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segunda-feira, 2 de julho de 2012

África do Sul: aventura, safaris e pinotages

 
O ranger acendeu o holofote e levei um susto ao ver uma leoa enorme, agachada na escuridão, a menos de cinco metros de mim, os olhos brilhantes fixos em um grupo de gazelas a 50 metros de distância. Congelei ainda mais (era uma madrugada muito frio), porque com apenas um salto ela me alcançaria, já que o Land Rover era aberto.

   O repórter atendo na savana


Esta cena de safari fotográfico, emocionante e assustadora para quem está lá naquele momento, é inesquecível. Era a segunda vez que ia à África do Sul como jornalista convidado, já havia feito um safari deste tipo e sabia que o risco de um acidente é mínimo porque os animais não atacam seres humanos que estejam em veículos (ou elefantes). Mas a sensação de estar assim tão perto de animais selvagens, meu caro leitor, é uma imagem que gruda no cérebro para sempre, reforçada com o cheiro, a cor, os movimentos, os uivos e rosnares e as reações de susto das pessoas. 



Passeando em elefantes


O ano era 2005 e eu estava no Kapama Private Game Reserve, com 13.000 hectares, o maior de um único proprietário na região e um dos mais sofisticados da África do Sul, perto do aeroporto da cidade de Hoedspruit e próximo do mais importante parque de safari fotográfico do mundo, o Kruger National Park, na provincia de Limpopo, cerca de 450 Km de Joanesburgo. 

O Kapama estava inaugurando o lodge do Camp Jabulani (o parque tem quatro lodges) e passou a ser o primeiro a oferecer passeios com elefantes no país. A empresa importou 14 elefantes do Zimbabue, junto com os tratadores/guias que falam um idioma que os elefantes entendem (sim, além de gestos, alguns elefantes entendem até 64 palavras de comando, em inglês, como Stop, Go, Now, Run, etc.). 

O valoroso reporter, com o bonezinho vermelho, ficou com a ***** dolorida


No Kapama levei uma vida de artista de Hollywood, porque se come bem, dorme bem e bebe bem – turismo de primeira cla$$e! Fiz um passeio de umas duas horas pela savana (o “bush”) montado num elefante dócil, mas poderoso (eles arrancam galhos enormes de árvore para se alimentar, enquanto caminham), vendo e fotografando bufalos, zebras, javalis, girafas, antílopes, leopardos, hienas, rinocerontes e leões.


Voltei no fim da tarde ao ponto de partida, um acampamento montado ao lado de um lago onde fui recebido como um ingles em filmes dos anos 70: encontrei uma mesa grande com cadeiras, coberta por toalha de linho, com frutas, queijos, salgadinhos e espetinhos de carne de javali e veado e sucos, água, vinho e champanhe. Me senti o próprio "buana", meu caro leitor.

Lounge do Kapama


Estavam à disposição do grupo garrafas de vinhos riesling (brancos) e merlot, pinot noir e pinotage, uma cepa nativa da África do Sul, criada em 1925 através do cruzamento de Pinot Noir e Cinsaut, todos da região vinífera de Stellenbosch, que fica cerca de 30 minutos de carro da Cidade do Cabo. Optei pelo pinotage e bebi com calma, enquanto por perto rangers armados ficavam de olho nos rinocerontes que pastavam pelas redondezas. Na linha do horizonte pude acompanhar o maravilhoso por de sol na savana africana. Coisa de cinema.

Minha cabana no Kapama

Vinhos: herança holandesa e francesa

A África do Sul fabrica vinhos desde meados do século 17. Em 7 de abril de 1652, o holandês Jan van Riebeeck chegou ao país para instalar uma base para a Companhia da Índia Oriental Holandesa em Table Bay e logo percebeu que o clima era propício para a produção de vinhos. As primeiras cepas vieram de navio da França e a primeira safra foi produzida em 1659. Vinte anos depois foi fundada a nova cidade de Stellenbosch - que visitei - hoje o centro da produção de vinhos na África do Sul. 

 
Vinhedos e montanhas da região de Seidelberg Wine Estate, na Rota do Vinho de Cabo, na Provincia Western Cape, que visitei (Foto cortesia do South Africa Tourism)


No ano de 1688, fugindo de perseguições religiosas, protestantes franceses chegaram ao país trazendo know-how sobre vinicultura e se instalaram na região chamada “canto francês” (Franschhoek). A produção se expandiu no século 18 quando as Guerras napoleônicas cortaram o fornecimento de vinhos franceses à Inglaterra. Em 1886 uma doença dizimou os vinhedos e com o início da guerra anglo-bôer a indústria quase quebrou. A estabilidade só voltou no fim da Primeira Grande Guerra com o estabelecimento, em 1918, da Associação da Cooperativa de Vinicultores, ou KWV, que funciona até hoje, representando cerca de 5.000 produtores de vinho.


KWV Cathedral Cellar no Paarl Wine Emporium, na Rota do Vinho de Cabo, na Provincia Western Cape (Foto cortesia do South Africa Tourism)

Hoje a indústria do vinho sul-africana está dividida em cinco grandes regiões, mas a principal está situada na província do cabo leste, no sudeste da África. O clima mediterrâneo, quente e ensolarado, mas não muito quente, além das montanhas ricas em granito e ardósia que armazenam água, fazem dessa região, um ótimo cenário para a produção de vinhos de qualidade. Além da uva Pinotage (uma variedade quase exclusiva à África do Sul), são produzidos vinhos com uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Shiraz e Pinot Noir (tintas) e Chenin Blanc, Colombard, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling e Semillon (brancas). Vamos falar mais de vinhos sul-africanos em um próximo post, caro leitor.

Amanhecer no bush...

Além do safari

Embora mundialmente conhecidos, safáris fotográficos são apenas uma das atrações da África do Sul - e uma boa razão para conhecer este belo país. Os mais de 8 milhões de turistas que anualmente chegam a África do Sul – especialmente europeus e norte-americanos, além de visitantes do próprio continente – procuram também o encantamento das belas paisagens, a riqueza folclórica das etnias, o conforto de hotéis de qualidade internacional, a gentileza da hospitalidade e o valor cambial da moeda.

  O bush, onde a aventura acontece


Joanesburgo é a principal cidade do país, o portão de entrada dos vôos internacionais. Criada em torno da mineração de ouro, Joanesburgo (ou “Josbérg”, como eles chamam) é uma cidade grande, centro dos negócios do país e um dos principais do continente africano. Entre as atrações estão o Museu da África (bonito, com uma seção de Antropologia interessante), o novo Museu do Apartheid (que conta a história da intolerância racial do ponto de vista dos sul-africanos), a Gold Reef City (reconstrução da cidade do tempo dos pioneiros), e o bairro negro Soweto (sigla para South Western Township, criado no “apartheid” como uma cidade para negros), terra de dois Prêmios Nobel – Nelson Mandela e o Bispo Desmond Tutu. 

 Vista aérea de Joanesburgo


Na Provincia de Gauteng, próximo de Joanesburgo, estão as Sterkfontein Caves (hoje Patrimônio Histórico da Humanidade), onde foram descobertos os mais importantes achados paleontológicos do mundo.  Embora moderna e cosmopolita, com grandes hotéis internacionais, Joanesburgo não é bonita como Cidade do Cabo, não tem o poder político de Pretória, a capital, que fica a apenas 50 quilometros, não oferece paisagens maravilhosas como a das rotas vinícolas do Cabo, e não tem praias como a região de Durban ou o Garden Route. Joanesburgo, vizinha de Pretória, a capital, é o motor econômico do pais, mas não esgota a preferência dos turistas na África do Sul.

Aliás, Durban é o tema do próximo post, em breve aqui no blog. Por enquanto um brinde, caro leitor. Ou sawabona (você é importante para mim) como dizem os zulus!

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Saiba mais sobre a África do Sul em
·      África do Sul: aventura, safaris e pinotages - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/07/africa-do-sul-aventura-safaris-e.html  

·      Durban, a Zululândia e Amarulas na África do Sul - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/06/durban-zululandia-e-amarulas-na-africa.html

·      Cidade do Cabo, o charme holandes e a rota de vinho mais longa do mundo - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/06/cidade-do-cabo-o-charme-holandes-e-rota.html

·      Vida selvagem: luxo e mordomia na África do Sul - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2012/07/vida-selvagem-luxo-e-mordomia-na-africa.html



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Pizzas, cafés e um Sforzato di Valtellina nas ruas de Milão

Saindo de Veneza, com duas horas e pouco de trem estávamos em Milão.
As pessoas que visitam Milão têm opiniões diferentes sobre o “agito”, mas comungam com o fato de que é uma cidade muito bonita. Ficamos num hotel perto da boca de um metrô para facilitar o embarque no aeroporto, no fim do roteiro. 




Nos 4 dias que passamos em Milão, entre uma pizza e outra com vinho da casa - ou de vez em quando um jantarzinho mais caprichado com um vinho "local" -  perambulamos pela cidade fugindo do calor abrasador. 

Estivemos no Castello Sforzesco, com belos pátios, e descansamos na sombra de seus jardins, fazendo um pique-nique de bolso, rapidinho, só com sanduíches pré-prontos e uma única garrafa de Sforzato di Valtellina, um DOCG badalado da Lombardia, num clima chique-pobre... Tiramos um dia inteiro – enquanto as pernas resistiram – para visitar a região central, onde está a Piazza del Duomo, uma catedral enorme (em obras de recuperação), que levou 500 anos para ser terminada. Dá para ficar uma hora só olhando as portas de bronze, onde baixos-relevos contam histórias fantásticas. 


 Pertinho dali está o Teatro Scalla – que, sinceramente, achei meio chinfrim perto de outros prédios históricos que tinha visto nos últimos 15 dias – e a badalada Galeria Vittorio Emanuele II, uma belíssima galeria comercial com quatro entradas em forma de cruz, piso com mosaicos ilustrados com signos do zodíaco (sim, pisei nas partes genitais do Touro, para dar sorte…), telhado de vidro e um belo domo central. Inaugurada em 1877, a Galeria tem cafés (onde está o Savini com o melhor café de Milão – e acho que também com a maior fila de espera dos cafés da cidade!) – lojas e restaurantes e uma livraria muito interessante.


Se alguém quiser saber das lojas de grife de Milão, não pergunte para mim. Sei que lá estão Versace, Valentino, Giorgio Armani, Salvatore Ferragno, Gucci e outras; passamos por perto, mas confesso que o máximo que fizemos foi tirar fotos para impressionar os amigos, enviando por e-mail.


Dois dias depois deixamos Milão em direção a Paris e São Paulo, trazendo mais de duas mil fotos e uma grande saudade dos momentos agradáveis fazendo pique-niques na Europa: nos terraços dos vignobles de Lavaux, em Lausanne, Suíça; dois ou três na paisagem ou na sombra de castelos na Toscana; sanduichezinhos em Veneza e no aeroporto Charles de Gaule enquanto nosso avião não partia para São Paulo. Onde chegamos amassados, de manhã cedo, mas nos vingamos abrindo uma champanhezinha francesa de noite.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cotoveladas em Veneza - e um Bardolino Superiore com russos

 
Continuando nosso roteiro de pique-niques pela Europa, (ver o blog Lago di Garda, meia ópera em Verona – e vinhos locais) em Milão pegamos um trem e fomos para Veneza, que ainda não conhecíamos. 


 
Veneza – ah! Veneza, você diria – estava lotada de turistas! Coisa de se acotovelar nos deques de embarque, fazer fila para comer um sanduíchezinho, fila para entrar em museus, fila para tirar fotos em qualquer lugar. Fizemos amizade com um casal de russos hospedados em nosso hotel – com quem dividimos um Bardolino Soperiore, um dos três DOCGs do Veneto no jantar - mas a dificuldade de comunicação não ajudou muito (eles não falavam inglês e meu russo estava desatualizado...) e por isto tivemos que nos virar lendo um guia comprado no Brasil e “seguindo o fluxo” dos turistas.


 
Ficamos num hotelzinho simpático – o San Moisé – em um quarto no segundo andar com uma janelinha charmosa que dava de frente para um canal gracioso. Por simpático quero dizer simples, bonito e econômico (375 Euros o casal, duas diárias – meu prezado, isto é econômico no verão veneziano!) a duas quadras de uma rua repleta de lojas de grife e a cinco quadras da gloriosa Piazza San Marco. 


 O único problema com o hotelzinho simpático é que durante o dia na frente do hotel se reuniam dezenas de camelôs africanos com enormes sacolas, provavelmente se escondendo da polícia da tal rua das lojas de grife, onde montavam suas barracas. E de manhã cedinho os românticos gondoleiros de Veneza se reuniam no tal canal de frente para a nossa janela – para fazer ruidosas faxinas nas gôndolas! Um charme! 

Mas a janelinha realmente vai ficar na nossa memória – na verdade, na memória de centenas de turistas, especialmente asiáticos, que passavam nas gôndolas e ao nos verem na charmosa janelinha, nos retratavam. Como eu posava para as fotos com um cálice de Bianco de Custoza na mão, acho que estou perpetuado em centenas de fotos de coreanos, japoneses e assemelhados!


 
Veneza é uma cidade realmente charmosa. Não vou enganar meu prezado leitor dizendo que visitamos dezenas de igrejas, palácios e museus, mas fizemos o obrigatório básico: a Praça de São Marcos, a Basílica, o Panteão de Veneza (aquela coluna com um leão), o Palácio dos Doges (Ducale), a Igreja de São Giovani. Tiramos fotos na Ponte dos Suspiros – suspirando para conseguir um pequeno espaço entre cotoveladas – e caminhamos ao longo do Grande Canal com suas lojinhas e pontes – especialmente a ponte Rialto. 


Não vimos os grandes mestres Tintoretto e Veronese, mas fizemos o glorioso passeio de barco no Grande Canal e fomos à tal da ilha Murano. Murano é interessante, sim, mas o turismo é baseado em 1) levar o turista para passar um dia inteiro; 2) levá-lo para visitar uma das inúmeras oficinas de fabricação de cristais (showzinho rápido, com um pouco de sorte você não paga para ver um cidadão assoprando um vidrinho derretido); e 3) fazer o turista gastar seu rico dinheirinho em lojas, dezenas, centenas de lojinhas de cristais de Murano e assemelhados. Minha mulher gostou muito, mas eu, sinceramente, teria ficado este dia em Veneza mesmo, talvez em uma fila para entrar no Museu dos Doges.


 
E não, não andamos de gôndola, porque 100 Euros para andar 15 minutos em canais com tráfego pesado com japoneses aboletados em barcos compridos, pilotados por displicentes ragazzi de camisas listradas, não estava em nossos planos (e orçamento) de turistas “em desenvolvimento”. Com este valor comprei 3 garrafas de Recioto de Siova, um DOCG muito agradável) que bebemos com prazer.

Mas foi uma visita maravilhosa, apesar de tudo isto. E continuaria em Milão, que você pode ver no blog “Fugindo do calor nas ruas de Milão“, em breve aqui mesmo. No próximo blog a gente continua. Por enquanto, um brinde, caro leitor. E antes que me esqueça: algumas das fotos desta série são de Marisa Boni Ruschel.





quarta-feira, 6 de junho de 2012

Lago di Garda, meia ópera em Verona e vinhos locais


Depois de Genebra, Chamonix, Portobelo, Lucca e de rodar cinco dias pelas colinas da Toscana bebendo chiantis e brunellos em piqueniques gloriosos (veja outros posts) minha mulher Marisa, eu e mais um casal abrimos o mapa e orientamos o valoroso Mitsubishi para o lago Garda (ou di Garda, como os italianos preferem).



O Lago Garda fica no nordeste da Itália, no Vêneto e Friuli, divisa com a Lombardia, uma região onde os romanos construíram muitas cidadelas e postos de guarda que hoje são cidades medievais como Vicenza, Treviso, Pádua e Verona. Como fica a meio caminho entre Veneza e Milão, e no caminho de quem vinha do norte da Europa pelos Alpes, a região de Garda sempre teve importância estratégica (para os romanos) e turística (para todo mundo).


Em Garda, além da evidente beleza da região, tínhamos pré-agendado assistir a uma ópera em Verona e visitar amigos em Peschiera del Garda. Além disso, ficaríamos a cerca de 1h30min de Veneza de trem, de onde deveríamos retornar para Milão, ponto final de nossos 15 dias de piqueniques italianos.



O Lago Garda é o maior da Itália e o quinto maior da Europa. Na parte sul forma planícies repletas de vilarejos tipicamente de férias; na parte norte começa a subir as fraldas dos Alpes, oferecendo florestas de pinheiros em penhascos e neve eterna: um show! É possível atravessá-lo na vertical e na horizontal com barcos a vapor, catamarãs, lanchas ou barcos menores – o que permite ver gloriosas mansões com jardins monumentais de frente para o lago. Ou rodeá-lo de carro, um roteiro que leva pelo menos dois dias para melhor aproveitamento.



Passamos três dias circulando entre Sirmione (com direito a um piquenique regado a brunellos e chiantis no parque defronte ao Rocca Caligera, um castelo medieval), Bardolino (sim, o do vinho), Gardone Riviera (onde não deu para visitar a casa art déco do poeta Gabriele d’Annunzio) e Peschiera, que foi nossa base. 


Meia ópera em Verona

Passamos um dia em Verona – bem pertinho de Garda – e foi inevitável: visitamos a Casa de Julieta na Via Capello (com centenas de bilhetes de amor enfiados por entre as pedras, por visitantes contemporâneos) e a Casa de Romeu, onde teoricamente teriam morado os personagens da trágica história escrita em 1520 por Luigi da Porto de Vicenza e imortalizada por William Sheakespeare. Dizem que tem até uma Tumba de Julieta, mas deixamos esta visita para outra oportunidade. 



Comemos sanduíches de pernil com azeites MUITO especiais e temperos de ervas na Piazza Erbe (que há mais de dois mil anos serve como Mercado de frutas e ervas) acompanhado, naturalmente de um Colli Bericci, um vinho local (servido em taças, mas muito bom) e perambulamos pela região visitando as lojinhas, o Palazzo Maffei e o Leão de Veneza no alto de uma coluna.  



Mas a razão principal de nossa passagem por Verona era assistir a ópera “O Barbeiro de Sevilha” na Arena di Verona, onde pagamos 24,50 Euros (por cabeça) para sentar numa pedra úmida e fria da “gradinata Settore D”, com uma velinha acesa na mão – e não me pergunte por quê, todo mundo tinha uma... Tão fria e tão úmida estava a noite que antes do fim do primeiro ato caiu uma forte chuva, torrencial mesmo, o evento foi cancelado e nós voltamos para o hotel molhados e frustrados!



Depois do frustrante “spettacolo”, levantamos âncora de Garda e fomos para Milão, onde o casal anfitrião nos deixou na estação de trem Centrale e voltou de carro para Genebra, encerrando suas férias. Estávamos agora por nossa própria conta, para a tal lua-de-mel “para semi-idosos” em Veneza. Deixamos duas malas enormes no “locker” e pegamos um trem Eurostar (54 Euros o casal, bilhete tarifa standard) para Veneza com quatro bolsas teoricamente “de mão”. A idéia era evitar chegar em Veneza com muitas malas porque o transporte por barcos na cidade, com muitos embarques e desembarques, exige um certo planejamento logístico.

Mas isto você vai ler em outro blog, a ser postado em breve, com o simpático nome de “Cotoveladas em Veneza”. Por enquanto, um brinde, caro leitor.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Parma, Lucca e San Giminiano: um brinde à beleza


Em Parma, um glorioso Albana di Romagna DOCG

Em nosso roteiro de piqueniques na Europa saímos de Chamonix pelo Valle D’Aosta e entramos na Itália pela região de Ivrea, onde pegamos a auto-estrada em direção a Alesandria e Piacenza, cortando o Piemonte – veja o blog Nos Alpes, degustando bordeaux,

 

O objetivo de dormir em Parma tinha uma motivação familiar: minha mulher Marisa e Suzana, sua irmã, queriam rever a propriedade onde bisavô delas havia morado, antes de migrar para o Brasil.

 



Visitamos a tal casa, o enorme Duomo com os afrescos de Antonio Correggio, o belo Batistério e fotografamos, sem visitar, o Palazzo Pilotta, por causa das grandes filas. 

 


Compramos duas garrafas de vinho (um Colli di Parma e um Albana di Romagna, o único DOCG – Denominazione di Origine Controllata i Garantita da Emillia-Romagna), uma grande fatia do melhor queijo parmesão, quase meio quilo do famoso presunto de Parma para comer na viagem e pegamos a estrada porque pretendíamos dormir em Lucca. Como todos os demais hotéis do roteiro, o hotel de Parma, com acesso pela auto-estrada A1, havia sido reservado pelo portal booking.com e tudo “batia” com o que estava no portal.



Embora tivéssemos planejado passar o dia inteiro em Lucca, no meio do caminho – na altura de La Spezia – decidimos fazer nosso almoço em Portofino, cidade litorânea próxima de Gênova, para curtir um programa tipicamente de turista “remediado”: ver os iates dos milionários da temporada. Acertamos em cheio: os iates estavam lá e nosso piquenique – o segundo do roteiro - no cais de Portofino, com a garrafa do Albana di Romagna teve que ser complementado com outra garrafa de um vinho regional, um Golfo de Tigullio – aliás, muito bom.


Portofino é um dos mais chiques balneários da Itália, e o turismo vive da beleza da enseada, da harmonia das simpáticas casas pintadas em cores pastéis e da fama de lugar para ricos. E de algumas lendas, como a de que na Igreja de San Giorgio estão relíquias de um famoso matador de dragões. Ou a lenda da Abbazia di San Fruttuoso, onde seguidores deste santo, no século 3, teriam naufragado e foram protegidos por três leões – ou ainda pela estátua de bronze do Cristo degli Abissi, que repousa no fundo do mar azul-claro e que protege os pescadores. 


Não pudemos conferir nenhuma destas lendas, mas saímos de Portofino com a certeza de que viajar sem estar em grupos de “pacotes turísticos” realmente tem vantagens de flexibilidade.

Chiantis sem nome na noite de Lucca


Retomamos a viagem e fizemos uma parada em Carrara, onde visitamos uma das muitas minas de exploração de mármore –o carro ficou coberto de pó branco, como, aliás, a cidade inteira sempre está. Chegamos à noite em Lucca, e ainda tivemos energia pra fazer uma caminhada fora das muralhas à procura de um restaurante com bons vinhos chianti (estava muito cansado e não anotei os nomes das duas garrafas), antes de desabar na (macia) cama do hotel, onde pagamos 85 Euros por casal. Estávamos oficialmente na Toscana.


Lucca foi fundada pelos romanos em 180 A.C. e ainda guarda o traçado medieval – pelo menos dentro das muralhas maciças que protegem a parte velha. Em Lucca nasceram o compositor de óperas Giacomo Puccini e também Alfredo Volpi, artista emigrado para o Brasil com grande sucesso por aqui. E em uma cidadezinha da região nasceu Carlo Collodi, o criador do Pinóquio em 1883, razão pela qual um dos brindes para turistas com maior oferta é o simpático boneco esculpido por Gepetto, que espichava o nariz quando contava uma mentira.


Pizza com Lambrusco di Sorbara

No dia seguinte passeamos a pé pelas ruas, especialmente pela Piazza San Martino, com seu Duomo do século 11 e arquitetura românica, e fotografamos as igrejas San Frediano e San Micchele in Foro – e é claro, visitamos as lojinhas de Via Fillungo, onde almoçamos pedaços de pizza com uma garrafa de Lambrusco di Sorbara de 6 Euros. Visitei o Museu de Histórias em Quadrinhos, enquanto meus parceiros de viagem faziam incursões pelas ruas da cidade e compravam queijos, vinhos, frios – e pinóquios!

A surpresa de San Gimigniano

Nosso roteiro nos levaria a San Gimigniano, uma pequena cidade medieval (cerca de sete mil moradores), um dos lugares mais encantadores da Toscana, embora esta frase seja difícil de dizer. A distância é curta (uns 60 quilômetros), e por isto evitamos as rodovias de maior movimento, optando passear com calma pela região do Chianti. Onde, aliás, fizemos nosso terceiro piquenique, degustando queijos, frios e duas garrafas de vinho “locais”: um Vernaccia di San Gimigniano e um Brunello de Montalccino – ambos DOCG da Toscana. 

De longe dá para ver as torres do vilarejo, o que o diferencia de outras cidades medievais. As torres (são 13) foram construídas por famílias poderosas nos séculos 13 e 14, e a cidade foi preservada por causa da mudança das rotas de peregrinação do norte da Europa para Roma e pela Peste Negra de 1348. 


Embora não figure nos roteiros para brasileiros, é um vilarejo muito popular junto a europeus, especialmente alemães, suíços e ingleses (e vimos também muitos orientais), porque fica muito próximo de Siena. Passamos o dia todo caminhando pela cidade: visitamos o Palazzo Vecchio del Podestà, na Piazza del Duomo; a Igreja Collegiata do século 11 – cujo teto tem belas estrelas pintadas – e o Museo Civico, de onde poderíamos subir na mais alta das torres, o que discretamente deixamos para outra viagem…


Seguindo um padrão típico das atrações medievais européias, nas ruas centrais, especialmente na Via San Giovanni, lojinhas simpáticas e restaurantes atraentes são locais ideais para os turistas descansarem as pernas – e gastarem seu rico dinheirinho. Nós deixamos o nosso, bebericando um bianco de pitigliano, enquanto o sol se punha nas colinas toscanas da vizinhança.

Ficaríamos mais quatro dias rodando pelas colinas da Toscana e bebendo chiantis, super-toscanos e brunellos antes de ir para o lago di Garda e daí para Veneza – mas isto é outra história que vai estar em outro post – Lago di Garda, meia ópera em Verona – e vinhos locais. Por enquanto, um brinde, caro leitor.

(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade, editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade” - http://www.ruscheleassociados.com.br/ .Ruschel fez estes pique-niques europeus por conta dele mesmo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Nos vinhedos de Lavaux, Suíça, um patrimônio da Humanidade

(*) Por Rogério Ruschel 

A Suíça é um pequeno país (41.285 K2, do tamanho do Espírito Santo), com uma população total menor do que a cidade de São Paulo (7,8 milhões de habitantes) e com um dos maiores PIBs per capita do mundo – US$ 42.600.00 em 2010. Neste território, encravado no coração da Europa, convivem quatro principais regiões linguísticas e culturais oficiais: alemão, francês, italiano e romanche – uma mistura de todos os outros e quase uma raridade. 


Os suiços de origem alemã (65% da população) predominam na economia e na política, em regiões como Basiléia, Berna (a capital) e Zurique, a capital industrial. Os franceses (18%) se concentram em Lausanne, Montreaux e Genebra, a cidade mais cosmopolita, com várias unidades da rede da ONU. Já os italianos (10%) ficam no entorno de Lugarno. Como me disseram várias pessoas, quem manda mesmo são os alemães, que consideram Genebra liberal em excesso…

Trata-se de um país diferenciado: até mesmo o governo é diferente, exercido pelo Conselho Federal composto por sete pessoas eleitas por duzentos membros do Conselho Nacional (uma espécie de Assembléia Legislativa) e pelos 46 Conselheiros Estaduais (uma espécie de Senado). Estes sete Conselheiros Federais elegem um Presidente (atualmente uma Presidenta) anualmente. Todas as decisões são tomadas por este grupo de sete pessoas e o Presidente tem poderes limitados. E sabe como é que a população participa? Através de referendos de nível federal ou dos cantões (estados) - e se um cantão perder no referendo de uma lei, pode simplesmente não aceitar aquela lei…

Pois parece que o sistema está dando certo. Atualmente a Suíça é a 23a. economia do mundo, mesmo sem ter grandes estoques de recursos naturais. Os fundamentos da economia são a indústria (química, farmacêutica, máquinas e equipamentos, tudo com alta tecnologia) e serviços financeiros como o de gestão de fortunas. Mas para simples turistas como eu, a Suiça é o pais dos queijos, chocolates e relógios. E - acredite ou não - de vinhos!
Vinhedos debruçados sobre o lago
Toda a Suíça é bonita. Conheço Berna, Zurique, Interlaken, um pouquinho da região italiana e a região do Lago Genebra. Pois este ano voltei a Genebra para visitar os vinhedos em terraço da região de Lavaux, tombados há quatro anos pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.
Trata-se de uma área no Cantão de Vaud com 14 vilas e pequenas cidades, com 40 Kms de frente para o Lago Genebra, entre Corseaux e Lutry, que concentra 830 hectares de vinhedos em terraços debruçados sobre o lago sempre azul. Um espanto de beleza! Os vinhedos, com altitude variando de 372 a 936 metros, tem a proteção de montanhas e a refrigeração dos ventos que entram pelo Lago Genebra vindos dos Alpes franceses e do Mont Blanc. Segundo consta, uvas vem sendo cultivados desde o século XI, quando foram introduzidas por monges – sempre eles!
Peguei um trem rápido em Genebra, desci em Vevey, um pouco antes de Montreaux, e dali, usando trens regionais S1, fui “pingando” em estações como St. Saphorin, Rivaz, Cully, Villete e Lutry, onde embarquei de volta para Genebra, no fim do dia. Como estava a pé, o segredo é descer da estação e caminhar pelos vinhedos até a cidadezinha, percorrer as ruas principais, documentar as atrações e voltar à estação para a próxima experiência. 

Para algumas das caminhadas aproveitei percursos de randonnées – trilhas entre 2 e 5 Kms sempre bem demarcadas. Todas as cidadezinhas têm encantos: em Grandvaux estão a Praça Corto Maltese (homenagem ao cartunista suíço natural da cidade) e a Maison de Bailli Mallardoz (que não visitei); em Lutry você pode passear pela cidade medieval e pode conhecer menires de 4.000 anos antes de Cristo; fotografar ruínas romanas em Savuit; conhecer a Villa “Le Lac:, projetada por Le Corbusier na década de 1920 e fazer sua fézinha em várias igrejas com 500 a 600 anos que surgem nas praças logo depois de virar a esquina numa ruela.

Degustando na Vinorama
Apesar de muito próximos (cerca de 40 Km entre Corseaux e Lutry) e terem basicamente os mesmos tipos de uvas, os vinhedos das diversas comunas geram produtos com diferentes sotaques por causa do solo que varia de arenoso ou argiloso a calcáreo. Nesta pequena área (repito: apenas 830 hectares de vinhedos), convivem oito diferentes denominações (as appellations): Chardonne, Saint-Saphorin, Calamin Grand Cru, Epesses, Dézaley Grand Cru, Vevey-Montreaux, Villette e Lutry. Cerca de 220 pequenos produtores, geralmente famílias, produzem vinhos e toda a produção é praticamente consumida na Suíça por falta de escala para exportação.

Em Rivaz fiz uma parada estratégica para conhecer a Lavaux Vinorama, uma grande loja inaugurada em maio de 2010 que comercializa 230 rótulos de 150 produtores regionais. Segundo Sandra Joye, diretora da casa, no Lavaux são produzidos vinhos brancos com duas fermentações a partir das castas Chasselas (68% da produção, uma cepa suíça Téoricamente oriunda do Egito), Pinot Gris, Viognier, Sauvignon, Chardonnay, Silvaner e Doral. Os tintos utilizam Malbec, Pinot Noir, Gammay, Merlot e Syrah.
Atendido pelo Luiz Alves, um garçon português, enfrentei uma degustação de brancos acompanhada de petiscos e salgadinhos. Provei DOCs Lutry (Cret de Plan), Calamin (um Grand Cru da L’Arpege), dois ou tres Saint Saphorin, um Villette de Les Echelettes, um Epesse da Cave Du Cypres e um Chardonne da La Bachanalle. Não sou um especialista e não diferenciei o sabor das denominações, mas registro que os que mais me agradaram foram vinhos chasselas da denominação Saint Saphorin. São vinhos que não conhecemos no Brasil e certamente não são valorizados como os vizinhos franceses, mas são muito bons – com 26 Francos Suíços, o equivalente a R$ 40,00 você compra um bom Grand Cru.
Na Vinorama assisti um filme que apresenta 12 meses na vida e labuta de uma família de produtores – um belo e comovente documentário como não vi em nenhum outro lugar, realmente interessante.
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade, editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade” - http://www.ruscheleassociados.com.br/ .Ruschel viajou à Lavaux por conta dele mesmo.

Experimentando os sabores da Borgonha e Dijon


Para aproveitar milhagens que estavam por vencer e o convite de um casal de amigos, fui conhecer de perto os sabores de uma região francesa muito badalada: a Borgonha e sua capital Dijon, território dos poderosos Duques da Borgonha, no Departamento Côte-d’Or, localizada a 310 quilometros de Paris e cerca de 200 quilometros de Lyon.
Os primeiros habitantes datam da época do Neolítico e, cortada pelo canal da Borgonha e pelos rios Ouche e Suzon que contribuiram para o transporte e a geopolítica, Dijon atravessou os séculos testemunhando lutas pelo poder, invasões, incêndios (como o de 1.137, que destruiu grande parte da cidade) e mais recentemente, foi palco de cenas destrutivas da Segunda Grande Guerra.
Embora pequena, Dijon é uma cidade culturalmente importante, e seus cerca de 260.000 habitantes recebem bem os turistas atraídos por construções históricas do período medieval, pela gastronomia, pela mostarda – e evidentemente pelos vinhos borgonheses.

Alegre, florida e simpática, Dijon é facil de conhecer: basta caminhar pelas ruas animadas como a central Liberté e as ruas des Forges, de la Chouette e Verrerie (com muitos antiquários), que levam a visitas a igrejas como a Notre-Dame, a St. Michel – que virou foco de eventos universitários  - a St. Jean e a Catedral Saint-Bénigne com sua cripta do século XI.
As surpresas também estão em prédios e palácios como o majestoso Palais des Ducs et des Etats de Bourgogne com sua grande praça com chafarizes no solo, agitada no verão por shows e eventos; o antigo palácio de justiça; o prédio dos Correios (Poste Grangier); o Hôtel de Vogüe e o Hôtel de Ville. 

Embora seja tudo pertinho, valem paradas estratégicas de descanso para os pés em áreas verdes como a Place Darcy e o Parque e Museu de Ciências bem defronte à Gare Dijon Ville; em cafés e restaurantes com mesinhas nas calçadas (pelo menos em tempos menos frios) e nas lojas de produtos tradicionais para ver as muitas versões da mostarda - Dijon é considerada a capital mundial da mostarda, embora grande parte do produto seja importado, mas a região tem tradição na produção e na especialização: contei pelo menos 20 diferentes tipos de mostardas, algumas com ingredientes doces…  

Come-se muito bem em Dijon, que é considerada uma das capitais gastronômicas da Europa. Além da mostarda e das tradicionais especialidades francesas (pães e queijos de infindáveis sabores), Dijon é conhecida também pelo creme de groselha preta e do pain d’épice. E bebe-se bem, também, evidentemente, porque afinal de contas Dijon é a porta de entrada de uma das mais importantes regiões produtores de vinhos da França.
Embora os borgonhas não sejam tão famosos ou até mesmo tão badalados como os vinhos de Bordeaux, do Vale do Reno, da região de Champagne ou do Vale do Loire, oferecem boas surpresas – e atraem muitos turistas, entre os quais eu e minha mulher.
Existem muitas maneiras de conhecer a região vinícola da Borgonha e talvez a melhor seja passar alguns dias hospedado em alguma pensão ou hotel de vila, numa abadia ou num dos muitos chateaux. Mas como não tinha todo este tempo nem a grana necessária, me contentei em comprar um roteiro turístico mais convencional. Por 60 Euros e na companhia de um guia muito esperto e 3 australianos, gastei minhas 7 horas de turismo passeando entre os vinhedos plantados nas Colinas de Côte Chalonnaise e Mâconnais (dois distritos produtores) e em áreas e lojas de pequenos produtores em vilas como Gevrey-Chambertin, Nuits Saint-Georges, Vougeot e Givry, na região produtora Côte de Nuits. 


Evitei cidades maiores como Beaune, considerada a capital comercial do vinho na Borgonha, onde, segundo meu guia, a única coisa interessante para fazer seria visitar o Hôtel-Dieu, de 1443, com os Hospices de Beaune e seus vinhedos de 58 hectares, e gastar dinheiro nas lojas. Ficou para outra vez...
Como gosto de vinho mas não entendo quase nada, preferi fazer o roteiro de visita tradicional da Côte de Nuits, o que incluiu a visita a alguns vinhedos produtores de vinhos Grand Cru, na estrada entre Gevrey-Chambertin e Morey-St.Denis.
A indústria vinífera foi introduzida na região no século XVII e a especialidade da Borgonha é a uva Pinot Noir (cerca de 95% da produção), mas alguns produtores trabalham com a uva branca Chardonnay. O solo é argiloso, as suaves colinas permitem boa insolação e o clima continental é adequado para a formação de um bom terroir, que é como os franceses chamam o conjunto de condições de plantio da uva.
Aprendi que a grande maioria da produção é feita por pequenos produtores (especialmente familias), embora as áreas mais sofisticadas (como as de vinhos premier e grand cru) quase sempre pertençam a alguma familia mais poderosa. Descobri que “clos” – palavra que a gente vê em alguns rótulos – significa que o vinho foi feito com uma uma uva plantada em uma área murada, porque a grande maioria dos vinhedos é plantada em áreas abertas, sem separação entre os proprietários. E qual a vantagem? A uva fica mais protegida e dá um vinho melhor…
Também na linha da cultura inútil, aprendi que para poder ser classificada como grand cru, um vinho tem que ter critérios de qualidade que não vou nem tentar explicar porque os franceses não fazem muita questão que você entenda, desde que pague o preço pedido. Mas pelo que vi, uma das condições é que a uva seja mais beneficiada com açúcar, e para isso os produtores têm que cortar todos os cachinhos tenros das videiras para que cresçam apenas dois.
Tentei mas não consegui entender a sofisticada cultura local de produção, classificação e consumo dos vinhos. Áreas de produção literalmente uma ao lado da outra podem ter classsificações e denominações diferentes, ligadas à região ou à própria comunidade. É provável que o objetivo não seja este, mas na prática este sistema de certificação acaba se tornando um instrumento de marketing, porque impede que um bebedor de vinho não-especialista,m como eu, jamais consiga comparar dois vinhos produzidos literalmente a cinco metros de distância…
Mas se o seu objetivo é passar horas agradáveis em uma cidade muito interessante e fazer turismo enogastronômico, Dijon e a região da Borgonha oferecem isto com muito charme. E aproveite, porque um bom vinho pode custar entre 7 e 12 Euros (em lojas) e um grand cru pode ser encontrado a partir de 55 Euros – preços no mínimo 50% mais em conta do que os encontrados no Brasil.

Se você quiser saber mais sobre os sabores da Borgonha, acesse http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/05/feira-livre-de-dijon-produtos-naturais.html

(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade, editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade” - http://www.ruscheleassociados.com.br/ .Ruschel viajou à Borgonha Alsácia por conta dele mesmo.