na implantação da primeira Produção Integrada de Frutas, para maçã, que agora já permeia diversas culturas, incluindo as uvas para processamento, reforçando a sustentabilidade ambiental. Na área vitivinícola destaco a estruturação das indicações geográficas de vinhos, também conseguido numa ação pioneira da Embrapa Uva e Vinho no Brasil, num trabalho iniciado na década de 1990.

Rogerio Ruschel - Onde estão os melhores terroirs do Brasil, entre os já conhecidos e utilizados? E em que regiões ou estados poderemos ter terroirs com bom potencial para vinhos entre os que ainda não são conhecidos ou não foram utilizados? São Paulo? Mantiqueira? Cerrado?
Jorge Tonietto - Como diz o termo “terroir”, o que dá certo tende a multiplicar-se no setor produtivo, constituindo uma coletividade de produtores, formando as regiões vitivinícolas - os territórios do vinho. Isto está presente na tradicional Serra Gaúcha e outras, bem como em diversas novas regiões que surgiram no Brasil a partir dos anos 1980 – Campanha Gaúcha, Serra do Sudeste e Vale do São Francisco, ou ainda, nas mais recentes, como a dos vinhos de altitude em Santa Catarina - incluindo São Joaquim, e nos Campos de Cima da Serra no Rio Grande do Sul. 
Mas temos outras regiões que estão despontando, como aquelas dos vinhos tropicais de altitude em diversos estados, incluindo São Paulo, Minas Gerais ou na Chapada Diamantina na Bahia. Mas, pelo visto nas últimas 4 décadas, o Brasil não deve parar por aí. Excluindo-se os climas tropicais úmidos, existem diversas regiões que poderão ser exploradas na produção de vinhos. A atividade se estabelece quando há um encontro entre o potencial vitícola – clima, solo, adaptação de variedades, associado à tecnologia enológica – tudo ajustado para cada território.
Rogerio Ruschel - Quais as tres castas de uvas que poderiam se candidatar a ser “a uva que melhor expressa os terroirs do Brasil”?

Jorge Tonietto - Para mim o terroir não é uma casta. É mais do que isto – é uma criação de caráter complexo, do saber humano “em parceria” com o meio natural, que o produtor vitivinícola revela no vinho. Um ótimo exemplo disto é o do espumante fino da Serra Gaúcha. Este produto, que é um produto de terroir, tem como uvas altamente identitárias a Chardonnay, a Pinot Noir e a Riesling Itálico, perfeitamente adaptadas e parte deste terroir, que se consolidou na vertente de uma conjunção de fatores do meio geográfico, incluindo clima, solo, variedades e expertise nas práticas enológicas, tudo consolidado num saber-fazer regional. 
Rogerio Ruschel - Vinho é um produto globalizado porque concorrentes de várias partes do mundo estão à venda no supermercado da esquina. Por isso produtores de vinhos do Brasil tem que ser competitivos globalmente. Somos competitivos em qualidade? E em preço? Quais nossas melhores “armas” para aumentar nossa competitividade? 

Jorge Tonietto - Vou falar apenas de uma arma para aumentar nossa competitividade, justamente no tema em que trabalho. Trata-se das Indicações Geográficas (IG), que incluem as Denominações de Origem (DO). Elas trazem uma nova filosofia para organizar e valorizar a produção. Tudo está embasado na estruturação da produção nos territórios do vinho para oferecer produtos de qualidade e originais ao mercado consumidor. Pela seriedade deste trabalho com que os produtores estão empenhados, articulados em associações (Aprovale, Asprovinho, Apromontes, Afavin, Aprobelo, Progoethe, Vinhos da Campanha Gaúcha, Vinho de Altitude de Santa Catarina, Vinhovasf), os consumidores vão ver crescer a oferta de vinhos de qualidade dos terroirs do Brasil.
“Embora ainda não seja tão perceptível, a verdade é que o Brasil fez um trabalho de estruturação de IGs e DOs com uma velocidade que jamais seria imaginada.”
Rogerio Ruschel - A valorização da origem é parte fundamental da estratégia de marketing de um vinho no mundo todo. Porque o Brasil tem tão poucas certificações de origem (DOs ou IGs)? E porque não as valorizamos como os europeus? O que a Embrapa Uva e Vinho pode fazer para ajudar a modificar isso?

Jorge Tonietto - Embora ainda não seja tão perceptível, a verdade é que o Brasil fez um trabalho de estruturação de IGs e DOs com uma velocidade que jamais seria imaginada. Enquanto que na Europa o tema se desenvolveu sobretudo a partir do início do século XX (a França comemora neste ano o centenário da primeira lei das apelações de origem que é de 1919), no Brasil, a primeira IG (Vale dos Vinhedos) foi reconhecida há apenas 16 anos, em 2002. Hoje já temos no Brasil reconhecidas as IGs Pinto Bandeira, Altos Montes, Monte Belo, Farroupilha, Vales da Uva Goethe, além da DO Vale dos Vinhedos. Estão em vias de estruturação para reconhecimento: Campanha Gaúcha, Vale do São Francisco, Altos de Pinto Bandeira e Vinhos de Altitude de Santa Catarina.  Veja o mapa mais abaixo. 
A Embrapa Uva e Vinho, em parceria com outras instituições de PD&I e os produtores organizados em associações, foi pioneira neste tema no Brasil - incentivou o pais a entrar nesta temática e coordenou a maioria dos projetos que possibilitaram chegar à situação atual. As condições estão sendo criadas e o Brasil será reconhecido de forma crescente pelas IGs e DOs dos diferentes territórios do vinho, seja no Brasil quanto no exterior.
Rogerio Ruschel - Se as DOs e IGs brasileiras de vinhos seguem modelos europeus de organização, e o enoturismo já está representando mais de 1/3 do faturamento das vinícolas, porque nossas Rotas de Vinhos em DOs e IGs não tem identidade juridica própria, plano de ação, diretoria, vida econômica própria, como na Europa?

Jorge Tonietto - É certo que há um potencial enoturístico muito grande a explorar no Brasil no tema das DOs e IGs. É só imaginar a diversidade de experiências que cada IG e DO pode proporcionar aos turistas, possibilitando uma imersão num mundo tão rico, que envolve o patrimônio cultural, os valores imateriais, a paisagem construída, as particularidades do terroir e a qualidade diferencial dos vinhos. Tudo isto no contato com o produtor de uvas e vinhos. Entendo que as IGs e DOs são um prato cheio para o enoturismo. Já foram feitos avanços significativos, a exemplo do que ocorre no Vale dos Vinhedos sob a liderança da Aprovale. Mas temos que considerar também que tudo tem seu tempo para se desenvolver plenamente. A verdade é que o enoturismo está ganhando importância no Brasil, inclusive como elemento de viabilização do negócio do vinho, aproximando o consumidor do produtor e do produto brasileiro.
“Entendo que as IGs e DOs são um prato cheio para o enoturismo.”
Rogerio Ruschel - Quanto tempo, em média, leva um projeto de pesquisa da Embrapa Uva e Vinho? Por exemplo: quanto tempo e quantas pessoas se dedicaram ao desenvolvimento das uvas BRS Melodia (sem sementes, para mesa) e BRS Vitoria ou BRS Isis, para vinificação?

Jorge Tonietto - Posso falar dos projetos de estruturação de IG e DO de vinhos. Não são ações curtas no tempo, pois a Embrapa sempre busca desenvolver projetos estruturantes, que dêem forte suporte de conhecimento e tecnologia ao produtor, para que ele explore o território no seu melhor potencial, incluindo os microclimas, os solos, a adaptação das variedades e seus clones, além de apoiar a geração dos estudos e comprovações exigidas para o reconhecimento de IG ou DO. E os projetos são dinâmicos para atender demandas cada vez mais especializadas – hoje temos projetos de apoio às Indicações Geográficas, selecionando leveduras nativas para fortalecer o elo entre o produto e sua origem. Também estamos selecionando os melhores clones para cada IG e DO. Normalmente trabalhamos com projetos de 3 a 4 anos de duração. 

Rogerio Ruschel - No Brasil temos uvas (italianas e francesas) gerando bons vinhos em altitudes de até 1.400 m, como em Santa Catarina. Na Europa existe produção em regiões tão elevadas quanto estas? Exportamos este know-how?

Jorge Tonietto - O tema da viticultura de altitude é menos uma questão de know-how e mais um tema de climatologia. No Brasil temos vinhedos de altitude que chegam aos 1400 metros acima do nível do mar na região de São Joaquim em Santa Catarina, por exemplo. Na Bolívia há vinhedos muito mais altos. Isto está bastante associado à latitude e localização geográfica da região. Já na Europa, as áreas mais altas situam-se ao redor dos 1000m de altitude, como nos vinhedos mais altos do Vale de Aosta por exemplo. Nas regiões mais altas da Europa o cultivo da videira não é mais possível por serem regiões muito frias, onde as plantas não resistem ao frio ou então não conseguem maturar corretamente as uvas para elaboração de vinhos.
“A técnica da poda inveertida teve um desenvolvimento importante orientado pela Epamig, empresa de pesquisa agropecuária do estado de Minas Gerais.”
Rogerio Ruschel - Poda invertida: como funciona? Quem implantou no Brasil? Que beneficios oferece para a produção vitivinicola brasileira em relação ao mercado internacional? Exportamos este know-how?

Jorge Tonietto - A poda invertida é importante na produção de vinhos tropicais de altitude (chamados vinhos de inverno), encontrada em alguns estados brasileiros, como em São Paulo, Minas Gerais e outros. A técnica teve um desenvolvimento importante orientado pela Epamig – empresa de pesquisa agropecuária do estado de Minas Gerais. Nas regiões vitícolas de clima temperado, temos apenas um ciclo vegetativo da videira e uma colheita por ano, seguido do inverno, onde a planta entra em repouso. 
A técnica da poda invertida pode ser aplicada às regiões que apresentam clima com o potencial para dois ciclos vegetativos por ano: no período chuvoso do ano o ciclo da videira não objetiva colher uvas para vinificação; é no ciclo de inverno que se produz a uva, pois apresenta temperaturas amenas e ocorre no período seco do ano, possibilitando uma adequada maturação das uvas para a elaboração de vinhos finos de qualidade. A viticultura tropical no mundo apresenta situações assemelhadas, porém distintas, sobretudo nos climas de monções da Ásia (Índia, Tailândia e outros), onde os vinhedos destinados à elaboração de vinhos são conduzidos em dois ciclos por ano – um no período úmido do ano, onde não se produzem uvas, e outro no período mais seco do ano no qual as uvas dão origem aos vinhos tropicais.
“Os vinhos tropicais são um convite à descoberta desta nova visão geográfica que passa a integrar a vitivinicultura mundial.”
Rogerio Ruschel - A Embrapa desenvolveu o conceito de viticultura tropical (mais de uma safra por ano). Como é possivel ter no Nordeste brasileiro vinhedos com mais de uma safra por ano? Existe alguma perda de qualidade por parte da uva (açúcar, minerais, produz menos casca, “cansa” a videira) quando isso acontece? Exportamos este know-how?

Jorge Tonietto - De fato, o Brasil é um país de vanguarda mundial no desenvolvimento científico e tecnológico da viticultura tropical - aquela que apresenta potencial para mais de um ciclo da videira por ano, com uma ou mais safras por ano. Quando a produção de uvas é destinada à vinificação, resulta os chamados vinhos tropicais. Esta condição é possível pela ocorrência de temperaturas nos diferentes meses do ano que possibilitam à videira vegetar ao longo do ano. Esta condição, aliada a técnicas de manejo dos vinhedos, com variedades adaptadas para cada região, e pelo uso da irrigação, possibilitam a produção de uvas e a elaboração de vinhos em todos os meses do ano no caso do Vale do São Francisco, por exemplo. 
Esta região apresenta uma condição original e exclusiva da viticultura tropical, não encontrada na Europa obviamente. Os vinhos de qualidade destas regiões apresentam qualidades e características próprias, influenciadas pela climatologia destas regiões e a tudo o que está associado à produção nestas condições. Eu diria que se trata de um novo capítulo da história da vitivinicultura mundial, agora formada pela produção nas regiões tradicionais - sobretudo na Europa, pela produção dos países do novo mundo vitivinícola e, mais recentemente, pelos produtores dos vinhos tropicais, com suas regiões situadas na zona intertropical do planeta. Os vinhos tropicais são um convite à descoberta desta nova geográfica que passa a integrar a vitivinicultura mundial."
 Brindo a isso, Jorge Tonietto.




quarta-feira, 20 de março de 2019

Iniciativa da Espanha mobiliza vinícolas de todo o mundo a se unirem contra as mudanças climáticas

Por Rogerio Ruschel
Prezado leitor ou leitora, o mundo vitivinícola está cada vez mais atuante em relação ao aquecimento global e as mudanças climáticas. Escrevo sobre esse assunto aqui no In Vino Viajas desde 2012 e recentemente apresentei a iniciativa The Porto Protocol, movimento global pró-sustentabilidade da indústria vinícola nascido em Portugal – veja aqui:  http://www.invinoviajas.com/2019/02/the-porto-protocol/
Agora conheça outra mobilização, nascida na Espanha, a iniciativa “Vinícolas Internacionais para Ação Climática", que tem como objetivo mobilizar vinícolas para que se comprometam a alcançar uma redução de 80% de suas emissões totais de carbono até 2045.

As poderosas empresas espanholas Familia Torres e Jackson Family Wines, que já vem realizando um esforço individual com reduções de até 25% de suas emissões, anunciaram em Barcelona no começo de março de 2019, o esforço de colaboração de um grupo de trabalho, sob o nome de “Wineries Internacional para a Ação Climática”. A mobilização inclui três elementos fundamentais: estabelecer um ponto de referência das atuais emissões de carbono nos escopos 1, 2 e 3, através do balanço de emissões de gases de efeito estufa, auditado por uma empresa externa internacionalmente reconhecida (linha de base); adotar as diretrizes estabelecidas em 2015 pela Conferência COP21 e pelo Acordo de Paris para empregar uma abordagem científica na redução de emissões; e finalmente usar pelo menos 20% da energia renovável gerada por suas próprias instalações para cobrir o consumo de energia da vinícola.
Este movimento está se intensificando no mundo da vitivinicultura responsável por causa também de um estudo publicado por um pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, mostrando que as emissões de carbono emitidas durante o processo de fermentação do vinho são até cinco vezes mais elevadas do que de aviões e carros. Roger Boulton, professor da UC Davis, demonstrou que durante a fermentação o vinho emite grande quantidade de CO2, como nunca havia sido medido.
Outra pesquisa - da Escola Superior Técnica de Estradas, Canais e Portos e da Escola Superior Técnica de Engenharia Agronômica, de Alimentos e Biossistemas (ETSIAAB) da Universidade Politécnica de Madri - indica que a Peninsula Ibérica será a região vinícola afetada com mais gravidade pelo aquecimento global, provocando perdas especialmente para Portugal, Espanha, França e Itália na forma de incêndios, tempestades, frentes frias e quentes e problemas de doenças de uvas e produtividade.
Talvez esta seja uma das razões pelas quais durante o ano de 2018, a Administração Pública espanhola investiu tanto no assunto: aprovou um total de 13 projetos de Pesquisa e Desenvolvimento sobre Alterações Climáticas apoiados pela Plataforma Tecnológica de Vinhos (PTV) no âmbito do acordo com a Organização Interprofissional do Vinho da Espanha (OIVE). Destes 13 projectos, 3 são enquadrados a nível internacional, 8 são nacionais e 2 projectos estão sendo implementados a nível regional.
Um argumento que pode ajudar a convencer produtores menos sensibilizados vem de uma pesquisa da Universidades Politécnica de Madri (UPM) e da Universidade de Castilla la Mancha (UCLM) com resíduos e co-produtos da indústria do vinho. Eles chegaram à conclusão que a produção de biocombustível a partir de óleo de semente de uvas e bioetanol, ambos materiais obtidos durante o processo de produção de vinho, pode chegar a cerca de 20 kilotoneladas, cerca de 2% do biocombustível atualmente consumido na Espanha. Quer dizer: o lixo vira energia, o passivo vira ativo. Veja o esquema abaixo, publicado pelo portal Vinetur.
Enfim meu caro leitor ou leitora, como se costuma dizer, “o bicho está pegando” - mas em certas regiões do planeta parece que nada está acontecendo, os produtores não estão nem ai, só querem falar de pagar menos impostos e pedir mais ajuda. Estou exagerando?
Veja algumas matérias que In Vino Viajas já publicou sobre sustentabilidade no mundo do vinho:

terça-feira, 12 de março de 2019

O músico Mário Moita, alentejano de nascimento, brasileiro por adoção e cidadão do mundo por carreira, lança guia turístico do Alentejo

Por Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, por experiência própria sei que passar apenas três dias no Alentejo é realmente muito pouco para conhecer esta que é a maior e uma das mais apaixonantes regiões de Portugal. E como tem sido cada vez mais procurado pelos turistas – especialmente por brasileiros - um guia que ajude a utilizer melhor estes três dias seria muito bem-vindo. Pois foi o que o músico Mário Moita, alentejano de nascimento, brasileiro por adoção e cidadão do mundo por carreira, fez.
Mário Moita - que você já pode ter visto em shows em todo o Brasil ou em programas de televisão como o do Jô Soares, onde esteve três vezes - nasceu e cresceu no coração do Alentejo, em Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora, e atualmente mora em Florianópolis, a bela capital de Santa Catarina. Pelo menos em parte do ano, porque sempre que pode vai comer uma bochecha de porco com os pais Lourenço e Gabriela ou viaja pelo mundo em turnês: já esteve em mais de 30 países fazendo shows, experiência que lhe permitiu até mesmo compor fados em japonês! 
Mário é um excelente compositor, pianista e cantor, sensivel e hamonioso, e procurou levar estas qualidades para o texto. Seu livro “Guia Turístico para visitar o Alentejo em três dias”, lançado no formato e-book foi escrito num tom intimista, com o autor apresentando referências geográficas e históricas do território e memórias da infância e juventude. 
Como se estivesse em um show de piano-bar, Mário conversa e compartilha com o leitor o que considera fundamental para se conhecer em apenas três dias no Alentejo, uma seleção do que ele gostaria que seus amigos conhecessem, como Évora, Estremoz, Vila Viçosa, Monsaraz e Reguengos de Monsaraz, sua terra natal. O prefácio é de autoria de José Calixto, ativo prefeito de Reguengos de Monsaraz e presidente da Recevin - Rede Europeia das Cidades do Vinho.

Por isso, para melhor apreciar o guia, achei que você deveria conhecer melhor o autor, e entrevistei o Mário com exclusividade, veja a seguir.
R. Ruschel - Onde e quando você nasceu? A familia é alentejana dos dois lados? Eles moram em Reguengos de Monsaraz, correto?

M. Moita - Nasci em Évora porque o hospital principal é nessa cidade, embora esteja muito minha família seja de Reguengos de Monsaraz. Minha familia é toda ALENTEJANA, com exepção de minha avó paterna que era espanhola, mas viveu desde os 14 anos em Moura, no baixo Alentejo. Minha mãe trabalhou numa empresa de cereais durante 12 anos e tinha uma agência de viagens. Meu pai trabalhou na sua infância na agricultura e depois de cumprir o serviço militar na Guerra de Moçambique regressou a Portugal e trabalhou durante 30 anos num banco. Estão aposentados e moram em Reguengos de Monsaraz.

R. Ruschel - Tua familia tem ou teve atividades relacionadas com a produção de uvas ou vinho ou azeite?

M. Moita - Minha familia materna está ligada à produção de uva há cerca de 5 gerações. Minha familia paterna está ligada à produção de azeitona também há muitas gerações.

R. Ruschel - Onde você passou a infância? Quais as melhores lembranças da infância?

M. Moita - Minha infância foi passada nas fazendas da familia entre a apanha da azeitona e a  ordenha mecanica de vacas de leite, e por isso estudei zootecnia. Tenho maravilhosas lembranças de andar de carro de mula com o meu avô paterno abastecendo um ponto de venda que minha avó tinha, onde vendia tudo o que hoje se chama organico. Do lado materno, muitas lembranças também de conduzir tratores, cortar sorgo para dar às vacas, ou passer dias inteiros a vacinar cabras. Minha adolescência foi passada nessas fazendas e em casa de um padrinho meu perto de Lisboa, que era corredor de rallys.


R. Ruschel - Onde você estudou música?

M. Moita -  Estudei musica em Reguengos de Monsaraz com um antigo maestro, o  Sr. Pagará, e com 10 anos iniciei meus estudos de piano no Conservatorio de Évora.

R. Ruschel - Você tem feito apresentações pelo mundo todo; quais as melhores recordações destes shows

M. Moita - Luto todos os dias por shows pelo mundo, porque adoro divulgar a minha cultura, e ter centenas de pessoas conversando comigo depois dos shows, querendo saber mais sobre a história do fado e de Portugal.

R. Ruschel - Desde quando e porque você está morando no Brasil?

M. Moita - Desde 2012 que parte do ano é passado no Brasil, com base em Florianopolis, porque minha esposa é de Santa Catarina.

R. Ruschel - Como você caracteriza seu trabalho?

M. Moita - É um resgate da História do Fado ao Piano, uma tradição de 1870 que continuo a ser o único português a divulgar pelo mundo. Apresento o fado de outra forma mais romântica e mais cultural, ligando História, Cultura e Música.
R. Ruschel - Em 2019 você comemora 20 anos de carreira musical. Quais os planos para este ano?

M. Moita - Pretendo divulgar mais meu trabalho em Portugal e no Brasil. Tenho planos também para França e Canadá. Estarei na China e Dinamarca entre outros paises, até o final do ano.

R. Ruschel - Porque decidiu escrever um guia turístico sobre o Alentejo? É especial para turistas brasileiros?

M. Moita - Há muito que tenho observado que a maioria dos turistas visitam em poucos dias Portugal, com foco em Lisboa, Cascais, Estorial, Porto e Fátima. Dezenas de pessoas no Brasil me pediam dicas sobre o Alentejo, porisso decidi, como conhecedor da região, fazer um guia que fuja dos roteiros normais turisticos.

R. Ruschel - Quais os três mais importantes patrimônios culturais do Alentejo?

M. Moita - Encontramos no Alentejo um gênero consagrado pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade, o CANTE ALENTEJANO, além da gastronomia tradicional ser uma dieta mediterrânica, por exemplo o hábito de nos sentarmos á porta no verão e conversarmos com quem passa, algo que se está a perder com os tempos modernos. 

R. Ruschel - Quais os três mais importantes patrimônios arquitetônicos do Alentejo?

M. Moita - Encontramos no Alentejo um patrimônio muito rico desde o Neolitico, passando pelos castelos do século 12 como Monsaraz, até ao templo romano de Diana da cidade de Évora.

R. Ruschel - Quais os três mais importantes patrimônios históricos do Alentejo?

M. Moita - Temos o Palácio de Alcaçovas, onde foi assinado o tratado que dividiu o mundo ao meio com os Espanhois em Norte e Sul (antes do Tratado de Tordesilhas); o Castelo da Rainha Santa Isabel em Estremoz (onde actuei durante 13 anos) onde o Rei D Manuel I deu a carta régia ao Navegador Vasco da Gama para ele ir às indias, e por exemplo o afresco mais antigo do Alentejo (pintura) encontrada em Monsaraz, num antigo tribunal onde encontramos um retrato do bom e do mau Juiz.

R. Ruschel - Para o Mário Moita, quais os três mais importantes patrimônios emocionais do Alentejo?

M. Moita - Ser alentejano é chegar ao Alentejo e ter saudades de nossa paisagem, de nossas árvores, nossas oliveiras centenárias e nossos vinhedos, nossas comidas e o cheiro do inverno e do verão. Mas o principal patromônio é a familia, minhas raizes que estimo muito e admiro.

R. Ruschel - Podemos esperar outros guias semelhantes ao do Alentejo?

M. Moita - Conhecer o Alentejo em 3 dias é uma tarefa quase impossivel, mas será como uma primeira apresentação da maior região de Portugal. Para o fim do ano está previsto um guia abrangente que terá 3 percursos com 3 dias cada, que poderão ser feitos separadamente ou percorrendo o que eu chamo de 3 Alentejos: o Alto, o Baixo e o Litoral com mar.

R. Ruschel - O guia pode ser adquirido onde e como?

M. Moita - Pode ser adquirido online através de cerca de 32 lojas online ou pelo link directo na minha página de e-books em   https://mariomoita.com/

R. Ruschel - Você planeja algum dia produzir vinhos? Onde?

M. Moita - Pretendo a médio ou longo prazo ter um espaço onde se possa ouvir o Cante Alentejano, o Fado ao Piano e o vinho da talha, algo que meu avô paterno Mario Leitão fazia e que eu me acostumei a beber. O perfil do meu vinho terá o perfil de minhas castas prediletas, Alicante Bouchet e Aragonez.
Brindo ao Mário e ao Alentejo – com uma taça de Alicante Bouchet