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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Duas ou tres taças de poesia e de vinho com Pablo Neruda, Mario Quintana, Jorge Luis Borges e Gilberto Carvalho

 
Por Rogerio Ruschel (*)
Meu prezado leitor ou leitora, hoje vamos falar de poesia e de como poetas conhecidos como Pablo Neruda e Mario Quintana a utilizaram para falar de vinhos. Mas vou também apresentar a poesia de meu amigo Gilberto Carvalho, gaúcho da principal região vinícola do Brasil, a serra gaúcha. Ele é publicitário e sociólogo, mas é poeta. E gosta de vinhos. Por isso não é de estranhar que logo escrevesse sobre o vinho e tudo aquilo que o cerca, a chamada cultura do vinho. Sua principal obra tomou forma com “De vinho e vida” – um conjunto de livro e CD com 14 poemas recitados pelo autor acompanhado pelo quarteto Os Polifenóis, em um belo estojo - a quarta obra do autor (veja abaixo).

A união da literatura com o vinho sempre me pareceu um caminho natural e adequado porque ambos tocam na alma, alegram o dia e melhoram a vida. Embora a união da literatura com o vinho (e da arte com o vinho) seja bastante usual na Europa – especialmente na Espanha, Portugal e Itália onde Rotas de Vinhos, museus especializados e vinícolas promovem eventos, saraus e lançamentos - no Brasil isto é raro, uma novidade. Ou era quando o livro de Gilberto Carvalho foi lançado em 2011 (foto abaixo) e mereceu o apoio do Ibravin – Instituto Brasileiro do Vinho. Aliás, Carlos R. Paviani, diretor do IBRAVIN, lembra o porque: “O vinho sempre foi um parceiro permanente do homem em todas as civilizações, estando presente no dia-a-dia, inclusive, da arte dos povos. O Ibravin, atento à esta realidade, alia-se a esta obra, exibindo a arte poética e musical da nossa gente como temática dos nossos vinhos do Brasil.”
Gilberto Carvalho traduz muitos dos sentimentos de quem ama o vinho com o calor dos amigos e a paixão do sabor, mas com a sobriedade necessária de quem se refere a uma bebida alcoólica. O poema “Encantamento” traduz parte disso: “Me agrada este flertar com as labaredas do fogo/de teu corpo/em minhas mãos./Ver tua alma inteira/desenhada em cada gole/de satisfação./ Gosto de te saber/assim, entre segredos,/onde confio/meus questionamentos./ (…) A insaciável decisão da nossa hora/é quem nos leva os dois pelo caminho/Tu, nos incontáveis goles que bebi/Eu, infetiçado em ti e neste vinho.” (Na foto abaixo, o lançamento do livro em Santa Maria – RS).
Outro poema interessante é Orquestração: “O vinho baila redondo/no cálice junto a mão/sob a batuta entusiasta/do maestro coração./No carnaval desta vida/meio a dores e alegrias/o vinho marca o compasso/no bloco das fantasias./Mas quando chega a manhã/vai-se até o vinho e então/bate um tambor solitário/o maestro coração!”. Muitos poetas conhecidos e experientes enalteceram esta profunda relação entre o coração, a poesia, a vida e o vinho. Pablo Neruda, o poeta chileno que recebeu o Premio Nobel em 1971, escreveu uma conhecida “Ode ao Vinho” da qual estes poemas fazem parte: “Vino color de día/vino color de noche/vino con pies púrpura/o sangre de topacio/vino, estrellado hijo de la tierra/vino, liso/como una espada de oro,/suave/como un desordenado terciopelo/vino encaracolado/y suspendido,/amoroso, marino/nunca has cabido en una copa,/en un canto, en un hombre,/coral, gregario eres,/y cuando menos mútuo.”
Já em "Soneto del vino" o escritor argentino Jorge Luis Borges tenta identificar os segredos do vinho: “¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa/Conjunción de los astros, en qué secreto día/Que el mármol no há salvado, surgió la valerosa /Y singular ideia de inventar la alegria?/Com otoños de oro la inventaron./El vino fluye rojo a lo largo de las generaciones/Como el río del tiempo y en el arduo camino/Nos prodiga su música, su fuego y sus leones./En la noche del júbilo o en la jornada adversa/Exalta la alegria o mitiga el espanto/Y el ditirambo nuevo que este día le canto/Otrora lo cantaron el árabe y el persa./Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia/Como si ésta ya fuera ceniza en la memória.” (Na foto abaixo, o lançamento do livro em Bagé – RS).
Gilberto Carvalho (na foto abaixo) também procura desvendar o universo do vinho, como Borges e Neruda. Entre os poemas de “De vinho e vida” estão achados como em “Diferenças”: “Um vinho bom/tem música/é redondo/ e leva nossa alma para dançar./ Já o vinho ruim/é um velho rabugento/que estraga tudo/até o melhor momento/que brota de um olhar”. Ou este pequeno segredo minimalista: ”Eu trago um vinho guardado/feito de sonho e paixão,/alma e verso, voz e sangue/das vinhas do coração.” 

Como Gilberto Carvalho tem sangue português, “De vinho e vida” foi lançado também em Portugal. O circuito começou nos Açores, com dois lançamentos: na Ilha de São Miguel, com o apoio do gabinete da Governadora Sandra Souza e cobertura da RTP – Radio e Televisão de Portugal e na Ilha do Fayal, com um evento no auditório da biblioteca pública da cidade de Horta com a música da Jazz Band da Praia do Almoxarife. Já no continente, os poemas de Gilberto foram apresentados em Lisboa na Casa dos Açores; em Braga e no Famalicão – terra dos ancestrais do autor - os lançamentos foram na Universidade de Braga e na biblioteca municipal de Famalicão, com a presença de gente das artes e imprensa local.    

Gilberto me disse que está finalizando uma nova obra, a “De vinho e vida II”, que deve ser lançada em breve. Isto é ótimo porque precisamos prestigiar os amigos, o vinho e quem produz o vinho. Como o fez o poeta Mario Quintana – também gaúcho e conterrâneo da cidade de Alegrete como Gilberto Carvalho – que escreveu esta pequena pérola (veja acima): “Por mais raro que seja, ou mais antigo,/Só um vinho é deveras excelente/Aquele que tu bebes, docemente,/Com teu mais velho e silencioso amigo.”
De fato, como Gilberto Carvalho escreveu na abertura de seu livro, “Pior que uma vida sem vinho somente uma vida sem poesia”. Brindo a isso. Para  contacatr o autor acesse www.facebook.com/O-poeta-do-vinho
  
(*) Rogerio Ruschel gosta de poesia e de vinho - e tenta harmonizar isso em São Paulo, Brasil, onde edita este blogue. 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Fotógrafo brasileiro capta a alegria libertada pelo vinho no rosto das pessoas, uma, duas e tres taças depois - e faz sucesso internacional


Por Rogerio Ruschel (*)

Meu prezado leitor ou leitora, todo mundo diz que os olhos são a janela da alma; e ao que parece as lentes de uma câmera fotográfica bem pilotada podem capturar o estado da alma que fica estampado não só nos olhos - a tal janela da alma - mas também nas expressões do rosto das pessoas.

Pois o fotógrafo brasileiro (com estúdio em São Paulo) Marcos Alberti está fazendo sucesso na imprensa internacional ao mostrar que isso é possivel com o projeto “Tres Taças Depois”, cujo resultado você pode ver ao longo desta matéria. Ele resolveu juntar algumas de suas paixões em um projeto de pesquisa: amigos, fotografia, vinho e boa conversa. “Tem uma frase que diz que a primeira taça é da comida, a segunda é do amor e a terceira é da confusão. Queria ver se isso era verdade”, diz Alberti sobre a ideia básica do projeto.

“Tres Taças Depois” é uma brincadeira divertida porque registra a expressão de pessoas bebricando vinho: antes e depois de uma, duas e tres taças – talvez mais taças, nuncas se sabe... A primeira foto sempre era feita assim que os convidados chegavam no estúdio, com o objetivo de retratar o estresse do trânsito ou o cansaço de um dia cheio - o que, convenhamos, numa cidade com mais de 11 milhões de habitantes e quase 6 milhões de veículos deixa profundas marcas nos habitantes...


Só então os trabalhos começavam. Ao fim de cada taça, um novo clique. Pessoas de várias áreas se reuniram por algumas noites, gente da publicidade, música, arquitetura, moda e arte. Ao fim da terceira taça, muitos sorrisos surgiam, e com eles, estas histórias gráficas que In Vino Viajas está mostrando.

Marcos Alberti foi estudante de música, artes plásticas e design e se formou em arquitetura e urbanismo, mas acabou se apaixonando pela fotografia no começo dos anos 2000. Desde aí vem trabalhando com fotos para moda, publicidade e retratos, aliás muito interessantes e sensuais. 

Em 2010 foi convidado a participar da Bienal Internacional de Arte de Roma, que foi seu primeiro reconhecimento como artista. Alguns premios internacionais e tres anos depois, Alberti estava estudando cinema nos Estados Unidos e desde então vem produzindo comerciais para anunciantes como Coca-Cola, Bradesco, Samsung, Nestlé, Nike, Asics e outros.

Como todas as pessoas de bom gosto, Marcos Alberti gosta de vinho e de compartilhar momentos de alegria com os amigos. Neste caso ele foi além: retratou e vem compartilhando a alegria das pessoas para mostrar que uma, duas ou tres taças de vinho podem deixar tudo menos estressante e mais interessante. O trabalho de Alberti pode ser conhecido em https://www.facebook.com/studiomarcosalberti/


(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas em São Paulo, Brasil, e gosta de uma, duas, tres e quatro taças de vinho - e de compartilhar boas idéias.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Hotel brasileiro inaugura suítes de tres andares em pipas gigantes de vinho, as maiores do mundo

-->Por Rogerio Ruschel (*)

Meu caro leitor, parecia um casamento inevitável: fica no sul do Brasil, na serra gaúcha, onde são fabricados os melhores vinhos brasileiros e também onde se encontra o melhor turismo de qualidade do país, um hotel onde o hóspede pode dormir dentro de uma pipa de vinho. E não é um tonelzinho mixuruca: são barricas imensas, com capacidade para 100 mil litros que depois de reformadas permtiriam uma ocupação planejada e confortável de tres andares!
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A inovação foi feita pelo Grupo Pampas, uma rede hoteleira do Rio Grande do Sul, no Hotel Fazenda Pampas da cidade de Canela, a maior de suas unidades. O hotel comprou as pipas de vinícolas gaúchas como Garibaldi e Aurora que se modernizaram, e depois de reformadas ficaram com 90 m² e mais um banheiro anexo.
-->Trata-se do maior receptivo em pipas de carvalho do mundo, o único deste porte. Outros dois hotéis europeus usam barricas bem menores, o Hotel De Vrouwe van Stavoren, em Stavoren, na Holanda, que usa pipas de 14 mil litros e umas quitinetes de 20 m² no Château Vieux Lartigue, em Saint-Emilion, pertinho de Bordeaux, na França. O hotel holandes foi o pioneiro, mas só tinha 4 quartos com duas camas de solteiro que podem virar uma de casal e uma pequena sala com televisão (veja a foto abaixo). Os leitores de In Vinio Viajas já o conheciam, porque foi mostrado dois anos atrás, em março de 2013 – veja aqui: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/03/o-hotel-holandes-onde-os-turistas.html
-->As barricas do Hotel Fazenda Pampas oferecem o conforto de um apartamento convencional, mas com muito mais charme. No primeiro piso fica a sala de estar com sofá, televisão de LED, cozinha com mesa e cadeiras, e o banheiro anexo.
-->O quarto fica segundo andar com cama de casal, TV de LED de 42 polegadas e climatizador.
-->E finalmente no terceiro andar fica a cobertura, com cadeiras e tapetes e uma vista privilegiada da região, de um lago e de animais que ficam soltos como cavalos, emas, lhamas e ovelhas. Das 20 pipas projetadas, 14 já estão a disposição dos hóspedes a preços que variam entre 200 e 300 Euros. Das 14, três são pipas duplas, construidas na horizontal, para atender pessoas com limitações em subir escadas.
-->O hotel oferece momentos de lazer na varanda com mesas feitas a partir de barricas de vinho (acima) e passeios a cavalo para relaxamento total (abaixo).
-->Além disso, é claro, meu querido leitor, você vai encontrar uma deliciosa tradição gaúcha: aqui se come muito bem, bebe-se vinho de qualidade feito na região e você realmente descansa porque a serra gaúcha é sempre espetáculo. Um brinde a isso!

Para saber mais acesse http://www.hoteispampas.com.br/snw/
(*) Rogerio Ruschel é jornalista e edita In VIno Viajas a partir de São Paulo, Brasil, mas tem muita saudade da serra gaúcha onde já morou.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Pesquisa histórica na Sicília produz vinho ao estilo romano de 2.000 anos atrás


Por Rogerio Ruschel (*)
Não é exatamente uma atração turística, mas vai funcionar como tal: é uma pesquisa técnica, com perfil histórico. Uma equipe da Universidade de Catania, na Sicília, está fazendo uma pesquisa muito interessante: o produção de um vinho utilizando uvas, ferramentas e técnicas usadas pelos romanos há cerca de 2.000 anos (como tiras de junco e lascas de madeira de arbustos para ligar as vinhas às estacas) e leveduras naturais para fermentação. Nenhuma máquina, pesticida ou fertilizante foi utilizado. Na Sicília, especialmente no Vale do Alcântara e na região do vulcão Etna (abaixo), as uvas eram (e continuam sendo) plantadas sobre um solo escuro, aerado, enriquecido pela lava, que funciona como adubo natural – veja na foto abaixo.

Os objetivos do projeto são dois: por um lado, verificar a viabilidade das técnicas romanas e, por outro, verificar se esse conhecimento pode ser utilizado na viticultura moderna. As primeiras vinhas foram plantadas no começo deste ano e a equipe espera ter a primeira colheita em 2017. Catania é uma cidade importante da Sicília, muito rica em patrimônios históricos como o Palácio Ursini, da foto abaixo, que visitei em 2005.

Para fundamentar o trabalho os investigadores consultaram o manual de agricultura do livro Georgics do poeta Virgílio (o autor da Eneida), e informações de um estudioso do vinho do século I, Lucius Junius Moderatus Columella, que escreveu uma obra em doze volumes sobre agricultura denominada De Re Rústica e é tido como o melhor escritor conhecido do Império Romano na área da agricultura.

Nesta obra Columella recomendou o plantio de videiras dois passos de distancia e disse que eles devem ser amarrados a estacas de madeira sobre a altura de um homem. Estas técnicas sobreviveram até o século XVII. Na Sicília são produzidos atualmente belos potes de cerâmica (veja os que fotografei em 2005, abaixo) com ou cera por dentro e vinificação por fora, uma técnica que seria empregada pelos romanos para engarrafar o vinho.

A equipe de historiadores plantou oito variedades locais (sete tintas e uma branca), incluindo Nerello Mascalese, Visparola, Racinedda e Muscatedda. Na Antiguidade, o pesquisador romano Columella já se referia a cerca de 50 tipos de uva. A Nerello Mascalese (abaixo) é uma uva aromática que é parte essencial dos vinhos classificados como Etna Rosso DOC.

“As fontes romanas são muito precisas e queremos ver o que acontece quando levamos a cabo as suas instruções ao pé da letra. Muitas dessas ferramentas e técnicas ainda estavam em uso na Sicília e outras partes da Itália até o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois veio a mecanização e os produtos químicos modernos, e tudo foi  sendo alterado. Achamos que podemos recuperar as técnicas antigas e que poderiam ser aplicadas à vinificação moderna." disse Mario Indelicato , um pesquisador da Universidade de Catania.

Para conservar o vinho serão usadas ânforas de terracota. Segundo as orientações dos antigos autores, elas são revestidas por dentro com cera de abelha e enterradas no chão até o pescoço. São deixadas abertas durante a fermentação, antes de serem seladas com argila ou resina. Um brinde a isso e à sabedoria dos romanos.

Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:

(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e adora a Sicilia. Esta notícia foi publicada em revistas européias.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Inovação: jovens designers da Catalunha criam tinta à base de vinho para rótulos de garrafas


Por Rogerio Ruschel (*)
Esta é mais uma história criativa e curiosa que cerca a cultura do vinho que se renova diariamente, mesmo tendo mais de 8.000 anos. Montserrat Raventos, Jordi Roca e Raimon Benach, três jovens designers da Ladyssenyadora Ink., um pequeno estúdio de criação gráfica e design de Vilafranca del Penedès, região vinícola da Catalunha, Espanha, fizeram um trabalho para um cliente e ganharam como pagamento 150 garrafas de vinho. Beberam o vinho? Não (ou não todas...); criaram um novo produto (uma tinta à base de vinho) e produziram vinhos exclusivos com marca própria, sem igual no mundo (veja abaixo).

Como bons espanhóis e catalões (ou catalões e espanhóis, provavelmente eles preferem nesta ordem), logo desejaram fazer uma tiragem de vinho com marca própria para promover a empresa. Mas como bons criativos decidiram fazer um produto no qual todos os materiais gráficos seriam feitos com os próprios componentes do vinho - o que significaria criar um processo de obtenção de tinta e impressão dos rótulos que até o momento ninguém tinha conseguido fazer, incluindo as gigantescas multinacionais do setor gráfico, do setor de tintas e as do setor vinícola. Veja abaixo os produtos prontos, sendo personalizados.

Em setembro de 2013 deles começaram as experiências e investiram mais de três meses no processo. Tentaram várias técnicas como serigrafia e tipografia, mas o excesso de água presente no vinho e o fato de que o papel enrugava inviabilizava o processo. 

Tentaram então desidratar o vinho, deixando-o ficar no telhado, secando no sol (veja abaixo), mas o pigmento resultante não ficava bom. Tentaram promover uma redução do vinho cozinhando-o em uma panela em fogo baixo - nada. Tentaram trabalhar o vinho com choques térmicos, ventiladores e fornos e até mesmo tentaram encher um cartucho de impressora com vinho. Nada funcionou.

Mas, como dizem, quem acredita sempre alcança. Quando já estavam desistindo da ideia e se preparavam para utilizar “tinta normal e impressão normal numa embalagem menos normal” um deles percebeu que em uma das bandejas utilizadas para desidratar o vinho que havia sido esquecida no telhado do estúdio tinha se formado um “muco roxo” que - adivinha! - se mostrou ser o ideal para impressão de rótulos e etiquetas com a cor e a textura desejadas. Sucesso: batizaram o processo de “tinta d vi” (abaixo, produto prponto), fizeram as tais garrafas de tinta e agora estão partindo para o registro do produto.

Graças à sua postura criativa os jovens designers da Ladyssenyadora Ink. estão apresentando ao mundo um processo inovador e ecológico que vai enriquecer a viticultura mundial. E fazem juz à região onde moram, a Catalunha, que já gerou artistas que não se resignavam com o convencional como Gaudí, Miró e Salvador Dali e onde Picasso encontrou ambiente para inventar o cubismo; onde nasceram e se criaram o tenor Josep Carreras e a soprano Montserrat Caballé. 
Catalunha, terra onde se produzem vinhos diferenciados e criativos com Denominações de Origem (DOs) respeitáveis como Penedès, Priorat, Costers del Segre (o vinho produzido), Cavas, Montsant, Conca de Barberá, Pla de Bages, Empordá-Costa Brava e até a DO Catalunya que mistura tudo e estabelece um pequeno caos ao querer explicar como os viticultores da região se organizam. Mas não precisamos entender, basta provar os vinhos, admirar a arte e ver como trabalham, como por exemplo, no caso de outro talento catalão, o Futbol Club Barcelona.
(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e respeita o talento alheio



sábado, 11 de janeiro de 2014

Vinho e humanidade: uma história de 10.000 anos revelada por uvas, vinhos, garrafas e adegas



Por Rogerio Ruschel (*)
Escavações em Catal Hüyük na Turquia - talvez a mais antiga cidade da humanidade - em Damasco na Síria, em Byblos no Líbano e na Jordânia, revelaram sementes de uvas da Idade da Pedra (Período Neolítico B), de cerca de 8.000 a.C – o que daria 10.000 anos de história de convivência com os homens! Veja nas fotos abaixo aspectos das escavações em Catal Hüyük e região.
 
Mas as mais antigas sementes de uvas cultivadas foram descobertas na Georgia e datam de 7000 a.C.. Aliás, a Georgia é considerada a pátria do vinho e até hoje cerca de 500 variedades diferentes de uvas exclusivas do país ainda podem ser encontradas lá.  Na Georgia foram encontrados jarros de cerâmica para vinho datados com 6.000 anos A.C., o que permite que os produtores de vinho da Georgia digam que o país já teve 8.000 safras – em ingles 8.000 Vintages (veja foto abaixo de lançamento de selo postal sobre o assunto). Imagine uma safra de 8 mil anos atrás! A coisa mais fascinante ainda é que junto aos sedimentos foi encontrada uma resina de árvores e os cientistas acreditam que era usada para preservar o vinho.
O ancestral processo de produção de vinho da Georgia – o “Qvevri”, que consiste em fermentar as uvas em ânforas enterradas no solo - foi tombado como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco em dezembro de 2013. Veja a foto abaixo e saiba mais acessando http://invinoviajas.blogspot.com.br/2013/12/qvevri-cultura-do-vinho-passada-de-pai.html

Já no Oriente Próximo encontramos registros mais recentes da produção de vinhos: arqueólogos que escavavam um palácio com idade de cerca de 3.700 anos, perto da cidade israelita de Nahariya na Cananéia, atual Israel desenterraram o que até agora parece ser a maior e mais antiga adega de vinhos do Oriente Próximo. A cave media 5 por 8 metros e guardava 40 frascos grandes (exemplo na imagem abaixo e na foto de abertura deste post), cada um dos quais poderia guardar cerca de 50 litros de líquido. Fragmentos de cerâmica foram fervidos em um solvente químico o que permitiu aos pesquisadores encontrarem vestígios de ácido tartárico e de substâncias indicadoras da presença de ingredientes como mel, hortelã, casca de canela, zimbro e resinas de plantas. Veja foto abaixo.

No antigo Egito a produção da uva e do vinho também fazia parte da agricultura, da cultura, do comércio e da vida quotidiana, como mostra esta imagem abaixo que retrata o ciclo de produção do vinho com colheita, engarrafamento e distribuição nos navios.

No Afeganistão em 2012 foi encontrada uma caixa de garrafas muito antigas, quase sem rótulo. Removida a sujeira das garrafas uma delas ainda tinha rótulo que dizia Cuvée Canaan, anforado no Domaine Judá, Zebedeu e filhos, e filhos de filhos e filhos de netos e filhos de bisnetos, millésime 35 a.C. D.O.Arimatéia. Uma gota foi mandada analisar e se tratava de uma uva já extinta, a Cabernoé da Babilonia, cujos traços tinham se perdido desde a praga da filoxera de 200 antes de Cristo. Veja abaixo uma antiga anfora de vinho do Afeganistão, hoje peça de museu .

Estas garrafas do Afeganistão estavam vazias, mas estas abaixo não: cerca de trinta garrafas do vinho mais antigo do mundo ainda intacto foram descobertas por mergulhadores num naufrágio no Mar Báltico. As garrafas são de champanhe e tiveram sua origem estimada entre 1782 e 1788 - portanto anteriores à Revolução Francesa!


Em Málaga, no sul da Espanha, uma ânfora romana do século I d.C. foi encontrada durante os trabalhos de catalogação e limpeza do acervo arqueológico, que estão sendo realizados para a abertura, em breve, do Museu de História da Cidade. Veja foto divulgada, abaixo. Descoberta em 1960, a peça foi encontrada nas proximidades da desembocadura do rio Vélez, nas ruínas da antiga cidade de Maneoba. Na época do achado, foi guardada no porão do palácio Beniel e lá ficou, esquecida até agora.  Redescoberta, selada com uma mistura de resina e cal, foi submetida a exame e os especialistas acreditam que o recipiente contém entre 25 e 30 litros do que acredita-se ser vinho. Um vinho com dois mil anos de idade!

 
Pois é, caro leitor: convivemos há pelo menos 10.000 anos com as uvas e há pelo menos 8.000 anos estamos tentando aperfeiçoar o vinho feito com elas, esta bebida que hoje utilizamos para brindar as coisas boas da vida. Como, por exemplo, ter voce como meu leitor. Tim-tim!
(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e gosta de vinhos antigos, mas não tão antigos assim!