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domingo, 1 de setembro de 2019

Um curso internacional sobre Indicações Geográficas para diferenciar produtos na multidão global de commodities

Por Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, em todos os momentos da vida você pode fazer escolhas; eu escolhi sempre continuar aprendendo. E esta semana minha escolha se transformou no Certificado de Conclusão do curso “Adding Value to the Origin of Products Through Geographical Indications (GIs)” sobre “Como agregar valor à origem dos produtos com a Indicação Geográfica - IG” expedido pela ITC SME Trade Academy, de Genebra, Suiça, a plataforma de capacitação internacional do International Trade Center (ITC).
Fiz o curso para me manter atualizado em termos internacionais e enriquecer a segunda edição do meu livro “O valor global do produto local – A identidade territorial como estratégia de marketing” publicado pela Editora Senac em maio de 2019. Entendo que me manter informado sobre este assunto é fundamental. Como com o Acordo Mercosul – União Europeia cerca de 350 produtos europeus de alta qualidade com identidade territorial (como Camembert, Gorgonzola, Bologna, Pata Negra, Conhaque, Champanhe…) vão competir entre si por preço dentro do território brasileiro, corremos o risco de ficar só assistindo.
Com o Acordo o preço dos produtos, especialmente agroalimentos (como café, queijo, vinho, frutas, doces, frios, carnes, tecidos, mel, artesanato, cachaça, couro, pedras, cacau, etc) vai gradativamente perder importância na decisão de compra. E então a valorização da personalidade de um produto através da identificação com um território – seja um Selo Senaf, Marca Coletiva, Identidade Geográfica ou Denominação de Origem – será (como sempre foi) o único elemento que de fato vai diferenciar, personalizar e agregar valor a um produto, tirando-o da competição de commodity no Mercado Global. Então estou me preparando para ajudar produtores brasileiros (especialmente os pequenos e oriundos da Agricultura Familiar) a se prepararem para este embate.

Um curso internacional
O International Trade Center (ITC) tem sede em Genebra, Suiça. Minha professora foi uma italiana com pos-graduação em propriedade intelectual e tive cerca de 30 colegas de todo o mundo, especialmente da America Latina e Ásia. Três deles (até agora) pediram cópia do meu livro (que enviei, certamente): o indiano Amod Salgaonkar, dirigente de uma ONG de Mumbai (Maharashtra); o vietnamita Ky Anh Tran, que trabalha no Vietnam National Office of Intellectual Property e Rebecca Ferderer, que não identificou seu pais de origem.
O curso foi feito em ingles e online em cerca de duas semanas. Investi umas 16 horas para assistir três aulas (todas com questionários próprios), avaliar um estudo de caso, fazer um trabalho de conclusão de curso (TCC) e finalmente fazer uma avaliação do curso.
Meu estudo de caso foi sobre a Denominação de Origem Chá Darjeeling, um produto da região do Norte de Bengala, India, e que tem uma Identidade Geográfica fortissimo, reconhecida praticamente no mundo inteiro. Tive que estudar a história da produção e mobilização, as características do produto, o processo de certificação, parte da legislação, estrutura oficial de monitoramento, controle e marketing, e os esforços para manter o Chá Darjeeling como a mais importante Denominação de Origem de chás do mundo. Muito know-how inglês, aprendi muito. 


Para fazer meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tinha que Identificar um produto em um país em desenvolvimento que pudesse se beneficiar do reconhecimento de IG; descrever o caminho da identificação para o reconhecimento como IG (elementos para se qualificar para o status da IG, etapas que precisam ser tomadas para estabelecer a IG e os principais atores que devem estar envolvidos no processo); e finalmente desenvolver uma estratégia de reconhecimento, proteção e promoção, para incentivar o desenvolvimento sustentável na área de origem.
Meu TCC foi sobre o Talian. O Talian, um idioma falado por cerca de 500.000 brasileiros e o segundo mais falado no Brasil no dia-a-dia de famílias segundo o IBGE, é falado exclusivamente no sul do país, e não encontrado na Itália de onde derivou – e Talian é a palavra italian sem o inicial "i".
O Talian é um idioma oficialmente reconhecido como "Referência Cultural Brasileira" pelo Ministério da Cultura (MinC) e como "Patrimônio Cultural" pelos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, resultante de 150 anos de miscigenação dos idiomas português, espanhol e indígena com os vários dialetos italianos existentes na Itália até 1859, trazidos imigrantes do Lazio, Lombardia, Veneto, Sicília, Piemone, Sardenha e muitos outros regiões da Itália. Estes dialetos vieram para o Brasil com os imigrantes e aqui continuaram sendo falados em família, enquanto desparaeciam na Itália por causa da unificação.
O Talian persiste no sul do Brasil em programas de rádio e WebTV, revistas, dicionários, cursos e programas educacionais – além de se o idioma “interno” de milhares de famílias. Nos municípios de Serafina Correia, Flores da Cunha, Parai e Nova Erechim o Talian é reconhecido localmente como idioma oficial, ao lado do português. Para saber mais sobre isso acesse http://www.invinoviajas.com/2015/10/veneto-trentino-e-toscano-veja-como/
O International Trade Center (ITC) foi criado em 1964 pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e Organização das Nações Unidas (ONU) e é a única agência de desenvolvimento totalmente dedicada ao apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas (PMEs). Seu objetivo é apoiar as PMEs, especialmente das economias em transição, para que se tornem mais competitivas e se conectem aos mercados internacionais de comércio e investimento, aumentando a renda e criando oportunidades de emprego, especialmente para mulheres, jovens e comunidades pobres.
Como sou um pequeno empresário, vivo em uma economia de transição e quero ser mais competitivo, fiz o curso. E brindo a quem me permitiu isso: Deus – e o International Trade Center.
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sábado, 31 de agosto de 2019

Produtos com identidade territorial: uma aposta no futuro para ajudar nossa Agricultura Familiar a competir com importados globais

Por Rogerio Ruschel

A identidade territorial pode agrega valor, prestígio e competitividade aos produtos da agricultura familiar no Brasil

Meu prezado leitor ou leitora, com o Acordo Mercosul – União Europeia produtos agroalimentares europeus de alta qualidade com identidade territorial (como Camembert, Gorgonzola, Bologna, Pata Negra, Conhaque, Champanhe...) vão competir entre si por preço, dentro do território brasileiro – e corremos o risco de ficar só assistindo. Na Europa mais de 80% são produzidos por famílias e pequenos produtores. No Brasil também: a Agricultura Familiar produz 70% do feijão nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 46% do milho, 38% do café e 21% do trigo; é responsável por 60% da produção de leite e 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos. Conta com amplos programas de apoio com Microcrédito Rural, com o Programa Nacional do Fortalecimento da Agricultura Familiar - Pronaf e outros, como a compra para o programa de Merenda Escolar.

Mas centenas de produtos brasileiros oriundos da Agricultura Familiar sofrem com preconceito e só encontram compradores na Merenda Escolar e outros programas governamentais e conseguem distribuição apenas na feira de sua cidade, em postos de gasolina ao longo das rodovias ou em pequenos mercados. Por quê não poderiam ser tratados como seus similares europeus como delicias de qualidade global pelas quais deve-se pagar muito caro? A resposta é simples: os europeus investem em marketing de identidade territorial para agregar valor, porque já aprenderam que apenas financiar a produção não é suficiente nestes tempos de competição difícil em mercados globais.

Nossos produtores precisam aumentar a produtividade e a qualidade, claro, mas também a competitividade. E para isso é necessário ampliar sua percepção de mercado e investir em marketing que cria diferenciais, como por exemplo, como uma identidade própria, exclusiva – como o queijo Canastra. Como com o Acordo Mercosul – União Europeia o preço vai aos poucos perder importância na decisão de compra, a valorização da personalidade de uma Marca Própria e a identificação de um produto com um território - seja um Selo Senaf, Marca Coletiva, Identidade Geográfica ou Denominação de Origem – será (como sempre foi) o único elemento que de fato vai diferenciar, personalizar e agregar valor a um produto quase commodity no Mercado Global.


Oportunidade rara para a Agricultura Familiar

Valorizar produtos agrícolas locais, pequenos, caipiras é uma iniciativa que beneficiará diretamente cerca de 5 milhões de pequenos produtores familiares (20 milhões de pessoas), segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Também segundo o Mapa, a agricultura familiar tem um faturamento anual de US$ 55.2 bilhões, uma renda que corresponde a 33% do PIB agropecuário do Brasil.

Estamos trabalhando, mas precisamos acelerar. Em novembro de 2018 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) criou o Selo Nacional da Agricultura Familiar (Senaf), para rastrear, identificar e promover produtos da agricultura familiar. Trata-se de uma espécie de IG – Identificação Geográfica; serão 6 tipos de Selos (Mulher, Juventude, Quilombola, Indígena, Sociobiodiversidade e Empresas) emitidos para cooperativas, associações agrícolas, agricultores e empresas com forte produção familiar. Cerca de 750 deles já foram entregues e podem ser encontrados no portal Vitrine da Agricultura Familiar (http://vitrine.mda.gov.br/), que se identifica como “um catálogo de produtos e serviços que explora o diferencial da agricultura familiar no que se refere às dimensões econômicas, sociais e ambientais” operado pela Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo, do MAPA (veja abaixo)



Essa iniciativa é muito bem vinda, mas mais uma vez não incentive a percepção de que produtores privados precisam aprender a competir. Não há oferta de cursos para capacitação em marketing, e por esta razão eles continuarão sem uma visão adequada do mercado Local, Regional e Global; não saberão como posicionar seus produtos e como fazer a gestão dos 4 Ps – Produto, Praça, Preço e Promoção. E sem saber estas coisas não estarão preparados para competir com seus concorrentes estrangeiros. Produtos que tiverem qualidade e se unirem com a comunidade e governo e com as cadeias produtivas das quais fazem parte, poderão investir na certificação de origem e agregar até 100% de valor ao produto final, que é o resultado de muitos exemplos.

O Acordo Mercosul - União Europeia é a oportunidade que sinaliza urgencia mudar este quadro. Imagine: um queijo do interior pernambucano ainda sem marca ou prestígio, competindo com um Camembert francês com preço quase similar; ou uma pretigiada geleia francesa que antes custava R$ 28,00 e agora custa R$ 18,00 competindo com uma geleia brasileira que custa R$ 16,00! Vai ser mesmo difícil estabelecer uma relação custo-benefício que derrube o preconceito que temos contra nossos produtos e valorize o produto nacional a ponto de construir preferência.


A hora é agora, até porque existe mais um importante fator positivo: Fernando Henrique Kohlmann Schwanke, Secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo do MAPA, tem formaçnao refinada, é um especialista em certificação e marcas coletivas com experiência internacional, inclusive na ONU (FAO), tem percepção da importância das regras do mercado e certamente encontrará apoios para esta mobilização.

O quadro abaixo publicado na Revista de Economia e sociologia Rural de Junho/2012 mostra que o valor produzido por hectare é positivo para os agricultores familiares. Ao que parece, o que falta mesmo é agregar valor ao preço de venda. Enfim, meu caro leitor ou leitora, o elo que falta na corrente é aprender a fazer marketing como nossos concorrentes europeus para poder conquistar primeiro o consumidor brasileiro e depois o consumidor estrangeiro.





Certificação de origem como marketing

Vários produtos brasileiros demonstram que isso é possível e tem conquistado o mundo valorizado sua identidade territorial, com certificação da origem formalizada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), como o café do Cerrado Mineiro, os queijos Canastra, Serro e Araxá, o Pão de Queijo de Minas, a cachaça de Paraty e os espumantes de Pinto Bandeira. Estes são alguns dos 61 produtos brasileiros com certificação de origem (129 em processo de registro) que superaram preconceitos, inércia e a síndrome de que produtos importados são melhores do que os brasileiros. E os mesmos princípios se aplicam ao turismo de base comunitária, turismo comunitário e turismo com identidade.

Mas não basta buscar a certificação: muitas das comunidades que já se organizaram como Marca Coletiva, Identidade Geográfica ou Denominação de Origem simplesmente “esquecem” de comunicar ao mundo os diferenciais do seu produto e os benefícios que o consumidor vai ter com eles. Fazem 80% do trabalho e desistem na parte mais importante. A explicação é que marketing não faz parte do conhecimento tradicional de produtores rurais, especialmente os de pequeno porte. Mas temos que e podemos incluir cada vez mais conceitos de marketing nos programas de desenvolvimento e certificação do governo federal, estadual e municipal, de Sindicatos Rurais, Associações de produtores, Universidades, ONGs, entidades como Sebrae, Senar e Senac, Federações de Indústrias e outras entidades da sociedade civil interessados no nosso desenvolvimento como Nação.

Estas teses são apresentadas com muitos exemplos, depoimentos e cases, do Brasil e do exterior, no meu livro “O valor global do produto local – A identidade territorial como estratégia de marketing” (abaixo). Publicado em junho de 2019 pela  Editora Senac SP, é o primeiro livro do Brasil a apostar na valorização dos produtos locais e com identidade territorial e resulta de pesquisas, entrevistas, aulas e palestras que venho realizando há mais de 15 anos.


Precisamos apoiar a Agricultura Familiar brasileira para que ela possa acompanhar o restante do agribusiness do país. A Assembleia Geral da ONU declarou o período 2019-2028 como a Década da Agricultura Familiar, e segundo a FAO, a agricultura familiar também pode ser um aliado fundamental para salvaguardar a biodiversidade e o meio ambiente e promover sistemas alimentares sustentáveis ​​e resilientes.
E além disso não custa repetir: valorizar a identidade de produtos locais é uma poderosa ferramenta de sustentabilidade porque incentiva cadeias produtivas de base local, gera emprego e renda no território, promove o orgulho cidadão na comunidade, divulga o território e atrai turistas e investimentos.

Meu caro leitor ou leitora, se você quiser levantar esta bandeira, conte comigo.


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Conheça a gigantesca “Mother Vine”, a mais antiga vinha da América do Norte, com 400 anos, e seu vinho doce de uvas Scuppernong

Por Rogerio Ruschel
Prezado leitor ou leitora, aqui no “In Vino Viajas” já escrevi sobre várias vinhas antigas – veja no fim desta matéria. Agora você vai conhecer uma vinha antiga, talvez a mais antiga ainda produzindo uvas, do Novo Mundo: a Mother Vine. Ninguém sabe ao certo as origens desta videira que pode ter ajudado a produzir vinho durante séculos, mas certamente ela merece toda a reverência que recebe.
Com uma idade estimada em 400 anos, acredita-se que a Videira Mãe (Mother Vine), localizada em Manteo, na Ilha Roanoke, na Carolina do Norte, seja a mais antiga videira da América do Norte, e que teria sido plantada por nativos americanos croatas ou colonos da Colônia Perdida. Alguns afirmam que é a "mãe" de todas as videiras para uvas Scuppernong, uma fruta típica do estado da Carolina do Norte.
A uva Scuppernong representa uma grande variedade de muscadine, uma espécie de uva nativa do sul dos Estados Unidos. O nome cientifico é Vitis rotundifolia. Tem várias sub-espécies, mas geralmente tem uma cor esverdeada ou bronze e é semelhante em aparência e textura a uma uva branca, mas é mais redonda e maior e desde o início foi conhecida como a 'grande uva branca', veja acima.
Pois esta videira produz uvas que fazem um vinho adocicado muito gostoso. Quando Jack e Estelle Wilson compraram a propriedade que abrigava a Mother Vine em 1957, seus galhos emaranhados ocupavam mais de 8.000 metros quadrados. Depois de apará-la para poder construir uma casa, a videira ainda ocupa hoje um terço do seu jardim em Manteo, estendendo-se por 9,5 metros por 36,7 metros – veja na foto da capa.

Para compensar a extensa redução inicial, o casal se tornou seu “guardador” . Hoje o casal está com mais de 80 anos, e costumam receber visitantes para ver a extensa rede de galhos, e permitem que seus vizinhos colham e comam suas uvas. Em 2005, eles permitiram que uma vinícola local plantasse mudas da videira original em seu vinhedo e fizessem o vinho Mother Vine, um vinho doce e levemente ácido - veja acima.
Esta não é a mais antiga videira do mundo, titulo que pertence a Old Vine de Maribor, Eslovênia, abaixo. Veja outras videiras antigas já destacadas pelo “In Vino Viajas”:
·      Conheça a Old Vine de Maribor, Eslovênia, a videira mais antiga do mundo, com 510 anos, que continua produzindo uvas, vinhos e turismo
·      A com 450 a 500 anos da Quinta do Louredo, Minho, Portugal, que não tem documentos comprobatórios da idade - http://www.invinoviajas.com/2015/09/conheca-videira-com-500-anos-da-quinta/
·      Conheça o vinhedo de Gers, no sudoeste da França, com 200 anos comprovados, que foi reconhecido como monumento histórico nacional - http://www.invinoviajas.com/2014/11/vinhedo-frances-de-200-anos-vira/

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Porque fazer marketing de guerrilha é a única maneira de defender nossas trincheiras no Acordo com os vinhos da União Europeia


Por Rogerio Ruschel
Meu prezado leitor ou leitora, o Acordo Mercosul – União Européia vai trazer dificuldades e oportunidades para os brasileiros. Voltarei a este tema outras vezes, mas quero registrar hoje minha opinião sobre porque fazer marketing de guerrilha é a única solução definitiva para defender nossa trincheira na batalha de mercado neste Acordo, e apresentar uma opinião de um não-brasileiro que pode nos ajudar a refletir sobre este momento da nossa realidade. Aliás, isso não serve apenas para os vinos, mas para todosos produtos com valor agregado, especialmente agroalimentos como queijos, pães, doces, frutas, geléias, sucos, frios, embutidos e tantos outros - voltaremos a isso também em outros artigos.
Meus argumentos são óbvios e você vai ver a seguir, mas antes quero lhe apresentar a opinião de António Martinho, empresário português, diretor da Casa da Trigueira, um charmoso empreendimento de turismo rural em Santa Eugenia, Alijó, no Vale do Douro, Portugal. Não o conheço pessoalmente, mas encontrei em seu blogue “Visto da Janela”, muitos textos inteligentes, e ele é um empresário que traduz com sobriedade o que está vendo pela janela. No dia 9 de agosto Martinho publicou no jornal “A Voz de Trás-os-Montes” de Vila Real, um artigo sobre uma nova redução no plantio de uvas para a produção do vinho do Porto, um dos mais importantes  e estratégicos recursos endógenos do território.
No artigo, publicado com o título de “Mais cortes no benefício”, Martinho reflete sobre um fato que também ocorre em outras regiões do mundo: equilibrar a produção de uvas com a demanda pelos vinhos é necessário para equilibrar preços, mas socorrer-se sempre de recursos do Estado (isto é, do povo), para fazer isso, não é correto. Para os portugueses a razão é um “talvez futuro risco de redução de vendas com o Brexit”. A solução, para Martinho, é fazer marketing como o setor do turismo já o faz – e ele sabe que isso funciona porque foi Presidente da Entidade Regional Turismo do Douro.

Por uma série de razões – que começam pelo fato de que a vitivinicultura gera emprego e renda para milhares de pequenas empresas familiares – a utilização de recursos públicos para promover vinícolas e organizações privadas ocorre no mundo todo e no Brasil também. Os europeus dispõe de cerca de 1,1 bilhão de Euros por ano para apoiar a melhora de seus produtos.
No Brasil nosso maior representante, o Ibravin – Instituto Brasileiro do Vinho, é mantido por recursos do ICMS do Rio Grande do Sul. Esta organização está buscando ampliar o apoio público por causa de uma “potencial incapacidade de concorrer com vinhos europeus a partir do Acordo Mercosul – União Europeia” e divulgou uma lista de medidas compensatórias, veja a seguir.
 “Medidas Compensatórias 
Para evitar o impacto do desequilíbrio na concorrência causado pela abertura total do mercado do Mercosul aos vinhos europeus, são necessárias medidas de apoio para ampliar a competitividade dos vinhos brasileiros, tais como:
- Redução da carga tributária – tanto na fase de produção como na comercialização (Reforma tributária);
- Redução do custo brasil – logística, distribuição.  Atualmente é muito mais fácil e rápido importar do que produzir vinhos.
- Disponibilização de créditos com baixas taxas de juros para comercialização de safra, carregamento de estoques e para investimentos, com prazos e condições compatíveis com o ciclo de produção e rentabilidade de cada produto;
- Ampliação do apoio para seguro agrícola;
- Ampliação do apoio para promoção das exportações de produtos vitivinícolas brasileiros;
- Promoção no mercado interno para aumento de consumo”


É certo que a concorrência com e entre vinhos europeus de qualidade superior vai ocorrer nos supermercados brasileiros porque, como você sabe, o consumidor brasileiro vai encontrar vinhos internacionais por preços menores nos próximos anos. Aliás, mesmo se o presidente Donald Trump continuar fazendo pressão e conseguir “melar” o Acordo com os europeus, propondo um amplo Acordo comercial “Estados Unidos – Brasil” no lugar, o resultado vai ser o mesmo: competição, em nossas trincheiras, direta de produtos brasileiros com produtos importados de melhor qualidade – neste caso, especialmente da California, que responde por cerca de 90% de toda a produção “made in USA”

Certamente o Acordo Mercosul – União Europeia tem potencial para causar problemas aos produtores brasileiros. Mas os danos podem ser maiores porque muitos dos nossos empresários do vinho sempre preferiram investir mais em lobby do que em marketing. Além disso, como dá para ver nos quadros acima e abaixo, o Brasil é um médio produtor de vinhos finos e nossa produção diminuiu, o que não nos ajuda em termos de importância no cenário internacional.
Mas existe uma oportunidade histórica de reverter este quadro e fazer o correto, que é valorizar o produto brasileiro, em vez de apenas protegê-lo. Se confiarmos na qualidade vamos vencer – como estamos vencendo com nossos espumantes. Temos um período de 10 a 12 anos para nos preparar para competir com mobilização para fazer pressão para o aumento da eficiência do Estado, reducão do “custo Brasil”, modernização de políticas públicas de financiamento à produção e a necessária redução de impostos. Tudo isso é justo e necessário. Mas o que vai mesmo fazer diferença de maneira definitiva, é mudar o padrão de nossa capacidade de competir investindo no óbvio, os conhecidos 4 Ps do marketing: Produto, Preço, Praça e Promoção.  

Porque, meu caro leitor ou leitora, produzir, desenvolver, posicionar e promover uma marca de vinho, um produto privado no mercado interno, é um compromisso privado e não deveria receber recursos públicos, em qualquer segmento e país. Isto pode ser antipático para os produtores que preferem socializar o risco, e privatizar os lucros, mas é a solução definitiva para seus descendentes. Deixo você com o que António Martinho enxerga da janela dele, em Portugal, para ajudá-lo a refletir sobre o que eu vejo da minha janela aqui no Brasil. 

Mais cortes no benefício

Por António Martinho
"Por estes dias, neste Douro, região demarcada, em muitas freguesias dos vinte e um concelhos que a formam, era habitual os lavradores aguardarem, com ansiedade, a chegada do “Cartão”. Sempre foi assim até que a internet se vulgarizou. Melhor. Alguém, no Terreiro do Paço – sempre o Terreiro do Paço – se convenceu que havia computadores espalhados por todos os cantos do Douro. Mais ainda, que todos os lavradores que passam o ano à volta das videiras eram peritos em consultar os sites disto e daquilo. E agora, o cartão do benefício já não chega pelo correio. Tira-se do site do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto. “Faz-se um print nos engenheiros, na associação, na cooperativa e dão-nos o papel”.
Este ano, vai por aí um desencanto!... Por aí e por aqui. O benefício, a autorização para beneficiar mosto com aguardente vínica que depois será denominado Vinho do Porto, deu mais um trambolhão. Mais um corte de 8 000 pipas. A somar às 2 000 do ano passado. A este ritmo, em dois, três anos, atinge-se o quantitativo de 2011, as 85 000, de má memória.

Compreende-se que o quantitativo de benefício seja regulado, estabelecido através de uma parceria entre a produção e o comércio. Reconhece-se que não pode subir todos os anos. O mercado também oscila. O consumo depende de muitos fatores. Procurei no Comunicado de Vindimas as razões de tão acentuada diminuição. Não encontrei. Por tal facto, terei que me ater ao que fui lendo em declarações dos membros do Conselho Interprofissional. Aqui e ali. Desde logo em A Voz de Trás-os-Montes da passada semana. A “redução reflete a constante quebra de vendas do vinho do Porto”; há a preocupação com o “Brexit” que poderá afetar “muito” as vendas. São razões dos exportadores. Já se pensa nas consequências de que pode vir a acontecer. Convenhamos, mas este argumento não colhe. 

Aliás, sabe-se que há no Douro empresas exportadoras que, com antecedência, definiram estratégias para minorar as consequências da saída do Reino Unido da União Europeia. Quanto aos representantes dos produtores, por estranho que possa parecer, usam argumentos semelhantes – “perda contínua de vendas”. Há dias, alguém com responsabilidades no setor me segredava: «quando a Casa do Douro estava em ação, os lavradores sentiam-se mais amparados». Pois claro. Agora, os culpados são os do costume. É preciso mais investimento público na promoção. Culpa do “Brexit”, também.

Fique claro que partilho a convicção e defendo que as taxas cobradas na região demarcada não são, não podem ser receitas do Estado. Mas a promoção da região e dos seus produtos, nomeadamente, do seu produto de excelência, que é o vinho do Porto, não pode ser uma tarefa exclusiva, nem, sobretudo, do Estado. Veja-se o turismo e o papel que as empresas assumem na promoção do destino. No Douro, desde logo. No Algarve, na Madeira e em Lisboa. E noutros setores. Faça-se promoção. Façamos promoção e não estaremos sujeitos a cortes de benefício tão significativos.”

Foto da abertura: "FEB: heróis de gelo", do site Kickante.