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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sicilia: A terra dos três mares


Por Rogério Ruschel (*)
Lembra das brincadeiras na escola? O mapa da Itália parece uma “bota” - e a “bola” que ela está chutando é a Sicilia. Banhada por três oceanos - os mares Tirreno, Jônico e Mediterrâneo, de onde se originou seu slogan de Trimare (tres mares) - a Sicília é um mundo à parte, separada da Itália pelo Estreito de Messina, ponto de passagem entre o Ocidente e o Oriente. 
Ao longo dos séculos esta ilha foi cobiçada por todos os povos e grandes conquistadores da história, e no comportamento de seu povo e no território convivem nítidos vestígios das culturas fenícia, grega, romana, árabe, normanda, espanhola, alemã, francesa e outras mais antigas. E tudo isso aparece hoje para o turista na forma de um tesouro arqueológico, arquitetônico e cultural sem igual. 

A Sicilia é tão extraordinária que lá existem mais monumentos da Grécia Antiga do que na própria Grécia. Lá está também a casa romana mais bem conservada do mundo, em Piazza Armerina; no Vale dos Templos, em Agrigento, convivem ruínas gregas e romanas de templos com mais de 25 séculos - tudo tombado como Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.

Na Sicilia come-se e bebe-se maravilhosamente bem. A gastronomia é variada, com pratos campestres, muitos temperos e ervas, pastas e, é claro, frutos do mar. O vinho vem sendo feito na Itália há muitos séculos, e a Sicília, por sua posição geográfica, teve a oportunidade de aprimorar processos de cultivo e de industrialização diferenciados. 

  A partir de castas de uvas como Inzolia, Grecanica, Nero d' Avola, Perricone, Frappato, Nerello Mascalese e Catarrato, a Sicília produz em torno de 237 milhões de galões por ano, sendo a a segunda maior produtora de vinhos da Itália. Para quem aprecia, vai encontrar na ilha uma cultura enogastronômica acompanhada de atrações históricas e arquitetônicas sem igual.


Pois em 2005 tive a sorte de ser contratado para passar 30 dias na ilha fazendo visitas, sendo “obrigado” a conhecer atrativos e mantendo contatos especiais com especialistas em cultura e turismo e operadores turísticos, para montar roteiros de turismo cultural e ecológico, para serem comercializados para comunidades italianas de São Paulo e Nova Iorque – as cidades com mais descendentes de italianos ricos do mundo. Pois acredite, caro leitor: 30 dias não foi suficiente!


Visitei a região do Vale do Alcântara e passeei no Parque do vulcão Etna; visitei Catania e Caltagirone, Taormina e Forza D’Agró. Estive nas fantásticas ruínas gregas e romanas de Agrigento, no Templo de Segesta, na casa romana de Piazza Armerina e na capital Palermo. E evidentemente na região vinícola do nordeste, onde ficam Marsala, Trapani e a surpreendente Erice. E vou ter a alegria de relembrar tudo isto em uma série de posts que inicio hoje. Vou começar por Messina, no próximo post. Um brinde a isso, caro leitor.



Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:



 
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - editor deste blog é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade - http://www.ruscheleassociados.com.br/. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias, em 2005, pesquisando roteiros turísticos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Movimento Cittaslow, Greve in Chianti e Slow Food


Neste post publico a segunda parte da entrevista com Paolo Saturnini, ex-presidente nacional da Associazzione Cittá Del Vino; ex-prefeito de Greve in Chianti entre 1995 e 2004; autor de dois livros de culinária envolvendo vinhos e do livro “L’armonia Del Chianti – riflessioni su una terra in bilico” sobre seu território e as memórias do nascimento do Movimento Cittaslow.
Proposto e implantado por Saturnini em Greve in Chianti em 1999, o Movimento Cittaslow - a mais revolucionária proposta de desenvolvimento urbano sustentável da atualidade - já está sendo aplicada em cerca de 150 cidades de 25 países. Saturnini me recebeu em Florença, na Itália, em fins de abril, e me concedeu esta entrevista exclusiva sobre a gênese e o desenvolvimento do Movimento Cittaslow que teve sua primeira parte publicada no blog “Cittaslow: a revolução urbana inspirada no vinho” e continua aqui.
  Congresso internacional do Movimento Cittaslow na Coréia do sul, em 2010
  
Ruschel:
Ser uma Cittaslow é viável só para cidades pequenas?

Paolo:
É mais adequado para cidades pequenas, para evitar que cometam os  mesmos erros das cidades que cresceram sem controle. Cidades pequenas devem preservar; cidades grandes precisam revolucionar – e não sabem como. Cidades grandes têm mais de uma alma: de culinária, de transporte, de energia, etc e porisso têm que fazer mudanças por bairros, por setores. Quem mora em cidades grandes, pode perder a noção de território, de pertinência e de tempo. Atualmente os estatutos da Cittaslow só aceitam cidades associadas com até 50.000 habitantes. Talvez este limite seja revisado na medida em que o movimento se amplie. (Nota do repórter: para se tornar uma Cittaslow, a cidade candidata tem que pagar 600 Euros de taxa de inscrição, receber a visita de auditores e promover uma reunião da qual participem pelo menos 3 municípios associados da rede. Feito isso, deve aceitar os termos dos Estatutos da associação e se comprometer com políticas públicas que ajudem a criar um ambiente propício para atingir os objetivos).
 Paolo Saturnini como ele gosta: rodeado de vinhos

Ruschel:
Como funciona o projeto Cittaslow?

Paolo:
Este é um projeto "em andamento" no sentido de que ele cresce por etapas, quer através do aumento do número de cidades participantes, quer pela aplicação e realização dos objetivos de Cittaslow nas cidades. Quando você se torna uma Cittaslow você tem certos requisitos; com o tempo não só esses requisitos devem ser mantidos - e na medida do possível melhorados - mas também deve lutar para viabilizar outros requisitos que ainda não tinha no momento de reconhecimento.

Ruschel:
Como foi implantado em Greve in Chianti, quais as dificuldades?

Paolo:
Primeiro explicamos os objetivos e debatemos publicamente sobre o que poderia surgir de positivo ou negativo. Criado um ambiente receptivo, começamos a discutir legislações relacionadas a assuntos de interesse coletivo como meio ambiente, energia limpa e mobilidade. Geve in Chianti tinha uma comunidade de imigrantes árabes, que têm outra cultura, e mesmo assim deu certo, porque não existiam diferenças econômicas gritantes. Seguimos nosso ditado “chi va piano va sano e va lontano” (em tradução livre, devagar se vai ao longe).
  
 
Massas e vinhos em loja de Greve in Chianti: a enogastronomia faz parte da cultura


Ruschel:
O movimento está em 25 países, inclusive em vários com culturas diferentes da européia como China, Estados Unidos, Nova Zelândia, Coréia do Sul e África do Sul. Como é feita a mobilização para a candidatura, quem entra com o pedido, como se comportam os políticos?

Paolo:
Pode ser proposto por políticos, mas na maioria das vezes é um movimento que nasce na base, nas ruas, liderado ou proposto por intelectuais da comunidade. Foi o caso da Coréia do Sul, da qual fui o padrinho. Acho que a internet atualmente permite esta mobilização em escala mais rápida. Mas a proposta só pode vingar se tiver o apoio do poder público, e isto pode dificultar. Alguns políticos percebem a oportunidade de visibilidade, e dependendo da mobilização, o prefeito e os vereadores acabam aderindo ao protagonismo comunitário, mesmo que não tenham muito desejo lá no íntimo. E tem outra questão: a dos partidos políticos, que é muito sério aqui na Itália. Geralmente os prefeitos não querem continuar ideias do antecessor, então as propostas mais bem sucedidas são as que conseguem suplantar isto. No meu caso em Greve in Chianti, quando como prefeito eu comecei a falar sobre Cittaslow, encontrei uma adesão significativa de todos os partidos políticos, inclusive da oposição, e isso facilitou a tarefa. Outro segredo do sucesso é que é preciso reconhecer o papel e importância das forças econômicas e sociais, e suas demandas precisam ser contempladas. No Brasil ainda não temos nenhuma Cidade Lenta; você não quer levar o movimento para lá? (Nota do repórter: as cidades de Tiradentes, Minas Gerais; Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul e Santa Teresa, no Espírito Santo estnao em diferentes fases no processo de associação).

 A cidade de Biskupiec, na Polônia, é uma das 180 que integram a rede Cittaslow em 25 países
   
Ruschel:
Existem outras iniciativas similares?

Paolo:
Sim, existem outras iniciativas. A maioria dos municípios participantes do Cittaslow também faz parte de outras associações como, por exemplo, associações de "identidade da cidade" (cidade do vinho da cidade, pão, cidade Querida, cidades floridas, etc.) que realizam políticas e objetivos similares aos da Cittaslow. Muitas cidades também acompanham regularmente as atividades do Slow Food, ou Legambiente ou Symbola, organizações que têm uma origem comum com Cittaslow na defesa do meio ambiente, e na qualidade dos produtos locais. (Nota do repórter: No Brasil outros movimentos similares são Cidades Sustentáveis e Transition Towns - de âmbito nacional - e movimentos do tipo Nossa CidadeTal, Observatório da CidadeTal). 

O berço da Cittaslow
Greve in Chianti é uma pequena comunidade de menos de 15.000 habitantes a 30 quilometros de Florença, no coração da Toscana. Provavelmente existe antes dos etruscos e dos romanos dominarem a área; os registros mais antigos são do século XI.  A economia local está baseada na exportação de óleo de oliva extra virgem e vinhos chiantis e super-toscanos e importação de turistas. A cidade abriga atrações como a Igreja Santa Croce (século XI), uma casa que foi de Américo Vespúcio, um mosteiro Franciscano do século XIV e o castelo de Verrazzano construído pelos Lombardos no século XIII, entre outras obras. Atraídos pela beleza e charme da região e por festivais de vinho, festa das flores, feiras de antiguidades e uma feira semanal de produtos típicos na Piazza Matteotti, a principal da cidade, os turistas que visitam Greve in Chianti podem se deliciar com uma gastronomia de alta qualidade que inclui trufas, porcos Cinta Senese e veados selvagens - todos de produção local. 
 Greve in Chianti durante a Festa dei Fiori, em 2010

Por todas estas razões, ter uma propriedade na região se tornou o objeto do desejo de bem resolvidos e ricos do mundo inteiro que compram propriedades idílicas como as famosas vilas toscanas, pequenos castelos e propriedades rurais centenárias com áreas de produção de azeite e vinho. Compram e não podem modificar um único tijolo. Em 2010 a revista norte-americana Forbes a nomeou a primeira da lista de "Europe's Most Idyllic Places To Live."
Mas Greve in Chianti prospera de um jeito diferente, controlado. Nos anos 80 a cidade já começava a ter problemas de perda de identidade por causa do volume de turistas. Como enfrentar o desafio de atender turistas em maior volume do que podia sem se descaracterizar? A solução convencional no turismo nestes casos é buscar a qualidade, mas a comunidade já oferecia isto. Foi quando o então prefeito Paolo Saturnini propôs uma idéia simples: a associação do conceito de “slow food” para a cidade inteira, um conceito que se materializou no Movimento Cittaslow.

Slow Food: a inspiração

O Movimento Slow Food foi criado em 1986 pelo italiano Carlo Petrini e se transformou em uma organização internacional atualmente com 100.000 sócios de 150 países que promove a eco-gastronomia, a educação alimentar, alimentos sustentáveis e a agricultura de base local. O princípio é simples: a forma como nos alimentamos tem profunda influência no que nos rodeia - na paisagem, na biodiversidade da terra e nas suas tradições.

 

 

 


 


O Movimento Cittaslow herdou não só os princípios, mas também o logotipo Movimento Slow Food, colocando casinhas nas costas do caracol.
 Com sede na cidade de Bra, na Itália, o Slow Food opera tanto localmente (em parcerias como com a Terra Madre, encontro internacional de comunidades do alimento que trabalham pela sustentabilidade de seus produtos alimentares, e com a Fundação Slow Food para a Biodiversidade, braço científico do movimento), como globalmente, em parceria com instituições como a FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

 
No Brasil o movimento mantém 8 Fortalezas (projetos que defendem produtos ou modos produtivos agrícolas específicos de um local), inseriu 24 produtos brasileiros na Arca do Gosto (catálogo mundial de sabores quase esquecidos de produtos ameaçados de extinção) e desde 2004 tem um convênio com o o Ministério do Desenvolvimento Agrário para desenvolvimento de projetos.  Veja mais em http://www.slowfoodbrasil.com 

Por enquanto é isso, caro leitor: um brinde à qualidade de vida.

(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é jornalista especializado e editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade”. Ruschel viajou à Itália a convite dele mesmo.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cittaslow: a revolução de gestão pública inspirada no vinho

 
Paolo Saturnini foi presidente nacional da Associazzione Cittá Del Vino, que reúne as cidades italianas produtoras de vinhos e é um especialista sobre chiantis. É autor dos livros “Vini da mangiare”, com 200 receitas de uso do vinho na culinária, e “Giallo in cucina”, sobre o uso do açafrão, em parceria com Marco Mazzoni, produtor de açafrão.

Saturnini foi prefeito de Greve in Chianti, pequena e charmosa cidade da Toscana italiana entre 1995 e 2004, re-eleito duas vezes, e em seu primeiro mandato foi mentor e primeiro presidente do Movimento Cittaslow, a mais revolucionária proposta de desenvolvimento urbano sustentável, nascida em 1999 em Greve já está sendo aplicada em cerca de 150 cidades de 25 países. As memórias sobre seu território e o Cittaslow foram registradas por ele no livro “L’armonia Del Chianti – riflessioni su una terra in bilico” (em tradução livre, “A harmonia de Chianti – reflexões sobre uma terra em equilíbrio”).
 O Cittaslow, uma proposta simples e genial, nasceu numa mesa de restaurante, inspirada em uma taça de vinho, como me disse Saturnini nesta entrevista: “Tive a idéia de expandir o conceito de "lentidão" proposto pelo movimento Slow Food – focado na qualidade, integridade e prazer do que se come - para a cidade inteira, porque nas casas de Greve comemos sempre com prazer e alegria e o vinho - o mais poderoso ícone da “slow food” - é parte quotidiana de nossos hábitos alimentares.”

 
Com 59 anos, atualmente Saturnini é presidente honorário e presidente do Conselho Garantidor de Qualidade da organização e continua em Greve in Chianti onde é empresário do setor imobiliário, de onde sai apenas para fazer palestras sobre vinho ou sobre o Movimento Cittaslow.

Como todo bom apaixonado por vinhos, é um excelente companheiro para um jantar com vinhos chianti. Pois foi num jantar assim, de quase 3 horas, que Paolo Saturnini me recebeu, em fins de abril no restaurante La Piazza Del Vino, em Florença, na Itália, para me conceder esta entrevista exclusiva sobre a gênese e o desenvolvimento do Movimento Cittaslow.

Tudo o que um repórter exigiria: uma excelente conversa com uma fonte riquíssima: Paolo é o de casaco escuro

O Movimento Cittaslow propõe a melhora da qualidade de vida dos cidadãos a partir de propostas vinculadas ao território, ao meio ambiente, ao respeito cultural e ao uso de novas tecnologias usando como “arma” o protagonismo comunitário. Simples na concepção, nasceu inspirada no Movimento Slow Food e se propaga em cidades pequenas, evitando que cometam os  mesmos erros das cidades que crescem sem controle. Como diz Saturnini, cidades pequenas devem preservar; cidades grandes precisam revolucionar – e não sabem como. O Brasil tem 5.017 municípios com menos de 50.000 habitantes e pode criar centenas de Cidades Lentas salvando do caos urbano 65,2 milhões de brasileiros. Esta reportagem procura mostrar o caminho. Para saber mais acesse http://www.cittaslow.org

O Movimento incentiva o desenvolvimento de profissões baseadas no talento individual


Ruschel:
Como nasceu a proposta de Cittaslow?


Saturnini:
A idéia nasceu em 1999, logo após o Congresso Mundial do Slow Food em Orvieto, na Itália, do qual eu havia participado. Como prefeito estava preocupado para resolver um dilema: como permitir que Greve in Chianti pudesse continuar a receber cada vez mais turistas sem perder a identidade e seus valores culturais, parte fundamental do que atraía os turistas, e ao mesmo tempo compartilhar os benefícios para toda a comunidade, e não apenas para alguns poucos? E melhorar a qualidade do produto turístico, a solução de qualquer destino turístico sob pressão de volume, não era possível, porque nosso turismo já era de alta qualidade.

A praça principal de Greve in Chianti

Foi quando tive a idéia de expandir o conceito de "lentidão" proposto pelo movimento Slow Food – focado na qualidade, integridade e prazer do que se come - para a cidade inteira. Afinal, nas casas de Greve comemos sempre com prazer e alegria e o vinho - talvez o mais poderoso ícone da “slow food” - é parte quotidiana de nossos hábitos alimentares. Na verdade, pensei inicialmente na possibilidade de estender o princípio da “lentidão” também para outras coisas além da comida, e com isso sensibilizar pessoas que ainda não tinham abraçado a causa do Slow Food. Pensei que se tivesse o apoio de prefeitos e instituições municipais que representam dezenas de milhares de homens e mulheres, poderia facilitar a implementação dos objetivos do movimento Slow Food mais rapidamente. Parecia uma boa ideia: bastava pedir aos políticos, em primeiro lugar, mas também para as pessoas da cidade como um todo, um ato de vontade: a vontade de ser parte de um projeto estratégico importante, o projeto do Slow Food.
Ruschel:
Como são as relações da Cittaslow com o Slow Food?

Paolo:
As organizações estão intimamente relacionadas, no sentido de que Cittaslow faz parte do Slow Food através de um representante nacional, e o presidente da Cittaslow faz parte do Conselho de Governadores do Slow Food na Itália.

 Gastronomia local é a base do desenvolvimento com qualidade de vida e respeito à cultura dos moradores e ao território

Ruschel:
Quem foram os promotores iniciais da ideia?
 
Paolo:

O Município de Greve in Chianti, juntamente com as cidades de Orvieto, Bra, Positano e com o Movimento Slow Food.

Ruschel:
Qual a ideia básica do Movimento Cittaslow?

Paolo:
O objetivo é melhorar a qualidade de vida dos cidadãos a partir de propostas vinculadas ao território, ao meio ambiente, ao protagonismo comunitário e ao uso de novas tecnologias. O inimigo é o estresse, a pressão de valores não naturais, a perda de referências, a pressa. Tudo isto gera má qualidade de vida. Em pequenas comunidades como Greve in Chianti as pessoas estão vinculadas ao território: elas nascem, crescem, moram e trabalham em fazendas, casas, ruas e bairros. Conhecem cada árvore, cada casa. Vivem no território do município, um espaço que deve ser seu e que deve ser fonte de harmonia e prosperidade. E este ambiente deve ser respeitado e valorizado, e não envenenado como é a tendência no que se refere ao meio ambiente. Queremos valorizar o território e não apenas ocupá-lo.
A bandeira do Cittaslow já tremula em 25 países como aqui em Sokndal, na Noruega


Ruschel:
E como esta “valorização do território” se manifesta na prática?

Paolo:
Para aderir à rede, os municípios candidatos devem ter até 50.000 habitantes e atender a diversos compromissos, entre os quais:
·      A política de planejamento deve servir para melhorar o território, e não apenas para ocupá-lo
·      Devem implementar uma política ambiental baseada na promoção da recuperação e reciclagem de resíduos, quando não for possível evitá-los
·      Devem usar os avanços tecnológicos para melhorar a qualidade ambiental e de áreas urbanas
·      Devem promover a produção e utilização de produtos alimentícios obtidos de maneira natural e ambientalmente respeitosos, excluindo os produtos transgênicos
·      Devem entender que o fortalecimento da produção local deve estar ligada ao território: agricultores e moradores tradicionais devem preservar suas mais antigas tradições, mesmo quando é incentivado o relacionamento entre consumidores e produtores
·      Devem implementar, quando necessário,  políticas e serviços públicos de defesa de grupos geralmente excluídos
·      Devem promover a hospitalidade respeitosa e a convivência harmoniosa entre os moradores e turistas, sem exploração, mas com valorização
Devem mobilizar e educar a consciência dos residentes e dos operadores turísticos sobre o que significa viver em uma cidade lenta e suas implicações, com especial atenção para a sensibilização dos jovens, através de planos de formação específicos.

 Greve in Chianti recebe milhares de turistas na noite de Natal
  
Ruschel:
Você pode dar exemplos práticos?

Paolo:
Sim, posso dar alguns exemplos do que foi conquistado em Greve in Chianti.
Um está relacionada ao planejamento urbano, onde, para assegurar o desenvolvimento sustentável na minha comunidade, reduzimos drásticamente a previsão de novos edifícios, tanto residenciais como para atividades produtivas. Reduzimos o limite de 250.000 metros cúbicos construtivos de leis anteriores e aprovamos um novo plano diretor que colocou em primeiro lugar o aproveitamento das áreas existentes, e apenas como último recurso, a construção de um novo edifício. Outro exemplo é o do comércio, onde, como em qualquer cidade você tem lojas com áreas de auto-atendimento, mas o morador prefere o comércio tradicional, contribuindo para a preservação de uma importante base econômica, social e cultural. Outro exemplo é o do turismo, onde, em face de forte crescimento da demanda, incentivamos o surgimento de pequenos hotéis derivados da reutilização de edifícios existentes, em vez de recorrer à construção de complexos hoteleiros de grande porte. Também associamos a qualidade e a origem de alimentos produzidos localmente à educação, educação alimentar e educação ambiental, incentivando o uso de merendas ligadas ao território e à cultura. Um último exemplo é o da paisagem agrícola, onde, com o apoio de enólogos, adotamos padrões e práticas para a criação de novos vinhedos com técnicas mais respeitosas em relação ao solo e a paisagem.

 
Veja a segunda parte desta entrevista e conheça Greve in Chianti no blog  “O Movimento Cittaslow e Greve in Chianti”, a ser publicado aqui brevemente. Até lá um brinde, caro leitor.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Vida selvagem: luxo e mordomia na África do Sul

Safáris são a principal atração da África do Sul e podem ser realizados em “game parks” privados (cerca de 350 no país), ou em parques administrados pelo governo.

 Um "gemsbok" no Kgalagadi Transfrontier Park

Para poder concorrer com os preços dos parques públicos – especialmente o Kruger - e atrair a exigente clientela formada especialmente por ingleses, alemães e norte-americanos, os parques privados oferecem muito conforto e qualidade. Administrados por empresas de turismo ou pelos próprios proprietários, eles tratam os hóspedes como verdadeiros reis. 



Os turistas circulam em jipes Land Rover, e com a ajuda de um “ranger” armado, saem todos os dias as 5 horas da manhã e as 5 horas da tarde em busca dos animais. Quando chegam da aventura que dura cerca de duas horas, os hóspedes encontram suites muito bem equipadas, que podem ter banheiras com água quente, camas de cinco (?) andares, ar condicionado, TV a cabo e piscina. As refeições são preparadas com esmero e incluem carnes de gado e herbívoros selvagens (especialmente gazelas e javalis), sempre regadas com o excelente vinho produzido no país (veja o Post “Cidade do Cabo, o charme holandes e as rotas de vinho mais longa do mundo”). O ambiente é planejado para receber visitantes europeus, norte-americanos e asiáticos.

Guepardo, o rei da velocidade das savanas

Nos melhores game reserves os preços podem ser salgados, porque o tratamento é VIP, existem muitos funcionários para cada hóspede e os custos de manutenção são elevados. Por exemplo, um leão custa cerca de US$ 2,500.00; uma girafa, US$ 1.500.00; um búfalo US$ 15,000.00, um rinoceronte branco US$ 37,000.00 e um rinoceronte preto, raríssimo, US$ 55.000.00. O cálculo de capacidade de carga (isto é, o número máximo de visitantes ao mesmo tempo e no mesmo local para que os turistas não perturbem a vida dos animais e o ecossistema) é de um visitante para cada 100 hectares - por dia. É claro que existem game reserves mais economicos, mas não sei se a qualidade da experiência é a mesma.


  Os Parques Nacionais

Os parques administrados pelo governo também fazem sucesso e são muito bons. A África do Sul, com uma população de 44 milhões, tem um território de 1,219 milhões de Km2 e cerca de 16,5 milhões de hectares de áreas de preservação (8,8 milhões privados), o que representa quase 14% do território.


O governo administra uma rede com cerca de 20 Parques Nacionais (7,7 milhões de hectares, a maioria com acomodações para turistas) e um deles, o Kruger National Park, com 2 milhões de hectares (352 Km de norte a sul), é a grande estrela para safaris. É tão grande que tem fronteira com Moçambique e um pedacinho de Zimbabue; aliás, está em curso a criação de um gigantesco parque transfronteiriço, o Greater Limpopo Transfrontier Park, que terá 3,5 milhões de hectares. O Kruger oferece pacotes de roteiros guiados em Land Rovers ou a pé, mas o turista pode entrar com seu próprio carro fazendo rotas pré-estabelecidas, podendo parar em “restcamps” (hospedarias) principais ou em “camps” e locais para pernoite, ao longo do caminho. 

 Cerimonias tradicionais como esta, na Provincia de Freestate, atraem os turistas 

O parque oferece vários tipos de hospedagem, desde simples locais para barracas, até suites de maior qualidade, passando por cabanas e “bushvelds” que ficam em áreas remotas. Os preços, dependendo do período do ano, e da antecedência da reserva, ficam entre US$ 50.00 e US$ 200.00, embora algumas suites possam custar US 450.00 a diária na alta temporada (veja preços atualizados no site Parques Nacionais da África do Sul).


Os recursos receptivos são completos (com restaurantes, cafeteria, telefones, alguns com piscina), oferecem os vinhos do país, mas em geral são mais simples e a estadia mais economica, quando comparados com os oferecidos pelos parques privados, que cobram diárias que começam na faixa dos US$ 250.00.


Fotos: arquivo pessoal ou cortesia da South African Tourism.
Com este blog nos despedimos da África do Sul. A partir do próximo blog vamos conhecer o Movimento Cittaslow, e seu fundador e profundo conhecedor de vinhos chianti, Paolo Saturnini.

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Saiba mais sobre a África do Sul em
  Durban, a Zululândia e Amarulas na África do Sul - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/06/durban-zululandia-e-amarulas-na-africa.html 
Cidade do Cabo, o charme holandes e a rota de vinho mais longa do mundo - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/06/cidade-do-cabo-o-charme-holandes-e-rota.html

Vida selvagem: luxo e mordomia na África do Sul - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/07/vida-selvagem-luxo-e-mordomia-na-africa.html

(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade (http://www.ruscheleassociados.com.br/ ). É autor ou editor de 28 publicações sobre sustentabilidade socioambiental. Rogerio viajou à África do Sul a convite da South Africa Tourism.