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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Protegendo safras: engenheiros do Chile criam sistema anti-terremoto para proteger barricas e garrafas de vinhos, depósitos, máquinas e adegas no mundo inteiro


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu caro leitor ou leitora, infelizmente terremotos abalam famílias, vilarejos, comunidades e países com muita frequência. Não temos como evitá-los, mas podemos tentar reduzir seus danos. E eles ocorrem em todo o planeta; esta semana sacudiu a Nova Zelândia. Na Europa a Itália tem um histórico de terremotos e erupções vulcianicas de vários séculos, mas vem sofrendo muitos tremores neste segundo semestre de 2016. Em outubro o centro do país foi abalado por um terremoto que foi o mais intenso desde 2009, que deixou 159 mortos e milhares de desabrigados (fotos abaixo).
Além destas perdas, os estragos também estão no patrimônio cultural e arquitetônico e nas atividades regulares da agricultura, entre as quais a vitivinicultura. Entre as regiões vinícolas mais suscetíveis por terrremotos no país estão as áreas próximas dos Apeninos, a Toscana, Umbria, Marche, Emilia-Romana, Abruzos, Lacio e a Sicilia, que tem historias arrepiantes relacionadas com o vulcão Etna.Outros dois vulcões assustam os italianos: Vesuvio (no Golfo de Nápoles) e o Stromboli, na ilha Stromboli.
Já na America do Norte a principal vítima no setor vinícola é a California. Um terremoto em agosto de 2014 causou perdas milionárias à indústria vinícola em Napa Valley – como dá para ver na foto que abre este matéria e até mesmo lojas de vinhos, como a da foto abaixo. O que a seca de dois anos não havia conseguido prejudicar, o terremoto fez em segundos, destruindo milhares de barris de vinho. Especialistas avaliaram que as perdas chegaram à cifra de 1 bilhão de dólares, em um setor que movimenta mais de 13 bilhões de dólares por ano. Entre os produtos em estoque a colheita de 2013 foi uma das mais afetadas, mas a de 2012, tida como Vintage, ficou praticamente intacta porque se encontrava em pallets de carga e bem acondicionada, pronta para a distribuição. 
Na America do Sul o Chile é quem sofre com os terremotos mais destruidores porque o país se encontra em área de elevada tensão e instabilidade geológica propiciada pelo choque direto das placas tectônicas de Nazca, posicionada sob o Oceano Pacífico, e a Sul-americana, posicionada na América do Sul. O maior terremoto da história recente ocorreu justamente no Chile, na cidade de Valdívia, em 1960. Naquele ano, a intensidade alcançou os 9,5 graus na Escala Richter, provocou mais de 2.000 mortos, em uma das maiores catástrofes naturais da história da humanidade. 
Em 27 fevereiro de 2010 um terremoto com magnitude de 8,8 desabrigou mais de dois milhões de pessoas e afetou diversas áreas de vitivinicultura que tiveram suas plantações e adegas afetadas. Pelo menos um em cada quatro tanques de aço inoxidável com vinho foram afetados, resultando numa perda de 125 milhões de litros, o equivalente a 12,5% da produção em 2009. Algumas infra-estruturas, especialmente das regiões de Maule e Rapel, localizadas perto do epicentro, tiveram danos gigantes; o vinho é a principal indústria de duas das regiões mais próximas ao epicentro do terremoto, Maule e Bio-Bio (mapa abaixo).
Pois no fim de outubro de 2016 os vitivinicultores destas regiões em todo o globo terrestre ouviram uma boa noticia: um grupo de pesquisadores da Universidade Católica do Chile desenvolveu um sistema de isolamento sísmico para recipientes de líquidos especificamente concebido para proteger os depósitos dos vinhos de terremotos. O sistema consiste de um conjunto de dispositivos flexíveis que são instalados nos suportes do reservatório, o que produz um efeito isolante. A idéia é que a energia do terremoto seja absorvida pelo isolamento dos dispositivos de vibração que isolam os dois movimentos no solo: horizontal e vertical, numa adaptação dos sistemas já utilizados em edifícios com grande altura que tem um sistema pendular de balanço vertical. O sistema, de acordo com os pesquisadores, pode ser dimensionado para o tamanho e peso que forem necessários e poderá também proteger os equipamentos e máquinas industriais em geral. Os criadores esperam que os equipamentos comecem a ser entregues aos compradores em 2018.

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas a partir de São Paulo, Brasil, onde não há terremotos, a não ser os provocados por politicos



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Cambados, na Galícia, Espanha, é a Cidade Europeia do Vinho 2017: conheça seu patrimônio cultural, história e seus vinhos Alvarinho da D.O. Rias Baixas


Por Rogerio Ruschel (*)
Cambados, cidade da Galícia, Espanha, município turístico integrante da Denominação de Origem DO Rias Baixas e da Rota do Vinho Alvarinho foi eleita Cidade Europeia da Vinho 2017. O anúncio foi feito no evento de gala da Rede Europeia de Cidades do Vinho (Recevin), realizada na Cidade Europeia do Vinho 2012, Palmela (Portugal), dia 4 de Novembro de 2016. Na foto abaixo o conselho da Recevin, sob o comando do presidente José Calixto, faz a análise das quatro candidaturas.
 Pelo acordo entre as entidades associadas que formam a Recevin (rede de produtores e de cerca de 800 cidades vinícolas de Áustria, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Eslovénia, Espanha e Portugal), este ano a escolha recairia sobre uma cidade espanhola e Cambados - a capital do vinho Alvarinho - venceu a concorrência pesada com três cidades finalistas, com forte tradição na vinicultura: Aranda del Duero (Burgos), Villafranca del Penedés (Barcelona) e La Palma del Condado ( Huelva, Andaluzia).
O projeto vencedor de Cambados, apresentado pela prefeita Fatima Abal, o conselheiro de Enoturismo José Ramón Abal e o gerente da Mancomunidade do Salnés, Ramón Guinarte, inclui um investimento de 450 mil euros para a realização de cerca de 80 atividades de enoturismo em 2017, que você vai conhecer aqui em breve. Aranda del Duero, capital vinícola da Ribera del Duero ficou surpresa com o resultado porque segundo a prefeita Raquel González, a comunidade tinha muito apoio popular e um belo projeto,no qual iria investir 2,5 milhões de Euros.

Cambados vai suceder as cidades italianas de Conegliano & Valdobbiadene, Cidades Europeias do Vinho 2016. Cambados é uma cidade litorânea e portuária com 13.500 habitantes na Provincia de Pontevedra, noroeste da Espanha, próxima da fronteira com Portugal (190 Kms da cidade de Porto) que atrai turistas por suas belezas naturais, patrimônio histórico, esportes de natureza e por seus vinhos brancos Albariño (Alvarinho em Portugal), que harmonizam perfeitamente com o grande destaque da gastronomia da região: os frutos do mar vendidos especialmente no Mercado de la Plaza.

Estive em Cambados (foto abaixo) como palestrante do Congresso Internacional de Enoturismo - edição Europa, evento realizado no Edificio Penã em julho de 2015 realizado pela Associação Internacional de Enoturismo (Aenotur), aliás criada em junho de 2014 em Cambados – veja entrevista no fim desta reportagem.

O Congresso teve o apoio dos Concelhos de Castelo de Viana (Portugal) e Cambados (Espanha), além da Xunta de Galizia. Na foto abaixo a prefeita Fatima Abal, ao centro, está co-presidindo a mesa do evento, ao lado de dirigentes da Aenotur.



Visitei a cidade, o litoral e o porto (fotos acima), o Conjunto Historico de Cambados que inclui a adega-monumento Palacio de Feniñanes, visitei bodegas e vi uma coisa rara: o  resultado do trabalho da maré que sobre e desce em um vinhedo da Bodega Lagar da Costa (fotos abaixo). 




Visitei várias lojas especializadas (fotos acima) e degustei vinhos da centanária Bodega Paco Baión com seus vinhedos fantásticos e sede com arquitetura arte deco (fotos abaixo; na foto do grupo visitante, a prefeita Fatima Abal está na frente, de roupa amarela).

Visitei e degustei alvarinhos de exportação também na extraordinária adega Martin Codax, uma das mais bonitas e bem organizadas para o turismo que já conheci – veja as fotos abaixo.


Quando você for a Cambados já como Cidade Europeia do Vinho 2017, aproveite para conhecer a Praça e o Palacio de Feniñanes com seu castelo e adega histórica (foto abaixo); as ruinas de Santa Mariña de Dozo (foto abaixo), a torre de San Saturnino e o Mirador da Pastorapara ter uma visão ampliada da cidade e do porto.

Mas principalmente aproveite para relaxar, passear pela cidade e região e comer os famosos frutos do mar acompanhado do badalado vinho Alvarinho. Brindo a esta sua experiência!
Saiba mais: Prefeito de Cambados e presidente da Aenotur mostra como a experiência internacional pode ajudar o desenvolvimento do enoturismo no Brasil - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2015/03/espanhol-que-preside-aenotur-apresenta.html
(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas a partir de São Paulo, Brasil, mas gosta de vinhos alvarinhos, turismo de qualidade e de beber com amigos de qualquer lugar do mundo


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Vinhos orgânicos, azeites finos, alfarrobas saudáveis e animais felizes: veja como o capitão Zeppenfeld construiu um pequeno paraíso sob o glorioso céu do Alentejo


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu caro leitor ou leitora, há cerca de 25 anos um capitão da marinha mercante e também armador de Bremen, Alemanha, chamado Horst Zeppenfeld, lançou âncoras no Vale do Açor de Cima, em Mértola, no Baixo Alentejo, Portugal. O alemão e sua mulher se apaixonaram pela região (o que não é dificil porque todo mundo se apaixona pelo Alentejo) e resolveu investir na compra de uma propriedade atendendo um sonho antigo: produzir vinhos com qualidade e identidade, de maneira sustentável.


Naquele tempo poucas pessoas falavam em vinhos sustentáveis, mas ele comprou a sociedade Agrícola Herdade dos Lagos e começou a trabalhar com este foco. 25 anos depois hoje a vinícola trabalha com as uvas tintas Aragonez, Syrah, Touriga Nacional e Alicante Bouschet e as brancas Alvarinho e Arinto (vindas do Norte do país), com os quais produz 100% de vinhos biológicos que ganham prêmios internacionais e recomendações de especialistas – e é a unica vinicola do Alentejo que conseguiu isso.

O capitão Zeppenfeld e sua equipe tiveram muito trabalho, enfrentaram muita burocracia, mas colheram bons frutos. Atualmente a Herdade dos Lagos ocupa uma área de 1000 hectares, nas quais foram construídas quatro barragens com lagos que ajudam na agricultura e na alimentação de cerca de 1000 ovelhas da raça Merina (foto abaixo), que devem ser felizes porque vivem bem em troca apenas da lã. Mas as ovelhas são um complemento ao negócio, porque em primeiro plano está o cultivo de vinhas, das olivas e da alfarroba, um vegetal que pode substituir o cacau.

Na propriedade de 1000 hectares, a Herdade dos Lagos produz vinhos tintos, rosés e brancos biológicos (alguns veganos) em 25 hectares; azeite extra virgem de alta qualidade em oliveiras que ocupam 80 hectares; produz também um mel biológico muito puro e uma vagem chamada alfarroba em 260 hectares do solo seco. Além de fibras alimentares, a alfarroba (foto abaixo) contém muito cálcio e ferro, o que a torna ideal para dietas e para a alimentação de crianças e para fazer farinhas sem colesterol, glúten e lactose, uma alternativa perfeita para pessoas alérgicas o chocolate. Bem coisa de alemão, não?

Hoje tudo na propriedade é feito seguindo os princípios da agricultura biológica certificada, um modelo de negócio baseado na utilização eficiente dos recursos naturais e baixa pegada ambiental. A produção vinícola, por exemplo, chegou a 100% de certificação biológica no ano de 2006. Veja no quadro abaixo os principios da vitivinicultura orgânica.

Mas a Herdade dos Lagos vai além de produtos certificados: faz o aproveitamento das águas da chuva e da energia solar, faz colheita manual, investe na manutenção do ecossistema e das cadeias alimentares e ajuda a preservar plantas e animais. Um dos destaques atrai muitas pessoas porque é interessante: mais de 30 ninhos artificiais de grande porte colocados em postes e árvores da Herdade (foto abaixo) para servirem de “residência de verão” as cegonnhas. E todos os anos nidificam cerca de 1.500 grous (Grus grus) e outras aves migratórias que fazem dos lagos da Herdade dos Lagos locais de estadia temporária, todos os anos.



Os ninhos de cegonha foram colocados pela Liga da Proteção da Natureza – a mais antiga ONG de meio ambiente da Peninsula Ibérica – porque há 15 anos as aves corriam o risco de desaparecer. Elas vêm do Norte da Europa (Fino-Escandinávia) fugindo do frio, chegam à Península Ibérica no final de Outubro e se distribuem pela Andaluzia e Extremadura (na Espanha) e pelo interior do Alentejo, viajando até 3.500 Km. Em março e abril eles nidificam e em julho vão embora com um ou dois filhotes. No inverno de 2015/2016 foram contados 2.184 animais no Baixo Alentejo. 

A filha do Capitão Zappenfeld, Antje Kreikenbaum, atualmente comanda a administração da empresa com o apoio do marido, o arquiteto paisagista Thorsten Kreikenbaum e a ajuda de Carsten Heinemeyer, enólogo e dos executivos portugueses Helena Ferreira Manuel, gestora agrícola, que gere em Portugal a propriedade e Carlos Delgado, agrônomo responsável pelo marketing e vendas, com quem estou na foto abaixo. As vendas e o marketing internacional são realizados pelo escritório de Bremen, onde os produtos podem ser encomendados diretamente. Aliás, cerca de 50% da produção é vendida na Alemanha.
Então você já sabe: dentro uma taça de um HDL Aragonez Bio estão os premiados aromas do Alentejo, mas também o resultado de uma série de ações em benefício de um futuro melhor para nosso planeta. Eu brindo a isso!
(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas em São Paulo, Brasil, e conheceu o sonho do capitão Zeppenfeld a convite da Vinhos do Alentejo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

In Vino Viajas revela o conteúdo que está por trás das elegantes gravatas borboleta de Didu Russo, o apaixonado descomplicador de vinhos do Brasil


Por Rogerio Ruschel (*)
EXCLUSIVO - Meu prezado leitor ou leitora, Didu Russo, o elegante cavalheiro da foto acima, é um dos mais conhecidos críticos de vinhos do Brasil, porque além de ter conteúdo, é apaixonado pelo que faz. Didu abandonou uma carreira no mundo das comunicações para trabalhar com vinhos e hoje, quase 20 anos depois, como ele mesmo diz, “consegui conquistar espaço sendo eu mesmo e sem precisar concessões, mesmo vivendo de publicidade. Não vendo vinho e não trabalho para nenhum produtor ou importador.” Eduardo (Didu) Russo, casado e pai de tres filhos, é culto, gentil e educado e trabalha para ajudar consumidores e profissionais a conhecer e valorizar vinhos bons, vinhos brasileiros e vinhos naturebas – talvez nesta ordem. Didu Russo me concedeu esta entrevista exclusiva em duas etapas - numa delas (foto abaixo) ele estava sem uma de suas mais de 100 gravatas borboleta – uma raridade.

Ruschel - Você é um profissional de marketing e comunicação, trabalhou em emissoras de TV e na maior editora da America Latina. Quando saiu e porque?
Didu - Sou oriundo da área de marketing e comunicação. Trabalhei por trinta anos em veículos de comunicação na Editora Globo, Editora Manchete, Gazeta Mercantil, Editora Abril, SBT e TV Record, além de ter tido uma produtora de vídeo. Deixei o mercado por absoluto tédio com a invasão de jovens burocráticos e com a excepcional falta de ética que invadiu a publicidade nos anos 90. O que era charmoso, pagava bem e tinha uma certa ética, descambou, pagando mal, perdendo o charme e com devoluções de comissões de agência para o cliente ou funcionário do cliente e levando o mercado a viver de bonificações das emissoras/editoras. Me desencantou demais e até hoje me incomoda ver a expressão "Marketing" usada como sinônimo de engodo. Mas foi bom pois fui para o vinho onde sou muito feliz. Na foto abaixo, em foto de Gladstone Campos.

Ruschel - O que você tem a ver com a Fecomércio?
Didu - Sou Diretor do Cecomercio, que é o Centro do Comercio, um braço da Fecomercio que tem mais liberdade de ação. Lá fui convidado a usar a entidade para o vinho, já que o comercio de São Paulo representa mais de 50% do consumo nacional da bebida. Então criamos o Comitê do Vinho que fez muito sucesso com os Debates do Vinho Fecomercio em 2012 com a questão do Selo Fiscal e em 2013 com a questão das Salvaguardas. Acho que cumprimos nosso papel. Hoje o Comitê do Vinho infelizmente foi suspenso, pois de um lado a Fecomercio estava preocupada em ter mais gente do comércio do vinho na entidade - o que não aconteceu - e de outro lado o Comitê não teve a adesão do setor, como acontece sempre no vinho. Todos gostam de ver alguém carregando o piano, mas poucos o carregam; neste caso foram muito poucos os que se mantiveram participantes.


Ruschel - Desde quando você trabalha com vinhos? O que ainda gostaria de fazer? Hoje você trabalha apenas com vinhos?
Didu - Meu trabalho com o vinho começou em 1998 com um bar de vinhos que abri antes da hora e quebrou, porque eu vendia 32 vinhos em taça, até Barolo tinha em taça! Claro que não funcionou em 1998, estava muito a frente, porém lá nasceu a Confraria dos Sommeliers (que reúne os principais Sommeliers de SP mensalmente para degustar algum tema); lá nasceu um curso, o “Nem Leigo Nem Expert, que virou livro impresso (esgotado) e em versão áudio livro (disponível) e lá nasceu o Didu Russo, colunista de Vinhos. Hoje meu trabalho no vinho se resume a fazer palestras, editar meu site www.didu.com.br <http://www.didu.com.br> , o que não é pouco, uma vez que todos os dias tenho no mínimo um post, escrever artigos para várias publicações e participar de degustações, almoços, jantares, eventos, feiras, viagens, etc. Eu adoro o mundo do vinho pois consegui conquistar espaço sendo eu mesmo e sem precisar concessões, mesmo vivendo de publicidade. Não vendo vinho e não trabalho para nenhum produtor ou importador.

O Brasil poderia ter instantaneamente dez vezes mais consumidores do que tem, mas o setor não se mexe para isso e a imprensa do vinho ídem, usando termos sofisticados, fazendo da bebida um mundo de Barões e Marqueses, coisa absolutamente distante da realidade.

Ruschel - O que é descomplicar o vinho?
Didu - Descomplicar o vinho para mim é falar com quem não sabe nada de vinho, sem espantá-lo. O Brasil poderia ter instantaneamente dez vezes mais consumidores do que tem, mas o setor não se mexe para isso e a imprensa do vinho ídem, usando termos sofisticados, fazendo da bebida um mundo de Barões e Marqueses, coisa absolutamente distante da realidade. O mundo do vinho não tem que ser sofisticado, tem que ser do complemento alimentar. Uma taça por refeição.

Ruschel -  Voce é um grande incentivador de vinhos ecológicos, biodinâmicos, naturais, mais sustentáveis. Os naturebas são melhores (em sabor) do que os vinhos convencionais?
Didu - Sou mesmo um grande incentivador e apreciador de vinhos naturebas. Principalmente os biodinâmicos que "secondo me..." é a forma mais inteligente do ser humano lidar com a agricultura. Aqui é preciso separar as coisas e o assunto é longo, não vou cansar os seus leitores com isso, mas biodinâmicos são vinhos numa categoria acima dos outros. Orgânicos já são um caminho, mas biodinâmicos são bem acima em termos de sinceridade e sotaque do local. Os naturais, se forem de vinhedos biodinâmicos então são o supra sumo para mim atualmente, pois a ausência de SO2 adicionado, apenas o produzido pela própria fermentação da uva, refletem a realidade do lugar, do ano e do produtor. Inimitável e nunca se repetirá. Eu adoro isso num vinho, a sinceridade. Na foto abaixo algumas das gravatas borboleta do Didu descansam ao sol...

Ruschel - Isso já acontece em outros lugares do mundo?
Didu - Sim, no mundo todo se verifica esse caminho. Há inclusive várias feiras de vinhos assim, até a Vinitaly abriu espaço para o ViviT onde se encontram produtores naturebas de todo mundo. O segmento que mais cresce no mundo hoje, e não é só no vinho, é esse, o dos Orgânicos, Biodinâmicos e Naturais, embora já exista muita coisa falsa por aí por conta do modismo. Mas para mim é um movimento irreversível, pois o jovem lúcido quer consumir coisas puras e autênticas.

Ruschel - O Brasil já tem bons vinhos assim?
Didu- Sim, o Brasil tem vinhos assim que têm chamado a atenção de grandes craques do mundo do vinho, como Pierre Overnoy e Josko Gravner, por exemplo. Posso citar de cabeça os vinhos da Era dos Ventos, de Alvaro Escher e Luiz Henrique Zanini; do Atelier Tormentas, do Marco Danielle; do Eduardo Zenker das Vinhas da Loucura (este o mais livre e criativo de todos); da Marina Santos, da Vinha Una (a mais séria e dedicada, biodinâmica na raiz); da Lizete Vicari do Dominio Vicari; do De Lucca, do Vinhedo Serena, o primeiro vinhedo biodinâmico do Brasil; dos biodinâmicos da Santa Augusta de Santa Catarina; os do paulista Entre Vilas, para citar alguns. Sim, temos ótimos e vamos ter muitos mais.

Ruschel -  Você é pai da Lis Cereja, sócia da Enoteca Saint Vinsaint. Você tirou a roupa para promover uma iniciativa da filha. Como foi isso? Foi bom pra você? Recebeu criticas?
Didu - Hahahaahahaaaa… não, não sou pai da Lis e nem sou dono da Enoteca Saint Vin Saint. Eu sou sogro da Lis Cereja, bem que queria ter uma filha como ela. Linda, aplicada, inteligente, bem formada, cozinha como poucos, adora os Naturebas e vive como Natureba com seu marido Ramatis, este sim meu filho, o que está com a a galinha no colo naquela foto que fez tanto sucesso, ou ao menos grande repercussão… (veja foto acima). Eu já era para ter saído no ano anterior, mas estava viajando. Mas foi super tranqüilo, nós rimos a valer, não tenho o menor problema com isso não, porém tenho consciência que chocou muita gente, muitos me acham meio doido e sei que muitos têm uma inveja danada. Me divirto com isso. Para você ter uma idéia, a foto em minha página pública do facebook teve mais de cinco mil acessos em dois dias e ninguém fez um comentário sequer… hahahahhaaa acho que chocou a muitos. Nós nos divertimos e foi bom para promover a Feira de Naturebas que só cresce. Na foto abaixo Didu com seus tres filhos.

Ruschel - Qual a verdadeira vocação do Brasil em vitivinicultura? Quais as uvas; quais os produtos; quais os canais; quais os mercados?
Didu - Eu acredito que o Brasil tem um potencial enorme em vitivinicultura, seja nos vinhos convencionais, seja nos Naturebas. A aptidão para espumantes é clara e confirmada na performance do segmento que sempre cresce e é o primeiro a ser elogiado por qualquer estrangeiro. Os Moscatéis deveriam ser pormocionados mais e os produtores deveriam perder a vergonha que têm desse produto. Para o europeu ele oferece menos dulçor e maior álcool que os Asti, eles adoram. Nos vinhos tintos começamos a desistir de copiar os vinho que não são. Antes queriam ser chilenos e começam a ver que seu caminho é o frescor e a fruta, acho que isso trará muito sucesso a eles. Os Naturebas, como disse anteriormente, têm grande potencial e vão crescer muito acredito. Com o tempo os consumidores vão procurar vinhos que reflitam seu lugar. Isso terá muito valor.

Porém considero que o Brasil precisa se assumir como um novo local para vinhos. Não podemos imitar, temos que ter orgulho de nosso sotaque. Não há cabimento querer fazer um vinho que não tem aptidão do clima ou solo. Os vinhos que se está conseguindo com poda invertida estão apresentando ótimos resultados; agora mesmo acabo de voltar do Concours Mondial Bruxelles Edição Brasil, onde um dos medalhados foi um syrah feito com poda invertia em Campos do Jordão! Quem poderia imaginar isso? É o ser humano se adaptando ao local dentro de seu conhecimento. Há limites, não se pode querer produzir vinho onde não haja aptidão, acredito.

Considero que se deve tentar tudo e vender ao mundo essa curiosidade, esse inusitado, esse exotismo. Penso que o estrangeiro quer se surpreender com algo autêntico, bom, mas que tenha personalidade. O Rio Sol, dos portugueses da ViniBrasil é um desses casos. Disse a eles que se fosse jovem, seria representante deles na Europa e ficaria rico. Explico: eles snao produzidos em um lugar onde é a poda e a irrigação que determinam a safra e em uma fazenda dividida em 25 parcelas, onde a cada 15 dias se tem uma colheita! Eu iria fazer uma caixa com 12 safras do mesmo vinho, do mesmo ano. Quem tem isso? Um Rio Sol Syrah 2012/Janeiro, um 2012/fevereiro e assim por diante. Que consumidor de vinhos não iria querer conhecer isso? Quem pode oferecer isso?

Aroma como xixi de gato do Sauvignon Blanc de Bordeaux é legal e o picles de Farroupilha é defeito? O animal em Bordeaux é legal, mas o bacon do Zenker é defeito?


Então acredito que estamos engatinhando no mundo vinho por aqui. Não sabemos nada de nosso terroir. Os vinhos do Zenker têm em seu primeiro ano um traço de aroma de bacon!? Depois desaparece… Também os vinhos de De Lucca que apresentam um traço de picles!? Seria Terroir dele? Se o vinho usa as próprias leveduras e não tem interferência, acredito que sim, mas quem sabe? O que se estudou de lá? Mas os críticos torcem o nariz e preferem decretar que se trata de defeito para não saírem de sua zona de conforto de uma roda de aromas desenvolvida no século passado para vinhos de Bordeaux. Ora, eu pergunto: Quer dizer que aromas como xixi de gato do Sauvignon Blanc de Bordeaux é legal e o picles de Farroupilha é defeito? Que o animal em Bordeaux é legal, mas o bacon do Zenker é defeito?  Secondo me falta humildade da crítica. Falta humildade para se aprender com o vinho brasileiro. Terroir não é algo que todos conhecem e muito menos que replica Bordeaux. Há que estudar, testar e conhecer - e isso leva séculos. Mas vejo enorme potencial para nossos brasucas.


Ruschel - Qual o melhor terroir do Brasil? Você acredita que o Brasil tem muitos terroirs ainda não conhecidos, como no Estado de São Paulo?
Didu - Acho que qualquer pessoa que decrete um "melhor terroir" brasileiro está sendo inconseqüente. Não temos história para isso. Quem conhece o terroir de São Bento do Sapucaí? Lá o Rodrigo Veraldi produz diversas castas, com cultivo orgânico e com cobertura de plástico na época de chuvas para não ter que lançar mão da poda invertida, seus vinhos são de leveduras indígenas (algo que considero fundamental para se poder discutir terroir), muito poucos conhecem, mas é uma amostra. Porém em São Paulo há um estudo da Embrapa feito a pedido do SPVinho, entidade que deverá incentivar e apoiar o desenvolvimento do vinho paulista que mostra a similaridade de clima de 90% do Estado de São Paulo, com zonas conhecidas e famosas da Europa. (Veja este mapa acima). Aliás, o primeiro vinho comercial brasileiro foi o de Bras Cubas, feito no bairo do Tatuapé. Agora será feito um cruzamento com informações do solo e será montado um mapeamento disso. Por tanto, considero que somos um bebê engatinhando e com grande futuro. O Brasil, acredito, vai quebrar muitos paradigmas do vinho.
-->Ruschel - Quais as tres grandes políticas públicas que o Brasil precisa para obter competitividade na produção de vinhos?
Didu - Acredito que o governo brasileiro poderia fazer muito pelo vinho: Como você me pediu tres, diria:
a) Desburocratizar o setor considerando o Vinho como Alimento
b) Reduzir ao menos a 1/3 os valores dos 22 tributos que oneram o produtor do vinho e encarece a bebida ao consumidor final
c) Promover uma campanha pública de esclarecimento sobre a importância de se consumir 1 taça de vinho por refeição – até por questões de saúde
Com essas tres iniciativas não tenho dúvidas que nos tornaríamos um dos maiores produtores e consumidores de vinho do planeta, inclusive o vinho de mesa.

Com essas tres iniciativas não tenho dúvidas que nos tornaríamos um dos maiores produtores e consumidores de vinho do planeta, inclusive o vinho de mesa.

Ruschel - O que é enoturismo prá você? Como deve se realizar – na adega e/ou na comunidade? Deve ser restrito aos vinhos ou abranger o ambiente cultural?
Didu - Considero que enoturismo deva ser um conjunto da cultura local nas regiões produtoras de vinho e suas belezas naturais, sua gente, suas diversas atrações. Gastronomia, Cultura, Vinho, Beleza Natural é um conjunto de valores que todo turista procura no mundo todo. Não acho que apenas as vinícolas sejam o eixo do enoturismo, embora acredito que o governo poderia incentivar a construção de pequenas pousadas nas vinícolas. É um outro negócio que pode ajudar o produtor na receita e na divulgação de seu vinho. Imagine você ter em todas as vinícolas da Serra um cantinho como o da Don Giovani?… Seria melhor não? Mas lembro, é outro negócio.

(*) Rogerio Ruschel é editor do In Vino Viajas a partir de São Paulo e respeita e valoriza o talento dos outros.








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