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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Conheça as cervejas brasileiras feitas com misteriosos sabores da Amazônia como bacuri, taperebá, açai, cupuaçu e priprioca


Texto Liana John, da Conexão Planeta (*), edição Rogerio Ruschel
Meu caro leitor ou leitora, a premiada jornalista brasileira Liana John pesquisa há muitos anos os benefícios da biodiversidade dos pontos de vista social, econômico e cultural. Pois para alegria de quem gosta de experimentar bebidas diferentes, Liana publicou dia 17/11/2016, no portal Conexão Planeta, uma reportagem sobre cervejas especiais feitas com matérias-primas amazônicas pouco conhecidas, com o título “Sabores da Amazônia inundam cervejas especiais”. E para nossa alegria, Liana permitiu o compartilhamento com os leitores de In Vino Viajas. Com a palavra, Liana John.

“A oportunidade de se diferenciar de outros estabelecimentos, na Estação das Docas, em Belém do Pará, na Amazônia, acabou se transformando em uma premiada linha de cervejas especiais, com distribuição em todo o Brasil e vendas até para o exterior. A Estação das Docas é um centro cultural e comercial, na zona portuária revitalizada da capital paraense. Lojas de artesanato regional dividem o espaço com bares e restaurantes, incluindo o bar da Amazon Beer, uma cervejaria 100% artesanal, inaugurada em 2000. (Na foto acima, um dos bares da Estação das Docas).

No início, as cervejas eram produzidas somente ali, à vista dos consumidores (foto acima). Mas em 2011, a Amazon Beer abriu uma fábrica e também passou a engarrafar suas cervejas especiais. “E já multiplicamos por 10 nossa produção”, conta Caio Guimarães, proprietário da empresa, em sociedade com seu pai, Arlindo Guimarães. A distribuição hoje alcança sete estados brasileiros e caminha para o exterior, com as primeiras exportações para o Japão e o licenciamento de produção para uma cervejaria de Londres, na Inglaterra.
Em geral, as frutas adicionadas às cervejas artesanais são ácidas para conferir frescor, sem arruinar a bebida com um sabor marcante demais. É o caso da primeira cerveja desenvolvida pela Amazon Beer e lançada em 2002, a Forest Bacuri, considerada uma fruit beer, clara e leve. O aroma frutado vem da adição de bacuri (Platonia insignis) - veja na foto abaixo - na fase de maturação. É uma boa opção para acompanhar frutos do mar, carnes brancas e queijo brie. O mesmo se dá com a Witbier Taperebá, o sabor azedo da fruta facilita o trabalho do mestre cervejeiro. Também conhecido como cajá, o taperebá (Spondias mombin) é consumido em sucos e sorvetes há muito tempo, valorizado pelo alto teor em fibras, com vitaminas A, B e C mais ferro, fósforo e cálcio traduzidos em poucas calorias. A cerveja estilo belga é bem aromática e o fabricante a sugere com saladas, sushi, salmão e lagosta.

No caso do açaí (Euterpe oleracea), o mestre cervejeiro teve mais trabalho, por causa do sabor marcante. Então a Stout Açaí conta com café, chocolate e malte torrado para acompanhar o fruto amazônico, equilibrando a mistura. Trata-se de uma cerveja escura, com espuma cremosa, indicada pelo fabricante para acompanhar queijos duros, presunto cru e sobremesas à base de chocolate e frutas vermelhas.A Cupulate Porter seguiu um caminho semelhante: café, chocolate ao leite, cacau e amêndoas acompanham o sabor do cupuaçu (Theobroma grandiflorum) – na foto abaixo - com o qual se faz o chocolate amazônico ou cupulate. A cerveja adota o estilo tradicional inglês e o fabricante recomenda consumir com sobremesas à base de chocolate, baunilha ou frutas vermelhas.

Mas nem só os frutos compõem os sabores da Amazon Beer: também raízes e ervas dão um toque de floresta às cervejas. É o caso da Red Ale Priprioca e da Imperial IPA. A primeira é feita com a raiz de um capim aparentado com a tiririca, muito usada nos banhos de cheiro e perfumes regionais, chamado priprioca (Cyperus articulatus). De estilo inglês, harmoniza com carne de porco, carpaccio e aves. A segunda, lançada há apenas um ano, tem bastante malte e lúpulo com a adição de erva chama, uma planta usada por indígenas para atrair bons fluidos.


Agora, na Estação das Docas (acima), onde tudo começou, o happy hour é sempre lotado: a partir das 17 horas cerca 400 pessoas aproveitam diariamente a biodiversidade embutida nas cervejas, em mesinhas com vista para o pôr do sol na Baía do Guajará. E os sabores da Amazônia não marcam apenas as bebidas da casa: estão igualmente nas porções de tira-gosto, como o pastel de tacacá, o bolinho de pato no tucupi com jambu e as unhas de caranguejo!

Aos consumidores de outros lugares resta o consolo de encontrar um toque amazônico em supermercados grandes, como Wal Mart, Pão de Açúcar, Zaffari (região Sul) e Zona Sul (Rio de Janeiro) ou em bares e restaurantes gourmet. Tim-tim!”

(*) Liana John é jornalista ambiental há mais de 30 anos. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil. Veja outros artigos de Liana John em http://conexaoplaneta.com.br/blog/author/ljohn/

Fonte: Conexão Planeta -




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O enoturismo uniu a América Latina e a Europa no VI Congresso Latino Americano de Enoturismo em Mendoza, Argentina

Por Ivane Fávero, Vice-Presidente da Aenotur (*)
Meu caro leitor ou leitora, a Aenotur - Associação Internacional de Enoturismo, foi criada em maio de 2014 na Espanha e atualmente reúne mais de 200 municípios, diretamente ou através de entidades associativas nacionais, de sete países - Argentina, Brasil, Portugal, Espanha, Italia, França e Portugal. In Vino Viajas tem acompanhado os congressos internacionais da entidade para manter seus leitores bem informados. Leiaa seguir o relato das conclusões do 6o. evento em território da América do Sul, feito por uma de suas mais importantes lideranças, Ivane Favero, Secretária de Turismo de Garibaldi-RS e Vice-Presidente da Aenotur. Com a palavra, Ivane Favero.
 “Juntos somos fortes. Juntos somos melhores!” Essa é a frase que expressa a 6ª edição do Congresso Latino Americano de Enoturismo, realizado nos dias 17 e 18 de novembro, em San Rafael, Mendoza, Argentina. Isso pode ser expresso pela organização compartilhada entre diferentes entes, como o Ministério de Turismo da Argentina, a Província de Mendoza, o Município de San Rafael e as ‘Bodegas de Argentina’ que, juntamente com a Associação Internacional de Enoturismo – Aenotur, trabalharam sabiamente com os distintos saberes e poderes, realizando um excelente congresso. Na foto abaixo uma das atrações turísticas de San Rafael: los 'Reyunos'.
A participação de diferentes países (Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Portugal e Uruguai) compartilhando experiências exitosas e também dificuldades no enoturismo, demonstra o quanto a união pode fortalecer o setor do enoturismo. Não somos concorrentes no enoturismo, somos parceiros, e, desde agora, trabalharemos em algumas frentes conjuntas. Neste sentido, os participantes e dirigentes do evento fizeram 12 encaminhamentos:
1) Criação e comercialização de roteiros integrados, unindo o Brasil, Uruguay, Argentina e Chile, com a iniciativa assumida por agências e operadoras destes países, conforme apresentação feita pela Diretora da Ketek Eventos & Turismo, Romanella Paggi;
2) Implantação das ‘Cidades do Vinho’, em parceria com a Recevin – Rede Europeia das cidades do Vinho, a exemplo do que acontece na Europa, tendo o apoio do Presidente da entidade, José Calixto, que reforçou o apoio da Aenotur através de videoconferência;
3) Adoção do ‘Dia Mundial do Enoturismo’ por todos os associados da Aenotur, a ser comemorado no 2° domingo de novembro. (O Governador da Província de Mendoza, Alfredo Cornejo, prestigiou o evento – foto abaixo);
4) Ampliação dos associados da Aenotur, sendo que a Argentina deverá associar suas regiões vitivinícolas, conforme expressado pela Subsecretária de Desenvolvimento Turístico do Ministério de Turismo, Silvana Arrieta. O Chile também deverá se associar, por meio da Rota de Vinhos do Vale de Colchagua, encaminhamento que terá Rodrigo Alcalde como articulador;
5) Realização de duas edições do Congresso de Enoturismo em 2017, sendo a primeira na Europa (Portugal e Espanha), possivelmente a ser realizado em maio, e na América Latina, no Chile, provavelmente sendo realizada em setembro. José Arruda, diretor da AMPV – Associação dos Municípios Portugueses do Vinho, de Portugal e Rodrigo Alcalde, do Chile, respectivamente deverão articular a realização das duas edições;
6) Realização das festividades em comemoração ao aniversário de três anos da Aenotur, em maio de 2017, com a inauguração da sede, em Viana do Castelo – Portugal, e a eleição da nova diretoria;
7) Promoção de um encontro de Rainhas das Festas da Vinha e do Vinho, a ser articulada pela Argentina;
8) Encaminhamento com a Recevin e Città del Vino – Associação Italiana das Cidades do Vinho, para realização do concurso internacional "La Selezione del Sindaco”, incluindo os municípios associados à Aenotur. (Na foto abaixo a participação de José Arruda, Diretor da AMPV – Associação dos Municípios Portugueses do Vinho.)
9) Disseminação do conhecimento sobre os museus do vinho, estimulando a implantação de novas ofertas, além da participação no próximo congresso promovido pela Recevin;
10) Promoção e participação na 2ª Conferência de Enoturismo, promovida pela Organização Mundial do Turismo – OMT, que será realizada em Mendoza - Argentina, de 22 a 24 de outubro de 2017;
11) Promoção e participação no III Simpósio Internacional Vinho e Saúde, a ser realizado em Bento Gonçalves – Rio Grande do Sul – Brasil, de 1° a 3 de junho de 2017;
12) Fortalecimento dos canais de comunicação (Fan Page, Grupo de Trabalho no Facebook, Site, e-mails e outros). Além da programação técnica de palestras, debates e reuniões, os participantes fizeram visitas técnicas a vinícolas como à Bodegas Roca; na foto abaixo, Alfredo Roca, Ivane Fávero e Silvina Arrieta.
Acima de tudo, enoturismo é convivência, para que o grupo siga unido e imbuído do espirito de construção conjunta. No âmbito das conclusões desta edição do congresso, temos:
1) Necessidade de compartilharmos experiências e realizarmos trabalhos em conjunto, para que possamos ampliar a competitividade dos destinos enoturísticos;
2) Novos destinos enoturísticos estão surgindo no mundo e estes precisam investir em inovação e criatividade, reforçando a identidade local, sua cultura e paisagem. Tal posicionamento também deve ser tomado pelos destinos já existentes;
3) Ser necessário que os destinos enoturísticos invistam em qualificação e capacitação profissional. Cursos de extensão e pós-graduação são os indicados, no momento, visando à agilidade nos processos e o envolvimento de profissionais, em diferentes níveis de educação e campos de atuação. (A Recevin – Rede Europeia de Cidades do Vinho apoiou o evento através de mensagem especial de seu presidente José Calixto exibida em um telão no auditório - foto abaixo).
4) Buscarmos a adequação das formas de promoção, adequando os destinos e empreendimentos enoturísticos aos novos tempos, com o advento da internet, utilizando-se de planos de marketing que privilegiem estratégias planejadas, integradoras, inovadoras e contínuas. A ‘inteligência de mercado’ deve ser aplicada;
5) Enfatizar mais a valorização da agricultura, da viticultura, do trabalho do engenheiro agrônomo, do território, o que deverá se refletir no vinho, na arquitetura e na gastronomia; ‘O vinho pode ser mais que uma indústria’;
6) Trabalharmos para o desenvolvimento do enoturismo (planejamento, desenvolvimento, promoção e monitoramento), contribuindo com a economia global e para o compartilhamento entre o setor público, privado e entidades. É fundamental que os governos destas nações, províncias ou estados e municípios apoiem o segmento, como estratégia para o desenvolvimento social e econômico. ‘Associativismo é um conceito de crescimento’. (Palestrantes e participantes de oito países compartilharam experiências e confraternizaram no evento - foto abaixo).
7) Buscarmos entender o perfil do enoturista e diferenciar seu atendimento, minimamente entre os ocasionais, interessados e conhecedores ou apaixonados;
8) Desenvolvermos combos, roteiros, produtos complementares e reforçar a complementação da oferta;
9) Promovermos a preservação do patrimônio e da paisagem vitivinícola, base da oferta enoturística.
Ao final de mais esta edição do Congresso Latino (ou Ibero) Americano de Enoturismo, a Aenotur agradece a hospitalidade de San Rafael – Mendoza – Argentina, a Terra do Espumante, e cumprimenta o município pela assinatura do ‘hermanamiento’, acordo de cooperação, com Garibaldi – Rio Grande do Sul – Brasil, a Capital Brasileira do Espumante. Garibaldi já possui protocolos de geminação com a cidade italiana de Conegliano, com a cidade portuguesa de Anadia, ambas capitais do espumante.
Saudamos a todos os congressistas e participantes do Congresso. Até a próxima edição!
(*) Ivane Fávero é Vice Presidente da Aenotur para a América Latina, e Secretária de Turismo e Cultura de Garibaldi - RS - Brasil e Consultora em Turismo

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Saiba porque Madalena, vila da Ilha do Pico, nos Açores, um Patrimônio da Humanidade pela Unesco, foi eleita a Cidade Portuguesa do Vinho de 2017


Por Rogerio Ruschel (*)

Entrevista exclusiva com o Prefeito de Madalena e com o Presidente da CVRAçores sobre os planos da Cidade Portuguesa do Vinho de 2017.

Estimado leitor ou leitora. O território português do Arquipélago dos Açores tem uma origem conturbada e heróica: em uma região do Oceano Atlântico a cerca de 1.700 Km de Lisboa, a erupção de um vulcão fez surgir um amontoado de rochas com alguma terra. Na foto acima, o Museu do Vinho da Ilha do Pico e ao fundo a montanha do Pico, também abaixo.

Ao longo dos séculos as ilhas foram sendo colonizadas e hoje formam a Região Autônoma dos Açores, um conjunto de 9 ilhas e muitas ilhotas com cerca de 250.000 habitantes. A maior e mais populosa delas, a ilha de São Miguel e sua capital, Ponta Delgada, têm pelo menos a metade deste total. E a Ilha do Pico, onde está a montanha do vulcão do Pico, é a segunda maior e o Concelho de Madalena (município) tem cerca de 6.000 habitantes (foto abaixo).

Com uvas trazidas de Creta (Grécia) e da Sicília (Itália) conforme afirmam alguns historiadores, na Ilha do Pico foi implantada uma “indústria de vitivinicultura única no mundo, em solos que desafiam a sua própria definição, porque praticamente só existe rocha e muita pedra amontoada em muros que circundam as videiras para as proteger dos devastadores ventos salinos “, como resume Paulo Machado, presidente da Comissão Vitivinícola Regional dos Açores.
O trabalho com a vitivinicultura feito a partir do ano 1432 nesta ilha já teve vários reconhecimentos, entre os quais destaco dois: em 2004 a Cultura da Vinha da Ilha da Pico foi reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura; e semana passada, Madalena, sua capital, foi eleita como a Cidade Portuguesa do Vinho de 2017 pela Associação Municípios Portugueses do Vinho (AMPV), derrotando outros cinco candidatos: Alenquer + Torres Vedras (Lisboa), Moura (Alentejo), Pinhel (Beira Interior) e Vila Nova de Foz Côa (Douro). Para os brasileiros descendentes de açorianos, especialmente no sul do país, destaco a mensagem do prefeito de Madalena, José António Soares, abaixo: ele informa que pretende promover os Açores no Brasil, especialmente em Santa Catarina.Na foto abaixo as curraletas, organização do solo com muro de pedras basálticas para proteger as videiras. Cada curraleta pode ter entre 6 e 10 videiras.

Para contar esta historia da Ilha do Pico, entrevistei as pessoas responsáveis pelas atividades da Cidade Portuguesa do Vinho de 2017: o prefeito da cidade e o presidente da associação dos produtores de vinho. Espero em breve apresentar a você aspectos do turismo no arquipélago, das tradições culturais e dos vinhos dos Açores, mas agora veja as entrevistas exclusivas que estas lideranças picoenses deram a “In Vino Viajas”.Na foto abaixo a igreja da Lajes do Pico.

Entrevista com José António Soares, presidente do Conselho de Madalena (prefeito)

R. Ruschel: Quais os compromissos assumidos pelo Município de Madalena por ocasião da candidatura, qual a programação planejada?
José António Soares: Ao formalizar a sua candidatura, o Município propôs-se dinamizar uma vasta panóplia de eventos ao longo do ano, que irão fazer da Madalena o principal núcleo da vitivinicultura na região e no país.
Das artes às ciências, dando enfase às singularidades da nossa terra, serão realizadas várias iniciativas destinadas a um público eclético e heterogéneo, abrangendo todas as faixas etárias. Desde a realização de workshops, conferências e tertúlias à apresentação de livros e realização de feiras, dezenas de eventos prometem animar o Município, que viverá o seu momento apoteótico em julho, nas Festas da Madalena, um dos mais importantes festivais açorianos, cuja edição de 2017 será dedicada ao Vinho.
Destaco ainda, a realização da Gala de Abertura da Cidade do Vinho em março, bem como a celebração de diversas efemérides, nomeadamente o Dia Europeu do Enoturismo e a Gala dos 10 anos da Associação de Municípios Portugueses do Vinho, que certamente permitirão refletir sobre o passado, o presente e o futuro do mundo rural e da vitivinicultura, celebrando a nossa mais intrínseca identidade.
R. Ruschel: Qual foi o orçamento apresentado por Madalena para promover-se como Cidade Portuguesa do Vinho 2017?
José António Soares: O orçamento previsto para a realização do evento é de 50 mil Euros. Na foto abaixo, o interior da igreja Santa Maria de Madalena.

R. Ruschel: Como se pretende realizar a promoção da cidade no exterior? Há interesse em promover Madalena e Açores no Brasil? E na América Latina?
José António Soares: A promoção da Madalena, do Pico e dos Açores além-fronteiras é fundamental para a Câmara Municipal, que tem vindo a envidar os seus melhores esforços em prol da afirmação do Município no exterior, sendo os resultados muito positivos, dado o crescimento exponencial do turismo no Concelho e na Ilha.
Neste sentido, a importância da diáspora como veículo de promoção é fundamental, tendo o Brasil um papel central, dada a dimensão e importância da comunidade açoriana aí residente, muito em particular no Sul, no estado de Santa Catarina.
R. Ruschel: Como o Município avalia os benefícios que os Açores e a Madalena poderão obter sendo a Cidade Portuguesa do Vinho em 2017?
José António Soares: A Cidade do Vinho é o evento mais importante da vitivinicultura em Portugal, e irá fazer da Madalena em 2017 o principal núcleo do setor na região e no país.
O evento, que se realiza pela primeira vez nos Açores, irá potenciar de forma incontornável o turismo, o enoturismo e todas as áreas de atividade a montante ou a jusante destes setores, alavancando o tecido empresarial local, e por conseguinte, toda a economia.
Fortalecendo a marca Madalena, Capital dos Açores da Vinha e do Vinho, o evento irá ainda reforçar de forma indelével o vinho como produto estratégico e singular do Concelho, associando-o ao património edificado e natural da Madalena, numa visão multidimensional, projetando o Município e a Ilha além-fronteiras.

R. Ruschel: Qual a entidade ou organização dos Açores responsável pela proteção e gestão do Património da Humanidade?
José António Soares: A Direção Regional do Ambiente e o Parque Natural da Ilha do Pico são as entidades responsáveis pela proteção e gestão da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, Património da Humanidade.
Entrevista com Paulo Machado, presidente da Comissão Vitivinícola Regional dos Açores

R. Ruschel: Qual foi a participação da CVRAçores no projeto? E como vai apoiar na realização dos eventos?
Paulo Machado: A CVRAçores colaborou como parceiro no projeto, disponibilizando informações e dados importantes para reforçar e fortalecer a candidatura. Nos eventos que se realizarão em 2017 a CVRAçores deverá apoiar as ações dedicadas à promoção dos vinhos certificados, nomeadamente feiras, concursos, debates, provas temáticas e dentro do seu campo de atuação, canalizar recursos para divulgar a Capital do Vinho dentro e fora da região.

R. Ruschel: Como a CVRA e/ou o Concelho avalia os benefícios que Madalena e os Açores poderão obter sendo a Cidade Portuguesa do Vinho 2017?
Paulo Machado: No entender da CVRAçores esta é uma oportunidade excelente para dinamizar e dar a conhecer ao país e ao mundo uma das mais singulares construções humanas ligadas à prática vitícola. O aumento do número de visitantes que se deslocarão ao Pico para conhecer a Cidade Portuguesa do Vinho trará dividendos diretos para os produtores de vinho, aumentando o reconhecimento dos vinhos locais, mas também para toda a indústria turística já instalada que concilia história, cultura, património, vulcanismo e diversas atividades marítimas.
Socialmente será muito importante, permitindo o reforço de uma identidade muito própria da população local, que tem uma ligação muito estreita com o vinho. Poucas regiões no mundo tem uma cultura vínica tão enraizada como aqui. Praticamente todas as famílias produzem uvas e vinhos pelo menos para autoconsumo e fazem das suas pequenas adegas o espaço primordial para receber e festejar com os seus amigos. Para a indústria vitivinícola local será a confirmação do excelente trabalho realizado nos últimos anos com forte investimento na melhoria da qualidade dos vinhos e no aproveitamento das especificidades locais (castas únicas, solos vulcânicos, clima marcadamente marítimo e imprevisível).

R. Ruschel: Qual o legado que a CVRAçores estima que vai ficar para a comunidade?
Paulo Machado: Acima de tudo ficará o fortalecimento da identidade de um povo que sobreviveu e criou riqueza em torno da indústria do vinho.
R. Ruschel: Como os produtores conciliam a produção de uvas (490 hectares) com as áreas classificadas pela Unesco na Ilha do Pico
Paulo Machado: A maioria da área em produção encontra-se dentro da zona classificada pela UNESCO, por também ser esta a de maior potencial vitícola e onde as uvas atingem melhor qualidade. As intervenções do homem são muito semelhantes às realizadas pelos primeiros viticultores 500 anos atrás, pois é impossível a mecanização. É um modo de cultivo ancestral, perpetuado ao longo de gerações.
Os viticultores respeitam muito o património que lhes foi legado e não havendo muitas possibilidades de intervir de forma diferente, acreditam que esta é a melhor forma de produzir uvas e resistir às adversidades climáticas. Na foto abaixo alguns dos vinhos dos Açores.

R. Ruschel: Como a denominação de Patrimonio da Humanidade pela Unesco agrega valor aos vinhos dos Açores?
Paulo Machado: A classificação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha da Pico como Património da Humanidade é o reconhecimento de uma viticultura única no mundo, em solos que desafiam a sua própria definição, porque praticamente só existe rocha e muita pedra amontoada em muros que circundam as videiras para as proteger dos devastadores ventos salinos. Nestas condições as produtividades são muito baixas embora os vinhos tenham características únicas (salinos, minerais e muito frescos) que os tornam inigualáveis e de grande qualidade.
Poder em cada garrafa transmitir uma história heroica de sobrevivência e transformação de um terreno inóspito e improdutivo em fonte de riqueza, que é reconhecida pela UNESCO, é uma enorme valorização para os vinhos do Pico. 
Saiba mais sobre os vinhos dos Açores em http://www.cvracores.pt/

Rogerio Ruschel (*) publica este blog em São Paulo, Brasil, e sempre sonha em conhecer a Ilha de Pico e outros rincões da cultura do vinho reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Leite fresco 24 horas em caixas automáticas e hortas orgânicas na creche comunitária: conheça duas ideias sustentáveis de vilarejos de Rhone-Alpes, França


Por Rogerio Ruschel (*)
Estimado leitor ou leitora, como você sabe, o foco de In Vino Viajas é o vinho e as historias que o cercam - a cultura do vinho. Mas você e eu também gostamos de queijos e alimentos orgânicos – e estes produtos vêm da terra. Então vou mostrar duas pequenas grandes ideias criativas com foco na sustentabilidade que conheci na região francesa de Rhone-Alpes, bem perto da fronteira com a Suiça. Uma delas você está vendo na foto acima: uma caixa automática de leite fresco, o que se poderia chamar de uma vaca eletrônica.

A caixa automática está implantada na rua central de Saint Gennis Poully, um vilarejo com 8.500 moradores no Departamento de Ain, Cantão de Ferney-Voltaire, em Auvergne-Rhone-Alpes, França. A caixa automática é abastecida todos os dias as 6:00 horas da manhã e pode ser comprada a qualquer momento. Um litro de leite fresco e cru, que sai geladinho de uma torneira acionada pelo comprador, custa em torno de R$ 4,00 incluindo a garrafa de vidro (veja detalhes acima e abaixo).

Não sei se eles tem uma cooperativa para a produção e entrega do leite, ou se é uma empresa que compra e explora o ponto de venda automático; o que importa é que o leite fresco está disponível a qualquer momento para moradores e visitantes e era muito gostoso!

A igreja de Pouilly-St-Genis apareceu pela primeira vez nos mapas religiosos no atlas histórico de G. Debombourg com o nome latino de Pulliam, na época do segundo reinado de Bourgogne, entre os anos de 879-1032.  E se hoje a igreja não é significativa, outra atração turística de Pouilly-St-Genis são os painéis pintados nos prédios; veja acima e abaixo alguns deles.


Pouilly-St-Genis fica no sopé do Jura, a cadeia de montanhas que fica na fronteira com a Suíça, na área transfronteiriça de Genebra. Por isso grande parte do CERN, o acelerador de partículas de Genebra e maior laboratório de pesquisa de física fundamental do mundo, está localizado no território do vilarejo desde meados da década de 1960. O experimento ALICE está localizado na periferia da cidade, e a entrada principal para o campus primário do CERN (Meyrin) e para o experimento ATLAS estão localizados apenas a 3 km do centro de St Genis. Isto tudo aquece a economia local. Visitei o CERN (foto abaixo), que você pode conhecer aqui: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/10/conheca-o-cern-o-acelerador-de.html
E por falar em  economia local: a caixa automáticva de leite foi fabricada em Chênex, uma pequena comunidade próxima de Pouilly-St-Genis, na região de Rhone-Alpes, no departamento de Haute-Savoie, a uns 8 Km da fronteira com a Suíça. A comunidade de Chênex foi fundada na Idade Média, com o primeiro registro no ano de 1344 e tem como principal atividade a agricultura e o turismo relacionado com a qualidade de vida já que é cercada por áreas verdes. Tudo muito ecológico, muito verde, como a foto abaixo mostra. 

Pois para harmonizar a vida ecológica que os “Chênexiennes” são obrigados a ter, o município decidiu potencializar o principal recurso que tinha – terra para plantar – e criou as hortas comunitárias. As hortas ou jardins familiares, como eles chamam oficialmente, são áreas de 25 m2 a 50 m2 de propriedade pública ao lado da creche municipal, cedidas por um pequeno valor aos moradores interessados em plantar alimentos orgânicos. Veja o cartaz promocional abaixo. Cada “inquilino” deve implementar uma cultura que atenda sua família e que possa trocar com outros, oferecendo o que eles chamam de “uma melhor convivência comunitária.” E obviamente é proibida a venda ou qualquer atividade comercial. Simples e criativo, não? 

Mas aqui está o melhor: porque fazer hortas? Os  “Chênexiennes” acreditam que as hortas criam laços sociais entre os cidadãos porque promovem celebrações e intercâmbios porque os participantes se comprometem e a respeitar outros jardineiros, seus vizinhos na comunidade. Alem disso a ideia incentiva a produção e o consumo de produtos orgânicos, promove o relacionamento entre diferentes gerações e ainda disponibilizam as crianças da creche uma ferramenta didática. Isso é o que eu chamo de pequena grande ideia de quem olha para o futuro.

Um brinde a isso – com leite e vinho!

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas e divulga ideias sustentáveis, mesmo que sejam pequenas


 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Protegendo safras: engenheiros do Chile criam sistema anti-terremoto para proteger barricas e garrafas de vinhos, depósitos, máquinas e adegas no mundo inteiro


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu caro leitor ou leitora, infelizmente terremotos abalam famílias, vilarejos, comunidades e países com muita frequência. Não temos como evitá-los, mas podemos tentar reduzir seus danos. E eles ocorrem em todo o planeta; esta semana sacudiu a Nova Zelândia. Na Europa a Itália tem um histórico de terremotos e erupções vulcianicas de vários séculos, mas vem sofrendo muitos tremores neste segundo semestre de 2016. Em outubro o centro do país foi abalado por um terremoto que foi o mais intenso desde 2009, que deixou 159 mortos e milhares de desabrigados (fotos abaixo).
Além destas perdas, os estragos também estão no patrimônio cultural e arquitetônico e nas atividades regulares da agricultura, entre as quais a vitivinicultura. Entre as regiões vinícolas mais suscetíveis por terrremotos no país estão as áreas próximas dos Apeninos, a Toscana, Umbria, Marche, Emilia-Romana, Abruzos, Lacio e a Sicilia, que tem historias arrepiantes relacionadas com o vulcão Etna.Outros dois vulcões assustam os italianos: Vesuvio (no Golfo de Nápoles) e o Stromboli, na ilha Stromboli.
Já na America do Norte a principal vítima no setor vinícola é a California. Um terremoto em agosto de 2014 causou perdas milionárias à indústria vinícola em Napa Valley – como dá para ver na foto que abre este matéria e até mesmo lojas de vinhos, como a da foto abaixo. O que a seca de dois anos não havia conseguido prejudicar, o terremoto fez em segundos, destruindo milhares de barris de vinho. Especialistas avaliaram que as perdas chegaram à cifra de 1 bilhão de dólares, em um setor que movimenta mais de 13 bilhões de dólares por ano. Entre os produtos em estoque a colheita de 2013 foi uma das mais afetadas, mas a de 2012, tida como Vintage, ficou praticamente intacta porque se encontrava em pallets de carga e bem acondicionada, pronta para a distribuição. 
Na America do Sul o Chile é quem sofre com os terremotos mais destruidores porque o país se encontra em área de elevada tensão e instabilidade geológica propiciada pelo choque direto das placas tectônicas de Nazca, posicionada sob o Oceano Pacífico, e a Sul-americana, posicionada na América do Sul. O maior terremoto da história recente ocorreu justamente no Chile, na cidade de Valdívia, em 1960. Naquele ano, a intensidade alcançou os 9,5 graus na Escala Richter, provocou mais de 2.000 mortos, em uma das maiores catástrofes naturais da história da humanidade. 
Em 27 fevereiro de 2010 um terremoto com magnitude de 8,8 desabrigou mais de dois milhões de pessoas e afetou diversas áreas de vitivinicultura que tiveram suas plantações e adegas afetadas. Pelo menos um em cada quatro tanques de aço inoxidável com vinho foram afetados, resultando numa perda de 125 milhões de litros, o equivalente a 12,5% da produção em 2009. Algumas infra-estruturas, especialmente das regiões de Maule e Rapel, localizadas perto do epicentro, tiveram danos gigantes; o vinho é a principal indústria de duas das regiões mais próximas ao epicentro do terremoto, Maule e Bio-Bio (mapa abaixo).
Pois no fim de outubro de 2016 os vitivinicultores destas regiões em todo o globo terrestre ouviram uma boa noticia: um grupo de pesquisadores da Universidade Católica do Chile desenvolveu um sistema de isolamento sísmico para recipientes de líquidos especificamente concebido para proteger os depósitos dos vinhos de terremotos. O sistema consiste de um conjunto de dispositivos flexíveis que são instalados nos suportes do reservatório, o que produz um efeito isolante. A idéia é que a energia do terremoto seja absorvida pelo isolamento dos dispositivos de vibração que isolam os dois movimentos no solo: horizontal e vertical, numa adaptação dos sistemas já utilizados em edifícios com grande altura que tem um sistema pendular de balanço vertical. O sistema, de acordo com os pesquisadores, pode ser dimensionado para o tamanho e peso que forem necessários e poderá também proteger os equipamentos e máquinas industriais em geral. Os criadores esperam que os equipamentos comecem a ser entregues aos compradores em 2018.

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas a partir de São Paulo, Brasil, onde não há terremotos, a não ser os provocados por politicos