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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Conheça Anna Laudisi que escolheu criar os filhos entre Dolcettos e Barberas no Piemonte italiano para produzir vinhos com identidade e charme.

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Por Rogerio Ruschel (*)
Série “A cultura do vinho como ela é”; entrevista exclusiva para In Vino Viajas.  Meu caro leitor: quando abrimos uma garrafa de vinho, apenas 30% está dentro da taça; os outros 70% do valor da bebida estão na história de sua produção. Cultivar uvas não é o mesmo que plantar soja, trigo, milho ou arroz. A produção de uva e de vinho estabelece um modo de vida que atrai pessoas com valores éticos, culturais e sociais muito interessantes porque humanos – e isto há pelo menos 8.000 anos. Como por exemplo os produzidos por Anna Laudisi e sua família de lutadores – que você pode ver nas fotos de abertura e abaixo e vai conhecer agora.


Anna é uma genovesa que produz vinhos “com identidade” e valores sustentáveis em Tagliolo Monferrato, um vilarejo medieval com apenas 1.600 habitantes no Piemonte, Itália (veja fotos abaixo), com sua família. Não a conheço pessoalmente, mas é uma batalhadora tão interessante que pedi a ela que nos contasse como é ser um pequeno produtor de vinho e qualidade nestes tempos de globalização e perda de valores fundamentais do ser humano. Veja o depoimento de Anna abaixo, transbordante de humanidade.
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 “Meu nome é Anna Laudisi. Eu nasci e cresci em Gênova e em 2003, decidi me mudar para Tagliolo Monferrato, para a casa da minha família, uma fazenda em uma colina de Ovada, Piemonte, onde, por décadas, tem sido produzido um vinho DOC apenas para consumo próprio e para os amigos. A propriedade se chama Azienda Agricola Cascina Boccia (fotos abaixo).
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Minha história na verdade não tem nada fora do comum, vivemos nesta comunidade aproveitando o que temos. (Abaixo, fotos do Castelo Tagliolo Monferrato, do século X, atualmente da famiia Gentile, que oferece gastronomia de qualidade e coleciona prêmios por seus vinhos Dolcetto d'Ovada e Cortese del Monferrato).
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Eu poderia ter sido considerada “alternativa” nos anos 90 porque embora fosse de uma família tradicional eu acreditava que a vida no campo de alguma forma poderia atender às minhas necessidades, pelo menos em parte. Até hoje não gosto da sociedade como o mundo se tornou, não gosto da maneira como nossos cérebros são sutilmente entupidos por porcarias e necessidades fúteis pela televisão, e me irrita ver que pessoas sofrem passivamente. Eu gosto de coisas simples e verdadeiras, posso ser ingênua, mas quero viver. (Abaixo um dos cenários piemonteses que a familia pode ver perto de casa)
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Eu sempre tive paixão pela terra e pelos animais e me mudar foi a realização de um sonho. Além disso, em um momento posterior consegui outra realização: assumir a fazenda e aumentar o negócio do vinho. Isto levou a uma mudança radical na minha vida e comecei a me cansar porque eu estava sozinha, sem o conforto dos grupos, longe da família e dos amigos.
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Não foi fácil me aclimatar, percebi que havia diferenças entre o sonho de uma vida em contato com a natureza e eu realmente viver, todos os dias, do nascer ao pôr do sol, descobrindo como a terra é difícil, mas compensa. Devido aos ensinamentos de um fazendeiro local que acreditou em mim e na sinceridade de minha escolha de vida, aprendi ao longo dos anos como viver no  campo e do campo, a cultivar o solo e, em especial, como cuidar da videira, fazer a poda para remover galhos bastardos, e tudo o mais - e estou ensinando meus filhos.
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Assim e aos poucos minha paixão tornou-se uma prática rentável e de baixo custo. E o que se refere aos processos vinícolas, estamos orgulhosos de ser capaz de melhorar o produto que vem da videira, o que já era bom, graças ao conselho de um enólogo que me ajuda e acompanha por vários anos. Fui da cidade para o campo por decisão pessoal e aqui eu encontrei alguém para compartilhar minha vida e paixões, e por isso a família tem se expandido! Temos três filhos, dois gêmeos com seis anos de idade - Nicola e Lorenzo - e o Pietro com um ano.
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Morar no campo é ideal para o crescimento das crianças que se tornam criativas, dinâmicas, e aos poucos vão aprendendo um maravilhoso equilíbrio entre a realidade cruel das cidades grandes e o mundo bonito em que vivemos. Para mim parece difícil de encontrar estes valores fora do campo, então aproveito para poder ensinar estes valores para eles. E tem também o aspecto econômico, igualmente difícil de lidar na cidade.
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Meu parceiro faz  a parte pesada do negócio e eu sou a responsável pela empresa e pelas crianças. Vender não é o meu trabalho. Eu sou a favor de trocar os vinhos por outros produtos, mas sei que não podemos viver sem dinheiro. Agora estou tendo que aprender a promover nossos vinhos e um pouco com raiva porque nosso vinho é bom, mas olhando em volta vejo vinhos decididamente mais pobres, mas graças às iniciativas comerciais e de "marketing", são facilmente vendidos aqui, como os nossos.
 Além do vinhedo, a fazenda tornou-se uma granja: nós temos cinco cães, vários gatos, quatro cavalos, uma vaca, muitas ovelhas, galinhas e patos que adubam nossa produção e alimentam nossa fome.
 
-->O vinhedotem 90 anos, exceto por uma pequena parte que foi introduzida em 2008, recebe boa insolação do nascer ao pôr do sol e se estende por uma área de aproximadamente um hectare e meio, plantado com uvas Dolcetto d'Ovada (abaixo) e Barbera del Monferrato
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O sistema de cultura utilizado é o ramo Guyot com cerca de 5 gemas em vinhas
velhas e cerca de 8 gemas em vinhas novas.  O vinhedo está localizado a uma altitude de 300 metros acima do mar, e o terroir é composto por saibro (terra batida), e com a rara argila Ovada, que dá aos vinhos uma maior riqueza e estrutura.
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Na vinha estamos tentando manter um equilíbrio o mais natural possível tentativa, numa tentativa para intervir muto pouco em termos de produtos químicos. Usamos estrume de cavalos, patos e vacas como adubo natural.  O rendimento é deliberadamente mantido baixa, não superior a 40/50 quintais  por hectare, para assegurar a conformidade com a idade do vinhedo e permitir obter vinhos intensos e encorpados. Se você trabalha bem na vinha ao longo do ano as uvas chegam à adega saudável na fase correta do vencimento.
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A fermentação ocorre em tanques de cimento para ajudar a manter a temperatura controlada. Fazemos cerca de três “montados” por dia para obter uma fermentação regular permitir manter os sabores naturais. A transferência para barricas ocorre no final da fermentação alcoólica, em aproximadamente 10 dias, quando o vinho é colocado em barris de aço onde a segunda fermentação (fermentação malolática) que faz parte da evolução natural do vinho, da trasfega do vinho.
 Engarrafamos o vinho (acima) após um ano de barril para manter intactas  as características de vinhos produzidos com tratamento mínimo e, por esta razão depósitos pode ser encontrados na parte inferior de algumas das garrafas – o que, certamente não é um defeito, e sim, um estágio. O vinho é envelhecido em garrafas ainda por mais 4 a 6 meses antes de ser vendido e todos os anos temos produzido cerca de 6.000 garrafas
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Os nossos vinhos são DOC Dolcetto d'Ovada, Barbera del Monferrato DOC, e o Razzle Encandeamento, que foi criado através da combinação dos dois. E já a partir de 2015 teremos também um Ovada DOCG – e isso é um assunto muito importate para nós, tanto que vamos falar sobre ele outro dia. Realmente quero viver aqui entre Dolcettos e Barberas e faço um brinde aos que estão conhecendo minha história.”
Os vinhos da familia Laudisi ainda não tem distribuição no Brasil. Anna Laudisi, junto com outros pequenos produtores da região, está trabalhando na constituição do Consórcio Ovada DOCG para promover um vinho típico desta região do Piemonte - vamos contar esta história aqui no In Vno Viajas.
Enquanto isso, meu caro leitor, faço um brinde à coragem da Anna em construir seu sonho: tim-tim!
Série “A cultura do vinho como ela é". Nos ajude a contar estórias e histórias relacionadas à produção de vinhos, de pequenas ou grandes empresas, de qualquer lugar do mundo, porque nosso planeta é um  vinhedo global.  Se você tiver uma sugestão ou conhecer produtor(es) com uma história interesante, envie para rruschel@uol.com.
A famiia da Anna pode receber visitantes - veja em http://cascinaboccia.blogspot.com.br
(*) Rogerio Ruschel é jornalista e enófilo, mora e trabalha em São Paulo, Brasil, mas tem o coração na natureza.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Grande degustação de vinhos portugueses: um brinde a produtos únicos, com personalidade, identidade e classe.

Por Rogerio Ruschel (*)
Aceitei o convite e esta semana “desafiei meus sentidos, esqueci o comum e aproveitei o único”. Explico: participei da Grande Degustação Vinhos de Portugal, no espaço Rosa Rosarum (detalhe abaixo), em Pinheiros, S. Paulo, organizada pela Exponor, onde pude degustar vinhos diferenciados, únicos, feitos com uvas com identidade e personalidade próprias. 
Portugal tem uma longa tradição na criação de vinhos únicos. Desde o ano 2.000 Antes de Cristo sucessivas gerações se dedicaram a cuidar de vinhas e aperfeiçoar processos de vinificação, trabalhando com cera de 250 castas de uvas típicas da região  - autóctones - que formam um patrimôno vivo de Portugal. Entre estas uvas que sempre me surpreendem estão as brancas Arinto, Encruzado, Fernão Pires (que gera ótimos colheita tardia), Roupeiro, Rabo de Ovelha, Gouveio, Cercial, Viosinho Côdega, Loureiro, Trajadura, Azal, Antão Vaz, Bical, Alvarinho (foto abaixo) e outras, em várias regiões portuguesas.
Entre as uvas tintas típicas de Portugal estão a Touriga Nacional (foto acima), Baga, Castelão, Trincadeira, Tinta Roriz (Aragonez), Touriga Franca, Alicante Bouschet, Moreto, Alfrocheiro, Porto, Tinta Barroca, Tinta Cão, Tinta da Barca, Tinta Francisca, tinta Barroca. Estas uvas acabam permitindo a riqueza de vinhos com cerca de 30 DOCs (Denominações de Origem Controlada) e IGs (Indicacões Geográficas) espalhadas pelo país, e nas ilhas Açores e Madeira. Veja o mapa abaixo.
Este patrimônio vinícola, associado à gastronomia também personalizada, tem atraído cada vez mais consumidores, quase na mesma velocidade com que as belezas naturais, histórias e culturais – outro patrimônio do país - tem atraído turistas e enoturistas. Só para lembrar, no começo de agosto saiu o resultado de um concurso no qual os leitores do maior jornal dos Estados Unidos – o USA Today – escolheram o Alentejo (foto abaixo), em Portugal, como o melhor entre 20 destinos vinícolas do mundo, à frente de regiões badaladas como Champanhe e Bordeaux, na França, a espanhola La Rioja, a Toscana italiana, o Hunter Valley da Australia, a Croácia e até mesmo Napa Valley, na Califórnia.
Esta Grande Degustação Vinhos de Portugal ai estar também em Curitiba (01/09), Ribeião Preto (03/09) e Vitória (05/09). A Vinhos de Portugal tem um slogan excelente: “Alguns fazem vinhos, outros fazem história”.  E de fato é assim mesmo. Trinta e dois produtores estiveram apresentando seus produtos – vinhos tintos, brancos, rosés e espumantes – e fazendo história. Adorei provar cada pedacinho desta história (abaixo, vinhedo na região do Vinho Verde).
(*) Rogerio Ruschel é jornalista, mora e trabalha em São Paulo, e adora vinhos brancos com identidade regional e moscatéis portugueses. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Brasil exporta 250% mais em vinhos engarrafados no primeiro semestre de 2014


A qualificação do setor vitivinícola brasileiro tanto em produtos, profissionalismo comercial e na construção de imagem, turbinada pela exposição do país durante a Copa do Mundo, resultou em ganhos recordes na exportação do vinho brasileiro engarrafado. O volume de exportações no primeiro semestre de 2014 cresceu 257% em relação ao mesmo período do ano anterior. Até junho deste ano, o Brasil já exportou o equivalente a US$ 7,16 milhões em vinhos engarrafados e um total de 1,78 milhão de litros. Para efeito de comparação, em todo o ano de 2013, o resultado obtido com as vendas para o exterior foi de US$ 5,3 milhões com 1,5 milhão de litros.

O volume exportado este ano também corresponde a 17% do total de vinhos finos engarrafados comercializado pelas empresas vinícolas, no somatório dos mercados interno e externo. Para comparação, o mercado interno consumiu 8,71 milhões de litros dessa categoria de produto. Outro indicador a ser comemorado, é a valorização do preço médio obtido por litro exportado, que passou de US$ 3,36 para US$ 4,01, que representa um ganho próximo de 20%. Segundo a gerente do Wines of Brasil, Roberta Baggio Pedreira, o setor está colhendo os resultados da aproximação com redes de varejo internacionais, um dos grandes objetivos do projeto. Entre os compradores, ela destaca o Reino Unido: “O Reino Unido é a menina dos olhos, porque é lá que as vinícolas estão inseridas nas maiores e mais prestigiadas redes”, diz. O país multiplicou por 12 o valor exportando, absorvendo quase 20% do total exportado pelo Brasil, totalizando US$ 1,56 milhões. Entre estas redes, estão Waitrose, uma das principais cadeias de supermercados de luxo no Reino Unido, com 312 unidades na Inglaterra, Escócia e Gales, e Marks & Spencer, a maior rede de lojas de departamento do Reino Unido, com 840 lojas em 30 países. 

Percentualmente, a Bélgica foi o destino com o maior crescimento, multiplicando o valor adquirido em vinhos engarrafados por quase 60, totalizando US$ 1,16 milhões. Na terceira posição figura a Alemanha com US$ 730 mil e um crescimento de 456%. A China, por sua vez, que surgiu como importadora de vinhos brasileiros há apenas três anos, hoje está entre os 10 principais compradores, ostentando um dos valores mais altos na média de preço por litro, de US$ 7,47. “Isso se deve ao fato do vinho na China estar ligado a status e não necessariamente à cultura de consumo. Entretanto, o país é estratégico principalmente pelo tamanho de mercado potencial que apresenta”, observa Roberta. No total, nos primeiros seis meses do ano, os vinhos brasileiros engarrafados foram exportados para 35 países, contra 32 do mesmo período de 2013. Os cinco países-alvo do Wines of Brasil – projeto de promoção dos vinhos brasileiros no Exterior executado pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) com a Agência Brasileira de Promoção às Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) – estão entre os 10 principais destinos de exportação, sendo eles Reino Unido, Alemanha, Holanda, Estados Unidos e China/Hong Kong. Além da Bélgica, figuram entre os destinos de destaque Paraguai, Japão, Suíça e Colômbia.

Fonte: Ibravin  - Instituto Brasileiro do Vinho


domingo, 24 de agosto de 2014

Uau! Agora você pode brindar num taça de champanhe modelada no seio da supermodelo Kate Moss



(*) Rogerio Ruschal

Tomando Maria Antonieta como sua inspiração, cujo seio esquerdo dizem que serviu como modelo para o primeiro taça de champagne do mundo no final do século 18, o artista britânico Jane McAdam Freud fez uma taça a partir de um molde do seio esquerdo de Kate Moss – que agora ficou imortalizado.  (e não me pergunte porque o esquerdo...)



O conjunto tem uma haste alongada, delgada, enquanto a parte externa da bacia apresenta um padrão de inspiração Art Deco com desenho intrincado; e na base está a assinatura da modelo. "Eu estava animada em participar deste projeto - porque é uma honra estar ao lado de Maria Antonieta, ela era uma personagem muito intrigante e travessa ", disse Kate Moss. "Champagne é sempre associada com festa e ocasiões felizes e eu me diverti criando esta bela taça", acrescentou.



McAdam Freud foi contratado pelo restaurante 34 Restaurant de Mayfair, em Londres, para criar a taça em homenagem ao 40 º aniversário de Kate Moss e para marcar seus 25 anos no mundo da moda. Moss vai lançar a taça na sala 34 do Emin no próximo dia 8 de Outubro, junto com o mais recente lançamento da fabricante de champanhes Dom Pérignon, a P2-1998, uma espécie de reinvencão da Oenotheque 1995. Um conjunto da taça com garrafas da Oenotheque 1995 vai custar a bagatela de quase 11 mil Reais! Esta também não é a primeira releitura da taça de Maria Antonieta. Em 2008, o diretor de criação da Chanel, Karl Lagerfeld colaborou com Dom Pérignon em uma taça de champagne inspirado pelo seio de Claudia Schiffer.

Kate Moss (agora com 38 anos) não é estranha a colaborações artísticas: ela posou nua para o pintor Lucian Freud (pai do designer da taça) em 2003, quando estava grávida da sua filha Lila – a tela foi vendida por “apenas” 12 milhões de Reais. Três anos mais tarde Kate Moss desfilou para o escultor Marc Quinn na Esfinge, uma escultura em tamanho real dela em uma posição de yoga, com as mãos e os pés atrás da cabeça.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Fique esperto: saiba como a rolha de cortiça preserva os aromas do seu vinho e os recursos do nosso planeta.


Por Rogerio Ruschel (*)
Meu prezado leitor, nosso planeta realmente precisa de ajuda: a partir de 19 de agosto, no restante deste ano de 2014 estaremos consumindo mais recursos naturais do que o planeta consegue repor. Neste que é o Dia da Sobrecarga da Terra (Overshoot Day), medido pelo Global Footprint Network (GFN), entramos “no vermelho” em termos de estoque de recursos - e aquela corujinha do Alentejo, Portugal, que está na foto de abertura, está atenta ao que fazemos.

Eu procuro ajudar como consumidor, inclusive de vinhos: além de procurar rótulos ecológicos ou biológicos, procuro evitar garrafas com tampas de plástico ou alumínio, porque são feitas de recursos finitos, além de - cá prá nós - serem feias. E como  jornalista gostaria que você soubesse que a cortiça ajuda porque é um dos poucos materiais construtivos que é 100% natural, 100% ecológico e 100% reciclável – além de 100% eficiente para selar garrafas de vinho.

Ou seja: além de preservar as qualidades do vinho, a cortiça ajuda a preservar recursos naturais como as abelhas (acima, produzindo mel no Algarve português) que polinizam flores e frutas e que, caso você não saiba, estão misteriosamente desaparecendo do mundo.

A cortiça é obtida a partir da casca do sobreiro (veja as fotos acima), uma árvore da espécie Quercus, típica de ecossistemas da bacia mediterrânica e litorâneos do sul da Península Ibérica e com influência atlântica (veja  mapa abaixo).

Em Portugal – produtor de 53% da cortiça do mundo e também o principal importador – este ecossistema se chama Montado de Sobro (foto abaixo) e representa cerca de 21% da área florestal do país.

Espécie protegida por lei há séculos (em Portugal desde a Idade Média), o sobreiro chega a atingir 25 metros e 300 anos de vida e além de seu grande valor econômico, ajuda a preservar áreas gigantescas – cerca de 2 milhões de hectares nos sete países da bacia mediterrânica do mapa acima. Em Portugal cerca de 730 mil hectares de Montado de Sobro formam um santário de biodiversidade que protege mais de 60 espécies de aves, 24 de répteis e anfibios, 37 mamiferos e centenas de espécies de plantas – segundo pesquisadores, cerca de 135 diferentes plantas por hectare. Entre os animais protegidos estão o Lince Ibérico e a Cegonha, abaixo.

Como é uma árvore grande, alta e tem uma longa vida, o sobreiro estabiliza ciclos naturais, ajuda a preservar o solo, recicla nutrientes e água, produz matéria orgânica em bom volume, reduz a velocidade dos ventos e pelo fato da cortiça ser um ótimo isolante, ajuda a evitar incendios florestais.  E nestes tempos de crise de recursos do planeta, meu caro leitor, a cortiça tem outra qualidade muito valiosa: é um material altamente ecoeficiente, do qual nada se perde.

A cortiça é retirada (fotos acima e abaixo) a partir de 25 anos de idade do sobreiro, e a partir daí, de nove em nove anos, em média. Mas para uso em garrafas de vinho a cortiça só apresenta condições ideais a partir do terceiro descortiçamento, quando a árvore vai estar com cerca de 43 anos de idade. Aliás, isso quer dizer, meu caro leitor, que a rolha de sua garrafa pode ter uns 50 anos de vida e ser mais “velha” do que o próprio vinho, mesmo dos melhores vinhos de guarda.

Então quando a cortiça ainda não está adequada para se fabricar rolhas, é utilizada em dezenas de indústrias, especialmente para design e mobiliário; os resíduos industriais da produção tem alto valor em indústrias técnicas (automobilistica, aeroviária, ferroviária, vedantes) e até mesmo o pó de cortiça é utilizado para geração de energia “limpa”. E é claro, a cortiça é 100% reciclável. Veja abaixo placas de cortiça prontas para beneficiamento.

Além disso, a pegada ambiental da cortiça é muito pequena: as florestas portuguesas de Montado de Sobro fixam até 1 milhões de toneladas de CO2 por ano e as rolhas de cortiça emitem 10 vezes menos CO2 do que rolhas de plástico e 24 vezes menos do que cápsulas de metal! E se considerarmos também aspectos econômicos, sociais e culturais, a rolha de cortiça vai continuar sendo a minha predileta. A agregacão de valor econômico da indústria da cortiça para Portugal significa 30% do PIB da agricultura, 16.500 empregos diretos e milhares de empregos indiretos associados a atividades que existem em função da preservação do Montado de Sobro, como agricultura familiar, produção de animais domésticos, mel e cera; produção de carvão, pesca e turismo.

Para os sete países mediterrânicos produtores (Portugal, Espanha, Marrocos, Argélia, Tunísia, França e Itália) a atividade corticeira significa a geração de cerca de 100 mil postos de trabalho – e olha só essa: a extração da cortiça, por sua delicadeza e especialização é o trabalho agrícola mais bem pago do mundo!

E para completar, saiba que a rolha de cortiça protege a qualidade do vinho agregando valor à saúde. Explico: quando em contato com o vinho os taninos e flavonóides da cortiça (também presentes no vinho) formam compostos antioxidantes, antibacterianos e anticancerígenos que ajudam a diminuir o risco de doenças cardiovasculares e degenerativas.

Pois é, meu caro leitor, e tudo isso preservando a qualidade integral do vinho, especialmente desde 1997 com a adoção do CIPR, um conjunto de normas de fabricação de rolhas de cortiça que praticamente elimina a possibilidade dela contaminar o sabor do vinho. Na verdade esta capacidade de preservação já havia sido demonstrada na vida real, quando 70 garrafas de champanhe produzidas entre 1782 e 1788 pela Veuve Clicquot foram encontradas no fundo do mar Báltico, entre a Finlândia e a Suécia, e se constatou que as rolhas de cortiça as tinham mantido intocadas por mais de 200 anos! (foto abaixo)
Então fica fácil entender porque eu – e mais de 80% dos consumidores e vinhos – preferimos rolhas de cortiça. E entre estes consumidores acrescento o depoimento de uma personalidade de prestígio internacional e venerável consumidor de vinhos, o Príncipe Charles do Reino Unido (aliás, um grande ambientalista, presidente de honra da ONG WWF), que disse em discurso no evento Euronatur, em 2002, na Alemanha,  que “Não entendo a razão pela qual alguém quer colocar uma rolha feia e sintética no gargalo de uma garrafa de vinho, mas isso certamente causa impactos negativos a longo prazo". 

Faço um brinde à rolha de cortiça e a todas as pessoas de que procuram ajudar o planeta em seus hábitos de consumo no dia-a-dia: tim-tim!


Saiba mais:

* Sobre o aquecimento do planeta e a indústria do vinho - http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/01/os-impactos-do-rechauffement-de-la.html



* Sobre como a reciclagem de rolhas está criando pranchas de surf: http://invinoviajas.blogspot.com.br/2014/07/jovens-empreendedores-da-espanha.html

* Sobre a cortiça: http://www.apcor.pt/

(*) Rogerio Ruschel é jornalista, mora e trabalha em São Paulo, Brasil, onde também é consultor especializado em sustentabilidade empresarial.