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domingo, 18 de agosto de 2013

São Luis do Maranhão: caldeirada de sururu, cachaça de siri e Festa do Divino num Patrimônio Cultural da Humanidade


Por Rogerio Ruschel (*)

Terra de índios tupinambás, a cidade de São Luis tem uma história única. Única cidade brasileira fundada por franceses (em 1612 e batizada São Luis em homenagem ao rei francês Luis XIII) e tomada por portugueses três anos depois, o vilarejo viveu uma história de isolamento que durou mais de um século. Na foto acima um detalhe do teto da Igreja da Sé, tombada como Patrimônio da Humanidade, e na foto abaixo um cartão postal de 1920. Mais abaixo ainda um mapa de 1629 mostrando a localização da cidade.

A economia, inicialmente baseada na cana de açúcar (abaixo, desenho de Debret sobre moagem de cana), cacau e tabaco (com uso de mão de obra india e negra), foi acelerada a partir de 1760 pela produção de algodão e pela indústria têxtil, proporcionando grande desenvolvimento urbano liderado pelo Marquês do Pombal. 

Algumas décadas depois, com a queda do preço do algodão, a elite migrou para Rio de Janeiro e São Paulo, abandonando os casarões do bairro Praia Grande, que por esta razão sobreviveram e hoje são a principal atração turística da cidade, que se orgulha de ter o maior conjunto arquitetônico colonial português das Américas.  De fato, os cerca de 3.500 prédios tombados pelo IPHAN nos anos 60 e reconhecidos pela Unesco em 1997 como Patrimônio Cultural da Humanidade, tornam São Luís uma cidade com um charme único – especialmente as casas com azulejados portugueses, como abaixo. 

Em São Luis a história impacta o visitante. Este herança portuguesa está localizada no Centro Histórico, que deve ser conhecido por passeios a pé por praças com nomes de poetas (como Catulo da Paixão Cearense) e ruas como Portugal (abaixo), Estrela (abaixo), Nazaré, do Giz, da Pacotilha e Becos da Mina Boa (veja abaixo), da Alfândega, do Silva e da Sé. 

As principais atrações são casarões (sobrados e solares de 1 a 3 pisos) que vêm sendo recuperados e reutilizados desde 1970 - aliás, a memória do projeto de recuperação está muito bem documentada no Solar dos Vasconcelos. Muitos deles mantém fachadas azulejadas e portais ou escadarias com pedra de cantaria e alguns têm "eira e beira" - isto é, mais de um beiral no telhado, o que identificava uma propriedade de ricos. 

No Centro Histórico podem ser visitados o Teatro Arthur Azevedo, um dos mais bonitos do Brasil; a Escola de Música Lilah Lisboa; a Faculdade de Arquitetura; o Palácio dos Leões (veja abaixo), atual sede do governo estadual, construído em 1612 pelos franceses como um forte e que sofreu reformas e ampliações até assumir as feições neoclássicas atuais, e seu vizinho, o Palácio La  Ravardiére,  atual sede da prefeitura.

Outros prédios tombados são o Museu Histórico e Artístico do Maranhão, que mantém interessante acervo relacionado a manifestações culturais como bumba-meu-boi (abaixo, este repórter com uma fantasia de bumba-meu-boi), tambor de crioula, dança do coco, Festa do Divino - informações encontradas também na Casa do Maranhão.

Se você tiver coragem visite a Feira da Praia Grande (Casa das Tulhas) e prove alguns dos muitos produtos regionais (veja abaixo) à venda por lá como camarão seco, cachaça de muitas frutas mas também – e parece inacreditável, mas veja abaixo as fotos – cachaça de lagosta e siri, doces regionais, manteiga de garrafa, geléias e licores. 

Na cidade ainda vale a pena visitar o Cafuá dos Mercês e o Convento das Mercês apropriado pela família Sarney para se transformar em um memorial personalista; e as Igrejas do Desterro, Nossa Senhora do Carmo e da Sé (com um altar banhado a ouro), entre outros.

Muitos sobrados abrigam lojas de artesanato, bares ou restaurantes. O artesanato é bonito, com peças baseadas em fibras de palmeiras, azulejos, madeira e tecidos e o local mais adequado para compras é o Ceprama, a maior feira do estado. 

Como-se bem em São Luis, em restaurantes que apresentam cardápio de frutos do mar como a grande atração. Vale a pena experimentar o arroz de cuxá (com camarão seco e vinagreira), as caldeiradas (de sururu, camarões e peixes), o baião de dois (arroz e feijão) e a Maria Isabel (arroz com carne de sol). Para acompanhar prove os doces, licores e cachaças feitas com cupuaçu, bacuri, buriti, jaca, caju, murici e, se for macho, a tiquira, uma cachaça fortíssima. 

São Luis fica numa ilha e é banhada pelo rio Anil e pelo mar. Só na década de 70 começou a se expandir para além do Centro Histórico, a partir da construção de duas pontes. A parte nova ostenta prédios modernos, avenidas largas e os principais hotéis da cidade. E é claro que São Luis também tem praias para oferecer: as principais são a Calhau, São Marcos e Ponta D'Areia (com muitos bares e restaurantes), mas tem as "selvagens" como Araçagy e Raposa. As praias são mais calmas, menos barulhentas, a maré é mais marcante, enorme, mas o sol vai te torrar, como em outras capitais nordestinas.


(*) Rogerio Ruschel é enófilo, jornalista e gosta de cachaça – mas não provou as cachaças de lagosta ou siri de São Luis













segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Produtos da terra: as delícias sicilianas


Por Rogério Ruschel (*)
Além dos risotos, frutos do mar, carnes variadas e pastas inesquecíveis com molhos e temperos criativos, a gastronomia da Sicília é enriquecida por frutas deliciosas como poucas regiões do mundo. 
Entre os deliciosos frutos da terra sicilianos conhecidos na Europa inteira como de alta qualidade, estão morangos, laranjas, amoras, figos, nêsporas, cerejas, amêndoas, peras, pêssegos, ameixas e outras, que crescem com vitalidade especialmente na região onde o solo foi enriquecido por erupções milenares do Etna. Conheça a seguir alguns frutos da terra mais típicos e de grande importância para os sicilianos.
 
Azeite de oliva - azeitonas
Ao longo dos séculos a azeitona tem sido utilizada como alimento (de longa duração), remédio, fonte de energia e protetor contra o frio. Na Mesopotâmia era usado como ferramenta de guerra: nas batalhas os soldados se besuntavam com azeite para ser mais difícil serem agarrados!
 
A Itália é o maior produtor mundial de azeite de oliva, e a Sicília, um grande produtor. Na ilha existe até um grande evento anual (em novembro), para degustação, visitação, venda e compartilhamento da cultura da oliveira, a festa “Frantoi in festa” (veja mapa abaixo).
 
A oliveira é a árvore mais plantada na ilha, e são produzidas diversos tipos de azeitonas como a Verdello, a mais comum; a Biancolilla; a Nocellara (com as variedades Messinese e Etnea - na região do vulcão Etna, onde também se produz a Catiglione); a del Belice, na região vinícola de Marsala; a Ogliarola Messinese; a Crasto, a Cerasuola e outras. Os tipos de azeitonas geram as nove apelações controladas de azeites da Sicília classificados do mais puro (Extra Virgem) ao mais comum (Puro). 
  Os sicilianos são muito cuidadosos com as oliveiras e o azeite de oliva. Geralmente as oliveiras são cultivadas por famílias e as frutas moídas por eles em “frantois” (moinhos) antigos e familiares, em processos rudimentares (veja a foto acima). As oliveiras são árvores que podem ter longa vida e respeitadas: em Agrigento fotografei uma árvore que diziam ter mais de 8 séculos de idade, quase contemporânea dos templos em ruinas ao seu lado… (veja a foto abaixo).

Limão siciliano
A cidra – uma fruta cítrica, um tipo de limão – tem origem no sudeste asiático e supõe-se ter sido introduzida na Sicília pelos persas, em torno do ano 1.000 AC, embora registros apontem Alexandre, o Grande, como o introdutor da espécie na ilha. A cidra é provavelmente uma das mais antigas frutas ainda “puras” do mundo, isto é, não hibridizadas, talvez porque seja uma espécie que se poliniza sozinha.
  O chamado “limão siciliano” (Citrus x Limon) no Brasil é uma das cidras mais comuns na Sicília, e seu aroma e sabor dão origem a receitas salgadas sofisticadas, doces, compotas, sucos e bebidas como o lemoncello. Por causa da potência de seu suco (que é rico em ácido ascórbico, a Vitamina C) foi utilizado pelos romanos para combater as traças das roupas, pelos ingleses para combater o escorbuto e no Brasil, durante a Gripe Espanhola (1918), para reforçar as defesas do corpo. Na Sicília existe até um roteiro de turismo tematizado, a Riviera dei Limoni, na Província de Messina, região do vulcão Etna, que vai de Capo Mulini até os vilarejos de Santa Tecla e Stazzo na costa. 
Pistacchio
O pistacchio siciliano (Pistacea Vera) é uma amêndoa com grande utilização na gastronomia regional – além de um conhecido “snack” - rico em proteínas, gordura, fibras e vitamina B6. Provei em um restaurante de Palermo um nhoque com molho de gorgonzola (blue cheese) complementado por pistacchios – simplesmente uma delícia, caro leitor.
 
Também originária da Ásia, seu nome vem do grego pistakion, que por sua vez é uma adaptação de uma palavra da Pérsia antiga. Ao contrário dos olivicultores, os agricultores de pistacchio recebem uma subvenção do governo italiano para poder competir com os pistacchios importados.
 
Evidentemente queijos, uvas & vinhos, sorvetes e doces, muitos doces, também fazem a alegria dos visitantes da Sicília. Mas isto é outra história, que contaremos em outro post. Enquanto isso, um brinde, caro leitor – com pistacchios sicilianos.


Veja mais sobre a Sicilia:


Lenguaglossa, Moio Alcântara, Castiglione e Malvagnia:



Tindari e as montanhas Peloritani:




Pesquisa da Universidade de Catania:



 
(*) Rogério Ruschel - rogerio@ruscheleassociados.com.br  - editor deste blog é turista inveterado, jornalista e consultor especializado em sustentabilidade - http://www.ruscheleassociados.com.br/. Ruschel esteve na Sicília durante 30 dias, em 2005, pesquisando roteiros turísticos turísticos.