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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Museu da Cultura do Vinho de La Rioja: um passeio imperdível pelo melhor espaço enocultural do mundo


Por Rogerio Ruschel (*)
Prepare-se: hoje vou levar você para um passeio pela história, religião, mitologia, arte, agricultura e indústria relacionadas à cultura do vinho. Um impressionante passeio pelo mais bonito, mais completo e premiado museu do seu gênero no mundo: o Museu da Cultura do Vinho da Fundação Dinastía Vivanco (foto acima) de Briones, cidadezinha de La Rioja, Espanha (ao fundo, na foto abaixo).

Um Museu em meio a vinhedos que abriu as portas em 2004 depois de 30 anos de dedicação silenciosa da familia Vivanco, proprietária da vinícola Dinastia Vivanco que produz vinhos desde 1915 e de uma Fundação sem fins lucrativos com o mesmo nome; Pedro, Paulo e atualmente Santiago Vivanco foram comprando, colecionando, catalogando e classificando mais de 8.000 peças relacionadas à cultura do vinho que hoje formam uma coleção magnífica em um prédio de arquitetura moderna que se tornou a mais importante atração turistica da região.

Um Museu com tanto simbolismo e importância cultural que foi inaugurado pelo próprio Rei Juan Carlos I da Espanha, recebe 160.000 visitantes por ano e ganhou todos os premios disponiveis no mundo - inclusive da UNESCO e da Organização Internacional do Turismo, que o declararam o melhor Museu da Cultura do Vinho do mundo.  Um museu que se tornou um modelo para outras iniciativas similares, como o brasileiro Eco Museu da Cultura do Vinho Dal Pizzol, em Faria Lemos, Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul que pretendo mostrar em outro post de In Vino Viajas (já solicitei entrevista com Rinaldo dal Pizzol e aguardo atendimento).

Arqueologia, escultura, pintura, história, etnografia; máquinas e processos produtivos; o nascimento e transformação da uva em vinho - e a beleza cênica da região. Tudo (ou quase tudo) o que você quiser saber sobre a cultura do vinho no mundo está lá. Só no Centro de Documentação estão disponíveis cerca de 8.000 documentos como monografias, livros e revistas especializadas, obras de referência, documentação antiga, cartões, ilustrações e posteres antigos e materiais audiovisuais. E boa parte ao acervo pode ser acessada pela internet, com os serviços de pesquisa, referência e orientação, consulta ao catálogo informatizado e sobre algumas peças expostas – veja em www.dinastiavivanco.com


O Museu da Cultura do Vinho da Fundação Dinastía Vivanco foi projetado pelo arquiteto de La Rioja Jesús Marino Pascual e tem quatro andares que ocupam uma área com 5.500 m2. Mas antes de entrarmos no prédio, dê uma olhada ao redor: você vai ver uma impressionante coleção de 222 variedades de videiras procedentes de todo o mundo, plantadas em uma área de 6.000 metros quadrados ao redor da entrada subterrânea da Vivanco, com fichas explicativas – um museu com peças vivas como você pode ver abaixo, nas cores do outono.

Agora vamos entrar no prédio. No piso térreo estão a recepção, um café, um restaurante que serve vinhos Rioja tradicionais e contemporâneos, uma loja de vinhos e uma sala para exposições temporárias ou eventos como o lançamento de livros (abaixo Santiago Vivanco no lançamento de um livro sobre o vinho e no cinema) ou desfile de modas (também abaixo) e o acesso para as salas de exposição permanente.

O primeiro andar tem uma sala de aula para cursos de degustação, um auditório que ocupa também o segundo andar do restaurante e do Centro de Documentação e uma biblioteca especializada com mais de 5.000 livros sobre viticultura, enologia e outras questões relacionadas com o papel do vinho na civilização humana com documentos do século XV. Abaixo, veja algumas fotos da coleção.
As coleções permanentes do museu estão distribuídos em cinco salas temáticas ou espaços localizadas no piso térreo e na cave subterrânea. O primeiro espaço, chamado de "Nascer, crescer, amadurecer" relata as origens do vinho e os principais processos de viticultura e vinificação, incluindo vários utensílios agrícolas e laboratoriais de diversas épocas.

O segundo espaço, "Guardar as essências", lida com os recipientes utilizados para a produção, amadurecimento e conservação de vinhos industriais ou artesanais e  explica a construção de barris, o papel da rolha na garrafa e outros detalhes.


A terceira sala, "Sonho", descreve os vários trabalhos que são realizados na adega, com a ajuda de vários utensílios que evoluíram ao longo do tempo, e inclui um espaço com jogos interativos e painel de aromas (ver abaixo) além de projeção de vídeos (também abaixo) para o visitante aprender a reconhecer os aromas que podem ser apreciados em uma degustação.

A quarta sala, "Arte e símbolo", tem uma importante coleção de valor arqueológico e artístico relacionado ao consumo de vinho, ilustrando o papel que desempenhou em várias culturas ao longo dos séculos. Lá estão bronzes egípcios, cerâmica grega, mosaicos romanos e mármores bizantinos, além de obras modernas como estátuas, copos, pratos, medalhas, relógios, gravuras, litografias e pinturas de artistas como Sorolla, o Españoleto ou Picasso.

Finalmente, o quinto quarto, "Abrir, servir, beber" inclui vários itens utilizados para servir o vinho e uma coleção única de quase 3.000 saca-rolhas (abaixo).

E como é civilizado, feito para agradar o visitante, o Museu dispõe de um roteiro especial para deficientes visuais e tem áreas que mantém as crianças ocupadas.

Seria justo conhecer a família Vivanco e a Fundação Vivanco, iniciativas brilhantes  desta família de bodegueiros de La Roja – mas isto você vai ver em outros posts aqui no In Vino Viajas. 
Este post faz parte da Série Cultura do Vinho, publicada no mes de dezembro de 2013 

(*) Rogerio Ruschel é jornalista, enófilo e gosta de arte.



 


domingo, 18 de agosto de 2013

São Luis do Maranhão: caldeirada de sururu, cachaça de siri e Festa do Divino num Patrimônio Cultural da Humanidade


Por Rogerio Ruschel (*)

Terra de índios tupinambás, a cidade de São Luis tem uma história única. Única cidade brasileira fundada por franceses (em 1612 e batizada São Luis em homenagem ao rei francês Luis XIII) e tomada por portugueses três anos depois, o vilarejo viveu uma história de isolamento que durou mais de um século. Na foto acima um detalhe do teto da Igreja da Sé, tombada como Patrimônio da Humanidade, e na foto abaixo um cartão postal de 1920. Mais abaixo ainda um mapa de 1629 mostrando a localização da cidade.

A economia, inicialmente baseada na cana de açúcar (abaixo, desenho de Debret sobre moagem de cana), cacau e tabaco (com uso de mão de obra india e negra), foi acelerada a partir de 1760 pela produção de algodão e pela indústria têxtil, proporcionando grande desenvolvimento urbano liderado pelo Marquês do Pombal. 

Algumas décadas depois, com a queda do preço do algodão, a elite migrou para Rio de Janeiro e São Paulo, abandonando os casarões do bairro Praia Grande, que por esta razão sobreviveram e hoje são a principal atração turística da cidade, que se orgulha de ter o maior conjunto arquitetônico colonial português das Américas.  De fato, os cerca de 3.500 prédios tombados pelo IPHAN nos anos 60 e reconhecidos pela Unesco em 1997 como Patrimônio Cultural da Humanidade, tornam São Luís uma cidade com um charme único – especialmente as casas com azulejados portugueses, como abaixo. 

Em São Luis a história impacta o visitante. Este herança portuguesa está localizada no Centro Histórico, que deve ser conhecido por passeios a pé por praças com nomes de poetas (como Catulo da Paixão Cearense) e ruas como Portugal (abaixo), Estrela (abaixo), Nazaré, do Giz, da Pacotilha e Becos da Mina Boa (veja abaixo), da Alfândega, do Silva e da Sé. 

As principais atrações são casarões (sobrados e solares de 1 a 3 pisos) que vêm sendo recuperados e reutilizados desde 1970 - aliás, a memória do projeto de recuperação está muito bem documentada no Solar dos Vasconcelos. Muitos deles mantém fachadas azulejadas e portais ou escadarias com pedra de cantaria e alguns têm "eira e beira" - isto é, mais de um beiral no telhado, o que identificava uma propriedade de ricos. 

No Centro Histórico podem ser visitados o Teatro Arthur Azevedo, um dos mais bonitos do Brasil; a Escola de Música Lilah Lisboa; a Faculdade de Arquitetura; o Palácio dos Leões (veja abaixo), atual sede do governo estadual, construído em 1612 pelos franceses como um forte e que sofreu reformas e ampliações até assumir as feições neoclássicas atuais, e seu vizinho, o Palácio La  Ravardiére,  atual sede da prefeitura.

Outros prédios tombados são o Museu Histórico e Artístico do Maranhão, que mantém interessante acervo relacionado a manifestações culturais como bumba-meu-boi (abaixo, este repórter com uma fantasia de bumba-meu-boi), tambor de crioula, dança do coco, Festa do Divino - informações encontradas também na Casa do Maranhão.

Se você tiver coragem visite a Feira da Praia Grande (Casa das Tulhas) e prove alguns dos muitos produtos regionais (veja abaixo) à venda por lá como camarão seco, cachaça de muitas frutas mas também – e parece inacreditável, mas veja abaixo as fotos – cachaça de lagosta e siri, doces regionais, manteiga de garrafa, geléias e licores. 

Na cidade ainda vale a pena visitar o Cafuá dos Mercês e o Convento das Mercês apropriado pela família Sarney para se transformar em um memorial personalista; e as Igrejas do Desterro, Nossa Senhora do Carmo e da Sé (com um altar banhado a ouro), entre outros.

Muitos sobrados abrigam lojas de artesanato, bares ou restaurantes. O artesanato é bonito, com peças baseadas em fibras de palmeiras, azulejos, madeira e tecidos e o local mais adequado para compras é o Ceprama, a maior feira do estado. 

Como-se bem em São Luis, em restaurantes que apresentam cardápio de frutos do mar como a grande atração. Vale a pena experimentar o arroz de cuxá (com camarão seco e vinagreira), as caldeiradas (de sururu, camarões e peixes), o baião de dois (arroz e feijão) e a Maria Isabel (arroz com carne de sol). Para acompanhar prove os doces, licores e cachaças feitas com cupuaçu, bacuri, buriti, jaca, caju, murici e, se for macho, a tiquira, uma cachaça fortíssima. 

São Luis fica numa ilha e é banhada pelo rio Anil e pelo mar. Só na década de 70 começou a se expandir para além do Centro Histórico, a partir da construção de duas pontes. A parte nova ostenta prédios modernos, avenidas largas e os principais hotéis da cidade. E é claro que São Luis também tem praias para oferecer: as principais são a Calhau, São Marcos e Ponta D'Areia (com muitos bares e restaurantes), mas tem as "selvagens" como Araçagy e Raposa. As praias são mais calmas, menos barulhentas, a maré é mais marcante, enorme, mas o sol vai te torrar, como em outras capitais nordestinas.


(*) Rogerio Ruschel é enófilo, jornalista e gosta de cachaça – mas não provou as cachaças de lagosta ou siri de São Luis