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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

“Com vinho, surf e alegria, o Alentejo, em Portugal, é a California da Europa – mas mais econômica!” informa entusiasmado o jornal New York Post


Por Rogerio Ruschel (*)

Meu prezado leitor ou leitora, não me canso de repetir: Portugal em geral e o Alentejo (foto acima), Algarve, Lisboa e o Douro em particular, tem sido destaques como destinos turísticos na imprensa internacional. Entre outros destaques, o Alentejo foi tema de reportagens no canal CNN, que elegeu a região como uma das 15 melhores rotas de vinhos do mundo; do portal americano MSN, que considerou a região de Reguengos de Monsaraz como um dos oito locais mais românticos do planeta; e ainda o jornal ingles Financial Times, que dedicou três paginas à região. Nos últimos 90 dias o Alentejo esteve em alta nos Estados Unidos, onde foi tema de entusiasmadas reportagens no New York Post e na revista National Geographic. Veja abaixo.

O New York Post destacou a região através do título “Surf-and-wine-happy Portugal is the California of Europe – but cheap!, que em uma tradução livre e contextualizada pode ser entendida como “Com vinho, surf e alegria, o Alentejo em Portugal é a California da Europa – mas mais econômica!”. O jornalista diz que é difícil não se apaixonar pelo Alentejo com suas cidades históricas como Évora, Elvas e o Castelo de Monsaraz (foto abaixo), vinícolas diferentes, seus queijos de ovelha, a sua paisagem marcada por oliveiras, sobreiros e vinhas, e elegeu o hotel São Lourenço do Barrocal (segunda foto abaixo) como um dos expoentes máximos do destino.
Não quero ser repetitivo, mas eu venho dizendo a mesma coisa sobre o Alentejo em diversos artigos, e fui um dos primeiros jornalistas a apresentar o hotel São Lourenço do Barrocal, porque visitei-o pouco antes da inauguração, em março de 2016, quando tive como guia o proprietário, José António Uva, representante da oitava geração da família proprietária da fazenda onde está o hotel. Veja aqui a reportagem: Conheça o Barrocal, o hotel 5 estrelas localizado entre duas das maiores atrações do Alentejo, ao lado do maior lago artificial da Europa e abaixo do céu mais limpo do mundo - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2016/03/portugal-inaugura-hotel-5-estrelas.html
Já a National Geographic coloca o Alentejo entre os sete melhores lugares no mundo para observação de estrelas (stargazing). Os projetos de astroturismo que se desenvolvem em torno do Lago Alqueva e do primeiro sitio de turismo astronômico certificado do mundo, o Dark Sky Alqueva (fotos acima). Outras atrações são a variada oferta de opções de turismo rural, apontadas como fatores diferenciadores do destino. Novamente, meu caro leitor, não quero me exibir, mas uma das minhas reportagens sobre o Alentejo foi exatamente sobre o Dark Sky, veja aqui: Conheça Dark Sky Alqueva, o primeiro sitio de turismo astronômico certificado do mundo, nos campos do Alentejo, Portugal, em 15 belas fotos de Manuel Claro  - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2015/12/conheca-dark-sky-alqueva-o-primeiro.html

Segundo Vitor Silva, presidente, a “A Agência de Promoção Turística do Alentejo tem vindo a apostar numa política de promoção internacional do destino assente no convite e organização de inúmeras ‘press trips’, não só em meios mais especializados e ligados a temáticas como o turismo ativo ou de natureza, como também em midias generalistas”.

Pois é, não me canso de propor, mas aí vai de novo: um brinde ao Alentejo

(*) Rogerio Ruschel é editor de in Vino Viajas baseado em São Paulo, Brasil, mas poderia ser de Évora, Alentejo, Portugal.



 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Vinhos orgânicos, azeites finos, alfarrobas saudáveis e animais felizes: veja como o capitão Zeppenfeld construiu um pequeno paraíso sob o glorioso céu do Alentejo


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu caro leitor ou leitora, há cerca de 25 anos um capitão da marinha mercante e também armador de Bremen, Alemanha, chamado Horst Zeppenfeld, lançou âncoras no Vale do Açor de Cima, em Mértola, no Baixo Alentejo, Portugal. O alemão e sua mulher se apaixonaram pela região (o que não é dificil porque todo mundo se apaixona pelo Alentejo) e resolveu investir na compra de uma propriedade atendendo um sonho antigo: produzir vinhos com qualidade e identidade, de maneira sustentável.


Naquele tempo poucas pessoas falavam em vinhos sustentáveis, mas ele comprou a sociedade Agrícola Herdade dos Lagos e começou a trabalhar com este foco. 25 anos depois hoje a vinícola trabalha com as uvas tintas Aragonez, Syrah, Touriga Nacional e Alicante Bouschet e as brancas Alvarinho e Arinto (vindas do Norte do país), com os quais produz 100% de vinhos biológicos que ganham prêmios internacionais e recomendações de especialistas – e é a unica vinicola do Alentejo que conseguiu isso.

O capitão Zeppenfeld e sua equipe tiveram muito trabalho, enfrentaram muita burocracia, mas colheram bons frutos. Atualmente a Herdade dos Lagos ocupa uma área de 1000 hectares, nas quais foram construídas quatro barragens com lagos que ajudam na agricultura e na alimentação de cerca de 1000 ovelhas da raça Merina (foto abaixo), que devem ser felizes porque vivem bem em troca apenas da lã. Mas as ovelhas são um complemento ao negócio, porque em primeiro plano está o cultivo de vinhas, das olivas e da alfarroba, um vegetal que pode substituir o cacau.

Na propriedade de 1000 hectares, a Herdade dos Lagos produz vinhos tintos, rosés e brancos biológicos (alguns veganos) em 25 hectares; azeite extra virgem de alta qualidade em oliveiras que ocupam 80 hectares; produz também um mel biológico muito puro e uma vagem chamada alfarroba em 260 hectares do solo seco. Além de fibras alimentares, a alfarroba (foto abaixo) contém muito cálcio e ferro, o que a torna ideal para dietas e para a alimentação de crianças e para fazer farinhas sem colesterol, glúten e lactose, uma alternativa perfeita para pessoas alérgicas o chocolate. Bem coisa de alemão, não?

Hoje tudo na propriedade é feito seguindo os princípios da agricultura biológica certificada, um modelo de negócio baseado na utilização eficiente dos recursos naturais e baixa pegada ambiental. A produção vinícola, por exemplo, chegou a 100% de certificação biológica no ano de 2006. Veja no quadro abaixo os principios da vitivinicultura orgânica.

Mas a Herdade dos Lagos vai além de produtos certificados: faz o aproveitamento das águas da chuva e da energia solar, faz colheita manual, investe na manutenção do ecossistema e das cadeias alimentares e ajuda a preservar plantas e animais. Um dos destaques atrai muitas pessoas porque é interessante: mais de 30 ninhos artificiais de grande porte colocados em postes e árvores da Herdade (foto abaixo) para servirem de “residência de verão” as cegonnhas. E todos os anos nidificam cerca de 1.500 grous (Grus grus) e outras aves migratórias que fazem dos lagos da Herdade dos Lagos locais de estadia temporária, todos os anos.



Os ninhos de cegonha foram colocados pela Liga da Proteção da Natureza – a mais antiga ONG de meio ambiente da Peninsula Ibérica – porque há 15 anos as aves corriam o risco de desaparecer. Elas vêm do Norte da Europa (Fino-Escandinávia) fugindo do frio, chegam à Península Ibérica no final de Outubro e se distribuem pela Andaluzia e Extremadura (na Espanha) e pelo interior do Alentejo, viajando até 3.500 Km. Em março e abril eles nidificam e em julho vão embora com um ou dois filhotes. No inverno de 2015/2016 foram contados 2.184 animais no Baixo Alentejo. 

A filha do Capitão Zappenfeld, Antje Kreikenbaum, atualmente comanda a administração da empresa com o apoio do marido, o arquiteto paisagista Thorsten Kreikenbaum e a ajuda de Carsten Heinemeyer, enólogo e dos executivos portugueses Helena Ferreira Manuel, gestora agrícola, que gere em Portugal a propriedade e Carlos Delgado, agrônomo responsável pelo marketing e vendas, com quem estou na foto abaixo. As vendas e o marketing internacional são realizados pelo escritório de Bremen, onde os produtos podem ser encomendados diretamente. Aliás, cerca de 50% da produção é vendida na Alemanha.
Então você já sabe: dentro uma taça de um HDL Aragonez Bio estão os premiados aromas do Alentejo, mas também o resultado de uma série de ações em benefício de um futuro melhor para nosso planeta. Eu brindo a isso!
(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas em São Paulo, Brasil, e conheceu o sonho do capitão Zeppenfeld a convite da Vinhos do Alentejo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Conheça os bastidores de uma avaliação de vinhos: acompanhe comigo o que aconteceu na Vinipax 2016 em Beja, Alentejo, Portugal



Por Rogerio Ruschel (*)
Meu prezado leitor ou leitora, você sabe como funciona uma avaliação de vinhos, como se chega naquelas notas do tipo 91/100 ou 84/100? Se você gosta de vinhos mas não é sommelier(ére) ou enólogo(a), você é um enófilo(a) - e enófilos gostam não só de degustar, mas também de saber o que acontece no “mundo dos vinhos”. Uma das questões que sempre desperta a curiosidade dos leitores aqui do In Vino Viajas é saber como funciona uma avaliação de vinhos. Pois hoje vou contar. No começo de outubro estive em Beja, cidade portuguesa com cerca de 24.000 habitantes que é a capital do Baixo Alentejo, e que realizava sua grande feira anual, a Rural Beja. Além de visitar seis vinícolas (Paço do Conde, Monte da Capela, Herdade Grande, Herdade do Sobroso, Herdade dos Lagos e Ribafreixo), participei como jurado da Vinipax, a maior mostra e competição de vinhos do sul de Portugal. 
A comissão avaliadora da edição 2016 da Vinipax reuniu 23 jornalistas especializados da Federação Internacional de Jornalistas de Vinho (FIJEV - International Federation of Wine and Spirits Journalists and Writers) representando 14 países (eu era um deles) que avaliaram mais de 80 vinhos tintos, brancos e fortificados de produtores associados das Comissões Vitivinícolas do Tejo, Península de Setúbal, Alentejo e Algarve sob a coordenação do conhecido jornalista de vinhos Aníbal Coutinho, Diretor Técnico do evento (foto abaixo).

A sessão foi realizada em inglês, na parte da manhã, e durou cerca de quatro horas – veja o ambiente na foto abaixo. Os jurados ficaram em duplas nas mesas e foram divididos em dois grupos, para que cada um deles sempre esteja julgando um vinho, e o outro, um outro vinho diferente – e depois vice-versa. Evidentemente os vinhos foram identificados apenas por números, e não sabíamos qual rótulo estávamos avaliando.
A ordem de avaliação foi brancos, tintos e por fim vinhos fortificados ou adocicados – cada grupo separado por uma parada de 10 minutos. Antes de cada sessão os jurados degustaram um vinho fora de avaliação e compararam seus achados com os de Aníbal Coutinho, numa espécie de sintonização de avaliações.
Os jurados receberam várias fichas de prova que deviam ser preenchidas e entregues a coordenação. A avaliação obedece tres etapas: Visual, Aroma e Gosto. Na avaliação do Visual, o jurado avalia a Limpidez (e dá nota Zero ou Cinco) e a Tonalidade (notas de Zero a 10).
Na avaliação do Aroma são avaliadas a Pureza (notas Zero ou 10), Intensidade (notas de Zero a 10) e Qualidade (notas de Zero a 10).  Por fim o jurado experimenta o vinho para sentir o Gosto que tem quatro aspectos de avaliação: Pureza (notas Zero OU 10), Intensidade (notas de Zero a 20), Persistência (de Zero a 10) e por fim a qualidade do vinho, com notas de Zero até 15). Com esta metodologia de pontuação um vinho que tenha todas as melhores notas em tudo poderá somar 100 pontos – o máximo que um rótulo pode conseguir. E é assim que um vinho apresenta sua avaliação com notas 91/100 ou 87/100, etc.. Abaixo os vinhos brancos e os vinhos fortificados avaliados.



Ao fim da Terceira etapa (vinhos fortificados, moscatéis e similares), fizemos a foto oficial da comissão julgadora (abaixo) e pudemos conhecer os vinhos avaliados, comparando nossas notas com os produtos reais. Os vencedores foram o tinto Pai Chão, Grande Reserva Regional Alentejano 2013 da Adega Mayor, Campo Maior; o branco Monte da Peceguina, um Regional Alentejano 2015 da Herdade da Malhadinha Nova e nos fortificados o Casa Horácio Simões, um Moscatel Roxo, Superior DOC Setúbal 2005, da Casa Horácio Simões.

A Vinipax 2016 foi realizada na Pousada de São Francisco, um antigo convento transformado em um hotel cinco estrelas (detalhe na foto abaixo). Meus companheiros de comissão julgadora vieram da Alemanha, Brasil, Portugal, França, Espanha, Lituania, Polonia, Israel, Bélgica, Holanda, Reino Unido, Estonia e Estados Unidos. Do Brasil participaram tres jurados: Euclides Borges, Homero Sodré e eu.
Faço um brinde a Beja, a cidade da Pax romana, que você pode conhecer aqui: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2016/08/conheca-os-melhores-vinhos-do-sul-de.html


(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas a partir de São Paulo, Brasil

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Conheça o Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo que está melhorando o produto, preservando o terroir e atraindo turistas


Por Rogerio Ruschel (*)
Entrevista exclusiva de Francisco Mateus e João Barroso da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA) para In Vino Viajas

Meu prezado leitor ou leitora, não quero ser repetitivo nem eco-chato, mas insisto em que precisamos cuidar melhor de nosso planeta e das maravilhas que recebemos dele. E fazer isso é um bom negócio porque como especialista em marketing e sustentabilidade há 25 anos posso garantir que ser mais sustentável significa ser mais respeitado pelo consumidor, pelo mercado e mais lucrativo. Por isso pesquiso, apoio e divulgo todas as iniciativas que caminham neste sentido, como a da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA) - organismo que controla, protege e certifica os vinhos do Alentejo – que planejou, criou e está adotando um Plano de Sustentabilidade para os Vinhos do Alentejo (PSVA) resumido no quadro acima. Um excelente Plano para preservar uma região surpreendente bela como você pode ver pelas fotos.


Para que você pudesse conhecê-lo melhor, entrevistei Francisco Mateus, Presidente da CVRA e João Barroso, Gestor do Plano de Sustentabilidade, que revelam detalhes do projeto com exclusividade para os leitores de In Vino Viajas. Francisco Mateus resume a lógica da decisão:  “A nossa visão é sermos uma região com reputação e reconhecimento internacional, onde a produção de vinho salvaguarda o meio ambiente e está sustentada na genuinidade, nas características naturais e ecológicas, na autenticidade e no blend de castas regionais. Assim o Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo é uma opção estratégica em linha com a nossa visão e que, simultaneamente, posiciona a CVRA na vanguarda da aplicação das melhores práticas no sector vitivinícola.” Perfeito, presidente: trata-se de melhorar os negócios; ajudar o planeta e melhorar os negócios.


O Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, pioneiro em Portugal, tem como objetivo proporcionar aos associados - 121 membros que anualmente produzem 48 milhões de litros de vinhos em 20.670 hectares, 42% do volume do Alentejo - uma ferramenta para avaliar seus métodos produtivos e aperfeiçoá-los com melhores práticas (4.000 hectares já participam do Plano de Sustentabilidade). E com isso ser mais eficiente, mais transparente e fazer melhores negócios. Produtores alentejanos de padrão internacional como Sogrape, Carmim, Herdade do Esporão, Herdade do Peso, João Portugal Ramos e Fundação Eugenio de Almeida (Cartuxa) já tem boas iniciativas nesta área; algumas destas histórias já contei aqui, as outras você poderá ler em breve. Vinicultura mais sustentável ajuda a preservar a fauna alentejana, aves (acima) e felinos, como o raro e ameaçado lince ibérico (abaixo).


João Barroso (joao.barroso@vinhosdoalentejo.pt), reponsável pelo desenvolvimento de conteúdos, envolvimento das partes interessadas, implementação, representação, promoção e comunicação do Plano, informa que “o plano é de adesão voluntária e gratuito. O único custo previsto será o associado com uma auditoria de 3ª parte a executar por entidades acreditadas para o efeito, que deverá fazer a certificação e o reconhecimento da implementação do Plano junto de cada membro. Esta certificação apenas será executada quando os membros atingirem o nível estabelecido para certificação/ reconhecimento (Desenvolvido) para todos os Capítulos do Plano (Capítulos de Intervenção Primária e de Intervenção Secundária)”. 


Como este é um programa bastante completo que poderia ser relizado no Brasil, e com esta riqueza e detalhamento também em qualquer outro país ou região vinícola, vou entrar em detalhes para melhor compartilhar este know-how inovador porque em sustentabilidade estamos todos aprendendo, ninguém é dono da verdade. Veja a seguir trechos do depoimento de João Barroso.

O conceito, a gênese e as parcerias

“O plano começou a ser planeado a partir de 2013, tendo sido desenvolvido um “roadmap” para a sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo. Uma vez terminado esse estudo concluiu-se da necessidade de contratar um especialista em sustentabilidade para gerir o projeto. Em 2014 comecei a trabalhar na CVRA, e em maio de 2015 o PSVA foi oficialmente lançado junto dos produtores do Alentejo. O Plano foi desenvolvido tendo como base as indicações de sustentabilidade para o sector da OIV, FIVS e olhando para linhas gerais dos 4 projetos de sustentabilidade na industria vitivinícola a nível mundial que achámos mais completos e credíveis, nomeadamente Califórnia, Chile, Austrália, e Nova Zelândia. Os conteúdos foram desenvolvidos por um grupo de trabalho que envolveu especialistas de vitivinicultura do Alentejo, Universidade de Évora, e Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo, tendo os conteúdos sido submetidos para consulta e comentários dos Agentes Económicos do Alentejo, que entendessem poder dar um contributo válido aos conteúdos.”

As etapas do projeto

Barroso continua: “O plano teve uma fase de auscultação dos produtores onde se procurou perceber quais as áreas com maior necessidade de intervenção e como se poderia atuar nessas áreas, bem como perceber as sensibilidades dos mesmos para as questões associadas com a sustentabilidade e a sua influencia no negocio vitivinícola. Visto estarmos a desenvolver um esquema bastante detalhado, denso e extenso, optou-se por dividir a implementação do mesmo em duas fases, por forma a não sobrecarregar os membros. Assim, os Capítulos do Plano (Viticultura, Adega, Viticultura+Adega) foram divididos em duas fases distintas de implementação. Numa primeira fase (onde nos situamos neste momento) os Capítulos de Intervenção Primária (veja imagem acima), que estão muito relacionados com o potencial de poupança associado ao conceito dos “low hanging fruits”. Numa segunda fase, estimada para a segunda metade de 2016, a metodologia de avaliação será adaptada ao acréscimo de Capítulos, iniciando-se a implementação e avaliação dos Capítulos de Intervenção Secundária.”  


Barroso se refere ao conteúdo técnico do Plano de Sustentabilidade, que a partir de uma visão holística, trabalha em 11 capitulos temáticos que abrangem todo o processo produtivo (agricultura, biodiversidade, água, energia, residuos, a comunidade, etc) e introduz 108 critérios de avaliação. Veja a imagem acima. Estes critérios partem de auto-análises, podem ser adotados livremente e evoluem de nível permitindo que cada produtor possa estabelcer seu próprio programa de sustentabilidade. Completo e simples, muito inteligente. Trabalho como consultor especializado em sustentabilidade para grandes corporações e sei que não é facil resolver a equação investimento X resultados. Porisso perguntei a João Barroso como foi feita a atração e integração dos associados da CVRA. (Na foto abaixo, outra das riquezas alentejanas que dependem do ambiente: as ovelhas). 



A participação dos Associados

“Para além de um grupo de consulta criado especificamente para o desenvolvimento dos conteúdos, e composto entre outros por especialistas em Vitivinicultura, alguns dos quais colaboradores de alguns dos maiores e mais reputados associados da CVRA, houve uma fase de auscultação dos associados para sugestões e comentários. Existiram também sessões de apresentação do projeto, em várias cidades do Alentejo, onde os associados foram convidados a participar e a dar o seu contributo.” 


 Como o desafio dos alentejanos é produzir uvas e vinho de qualidade superior e de forma economicamente viável, ao mesmo tempo em que se protege o meio ambiente e os recursos naturais, perguntei a João Barroso se haveria algum tipo de incentivo para a adesão do plano. Veja a resposta dele: “São vários os incentivos. Primeiramente, a adesão é gratuita, bem como todo o material providenciado, todo o auxilio na implementação no terreno, consultoria, formação, visitas de estudo entre membros do plano (para observação de boas práticas) são gratuitas. São organizadas sessões de trabalho temáticas em áreas identificadas como sensíveis (ex: gestão de água, gestão de energia) que pretendem promover a troca de informação entre pares.”


Barroso continua: “Foram estabelecidas parcerias com várias instituições de I&D e temos uma ponte construída entre a investigação e a industria, já tendo tido vários alunos de Mestrado a executar (neste caso) auditorias de energia em várias adegas do Alentejo, providenciando um relatório final com identificação de oportunidade de melhoria, opções de investimento e períodos de retorno (único custo foi associado com providenciar cama e comida aos alunos). Existe um site de internet do Plano onde estão indicados os membros, dando uma certa visibilidade, e sempre que existem iniciativas do Plano, ao nível nacional e internacional, são convidados alguns membros (selecionados com base na pontuação obtida no Plano) a expor as suas melhores práticas.”



O Alentejo é o celeiro de Portugal e além de alimentos e cereais, é o principal produtor de especiarias como o mel, a cortiça e vinhos. Aliás, a cortiça, produzida pelo sobreiro (acima), é um grande exemplo de sustentabilidade como já mostrei aqui, porque é uma matéria-prima natural, renovável, reutilizável e reciclável.


Além disso o Alentejo, região com muitos rios e com o Alqueva, o maior lago artificial da Europa, é o habitat de muitas espécies de animais locais e migratórias, entre as quais cegonhas, corujas, lontras, veados, lobos e porcos. Na verdade é uma obrigação moral dos atuais moradores preservar a região que vem sendo habitada e preservada há milhares de anos, como testemunham cromaleques como estes da foto acima, que se encontram em todo o Alentejo.

Faço um brinde aos portugueses que fazem vinhos cada vez melhores e cada vez mais corretos: tim-tim.

Para saber mais sobre vinho e sustentabilidade veja aqui:

Patos adubadores, morcegos protetores e vinhedos energizadores: tres pequenas grandes ideias para a produção de vinhos mais sustentáveis - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2016/05/patos-adubadores-morcegos-protetores-e.html


Os impactos do Réchauffement de la Planète (a versão francesa do Aquecimento Global) no mundo do vinho - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/01/os-impactos-do-rechauffement-de-la.htmll

As mudanças climáticas e a produção mundial de vinhos no ano de 2050 – http://invinoviajas.blogspot.com.br/2016/05/o-vinho-do-futuro-estudo-sobre-mudancas.htmll

Saiba como a rolha de cortiça preserva os aromas do seu vinho e os recursos do nosso planeta - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/08/fique-esperto-saiba-como-rolha-de.htmll

Associazione Vino Libero: um manifesto italiano pela produção de vinhos com identidade, honestidade e sustentabilidade - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/02/associazione-vino-libero-um-manifesto.html

Conheça a vinícola portuguesa que emprega morcegos do bem para proteger os vinhedos de insetos do mal - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2016/01/uma-luta-ecologica-na-noite-alentejana.htmll

(*) Rogerio Ruschel é editor de In Vino Viajas, ambientalista de coração, consultor e professor especializado em sustentabilidade e gosta de vinhos que respeitam o consumidor e o meio ambiente